a mente segue
indefinida
mente
passo a passo
continuará assim
arará estradas
antes
durante
depois dos seus passos
depois do fim
antes de mim
o tempo, esse delírio em linha reta
esse espaço de oco a oco
vácuos que passam
passaram
passarão
passarinhos
e por falar em... hein?
a mente segue
indefinida
mente
passo a passo
continuará assim
arará estradas
antes
durante
depois dos seus passos
depois do fim
antes de mim
o tempo, esse delírio em linha reta
esse espaço de oco a oco
vácuos que passam
passaram
passarão
passarinhos
(Constructo de Alba Atróz – 05 de julho de 2019)
Tenho lido muita coisa, sobre poucas tenho escrito. Nessa semana, eu li Premiado, o novo romance de Escobar Franelas, e resolvi escrever minhas percepções aqui sobre essa obra e sugeri-la ao leitor caroneiro.
Analisando, notei que, numa linguagem simples e concisa, o autor, ao discorrer sobre os medos, angústias, delírios e alucinações de um protagonista que se vê de repente como o novo ganhador da loteria, traz à tona discussões sobre a gatesfobia (*) e, sobretudo, uma importante percepção dos interesses comerciais e materiais atrelados às relações e conflitos sociais que podem afundar o já fragilizado lado humano do indivíduo.
Um bilhete premiado, a princípio, aparece como uma conquista para a liberdade e felicidade da personagem de Escobar, mas, pelo contrário, traz-lhe a inquietação, uma excitação doentia, enredando-lhe numa tenebrosa e angustiante luta interior, cheia de questionamentos e confusões perturbadoras.
Franelas nos mostra um sujeito em estresse, despreparado, receoso e perdido, debatendo-se consigo mesmo. A personagem, ao sentir o peso de ter que romper com sua classe social, acaba perdendo a serenidade necessária para lidar com seus problemas cotidianos, dando vasão a comportamentos esquisitos, gerando ações inadequadas ao padrão de seu grupo social, criando assim entraves que vão alimentando crescentes conflitos internos e externos.
A obra de Escobar Franelas vai nos mostrando que, à medida que a personagem vai se afogando em tais confusos gatilhos emocionais, acentuando seus dramas já preexistentes, que envolvem instinto de sobrevivência, sexo, amor familiar, simplicidade e luxo, pobreza e riqueza, o protagonista vê subtraída uma rara liberdade, que um dia achou não ter, e passa a esconder-se e enclausurar-se, caindo e recaindo em angustiantes dicotomias, flutuando entre a sanidade e loucura, extremos sentimentos que o travam, o engessam, tendo que aderir à mentiras e disfarces, tornando-se incapaz de voltar a um estado social considerado pelo seu meio de convivência como normal.
Eis uma obra rápida de ler, mas pode suscitar muitas reflexões posteriores, descortinando muita coisa além, para o depois; já que nos desafia a buscar compreender com mais profundidade o ser humano, a sociedade, seus estranhos atos e conflitos, vistos, muitas vezes, pelo desavisado senso comum como absurdos praticados. Ótima leitura.
(*) É o nome dado às pessoas que sofrem de distúrbios advindos do medo irracional e apavorante de ficarem ricas, bem como das mudanças que a riqueza pode trazer em suas vidas. O nome dessa doença veio em homenagem ao magnata e empresário Bill Gates, um dos fundadores da empresa de programas para computadores Microsoft, e que sempre tem mantido o status de homem mais rico do mundo.
li isso:
"éramos todos humanos até que:
a raça nos desligou.
a religião nos separou.
a política nos dividiu. .
e o dinheiro nos classificou."
peço licença para reescrever
"éramos selvagens, até que:
a raça nos classificou
a religião nos dividiu
os partidos nos partiram
e o dinheiro nos comprou"
ao reler isso, anos depois
intuí que não adianta: ser humano
é o que me resta
selvagem, demasiado urbano
antes de tudo, preciso lhe dizer
que poesia não salva ninguém
o que salva homens, mulheres, crianças
plantas e animais é olhar dentro do olho
um peito encostado no outro, lábios gotejando em outros
poesia é o meio, a mensagem, dispositivo, transmissor
de verdades cruas, nuas, absolutas, relativas
e não sabemos de onde vem
essa máxima de que versos são expressões da beleza
alguém tem que falar
que beleza é o que é, não o que era ou será
e a flor mais linda jamais será mais bela
que o sorriso de uma pessoa de bem com a vida
a lágrima pode e deve lavar
a engrenagem seca dos discursos prontos
maior pecado que a gula
é subviver com fome
palavras podem ser dardos venenosos
e matar é sempre ser pior que morrer
sobreviver é isso: sobre viver
plenamente
a mente levitando de prazer
prazer que só é possível
pelo engenho da arte
e a arte só é possível
a quem vive sobre (e além) da vida