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24.9.26

Croniqueta: "Gustavo Scarpa - Nem tudo é igual no futebol"

Quando era adolescente e sonhava ser quem sabe um zagueiro reserva do Votuporanguense, um esforçado volante do Inter de Limeira, talvez um lateral do Matsubara ou um meia do Íbis de Pernambuco; ou mesmo o sucessor do Pelé (o sonho é uma nuvem que não tem forma ou limite), quando entrava no campinho, eu não passava de um palhaço; fazer magia com a bola nos pés, como o Paulinho, o Luizinho, o Rato ou o Cabeção, os ídolos da minha infância nos terrões do Jardim São Pedro, esse direito não me foi outorgado por esse deus travesso e cruel que me colocou na esteira uterina.

Então eu passava horas como um olheiro, observando o movimento deles, o que faziam quando estavam com a bola nos pés, qual era o movimento das pernas, dos braços, dos quadris, para onde olhavam no momento cruciante de receber ou dar um passe. E depois, quando os reis da bola se retiravam e eu me reunia com os outros desafortunados dessa deusa de beleza plástica, tentava reproduzir todos os movimentos que tinha decorado nas aulas informais, sentado na grama rala ao lado do campo.

Como não era possível alcançá-los em graça e nem mesmo em força, tentei aprender o simulacro,  a ginga, o andar malemolente, os ombros assimétricos, as mãos na cintura e aquele olhar de enfado que só os craques ostentam. Lembro de um conhecido, pouca coisa mais velho, que um dia me viu passando na rua e depois comentou que eu tinha postura de jogador de futebol. O tempo nem precisou caminhar para corrigir essa interpretação: ambos estávamos errados, eu no andar, ele no olhar.

Ainda tentei outra fórmula, essa mais desgastada e absurda: como os grandes jogadores sentavam-se sempre no fundo da sala, o que o aspirante aqui fez? Mudou-se para o mesmo território. É claro que meu futebol não evoluiu absolutamente nada; em compensação, aprendi muito sobre paqueras, beijos, golpes no jogo do bafo e formas originais de passar cola nas provas. Conviver com os craques deu régua e compasso, como diria o poeta, para negociar os dons ou bens que a vida me presenteou. Era chegado o momento da clareza espiritual, da dor de saber que a vida não é justa e tem seus caprichos inapeláveis. Essa dor é da mutação, momento das desilusões e dos profundos aprendizados, onde depositamos o lixo das nossas fantasias e trocamos pelas descobertas ou desenvolvimento de outras qualidades que nem sabíamos que dominávamos.

Em meu caso, vieram os livros. E com eles, a escrita.

Queria ser como Gustavo Scarpa, mas a vida ofertou polos opostos e hoje escrevo enquanto ele desfila pelos estádios e arenas. Não consigo mensurar se como escritor sou goleiro, lateral, zagueiro, volante ou atacante. Confesso que minha fascinação é pelo 10 clássico, como Tolstoi, Machado, Clarice, Virginia, Conceição; como Edson, Lionel, Diego, Marta, Gustavo. A torcida é para que seus olhos um dia tropecem em mim numa prateleira, assim como um dia os meus o contemplaram vestindo o manto verde que elegi amar desde a infância. Afinal, quem saberá predizer os caminhos e as encruzilhadas dos destinos?

Falar que gosto do atleta pode parecer redundante agora que ele faz gols diversos em um campo aonde atuo, o da literatura; mas a verdade que já procurava desde a adolescência um atleta que tivesse uma dimensão própria, além do futebol, e esses foram poucos: Reinaldo, Afonsinho, os democratas corintianos e queles do bom-senso. Agora encontro essa correspondência em alguém que já vestiu o mesmo manto que ostento em meu guarda-roupa.

Acreditem, isso é caro, de tão raro.

 

#gustavoscarpa #livros #literatura #clubedeleitores #clubedolivro

Foto Fabio Giovanelli / Soccer Digital, alterada por IA


21.9.26

Croniqueta: "Pelo ´fim do futebol brasileiro´"

 Quando soube no início da semana passada que o governo estava preparando uma Medida Provisória propondo a proibição de jogos online e a restrição de apostas esportivas no Brasil, vibrei muito mas logo me dei conta de que essa notícia geraria estardalhaço, pois estas empresas (as populares bets), hoje ocupam um espaço central no futebol brasileiro, tornaram-se um traço cultural de nossa sociedade, que chega a criar uma confusão de sensações, como se sempre estivessem ali. Como bem sabemos, não é esse o caso.

Também deduzi que os clubes iniciariam uma campanha inflamada para evitar ou ao menos atenuar essa possibilidade. Infelizmente não errei. Até menos de uma década atrás, vivíamos (melhor) sem elas.

Todavia, ponderei, se estivesse no lugar de algum presidente, mesmo se discordasse, não ousaria me indispor com a sanha destes clubes. É o papel deles esse fervor corporativista e isso eles cumprem regiamente. Lutar por inclusão e contra o racismo, a homofobia e a misoginia é sempre difícil, polêmico, espinhoso; mas qualquer notícias que possa "ferir" seus cofres logo se torna comoção. Imaginemos um paladino se posicionando a favor de uma lei que vai impactar negativamente os cofres do time que preside; com certeza iria enfrentar a fúria de seus conselhos deliberativos e muito provavelmente um impedimento enquanto administrador.

A conta real, porém, pode (deveria) ser observada por outro ângulo, com uma lente mais objetiva e de alcance mais distante. Utilizando um exemplo simples, há 30, 40 anos atrás, a Fórmula 1 exibia sem filtros o patrocínio de empresas de cigarro; hoje, não mais, O problema era que os cigarros geravam tantos malefícios à saúde pública se tornaram (ainda o são), mais gritantes que os lucros dos fabricantes proporcionavam às equipes. Estudos indicam que as bets injetam em torno de 1 bilhão de reais por ano somente na Série A do Brasileirão. Os mesmos estudos, no entanto, indicam que em 2025 houve uma perda de 62,5 bilhões em apostas feitas por famílias de baixa ou média renda no Brasil. Segundos dados da UNIFESP, 43,8 milhões de brasileiros já apostaram e, entre aqueles que se utilizam dos sites de apostas, mais de 65% apresentam sinais de jogo de risco. No fim das contas, quem está pagando essa conta é o torcedor que, aliás, foi alijado dos estádios e arenas, dentro desse processo de elitização do futebol brasileiro. Render-se às bets satisfaz duplamente essa condição: o trabalhador que sustenta esse sistema é justamente aquele impedido de ir ao estádio. E ao sustentar esse círculo viciante, a cada dia ele fica mais distante das arquibancadas e mais próximo do celular.

Outros estudos dão conta de a taxa de suicídios pelo vício no jogo (ludopatia), alcança impressionantes 1500% a mais que a média de suicídios no país. Neste caso, sinto um desconforto enorme pois minha família ajuda a compor esta estatística. Outra pesquisa ainda não aferida mas que encontra ressonância entre meus familiares é no quesito separação de casais. E isso dói. Muito.

Quando todos os clubes assinaram o manifesto preconizando o fim do futebol brasileiro caso a MP seja aplicada, me peguei pensando que este fim tem mais a ver com os lucros extorsivos praticados na mercantilização da mundo da bola. Convenhamos, com os últimos resultados coletivos que temos alcançado no futebol, o "país do futebol" está precisando de um fim, pois só assim poderemos ter um recomeço real, com o futebol voltando a ser de toda a nação, e não só de uma elite exploradora. E perdedora.


#cronica #cronicaesportiva #bets #ofimdofutebolbrasileiro


Arte de publicação com a frase “O fim do futebol brasileiro”. Foto: Reprodução


20.9.26

Um texticulozinho: "pouso"

 eis o que nos resta

depois de tanto voar:

poemar



#texticulo #texticulozinho #pouso #haicaos #haicacos #haiquase #poemar #escobarfranelas



19.9.26

Um textículo: "longa viagem: curta"

 vida que se repete todos os dias

às vezes muda a paisagem

em outras, a trilha sonora

 

quando ela não se repete

é porque desembarcamos

 

#longaviagemcurta #poeminimo #poemeto #poesinha #poesiazinha #escobarfranelas

 


 

Um textículo: "higidez"

 haja luz; e houve luz

num piscar de olhos já é um segundo

um minuto, um dia, um ano

logo formatura, faculdade, formatura

estágio, casamento, promoção

demissão, fila, novo emprego

sexta-feira, divórcio, fim de ano

aposentadoria.

os olhos não piscam mais

e não necessitarão de lâmpada

nem de luz do sol


#higidez #poema #poeminha #verso #escobarfranelas






17.9.26

Um texticulozinho: "haicacos"

 choveu a vida inteira

mas o sol te espera depois do túnel

curta as lâmpadas da viagem


#haicacos #haicai #haikai #haicaos #escobarfranelas






16.9.26

Um textículo: "presságio"

cinco minutos antes de se apaixonar

desceu do ônibus, andou 50 metros

virou a esquina, parou

esperou três carros e duas motos passarem

atravessou a rua inadvertidamente

e entrou naquele edifício


é fácil contar assim

mais difícil é verbalizar o olhar

a produção industrial de dopaminas

a respiração desafinada

e o século percorrido em 9 andares

e 87 segundos


#pressagio #poema #poesia #poesiabrasileira #escobarfranelas




15.9.26

Um textículo: "a multiplicação dos pais"

a cidade interrompida

a chuva interrompida

o sol interrompido

os seres interrompidos

a notícia interrompida


o 11 de setembro de 2001

teve um pai

e se chama 11 de setembro de 1973


vida interrompida por estados terroristas

gesta junior, filho, neto

e o parto é indigesto


#amultiplicacaodospais #poemeto #poemenos #poesiazinha #escobarfranelas



14.9.26

Um textículo: "o poema se sabe imperfeito, mas recusa o silêncio"

levei a vila ao mecânico
cãibras câmbio roda torta
erisipela funilaria
o radiador com muita azia
as ruas todas comprometidas
e as válvulas entupidas
os fios com 40 de febre
o estômago, o que mais ferve
os volantes, os mais estúpidos

bem antes das eleições
pesquisas informais informam
deste lado, este poste
depois,  o macaco hidráulico
e em terceiro, esta foto no muro

nova sala no hospital
limpar as graxas das costelas
operar e lubrificar as velhas
trocar o lençol, estender no formol
tomografia e injeção nas toalhas


agora agorinha mesmo
o prefeito veio inaugurar o carro

 

#opoemasesabeimperfeito #poeminha #poesiazinha #escobarfranelas 


 

 

13.9.26

Um texítculo: "voragem"

lancei o dado
era preciso avançar duas casas
mas hesitei, não fui
tampouco voltei
 

era uma vez os conselhos da avó
e conselho de mãe da mãe
é duas vezes mais sábio
mais hábil que os mesmos avisos
de um pai velho e cansado

melhor seria voltar uma casa
envelhecer junto
professar velhas rezas
com as velhas crenças
em velhas casas vazias

ou voar fora do círculo

mas preferi a vertigem
do salto sobre o abismo

agora chove aqui
uma luz morna, prenhe de sombras
uma chuva tímida
como se recusasse o banho
que a nuvem oferta
 

chove, inunda
escorre no rosto
(vocação de água é lavar)
mas vou fingir que não é choro

 

#voragem #poesia #poesiabrasileira #poesiacontemporanea #poesiabrasileiranoseculo21 #escobarfranelas




12.9.26

Um textículo: "ontologia felina"

nem tudo que parece ser

é gato.

pode ser céu, nuvem, telhado, muro, parede, casa.

pode ser foto, desenho, inteligência artificial

máscara, projeção, espelho.

ser metáfora, eufemismo, jogo de palavras, gíria, linguagem.

luz, cor, contorno, preenchimento.

substantivo, adjetivo, número, grau.

cultura, biologia, escultura, poema.

ser um nome.

gênero gata.

 

#poesiabrasileira #poesia #poesinha #poesiazinha #poeminimo #poemenos #texticulo #ontologiafelina #escobarfranelas


 


11.9.26

Um texticulozinho: "duelo de tirinhas"

o super gato luta contra o super cão
enquanto o rato torce pela briga

o super gato luta contra o super rato
enquanto a criança voa com os três

 

#texticulo #poesinha #poesiabrasileiracontemporanea #poeminimos #poeminhas


 

10.9.26

Um texticulozinho: "poesia: modo de usar"

 a raiz quadrada do 64
é infinita, e mesmo deitada
bate continência, nunca dorme

* da série "haicaos"

 

#texticulo #poeminha #poeminimo #poesia #poemeto  


 

8.9.26

Um textículo: "tododia"

todo dia pela manhã
cumprir a sina assassina
andar por 57 anos
pelas mesmas ruas que sempre desconheço
todo dia abraçar esse sol
beijar essa chuva
dançar com esse vento

todo dia uma novidade
nessa monotonia

  
 
 
 #poeminha #poeminimo #tododia #escobarfranelas #poesiazinha


7.9.26

Um texticulo: "preenchimento"

a poeira toma assento

no vagão

a poesia toma conta

em todo canto

nos vãos




#poesia #poesiabrasileira #poesiabrasileiracontemporanea #poesiazinha #preenchimento

6.9.26

Um textículo: "segue indefinidamente"

 a mente segue

indefinida

mente

passo a passo

continuará assim

arará estradas

antes

durante

depois dos seus passos

depois do fim

antes de mim

o tempo, esse delírio em linha reta

esse espaço de oco a oco

vácuos que passam

passaram

passarão

passarinhos




7.7.26

Resenha sobre "Premiado" (Alba Atróz)


 

(Constructo de Alba Atróz – 05 de julho de 2019)

Tenho lido muita coisa, sobre poucas tenho escrito. Nessa semana, eu li Premiado, o novo romance de Escobar Franelas, e resolvi escrever minhas percepções aqui sobre essa obra e sugeri-la ao leitor caroneiro.

Analisando, notei que, numa linguagem simples e concisa, o autor, ao discorrer sobre os medos, angústias, delírios e alucinações de um protagonista que se vê de repente como o novo ganhador da loteria, traz à tona discussões sobre a gatesfobia (*) e, sobretudo, uma importante percepção dos interesses comerciais e materiais atrelados às relações e conflitos sociais que podem afundar o já fragilizado lado humano do indivíduo.

Um bilhete premiado, a princípio, aparece como uma conquista para a liberdade e felicidade da personagem de Escobar, mas, pelo contrário, traz-lhe a inquietação, uma excitação doentia, enredando-lhe numa tenebrosa e angustiante luta interior, cheia de questionamentos e confusões perturbadoras.

Franelas nos mostra um sujeito em estresse, despreparado, receoso e perdido, debatendo-se consigo mesmo. A personagem, ao sentir o peso de ter que romper com sua classe social, acaba perdendo a serenidade necessária para lidar com seus problemas cotidianos, dando vasão a comportamentos esquisitos, gerando ações inadequadas ao padrão de seu grupo social, criando assim entraves que vão alimentando crescentes conflitos internos e externos.

A obra de Escobar Franelas vai nos mostrando que, à medida que a personagem vai se afogando em tais confusos gatilhos emocionais, acentuando seus dramas já preexistentes, que envolvem instinto de sobrevivência, sexo, amor familiar, simplicidade e luxo, pobreza e riqueza, o protagonista vê subtraída uma rara liberdade, que um dia achou não ter, e passa a esconder-se e enclausurar-se, caindo e recaindo em angustiantes dicotomias, flutuando entre a sanidade e loucura, extremos sentimentos que o travam, o engessam, tendo que aderir à mentiras e disfarces, tornando-se incapaz de voltar a um estado social considerado pelo seu meio de convivência como normal.

Eis uma obra rápida de ler, mas pode suscitar muitas reflexões posteriores, descortinando muita coisa além, para o depois; já que nos desafia a buscar compreender com mais profundidade o ser humano, a sociedade, seus estranhos atos e conflitos, vistos, muitas vezes, pelo desavisado senso comum como absurdos praticados. Ótima leitura.

(*) É o nome dado às pessoas que sofrem de distúrbios advindos do medo irracional e apavorante de ficarem ricas, bem como das mudanças que a riqueza pode trazer em suas vidas. O nome dessa doença veio em homenagem ao magnata e empresário Bill Gates, um dos fundadores da empresa de programas para computadores Microsoft, e que sempre tem mantido o status de homem mais rico do mundo.

30.5.26

Um texticulo: "em resposta a"


li isso:

"éramos todos humanos até que:

a raça nos desligou.

a religião nos separou.

a política nos dividiu. .

e o dinheiro nos classificou."

peço licença para reescrever

"éramos selvagens, até que:

a raça nos classificou

a religião nos dividiu

os partidos nos partiram

e o dinheiro nos comprou"

ao reler isso, anos depois

intuí que não adianta: ser humano

é o que me resta

selvagem, demasiado urbano

 

Escultura de Tomie Ohtake, IEB USP

 

Um textículo: "exsudar"

 antes de tudo, preciso lhe dizer

que poesia não salva ninguém

o que salva homens, mulheres, crianças

plantas e animais é olhar dentro do olho

um peito encostado no outro, lábios gotejando em outros

poesia é o meio, a mensagem, dispositivo, transmissor

de verdades cruas, nuas, absolutas, relativas

e não sabemos de onde vem

essa máxima de que versos são expressões da beleza

alguém tem que falar

que beleza é o que é, não o que era ou será

e a flor mais linda jamais será mais bela

que o sorriso de uma pessoa de bem com a vida

a lágrima pode e deve lavar

a engrenagem seca dos discursos prontos

maior pecado que a gula

é subviver com fome

palavras podem ser dardos venenosos

e matar é sempre ser pior que morrer

sobreviver é isso: sobre viver

plenamente

a mente levitando de prazer

prazer que só é possível

pelo engenho da arte

e a arte só é possível

a quem vive sobre (e além) da vida




24.5.26

Um textículo: "leminsquiando"

 

não é diante do espelho:

a gente se enxerga melhor

no travesseiro

por isso muitos bebem:

pra dormir em pé

desligar antes

o lado de dentro

é mais depósito que sala

e não tem interruptor




23.5.26

Um texticulozinho: "descaso"

 foram tantos ontens
e tantas promessas por amanhãs não inaugurados
que o presente
se ressente dessa solidão
que o acompanha
sem dar as mãos


 

 

12.5.26

Resenha sobre "Contos Crônicos" (Soniamar Salin)

A Arquitetura Literária de Contos Crônicos, de Escobar Franelas

Por Soniamar Salin (LiterArte - Amazônia)

Foto: João Ramos

Em Contos Crônicos antes da primeira frase, já há um murmúrio, o rumor de uma panela no fogo, o eco de um estádio distante, o arrastar de uma cadeira no bar, o sussurro de uma mãe que já não está. Escobar Franelas escreve como quem recolhe restos de vida no chão da casa e os transforma em matéria de mundo.

Cada conto é uma fresta por onde o cotidiano, esse animal indomável, respira. Aqui, a memória não é fotografia: é ferida aberta, é cheiro de Ki-Suco, é nome que pesa mais que o corpo que o carrega. A violência não chega com estrondo, mas com a delicadeza de um gesto repetido até se tornar destino.

A linguagem, às vezes, tropeça de tão humana; outras vezes, dança como quem tenta escapar de si mesma. Há dias em que o espelho devolve um rosto que não reconhecemos. Há noites em que o banho se torna fronteira entre o sono e o fim. Há manhãs em que o pão e o café são tudo o que resta de uma fé cansada. Franelas escreve para lembrar que a vida é feita de pequenas mortes e pequenas iluminações. Que o riso pode nascer no mesmo lugar onde a dor se esconde. Que o corpo é casa, palco e abismo. Que o Brasil cabe dentro de uma cozinha pobre, de um bar antigo, de uma sala onde um pai insiste em ser chamado de “Sênior”. Que a infância nunca termina: apenas muda de voz.

Este livro não pede leitura — pede convivência. Pede que o leitor se sente à mesa, escute as histórias, aceite o desconforto, reconheça os silêncios. Porque, ao fim, Contos Crônicos não fala apenas dos personagens que o habitam. Fala de nós. Do que fomos, do que fingimos ser, do que ainda tentamos salvar antes que a memória se apague.

Contos Crônicos, de Escobar Franelas, configura-se como uma das obras mais expressivas da literatura brasileira contemporânea ao transformar o cotidiano - doméstico, urbano, íntimo ou simbólico - em campo de tensão estética, crítica social e revelação existencial. A coletânea, embora composta por textos de extensão e estilos variados, apresenta uma unidade profunda: a investigação da condição humana por meio da oralidade, da memória, da violência estrutural, do corpo e da impermanência.

A obra se organiza como um ciclo, no qual cada conto representa uma estação da experiência humana: nascimento, formação, conflito, dissolução e silêncio. O conjunto revela um autor que domina tanto a narrativa longa quanto o microconto, tanto a sátira política quanto a prosa poética, compondo um mosaico que espelha o Brasil íntimo e social.

1. O Cotidiano como Território de Conflito e Revelação: Desde o início, Franelas demonstra que o cotidiano não é banal: é palco de disputas simbólicas, afetivas e ideológicas. Em “Cantoná”, um dos contos centrais da coletânea, o futebol, elemento cultural profundamente brasileiro, torna-se alegoria da masculinidade tóxica, da frustração social e da herança patriarcal. O pai, obcecado pelo jogador Eric Cantona, transforma o próprio filho em extensão de seu ideal de virilidade, revelando como a violência simbólica se infiltra na linguagem, no nome e no corpo.

A narrativa, que começa com humor, evolui para um desconforto crescente, expondo a fragilidade emocional do pai e a opressão doméstica que estrutura a vida familiar. A ironia — como a obsessão pela pronúncia correta de “Cantoná” — convive com cenas de brutalidade, compondo um retrato complexo da masculinidade brasileira.

2. A Oralidade como Forma e como Mundo: A oralidade é o eixo estético da coletânea. Franelas escreve como quem escuta: diálogos vivos, pausas, repetições, marcas regionais e silêncios constroem personagens e atmosferas. Em “Velório”, a narrativa é inteiramente dialogada. A conversa entre familiares transforma lembranças gastronômicas — “tronchinhas”, sagu com Ki-Suco, restos do açougue — em arquivo emocional da infância.

Mas a nostalgia cede lugar à revelação de mágoas profundas, como quando um personagem confessa ter desejado a morte da própria mãe. A memória, aqui, é ambígua: mistura afeto e rancor, ternura e culpa. A oralidade também estrutura “Vs. Eu”, ambientado num bar antigo, onde a repetição rítmica da linguagem reproduz o ciclo de bravatas, decadência e autoconfronto que marca a sociabilidade masculina.

3. Corpo, Imagem e Performance: Outra vertente da coletânea explora o corpo como palco de identidade, desejo e transformação. Em “Côncavo e Convexo”, uma mulher diante do espelho encena sua própria imagem. O reflexo torna-se interlocutor, consciência e máscara. O conto discute a tensão entre aparência e essência, entre o que se é e o que se performa para o mundo. Já “Noir” transforma cores em emoções: verde da sedução, azul dos argumentos, carmim da arguição. A narrativa é pictórica, sensual, quase cinematográfica, e revela o fracasso da comunicação amorosa. Em “Copa Copo Corpo”, o corpo se dissolve no álcool enquanto o país vibra com a Copa do Mundo. O copo, o corpo e a copa se entrelaçam foneticamente e simbolicamente, compondo um quadro de solidão em meio à festa coletiva.

4. Violência, Fragilidade e Destino: A violência cotidiana aparece de forma abrupta e silenciosa em “Ou se Mata ou se Morre”. Hidônio, exausto e sonolento, é assassinado no banho enquanto a espuma do xampu lhe cobre os olhos. A narrativa transforma gestos banais, levantar-se, urinar, lavar os cabelos, em movimentos carregados de ameaça. A morte, aqui, é extensão natural da rotina, revelando a invisibilidade social de certas vidas.

"Ou se Mata ou se Morre” dialoga com tradições do conto noir, do realismo brutalista e da literatura existencial contemporânea. Há ecos da secura narrativa de Rubem Fonseca e da violência silenciosa presente em Patrícia Melo, mas Franelas imprime ao texto uma identidade própria ao incorporar oralidade, lentidão psicológica e melancolia cotidiana.

5. Linguagem, Ritual e Delírio: Alguns textos da coletânea exploram a repetição como forma de transe. Em alguns contos, a linguagem se torna mantra, liturgia profana, crítica à religiosidade mecânica e à alienação cotidiana. A repetição musicaliza o texto e transforma o gesto doméstico em ritual existencial. Em “Glossolalia”, Franelas satiriza o discurso político e midiático, imitando o ritmo frenético da televisão e expondo o vazio de sentido que permeia o noticiário. A linguagem caótica funciona como metáfora da confusão coletiva.

6. Natureza, Tempo e Metamorfose: O conto “As Estações” representa o ápice simbólico da coletânea. Nele, uma mulher que planta uma horta passa por uma metamorfose lenta e orgânica, fundindo-se à terra, às folhas e ao ciclo natural. O corpo torna-se vegetal; o humano retorna ao ritmo da natureza. A narrativa abandona o social e mergulha no metafísico, explorando o tempo lento, a morte e a continuidade da vida.

7. O Silêncio Final-Mente e Esquecimento: A coletânea se encerra com “Alzheimer”, um microconto devastador. Em poucas linhas, “pensava que pensava”, Franelas revela o colapso da consciência. O personagem pisa em minhocas “no chão e no ar”, confundindo realidade e imaginação. A linguagem se reduz ao essencial, como se o próprio texto estivesse sendo corroído pelo esquecimento.

Se “As Estações” trata da dissolução do corpo na natureza, “Alzheimer” trata da dissolução da mente no vazio. Juntos, os dois contos fecham o ciclo da existência.


"A Poética da Impermanência"

Contos Crônicos é uma obra que articula o íntimo e o social, o trágico e o cômico, o cotidiano e o metafísico. Franelas transforma:

o futebol em crítica à masculinidade,

a comida em memória afetiva,

o espelho em palco identitário,

o bar em arena de autoconfronto,

o corpo em metáfora,

a natureza em destino,

o esquecimento em arte.

A coletânea começa com vozes — diálogos, conflitos, afetos — e termina com o apagamento dessas vozes. É uma obra sobre a impermanência: tudo nasce, cresce, se desgasta, se transforma e, por fim, se dissolve.

Escobar Franelas emerge como um dos grandes cronistas da alma brasileira contemporânea, capaz de transformar o mínimo em infinito e o cotidiano em revelação.

Ao terminar Contos Crônicos, não é o silêncio que fica, é o murmúrio. Um rumor que continua vibrando no fundo da memória, como se cada conto deixasse uma pequena rachadura por onde a vida insiste em entrar. Escobar Franelas não escreve para concluir: escreve para abrir. Abre feridas, abre janelas, abre lembranças que preferíamos manter trancadas. E, quando a última página se dobra, percebemos que algo em nós também se deslocou. Os personagens - tão comuns, tão frágeis, tão nossos - permanecem caminhando dentro da gente. O pai que pronuncia “Cantoná” como quem tenta segurar o próprio mundo. Os irmãos que mastigam infância e mágoa no mesmo prato. Hidônio, que cai no chão do banheiro como quem cai da própria vida. A mulher que se olha no espelho e encontra, no reflexo, uma versão de si que talvez nunca tenha existido. A horta que cresce devagar, como cresce o corpo, como cresce o tempo. A mente que se apaga, mas ainda tenta lembrar que pensava.

Franelas nos lembra que o cotidiano é uma máquina de moer e de iluminar. Que a violência pode morar na mesa do jantar. Que a ternura pode surgir no meio da sujeira. Que a memória é um animal indócil, que morde e acaricia ao mesmo tempo. Que o Brasil cabe em uma frase dita no bar, em um nome mal pronunciado, em um pedaço de pão dividido entre irmãos.

Encerrar este livro é aceitar que a vida não cabe inteira em nenhuma narrativa, mas cabe nos fragmentos. Nos restos. Nos gestos mínimos que, quando observados com atenção, revelam tudo o que somos: côncavos e convexos, frágeis e ferozes, ridículos e sublimes. E assim, ao fechar Contos Crônicos, não fechamos um livro. Fechamos um espelho. E nele ainda vemos, por um instante, o reflexo de tudo aquilo que tentamos esquecer — e de tudo aquilo que, apesar de tudo, ainda nos mantém vivos.


FRANELAS, Escobar. Contos Crônicos. 1. ed. Mogi das Cruzes, SP: Lavra Editora, 2024. Capa: Manogon

Foto: João Ramos


Postagem original em https://www.palavraearte.com/resenhas/contos-crônicos-escobar-franelas?fbclid=IwY2xjawRuFs9leHRuA2FlbQIxMABicmlkETFlWWJGQkQwTGNTMkV0RWM5c3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHgPgOO-8Kw1Z3aMUTCqvurGNFS1KaMG9O9s08wl6LDwIZ0fOmTzxDVxObnKl_aem_z8vqz9mICEJtYT1eCdPCeg

Foto: João Ramos