Uma gugada rápida e fico sabendo que 4 de fevereiro de 1986 foi uma terça. Semana pré-carnaval. Àquela época, era comum a gente desfilar no bairro com discos debaixo do braço em nossos rolês de fim de semana. É provável que nos dias 1 ou 2 eu tivesse colado no escadão de Guaianases, um dos principais pontos de encontro para a juventude daquela quebrada. Ou esbarrado com algumas de minhas amizades na Dany´s, a danceteria que frequentávamos com mais assiduidade. Tinha outras bem legais também, mas eram longe: a Toco, na Vila Matilde, e a Contra-Mão, no Tatuapé. Ah, e o Poaense.
Se colei no escadão, então as chances de ter baixado na casa do Jailson (que morava em frente), também foram grandes. E se fui na casa dele, com certeza ouvimos as pérola do rock nacional lançadas no ano anterior: "Legião Urbana"; "Mudança de Comportamento", do Ira! (o preferido da turma); "Educação Sentimental", do Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens; "Revoluções por Minuto", do RPM; "Nós Vamos Invadir sua Praia", do Ultraje a Rigor e os dois primeiros do Camisa de Vênus.
A gente estava tentando montar uma banda e a casa do nosso amigo era o nosso QG. Mas, mais que compor ou ensaiar, ali acabava sendo um espaço-tempo de degustação sonora: e tome-lhe horas e horas ouvindo a guitarra de Edgard Scandurra, o baixo do Negrete (apelido do Renato Rocha, do Legião), a bateria nervosa e segura do João Barone (Paralamas do Sucesso) e a voz agridoce do Morrissey, que estava deixando de pilotar o Smiths bem nesse período, mas como notícia gringa demorava a chegar, a gente nem sabia disso. Éramos nós, mais o Nenê, o Tucano, o Ricky, a Silvinha, o Marcão. Depois o Marcelo começou a colar com a gente e o seu ar introspectivo e de "metaleiro radical" não indicava que ele seria o único de nós que seguiria a sina musical, no caso como radialista. Eu também sempre levava comigo "a rapa" da minha vila (Jardim São Pedro), para essas rodas de camaradagem: Wilsão, Cel, Giba, Tati, Eri, Benê, Vagão. Apesar da pose punk´n´roll, éramos boa-praça e a mãe do Jailson nos servia café, sucos e umas bolachinhas. E nada de ensaio! Até hoje...
Comecei a rememorar isso pois acabei de ler que O Concreto Já Rachou, da Plebe Rude foi lançado nesse fevereiro de 1986. O dia? 11.
No entanto, nós éramos (somos) pobres e nunca comprávamos discos no momento do lançamento, pois as bolachonas chegavam caras. Esperávamos alguns meses para ir n´A Musical ou na Disco Sales para adquirir nossos tesouros, já contando com um descontinho básico.
Hoje não desfilo mais de LP debaixo do sovaco mas, em compensação, o indefectível celular não desgruda da minha mão e foi com ele hoje cedo que, coincidentemente, vim trabalhar ouvindo Cazuza, outro que vivia de rolê com a gente naqueles tempos.
Bateu uma puta saudade dessa tchurma que depois abraçou o mundo e, se mantenho contato com alguns, outros sumiram na poeira da estrada e de outros tenho apenas vagas notícias, algumas, aliás, não muito alvissareiras. Mas como li dia desses em algum lugar, não temos saudade "de um tempo", mas sim "do que éramos e, principalmente, do que fazíamos naquele tempo". No caso, há exatos 40 anos.