Quando soube no início da semana passada que o governo estava preparando uma Medida Provisória propondo a proibição de jogos online e a restrição de apostas esportivas no Brasil, vibrei muito mas logo me dei conta de que essa notícia geraria estardalhaço, pois estas empresas (as populares bets), hoje ocupam um espaço central no futebol brasileiro, tornaram-se um traço cultural de nossa sociedade, que chega a criar uma confusão de sensações, como se sempre estivessem ali. Como bem sabemos, não é esse o caso.
Também deduzi que os clubes iniciariam uma campanha inflamada para evitar ou ao menos atenuar essa possibilidade. Infelizmente não errei. Até menos de uma década atrás, vivíamos (melhor) sem elas.
Todavia, ponderei, se estivesse no lugar de algum presidente, mesmo se discordasse, não ousaria me indispor com a sanha destes clubes. É o papel deles esse fervor corporativista e isso eles cumprem regiamente. Lutar por inclusão e contra o racismo, a homofobia e a misoginia é sempre difícil, polêmico, espinhoso; mas qualquer notícias que possa "ferir" seus cofres logo se torna comoção. Imaginemos um paladino se posicionando a favor de uma lei que vai impactar negativamente os cofres do time que preside; com certeza iria enfrentar a fúria de seus conselhos deliberativos e muito provavelmente um impedimento enquanto administrador.
A conta real, porém, pode (deveria) ser observada por outro ângulo, com uma lente mais objetiva e de alcance mais distante. Utilizando um exemplo simples, há 30, 40 anos atrás, a Fórmula 1 exibia sem filtros o patrocínio de empresas de cigarro; hoje, não mais, O problema era que os cigarros geravam tantos malefícios à saúde pública se tornaram (ainda o são), mais gritantes que os lucros dos fabricantes proporcionavam às equipes. Estudos indicam que as bets injetam em torno de 1 bilhão de reais por ano somente na Série A do Brasileirão. Os mesmos estudos, no entanto, indicam que em 2025 houve uma perda de 62,5 bilhões em apostas feitas por famílias de baixa ou média renda no Brasil. Segundos dados da UNIFESP, 43,8 milhões de brasileiros já apostaram e, entre aqueles que se utilizam dos sites de apostas, mais de 65% apresentam sinais de jogo de risco. No fim das contas, quem está pagando essa conta é o torcedor que, aliás, foi alijado dos estádios e arenas, dentro desse processo de elitização do futebol brasileiro. Render-se às bets satisfaz duplamente essa condição: o trabalhador que sustenta esse sistema é justamente aquele impedido de ir ao estádio. E ao sustentar esse círculo viciante, a cada dia ele fica mais distante das arquibancadas e mais próximo do celular.
Outros estudos dão conta de a taxa de suicídios pelo vício no jogo (ludopatia), alcança impressionantes 1500% a mais que a média de suicídios no país. Neste caso, sinto um desconforto enorme pois minha família ajuda a compor esta estatística. Outra pesquisa ainda não aferida mas que encontra ressonância entre meus familiares é no quesito separação de casais. E isso dói. Muito.
Quando todos os clubes assinaram o manifesto preconizando o fim do futebol brasileiro caso a MP seja aplicada, me peguei pensando que este fim tem mais a ver com os lucros extorsivos praticados na mercantilização da mundo da bola. Convenhamos, com os últimos resultados coletivos que temos alcançado no futebol, o "país do futebol" está precisando de um fim, pois só assim poderemos ter um recomeço real, com o futebol voltando a ser de toda a nação, e não só de uma elite exploradora. E perdedora.
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| Arte de publicação com a frase “O fim do futebol brasileiro”. Foto: Reprodução |




