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6.10.26

Uma croniqueta: "periferia subúrbio borda margem lateral: ensaio sobre a cidade inacabada"

Tem uma máxima muito repetida na periferia que diz, "se a casa tá toda bem feitinha, finalizada, azulejada, podiscrê que é de pastor, traficante ou golpista. E se a construção foi rápida, sem pausas ou interrupções, foi com dinheiro lavado."

Um dos aspectos que definem a moradia periférica é a sua eterna condição precária, não acabada. A construção do mercadinho, da academia, do açougue, essas têm outros critérios de acabamento e é provável que, passando pelas quebradas, você encontre alguns imóveis comerciais já finalizados. Já as casas, nunca.

Mesmo aquelas que à primeira vista pareçam prontas, um olhar atento sempre vai encontrar algum tipo de assimetria, improviso ou não continuidade na construção. Faz parte da experiência coletiva de quem mora nos subúrbios esse nunca finalizar, ter sempre um "por fazer". A onipresente falta de dinheiro é a regra, e o projeto completo, que cumpra todas as etapas do princípio ao fim, nunca se concretiza. E mesmo quando isso é possível, a pintura anual (ou uma reforma providencial - afinal, construções são elementos vivos, precisam de algum tipo de assistência em certos momentos de suas vidas) é sempre protelada, empurrada pra frente, para quando "as condições estiverem melhores". Essas condições, todos sabemos, nunca vêm de forma completa, sempre inexata, curta, descobrindo os pés para cobrir os ombros. Salvo, é claro, as exceções às regras.

Observar um território que parece hostil depende de filtros, intervalos e espaços intermediários que a tímida arrogância visitante profere em silêncio atento, gestos contidos e mesuras mal medidas diante da inocência crente de uma hospitalidade quente. Adentrar, orientar-se e prestar atenção nas bordas, permite atravessar fronteiras invisíveis, despertar sensibilidades, modificar ou impor velhas certezas. Explorar esse cinturão pelo olhar da hierarquia econômica, social e, principalmente, cultural, conduz essas sensibilidades a algumas descobertas óbvias: os olhos esquentam pela tonalidade alaranjada dos "tijolos baianos", nus, a ofuscar sob o sol inclemente que desliza pelas paredes, mas também pelos córregos marrons que desfilam uma sórdida pasta liquefeita de dejetos, um universo de objetos porosos e sólidos, e água suja, muita água suja.

Esse diagrama não se pretende uma cartografia férrea, única, exclusiva. O que está em mãos é esse dado que dizem respeito a um submundo responsável por todo o trabalho braçal, inumano e urbano, que faz vibrar as veias da cidade, artérias por onde trafega a linfa quente que faz com a cidade seja... cidade.

Comecei a escrever isso ontem pela manhã, motivado por alguma cena ou ação que vi ou ouvi e não lembro mais. Agora são quase 6 da tarde e estou no mesmo lugar, abismado com esse esquecimento, ao mesmo tempo que me flagro divagando, pois sou sujeito dessa narração mas também objeto, preso nesse emaranhado de fios, a enorme matilha de cães sujos e sarnentos, os gatos idem, e o vai-vem dessa gente que mantém vivo o coração dessa metrópole, cujo centro desconhece as laterais (e não reconhece esse desconhecimento). A periferia é um grande zoo(i)lógico humano, mantido vivo para sustentar a cabeça parasita que acompanha os membros inferiores pela tv e redes virtuais.

A revolução terá iniciado quando a margem tornar-se centro.

 


 

#crônica #crônicaurbana #croniqueta #periferia #suburbio #ensaiocurto 



24.9.26

Croniqueta: "Gustavo Scarpa - Nem tudo é igual no futebol"

Quando era adolescente e sonhava ser quem sabe um zagueiro reserva do Votuporanguense, um esforçado volante do Inter de Limeira, talvez um lateral do Matsubara ou um meia do Íbis de Pernambuco; ou mesmo o sucessor do Pelé (o sonho é uma nuvem que não tem forma ou limite), quando entrava no campinho, eu não passava de um palhaço; fazer magia com a bola nos pés, como o Paulinho, o Luizinho, o Rato ou o Cabeção, os ídolos da minha infância nos terrões do Jardim São Pedro, esse direito não me foi outorgado por esse deus travesso e cruel que me colocou na esteira uterina.

Então eu passava horas como um olheiro, observando o movimento deles, o que faziam quando estavam com a bola nos pés, qual era o movimento das pernas, dos braços, dos quadris, para onde olhavam no momento cruciante de receber ou dar um passe. E depois, quando os reis da bola se retiravam e eu me reunia com os outros desafortunados dessa deusa de beleza plástica, tentava reproduzir todos os movimentos que tinha decorado nas aulas informais, sentado na grama rala ao lado do campo.

Como não era possível alcançá-los em graça e nem mesmo em força, tentei aprender o simulacro,  a ginga, o andar malemolente, os ombros assimétricos, as mãos na cintura e aquele olhar de enfado que só os craques ostentam. Lembro de um conhecido, pouca coisa mais velho, que um dia me viu passando na rua e depois comentou que eu tinha postura de jogador de futebol. O tempo nem precisou caminhar para corrigir essa interpretação: ambos estávamos errados, eu no andar, ele no olhar.

Ainda tentei outra fórmula, essa mais desgastada e absurda: como os grandes jogadores sentavam-se sempre no fundo da sala, o que o aspirante aqui fez? Mudou-se para o mesmo território. É claro que meu futebol não evoluiu absolutamente nada; em compensação, aprendi muito sobre paqueras, beijos, golpes no jogo do bafo e formas originais de passar cola nas provas. Conviver com os craques deu régua e compasso, como diria o poeta, para negociar os dons ou bens que a vida me presenteou. Era chegado o momento da clareza espiritual, da dor de saber que a vida não é justa e tem seus caprichos inapeláveis. Essa dor é da mutação, momento das desilusões e dos profundos aprendizados, onde depositamos o lixo das nossas fantasias e trocamos pelas descobertas ou desenvolvimento de outras qualidades que nem sabíamos que dominávamos.

Em meu caso, vieram os livros. E com eles, a escrita.

Queria ser como Gustavo Scarpa, mas a vida ofertou polos opostos e hoje escrevo enquanto ele desfila pelos estádios e arenas. Não consigo mensurar se como escritor sou goleiro, lateral, zagueiro, volante ou atacante. Confesso que minha fascinação é pelo 10 clássico, como Tolstoi, Machado, Clarice, Virginia, Conceição; como Edson, Lionel, Diego, Marta, Gustavo. A torcida é para que seus olhos um dia tropecem em mim numa prateleira, assim como um dia os meus o contemplaram vestindo o manto verde que elegi amar desde a infância. Afinal, quem saberá predizer os caminhos e as encruzilhadas dos destinos?

Falar que gosto do atleta pode parecer redundante agora que ele faz gols diversos em um campo aonde atuo, o da literatura; mas a verdade que já procurava desde a adolescência um atleta que tivesse uma dimensão própria, além do futebol, e esses foram poucos: Reinaldo, Afonsinho, os democratas corintianos e queles do bom-senso. Agora encontro essa correspondência em alguém que já vestiu o mesmo manto que ostento em meu guarda-roupa.

Acreditem, isso é caro, de tão raro.

 

#gustavoscarpa #livros #literatura #clubedeleitores #clubedolivro

Foto Fabio Giovanelli / Soccer Digital, alterada por IA


21.9.26

Croniqueta: "Pelo ´fim do futebol brasileiro´"

 Quando soube no início da semana passada que o governo estava preparando uma Medida Provisória propondo a proibição de jogos online e a restrição de apostas esportivas no Brasil, vibrei muito mas logo me dei conta de que essa notícia geraria estardalhaço, pois estas empresas (as populares bets), hoje ocupam um espaço central no futebol brasileiro, tornaram-se um traço cultural de nossa sociedade, que chega a criar uma confusão de sensações, como se sempre estivessem ali. Como bem sabemos, não é esse o caso.

Também deduzi que os clubes iniciariam uma campanha inflamada para evitar ou ao menos atenuar essa possibilidade. Infelizmente não errei. Até menos de uma década atrás, vivíamos (melhor) sem elas.

Todavia, ponderei, se estivesse no lugar de algum presidente, mesmo se discordasse, não ousaria me indispor com a sanha destes clubes. É o papel deles esse fervor corporativista e isso eles cumprem regiamente. Lutar por inclusão e contra o racismo, a homofobia e a misoginia é sempre difícil, polêmico, espinhoso; mas qualquer notícias que possa "ferir" seus cofres logo se torna comoção. Imaginemos um paladino se posicionando a favor de uma lei que vai impactar negativamente os cofres do time que preside; com certeza iria enfrentar a fúria de seus conselhos deliberativos e muito provavelmente um impedimento enquanto administrador.

A conta real, porém, pode (deveria) ser observada por outro ângulo, com uma lente mais objetiva e de alcance mais distante. Utilizando um exemplo simples, há 30, 40 anos atrás, a Fórmula 1 exibia sem filtros o patrocínio de empresas de cigarro; hoje, não mais, O problema era que os cigarros geravam tantos malefícios à saúde pública se tornaram (ainda o são), mais gritantes que os lucros dos fabricantes proporcionavam às equipes. Estudos indicam que as bets injetam em torno de 1 bilhão de reais por ano somente na Série A do Brasileirão. Os mesmos estudos, no entanto, indicam que em 2025 houve uma perda de 62,5 bilhões em apostas feitas por famílias de baixa ou média renda no Brasil. Segundos dados da UNIFESP, 43,8 milhões de brasileiros já apostaram e, entre aqueles que se utilizam dos sites de apostas, mais de 65% apresentam sinais de jogo de risco. No fim das contas, quem está pagando essa conta é o torcedor que, aliás, foi alijado dos estádios e arenas, dentro desse processo de elitização do futebol brasileiro. Render-se às bets satisfaz duplamente essa condição: o trabalhador que sustenta esse sistema é justamente aquele impedido de ir ao estádio. E ao sustentar esse círculo viciante, a cada dia ele fica mais distante das arquibancadas e mais próximo do celular.

Outros estudos dão conta de a taxa de suicídios pelo vício no jogo (ludopatia), alcança impressionantes 1500% a mais que a média de suicídios no país. Neste caso, sinto um desconforto enorme pois minha família ajuda a compor esta estatística. Outra pesquisa ainda não aferida mas que encontra ressonância entre meus familiares é no quesito separação de casais. E isso dói. Muito.

Quando todos os clubes assinaram o manifesto preconizando o fim do futebol brasileiro caso a MP seja aplicada, me peguei pensando que este fim tem mais a ver com os lucros extorsivos praticados na mercantilização da mundo da bola. Convenhamos, com os últimos resultados coletivos que temos alcançado no futebol, o "país do futebol" está precisando de um fim, pois só assim poderemos ter um recomeço real, com o futebol voltando a ser de toda a nação, e não só de uma elite exploradora. E perdedora.


#cronica #cronicaesportiva #bets #ofimdofutebolbrasileiro


Arte de publicação com a frase “O fim do futebol brasileiro”. Foto: Reprodução


20.9.26

Um texticulozinho: "pouso"

 eis o que nos resta

depois de tanto voar:

poemar



#texticulo #texticulozinho #pouso #haicaos #haicacos #haiquase #poemar #escobarfranelas



19.9.26

Um textículo: "longa viagem: curta"

 vida que se repete todos os dias

às vezes muda a paisagem

em outras, a trilha sonora

 

quando ela não se repete

é porque desembarcamos

 

#longaviagemcurta #poeminimo #poemeto #poesinha #poesiazinha #escobarfranelas

 


 

Um textículo: "higidez"

 haja luz; e houve luz

num piscar de olhos já é um segundo

um minuto, um dia, um ano

logo formatura, faculdade, formatura

estágio, casamento, promoção

demissão, fila, novo emprego

sexta-feira, divórcio, fim de ano

aposentadoria.

os olhos não piscam mais

e não necessitarão de lâmpada

nem de luz do sol


#higidez #poema #poeminha #verso #escobarfranelas