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7.7.26

Resenha sobre "Premiado" (Alba Atróz)


 

(Constructo de Alba Atróz – 05 de julho de 2019)

Tenho lido muita coisa, sobre poucas tenho escrito. Nessa semana, eu li Premiado, o novo romance de Escobar Franelas, e resolvi escrever minhas percepções aqui sobre essa obra e sugeri-la ao leitor caroneiro.

Analisando, notei que, numa linguagem simples e concisa, o autor, ao discorrer sobre os medos, angústias, delírios e alucinações de um protagonista que se vê de repente como o novo ganhador da loteria, traz à tona discussões sobre a gatesfobia (*) e, sobretudo, uma importante percepção dos interesses comerciais e materiais atrelados às relações e conflitos sociais que podem afundar o já fragilizado lado humano do indivíduo.

Um bilhete premiado, a princípio, aparece como uma conquista para a liberdade e felicidade da personagem de Escobar, mas, pelo contrário, traz-lhe a inquietação, uma excitação doentia, enredando-lhe numa tenebrosa e angustiante luta interior, cheia de questionamentos e confusões perturbadoras.

Franelas nos mostra um sujeito em estresse, despreparado, receoso e perdido, debatendo-se consigo mesmo. A personagem, ao sentir o peso de ter que romper com sua classe social, acaba perdendo a serenidade necessária para lidar com seus problemas cotidianos, dando vasão a comportamentos esquisitos, gerando ações inadequadas ao padrão de seu grupo social, criando assim entraves que vão alimentando crescentes conflitos internos e externos.

A obra de Escobar Franelas vai nos mostrando que, à medida que a personagem vai se afogando em tais confusos gatilhos emocionais, acentuando seus dramas já preexistentes, que envolvem instinto de sobrevivência, sexo, amor familiar, simplicidade e luxo, pobreza e riqueza, o protagonista vê subtraída uma rara liberdade, que um dia achou não ter, e passa a esconder-se e enclausurar-se, caindo e recaindo em angustiantes dicotomias, flutuando entre a sanidade e loucura, extremos sentimentos que o travam, o engessam, tendo que aderir à mentiras e disfarces, tornando-se incapaz de voltar a um estado social considerado pelo seu meio de convivência como normal.

Eis uma obra rápida de ler, mas pode suscitar muitas reflexões posteriores, descortinando muita coisa além, para o depois; já que nos desafia a buscar compreender com mais profundidade o ser humano, a sociedade, seus estranhos atos e conflitos, vistos, muitas vezes, pelo desavisado senso comum como absurdos praticados. Ótima leitura.

(*) É o nome dado às pessoas que sofrem de distúrbios advindos do medo irracional e apavorante de ficarem ricas, bem como das mudanças que a riqueza pode trazer em suas vidas. O nome dessa doença veio em homenagem ao magnata e empresário Bill Gates, um dos fundadores da empresa de programas para computadores Microsoft, e que sempre tem mantido o status de homem mais rico do mundo.

30.5.26

Um texticulo: "em resposta a"


li isso:

"éramos todos humanos até que:

a raça nos desligou.

a religião nos separou.

a política nos dividiu. .

e o dinheiro nos classificou."

peço licença para reescrever

"éramos selvagens, até que:

a raça nos classificou

a religião nos dividiu

os partidos nos partiram

e o dinheiro nos comprou"

ao reler isso, anos depois

intuí que não adianta: ser humano

é o que me resta

selvagem, demasiado urbano

 

Escultura de Tomie Ohtake, IEB USP

 

Um textículo: "exsudar"

 antes de tudo, preciso lhe dizer

que poesia não salva ninguém

o que salva homens, mulheres, crianças

plantas e animais é olhar dentro do olho

um peito encostado no outro, lábios gotejando em outros

poesia é o meio, a mensagem, dispositivo, transmissor

de verdades cruas, nuas, absolutas, relativas

e não sabemos de onde vem

essa máxima de que versos são expressões da beleza

alguém tem que falar

que beleza é o que é, não o que era ou será

e a flor mais linda jamais será mais bela

que o sorriso de uma pessoa de bem com a vida

a lágrima pode e deve lavar

a engrenagem seca dos discursos prontos

maior pecado que a gula

é subviver com fome

palavras podem ser dardos venenosos

e matar é sempre ser pior que morrer

sobreviver é isso: sobre viver

plenamente

a mente levitando de prazer

prazer que só é possível

pelo engenho da arte

e a arte só é possível

a quem vive sobre (e além) da vida