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12.5.26

Resenha sobre "Contos Crônicos" (Soniamar Salin)

A Arquitetura Literária de Contos Crônicos, de Escobar Franelas

Por Soniamar Salin (LiterArte - Amazônia)

Foto: João Ramos

Em Contos Crônicos antes da primeira frase, já há um murmúrio, o rumor de uma panela no fogo, o eco de um estádio distante, o arrastar de uma cadeira no bar, o sussurro de uma mãe que já não está. Escobar Franelas escreve como quem recolhe restos de vida no chão da casa e os transforma em matéria de mundo.

Cada conto é uma fresta por onde o cotidiano, esse animal indomável, respira. Aqui, a memória não é fotografia: é ferida aberta, é cheiro de Ki-Suco, é nome que pesa mais que o corpo que o carrega. A violência não chega com estrondo, mas com a delicadeza de um gesto repetido até se tornar destino.

A linguagem, às vezes, tropeça de tão humana; outras vezes, dança como quem tenta escapar de si mesma. Há dias em que o espelho devolve um rosto que não reconhecemos. Há noites em que o banho se torna fronteira entre o sono e o fim. Há manhãs em que o pão e o café são tudo o que resta de uma fé cansada. Franelas escreve para lembrar que a vida é feita de pequenas mortes e pequenas iluminações. Que o riso pode nascer no mesmo lugar onde a dor se esconde. Que o corpo é casa, palco e abismo. Que o Brasil cabe dentro de uma cozinha pobre, de um bar antigo, de uma sala onde um pai insiste em ser chamado de “Sênior”. Que a infância nunca termina: apenas muda de voz.

Este livro não pede leitura — pede convivência. Pede que o leitor se sente à mesa, escute as histórias, aceite o desconforto, reconheça os silêncios. Porque, ao fim, Contos Crônicos não fala apenas dos personagens que o habitam. Fala de nós. Do que fomos, do que fingimos ser, do que ainda tentamos salvar antes que a memória se apague.

Contos Crônicos, de Escobar Franelas, configura-se como uma das obras mais expressivas da literatura brasileira contemporânea ao transformar o cotidiano - doméstico, urbano, íntimo ou simbólico - em campo de tensão estética, crítica social e revelação existencial. A coletânea, embora composta por textos de extensão e estilos variados, apresenta uma unidade profunda: a investigação da condição humana por meio da oralidade, da memória, da violência estrutural, do corpo e da impermanência.

A obra se organiza como um ciclo, no qual cada conto representa uma estação da experiência humana: nascimento, formação, conflito, dissolução e silêncio. O conjunto revela um autor que domina tanto a narrativa longa quanto o microconto, tanto a sátira política quanto a prosa poética, compondo um mosaico que espelha o Brasil íntimo e social.

1. O Cotidiano como Território de Conflito e Revelação: Desde o início, Franelas demonstra que o cotidiano não é banal: é palco de disputas simbólicas, afetivas e ideológicas. Em “Cantoná”, um dos contos centrais da coletânea, o futebol, elemento cultural profundamente brasileiro, torna-se alegoria da masculinidade tóxica, da frustração social e da herança patriarcal. O pai, obcecado pelo jogador Eric Cantona, transforma o próprio filho em extensão de seu ideal de virilidade, revelando como a violência simbólica se infiltra na linguagem, no nome e no corpo.

A narrativa, que começa com humor, evolui para um desconforto crescente, expondo a fragilidade emocional do pai e a opressão doméstica que estrutura a vida familiar. A ironia — como a obsessão pela pronúncia correta de “Cantoná” — convive com cenas de brutalidade, compondo um retrato complexo da masculinidade brasileira.

2. A Oralidade como Forma e como Mundo: A oralidade é o eixo estético da coletânea. Franelas escreve como quem escuta: diálogos vivos, pausas, repetições, marcas regionais e silêncios constroem personagens e atmosferas. Em “Velório”, a narrativa é inteiramente dialogada. A conversa entre familiares transforma lembranças gastronômicas — “tronchinhas”, sagu com Ki-Suco, restos do açougue — em arquivo emocional da infância.

Mas a nostalgia cede lugar à revelação de mágoas profundas, como quando um personagem confessa ter desejado a morte da própria mãe. A memória, aqui, é ambígua: mistura afeto e rancor, ternura e culpa. A oralidade também estrutura “Vs. Eu”, ambientado num bar antigo, onde a repetição rítmica da linguagem reproduz o ciclo de bravatas, decadência e autoconfronto que marca a sociabilidade masculina.

3. Corpo, Imagem e Performance: Outra vertente da coletânea explora o corpo como palco de identidade, desejo e transformação. Em “Côncavo e Convexo”, uma mulher diante do espelho encena sua própria imagem. O reflexo torna-se interlocutor, consciência e máscara. O conto discute a tensão entre aparência e essência, entre o que se é e o que se performa para o mundo. Já “Noir” transforma cores em emoções: verde da sedução, azul dos argumentos, carmim da arguição. A narrativa é pictórica, sensual, quase cinematográfica, e revela o fracasso da comunicação amorosa. Em “Copa Copo Corpo”, o corpo se dissolve no álcool enquanto o país vibra com a Copa do Mundo. O copo, o corpo e a copa se entrelaçam foneticamente e simbolicamente, compondo um quadro de solidão em meio à festa coletiva.

4. Violência, Fragilidade e Destino: A violência cotidiana aparece de forma abrupta e silenciosa em “Ou se Mata ou se Morre”. Hidônio, exausto e sonolento, é assassinado no banho enquanto a espuma do xampu lhe cobre os olhos. A narrativa transforma gestos banais, levantar-se, urinar, lavar os cabelos, em movimentos carregados de ameaça. A morte, aqui, é extensão natural da rotina, revelando a invisibilidade social de certas vidas.

"Ou se Mata ou se Morre” dialoga com tradições do conto noir, do realismo brutalista e da literatura existencial contemporânea. Há ecos da secura narrativa de Rubem Fonseca e da violência silenciosa presente em Patrícia Melo, mas Franelas imprime ao texto uma identidade própria ao incorporar oralidade, lentidão psicológica e melancolia cotidiana.

5. Linguagem, Ritual e Delírio: Alguns textos da coletânea exploram a repetição como forma de transe. Em alguns contos, a linguagem se torna mantra, liturgia profana, crítica à religiosidade mecânica e à alienação cotidiana. A repetição musicaliza o texto e transforma o gesto doméstico em ritual existencial. Em “Glossolalia”, Franelas satiriza o discurso político e midiático, imitando o ritmo frenético da televisão e expondo o vazio de sentido que permeia o noticiário. A linguagem caótica funciona como metáfora da confusão coletiva.

6. Natureza, Tempo e Metamorfose: O conto “As Estações” representa o ápice simbólico da coletânea. Nele, uma mulher que planta uma horta passa por uma metamorfose lenta e orgânica, fundindo-se à terra, às folhas e ao ciclo natural. O corpo torna-se vegetal; o humano retorna ao ritmo da natureza. A narrativa abandona o social e mergulha no metafísico, explorando o tempo lento, a morte e a continuidade da vida.

7. O Silêncio Final-Mente e Esquecimento: A coletânea se encerra com “Alzheimer”, um microconto devastador. Em poucas linhas, “pensava que pensava”, Franelas revela o colapso da consciência. O personagem pisa em minhocas “no chão e no ar”, confundindo realidade e imaginação. A linguagem se reduz ao essencial, como se o próprio texto estivesse sendo corroído pelo esquecimento.

Se “As Estações” trata da dissolução do corpo na natureza, “Alzheimer” trata da dissolução da mente no vazio. Juntos, os dois contos fecham o ciclo da existência.


"A Poética da Impermanência"

Contos Crônicos é uma obra que articula o íntimo e o social, o trágico e o cômico, o cotidiano e o metafísico. Franelas transforma:

o futebol em crítica à masculinidade,

a comida em memória afetiva,

o espelho em palco identitário,

o bar em arena de autoconfronto,

o corpo em metáfora,

a natureza em destino,

o esquecimento em arte.

A coletânea começa com vozes — diálogos, conflitos, afetos — e termina com o apagamento dessas vozes. É uma obra sobre a impermanência: tudo nasce, cresce, se desgasta, se transforma e, por fim, se dissolve.

Escobar Franelas emerge como um dos grandes cronistas da alma brasileira contemporânea, capaz de transformar o mínimo em infinito e o cotidiano em revelação.

Ao terminar Contos Crônicos, não é o silêncio que fica, é o murmúrio. Um rumor que continua vibrando no fundo da memória, como se cada conto deixasse uma pequena rachadura por onde a vida insiste em entrar. Escobar Franelas não escreve para concluir: escreve para abrir. Abre feridas, abre janelas, abre lembranças que preferíamos manter trancadas. E, quando a última página se dobra, percebemos que algo em nós também se deslocou. Os personagens - tão comuns, tão frágeis, tão nossos - permanecem caminhando dentro da gente. O pai que pronuncia “Cantoná” como quem tenta segurar o próprio mundo. Os irmãos que mastigam infância e mágoa no mesmo prato. Hidônio, que cai no chão do banheiro como quem cai da própria vida. A mulher que se olha no espelho e encontra, no reflexo, uma versão de si que talvez nunca tenha existido. A horta que cresce devagar, como cresce o corpo, como cresce o tempo. A mente que se apaga, mas ainda tenta lembrar que pensava.

Franelas nos lembra que o cotidiano é uma máquina de moer e de iluminar. Que a violência pode morar na mesa do jantar. Que a ternura pode surgir no meio da sujeira. Que a memória é um animal indócil, que morde e acaricia ao mesmo tempo. Que o Brasil cabe em uma frase dita no bar, em um nome mal pronunciado, em um pedaço de pão dividido entre irmãos.

Encerrar este livro é aceitar que a vida não cabe inteira em nenhuma narrativa, mas cabe nos fragmentos. Nos restos. Nos gestos mínimos que, quando observados com atenção, revelam tudo o que somos: côncavos e convexos, frágeis e ferozes, ridículos e sublimes. E assim, ao fechar Contos Crônicos, não fechamos um livro. Fechamos um espelho. E nele ainda vemos, por um instante, o reflexo de tudo aquilo que tentamos esquecer — e de tudo aquilo que, apesar de tudo, ainda nos mantém vivos.


FRANELAS, Escobar. Contos Crônicos. 1. ed. Mogi das Cruzes, SP: Lavra Editora, 2024. Capa: Manogon

Foto: João Ramos


Postagem original em https://www.palavraearte.com/resenhas/contos-crônicos-escobar-franelas?fbclid=IwY2xjawRuFs9leHRuA2FlbQIxMABicmlkETFlWWJGQkQwTGNTMkV0RWM5c3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHgPgOO-8Kw1Z3aMUTCqvurGNFS1KaMG9O9s08wl6LDwIZ0fOmTzxDVxObnKl_aem_z8vqz9mICEJtYT1eCdPCeg

Foto: João Ramos


26.2.26

Resenha: Jardim Quitaúna (Rodrigo Carneiro)

 Jardim Quitaúna é o mundo 



Talvez o primeiro gesto de simpatia com Jardim Quitaúna - crônicas de paixão, política e cultura pop, de Rodrigo Carneiro, seja por ter ganhado este livro de um cara que é como um irmão gêmeo que a vida me presenteou: Edhson FM. Uma segunda possibilidade: saber que o autor e eu temos quase a mesma idade e vivemos paixões (literatura, cinema e música), se não parecidas, paralelas. Um terceiro fato coincidente: a sensação de que professamos uma mesma fé ideológica, que parte sempre do “nós”, da tchurma, do coletivo; enfim, uma devoção mais grupal e menos sobre individualidades.

Poderia enumerar uma quarta hipótese: a epígrafe de Lélia Gonzalez, “O lixo vai falar, e numa boa”; um soco no estômago, um mantra, um rastilho de pólvora no galpão dos acomodados. Quinta? Vá lá: a benquerença por Paula Saldanha. Poderia enumerar mais motivos de empatia pelas crônicas de Carneiro, mas acho que já está de bom tamanho. Então, vamos aos fatos:

O livro é relativamente pequeno e muito aprazível de ser lido: em 140 páginas, disseca a sua formação cultural, a mesma por onde transitou a inteligência alternativa brasileira dos anos 1970 até aqui pertinho, nas bordas da pandemia, essa que nos assolou há poucos anos e que ainda dá sinais de sobrevida, mesmo com vacina. Lembremo-nos: desinformações (sanitárias e, principalmente, cognitivas) têm nos violentado cotidianamente, como preconizou Arendt.

Com belo projeto gráfico assinado por Renata Coelho, a obra compreende uma sinopse na orelha, um prefácio esclarecedor de Adriana Ferreira Silva, uma curta (mas norteadora) nota introdutória do autor e a sua biografia no fim. E 41 crônicas!

E que crônicas! Elas percorrem desde o período de formação do autor - “Primeira paixão”, o hilário texto sobre Magal, dá a largada - e então somos levados em uma viagem panorâmica que percorre o surgimento dos primeiros videoclipes no Brasil, os shows incendiários nos inferninhos da metrópole, até o estabelecimento do país como palco de grandes e lendários shows, tudo escrito com elegância e concisão pelo autor. 

Jornalista, escritor e músico (vocalista da banda Mickey Junkies desde a sua fundação, no início dos anos 1990), Carneiro caminha com desenvoltura no solo das experiências sonoras, audiovisuais e literárias. Nos textos do livro, fala (pouco) de sua banda e muito do que ouviu, sentiu e viu nesses anos todos. Justapõe Bob Dylan e Leonard Cohen, com notas pessoais, sem perder o ponto de equilíbrio entre descrição e sensação. Enumera fatos, celebra encontros e amizades, enaltece quem (por ele) pode ser enaltecido, defenestra detratores e detratados. Faz literatura com a memória, mas também com a alma. Quando recorda Itamar Assumpção, é como se estivesse servindo um manjar. Quando recorre a jazzistas e beatniks para ordenar uma cronologia histórica, social e cultural, o faz com erudição e clareza. Até uma sessão de cinema com Chico Science e seu pessoal, para assistir um autêntico Spike Lee no centro de SP, vira um curto e contundente tratado sociológico sobre um filme, um tempo, um lugar.

Mais não consigo elogiar, sob risco de redundância. Mas se você está procurando um livrinho honesto, ideal para ler nas férias, numa viagem ou talvez recuperar um período híbrido, de profundas transformações sociais, comportamentais e tecnológicas, talvez este Jardim Quitaúna - crônicas de paixão, política e cultura pop possa ser uma indicação bacanuda, um presente despretensioso e ao mesmo tempo muito sofisticado.



Foto: Nilson Paes


Serviço: 

Livro: Jardim Quitaúna - crônicas de paixão, política e cultura pop

Autor: Rodrigo Carneiro

Gênero: Crônica

Editora: Terreno Estranho, SP

Ano: 2025

Páginas: 140

 


5.2.26

4 de fevereiro de 1986

 Uma gugada rápida e fico sabendo que 4 de fevereiro de 1986 foi uma terça. Semana pré-carnaval. Àquela época, era comum a gente desfilar no bairro com discos debaixo do braço em nossos rolês de fim de semana. É provável que nos dias 1 ou 2 eu tivesse colado no escadão de Guaianases, um dos principais pontos de encontro para a juventude daquela quebrada. Ou esbarrado com algumas de  minhas amizades na Dany´s, a danceteria que frequentávamos com mais assiduidade. Tinha outras bem legais também, mas eram longe: a Toco, na Vila Matilde, e a Contra-Mão, no Tatuapé.  Ah, e o Poaense.
Se colei no escadão, então as chances de ter baixado na casa do Jailson (que morava em frente), também foram grandes. E se fui na casa dele, com certeza ouvimos as pérola do rock nacional lançadas no ano anterior: "Legião Urbana"; "Mudança de Comportamento", do Ira! (o preferido da turma);  "Educação Sentimental", do Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens; "Revoluções por Minuto", do RPM; "Nós Vamos Invadir sua Praia", do Ultraje a Rigor e os dois primeiros do Camisa de Vênus.
A gente estava tentando montar uma banda e a casa do nosso amigo era o nosso QG. Mas, mais que compor ou ensaiar, ali acabava sendo um espaço-tempo de degustação sonora: e tome-lhe horas e horas ouvindo a guitarra de Edgard Scandurra, o baixo do Negrete (apelido do Renato Rocha, do Legião), a bateria nervosa e segura do João Barone (Paralamas do Sucesso) e a voz agridoce do Morrissey, que estava deixando de pilotar o Smiths bem nesse período, mas como notícia gringa demorava a chegar, a gente nem sabia disso. Éramos nós, mais o Nenê, o Tucano, o Ricky, a Silvinha, o Marcão. Depois o Marcelo começou a colar com a gente e o seu ar introspectivo e de "metaleiro radical" não indicava que ele seria o único de nós que seguiria a sina musical, no caso como radialista. Eu também sempre levava comigo "a rapa" da minha vila (Jardim São Pedro), para essas rodas de camaradagem: Wilsão, Cel, Giba, Tati, Eri, Benê, Vagão. Apesar da pose punk´n´roll, éramos boa-praça e a mãe do Jailson nos servia café, sucos e umas bolachinhas. E nada de ensaio! Até hoje...
Comecei a rememorar isso pois acabei de ler que O Concreto Já Rachou, da Plebe Rude foi lançado nesse fevereiro de 1986. O dia? 11. 
No entanto, nós éramos (somos) pobres e nunca comprávamos discos no momento do lançamento, pois as bolachonas chegavam caras.  Esperávamos alguns meses para ir n´A Musical ou na Disco Sales para adquirir nossos tesouros, já contando com um descontinho básico. 
Hoje não desfilo mais de LP debaixo do sovaco mas, em compensação, o indefectível celular não desgruda da minha mão e foi com ele hoje cedo que, coincidentemente, vim trabalhar ouvindo Cazuza, outro que vivia de rolê com a gente naqueles tempos. 
Bateu uma puta saudade dessa tchurma que depois abraçou o mundo e, se mantenho contato com alguns, outros sumiram na poeira da estrada e de outros tenho apenas vagas notícias, algumas, aliás, não muito alvissareiras. Mas como li dia desses em algum lugar, não temos saudade "de um tempo", mas sim "do que éramos e, principalmente, do que fazíamos naquele tempo". No caso, há exatos 40 anos.

 

Escadão de Guaianases (arquivo CDPDOC Guaianás)

 

25.1.26

CANTONÁ

(Hoje, 25 de janeiro, faz 31 anos da "voadora" que o jogador Eric Cantona desferiu contra um torcedor que proferia insultos xenofóbicos contra ele. Matthew Simmons era ligado aos partidos National Front e ao British National Party, fascistas e de extrema-direita, que negam o Holocausto, defendem a supremacia branca e propõem o fim da imigração no Reino Unido. Anos antes, em 1992, Simmons tinha sido condenado por agredir com uma chave de fenda um frentista imigrante do Sri Lanka. Este conto é baseado nestes fatos)

Foto: Shaun Botterill (Allsport)

Naqueles tempos, quando um filho nascia, enquanto a mãe se convalescia no hospital, do pai se esperava que comemorasse com os amigos — pagar uma rodada de cerveja e oferecer-lhes um charuto era uma tradição quase impositiva — e pegasse os papéis no hospital para registrar no cartório. Foi isso que Érico fez.

Quando Meiryellen teve alta no hospital, naquela tarde ensolarada de sexta, não sabia, mas estava levando em seus braços o pequeno Érico Cantoná Vieira da Silva Jr.

No caminho para casa, ainda dentro do táxi, ela fez a pergunta que ele temia:

— Benhê, você já registrou?

— Já — ele respondeu, evasivo —, hoje cedo, antes de vir buscar você.

— E aí?

— Aí o quê?

— Conseguiu fazer do jeito que a gente queria?

— Ah, sim — pausou a voz por um momento muito breve, depois continuou. — Ele é um júnior, do jeito que você queria.

— Conseguiu?

— Unhum.

Ela não se contentou:

— Jura? Conseguiu mesmo, mesmo, mesmo?

— Já não falei que sim, sua abestada? — E, num gesto incontido, passou a mão nervosa pela boca. Não gostava de tratá-la mal na frente de outras pessoas.

A mulher, acostumada com os maus-tratos, quase não se continha de contentamento, nem se deu conta da agressão:

— Puxa, então, é Jr.! Poxa — e olhou para ele, os olhos marejados. — Obrigada.

— Tudo bem — esticou o braço e passou dois dedos no antebraço dela.

Ela segurava o bebê, que dormia, assustou-se com o movimento inesperado dele. Estava desacostumada com carinhos, ainda mais em público. Depois, relaxando um pouco, fitou-o:

— Desculpa.

Ele puxou o braço sem muita sutileza e pousou em cima da bolsa, sobre o seu colo. Aquele romantismo da cena já o estava incomodando.

— Tudo bem, tudo bem.

O carro passou o posto de gasolina, depois, o posto de saúde. Quando se aproximava do posto policial, Érico indicou a saída, à esquerda. Estavam chegando, a menos de cinco minutos de casa.

— Benhê!

— Hummm?

— Mas você não me falou. Então, ficou Jr., do jeito que eu queria, e Eric, como você gostaria?

— Não. O estúpido lá do cartório disse que Eric é uma coisa e Érico é outra. E, pra ser Jr., teve que ser igual ao meu.

— Puxa — ela lamentou, pesarosa —, mas você queria tanto que fosse Eric, igual ao jogador que você gosta, né?

— É.

— Por isso, você não tá tão feliz, com esse olhar aí todo caído — agora, foi sua vez de esticar a mão para acariciar o braço dele. — Fica assim não. — Apesar da indiferença dele ao gesto, ela manteve a mão que sustinha a criança sobre o braço do marido, que apenas suspirou, olhando para o nada:

— Pois é.

À noite, depois de chorar muito e ouvir uma metralhada de adjetivos do marido, ela implorou, chorando:

— Pelo amor de Deus, Ezinho, já pedi desculpas, é que não gostei desse Cantoná aí no meio do nome, mas, tudo bem, entendi a sua homenagem. Tudo bem, tudo bem, tudo b... — e, neste momento, tomou o tapa, cinco dedos quentes esparramados na sua bochecha.

— Ezinho o caralho — o bicho bufava. — Se soubesse o quanto eu odeio esse apelido — e cacarejou —, ezinho, ezinho, ezinho... — Eu sou homem, porra, eu sou homem — vociferou. — Eu sou pai desse Júnior aí, ó. A partir de hoje, se quiser se dirigir a mim, tem que me chamar de Sênior, tá entendendo? — E saiu, batendo a porta.

O gesto deixou-a mais surpresa que dolorida, assim como a ele, que, sem se reconhecer em meio à fúria, saiu atônito à rua, sem saber mais o que fazer ou falar. Chorava.

Ela estava sentada na cabeceira da cama, o Juninho dormindo no colo — “Graças a Deus, esse menino é bom de sono!” —, e ficou ali, triste, pela primeira vez, depois do “dia mais feliz da minha vida”, como tinha dito ao marido ainda ontem, agraciada, logo após o parto.

Ainda não recuperada do susto da agressão, passou a mão no rosto ardente várias vezes, como que querendo confirmar se não tinha sido apenas um pesadelo. Enquanto aguardava a tal da hora do garotinho acordar pra mamar, acabou dormindo, sentada mesmo, as dores se misturando dentro do corpo e da mente, virando uma espécie de casca dura.

E Eriquinho (o pai odiava quando a sogra o chamava assim, nas visitas de domingo) foi crescendo, a mãe envelhecendo rápido, a vida toda agora dedicada a ele e às irmãs que foram nascendo, ano a ano, atrás dele. O pai, que jurara nunca mais encostar a mão na cara da mulher, tornava-se cada vez mais arredio, com aquela coleção de mulheres que foram preenchendo a casa com o rodar dos anos. Medrosos, mulher e marido só se encontravam na cama, onde ela tinha aprendido que Sênior era um poderoso estimulante para extrair de seu homem o único combustível que atendia ao interesse dos dois motores.

Contrariado pelo destino ingrato, que só lhe oferecera calcinhas para cuidar, Érico investiu toda atenção, fé e esperança no primogênito, em quem buscava a redenção através da adoração à bola. É por isso que, desde os seus sete anos, Cantoná e o pai passavam o máximo de tempo juntos, nas escolinhas de futebol da região, nas quadras e terrões. Compenetrado e metódico, um ensinava ao outro o conhecimento que tinha, aperfeiçoando-o na trajetória mágica do futebol. O menino haveria de vingá-lo, de honrar o nome com o qual tinha sido vaticinado desde antes da concepção.

Nos fins de semana, quando o pai não estava trabalhando, a mãe e as irmãs menores quase não davam pela presença dos dois homens da casa, sempre ausentes, frequentando campos, quadras e terrões, na marcha célere para a celebridade que Érico antevia em Cantoná. E o pai exigia, aonde quer que fossem, que fosse tratado assim, Can-to-ná — com acento, pra nenhum desavisado cometer a desfaçatez de desrespeitar a língua portuguesa e enfatizar o “to” do nome no momento de falar. E até exibia dotes linguísticos, quando asseverava, diante de algum mesário à beira do campo:

— Tem acento agudo no “a”, é oxítona, entendeu?

E o menino seguia incerto o rumo traçado por seu pai. Verdade seja dita, algumas coisas contrariaram as previsões iniciais. O primeiro susto do velho veio de perceber que o filho, destro na mão, era canhoto nos pés. Essa gota de óleo na água o incomodou um pouco, mas muito menos do que notar que o garoto era menos afeito ao futebol do que ele, velho rabuja, gostaria. Bastava uma mínima desatenção, e o garoto já queria ir pro videogame, ou trocar cards de Pokémon, ou — sacrilégio! — assistir animes na TV. No início, tentava persuadir com uma paciência falsa, depois, passou a embrutecer e, depois, alertado pela mulher, voltou a argumentar com uma calma sofrível. Ainda assim, com a insistência tenaz dos abnegados, o menino progredia, estava um rapagão considerável, dono de bons chutes com os dois pés e o olhar altivo antes de passar a bola. Mas o técnico insistia, todos os técnicos insistiam, que era preciso reconhecer, os dotes certeiros podiam inocular talvez um Dinei, um bom Polozzi, se vingasse — quem sabe? —, um Aldair, mas daí querer que fosse um Zidane, não tinha um que apostasse nessa promessa. Assim, de clube em clube, o menino foi percorrendo, com pouca idade, todos os times da região, enquanto Ericão procurava um técnico que visse o talento orquestral que ele conseguia antever nos pés do seu filho.

— Um Cantoná não pode ser zagueiro ou lateral, tem que ser de volante pra frente — repetia ele, sozinho, isolado, sonhador.

E investia no menino, treinava à noite, quando chegava do trabalho: voleio, finta, marcação, jogo de corpo, lançamento. Domínio da bola, o moleque já tinha, bom passe também. Já olhava antes do toque ou do cruzamento, aprendera a cabecear, depois dos treinamentos insistentes do professor, que não o deixava descansar.

— Meu filho há de honrar o nome que ganhou — repetia, os olhos postos no infinito, crente em algum milagre.

Com o desenrolar do tempo, o homem começou a se exasperar com o original, que vinha, ano a ano, decepcionando ele, a ponto de se aposentar cedo ainda, antes da hora. Heróis não se despedem assim, lutam até o fim, brigam, tiram sangue. Não foi isso que ele fez com um torcedor quando jogava com os reds? Nunca entendeu direito esse negócio de “fascista”, mas tinha achado linda a voadora, até tinha ampliado uma foto e feito uma moldura cara para a foto que ficara eternizada. Torcedor o xingou? Tome-lhe uma cravejada no peito! Por quê? Não importa, o gesto é que importa, com certeza, tinha lá seus motivos. O importante é que tinha sido lindo de ver, mais bonito que uma defesa no ângulo ou um gol do meio de campo.

Mas, depois, muitos anos depois, o seu Cantoná jogando no sub-10 do Olaria, quando ouviu dois pais conversando sobre ele, não o filho, mas o original, que, segundo um deles, era comunista. Na hora, ficou muito incomodado com a história. “Onde já se viu isso? Comunista? Como assim? E jogador de futebol é lá comunista? Esse cara não sabe de nada, nem de futebol nem de comunismo. Que conversa sem pé nem cabeça.” E quase foi lá tirar satisfação com a burrice do homem. Mas, como era tímido e vergonhoso, ficou quieto. Mas a mosca tinha picado sua pele, e ele começou, desde então, a tentar entender melhor o seu ídolo. E a roda-gigante começou a girar, a cada informação nova, a vontade de se desfazer dos pôsteres, das fotos, das camisetas, aumentava gradativamente.

Quando Cantoná se tornou titular do sub-12 do Santa Terezinha, ele, pela primeira vez, quis rebatizá-lo de Jr. O técnico até tentou, mas cadê os amigos colaborarem? Era um tal de “Cantoná, passa a bola”, “Chega junto, Cantoná” e “Dá um chutão, Cantoná”, que ele tirou o moleque do time e levou para outro, bem longe, onde ninguém o conhecia.

Foi no Pedreirense que o Érico Jr. estreou, num jogo contra o Mogiano. O garoto nem foi com a turma, ele mesmo fez questão da viagem e ainda deu carona pra mais dois. A estreia não foi ruim, o menino jogou bem, salvou gol em cima da linha, foi aprovado. O revertério, porém, não tardou, veio na final do campeonato intermunicipal, naquele mesmo ano. Quando Juninho ia partir para a cobrança do pênalti, a torcida do Penharol passou a chamá-lo com um nome até então desconhecido. E foi tanto “Ericuzinho” pra lá e pra cá, que o garoto desconcentrou e perdeu o pênalti; o time, o campeonato. Pra desgosto (ou alívio) do pai, nunca mais quis saber de futebol.

As rodas do tempo deram voltas, e o Érico pai tornou-se um sisudo profissional, perdeu o viço; o brilho nos olhos só voltou mais recentemente, quando a caçula — quem diria? — foi contratada, vai jogar no sub-16 do Sereias da Vila.

A contrariedade, porém, resolveu acompanhá-lo quando Érico decidiu estudar teatro. “Teatro?”, desarvorou o pai, desiludido a não mais poder com seu filho homem. Mas ele retrucou para si, sempre em silêncio, com medo que as paredes o ouvissem. Pelo menos, não virou comunista.

Dias atrás, porém, faltou-lhe chão e ar no pulmão ao ver o filho sair com um amigo, iriam para uma manifestação na avenida Paulista.



*Extraído do livro Contos Crônicos (Editora Lavra, 2024): https://lavraeditora.com.br/produto/contos-cronicos/

 


2.1.26

Um textículo: "renovação"

                                                                                                                                              aproveita

é ano novo e todos estão comemorando

alguma coisa

que não compreendo

me convida para sair contigo

e ir para algum lugar nem tão distante

mas não tão perto assim

e juntos poderemos viver alguns momentos

de uma paz irreal ou uma guerra delicada

aproveita e entrelace meus cinco dedos suados

aos seus

toque esse peito cheio de música

tire um som de minha voz

aproveite

arranque a máscara como quem tenta

me esconder

e dê sua mão à minha, negligente

e nem tente disfarçar a carícia que quer fazer

e eu finjo não perceber

esboce essa monalisa, sua arquitetura perfeita

enfastiada

e pegue o copo, beba mais um gole,

só para preencher o tempo e o gesto bobo que

iniciou e não sabe como acabar

aproveite o ano novo

e renove o que quiser

que até não fazer nada novo

em nossa relação

pode ser uma inovação da gente



1.1.26

Um textículo: "ano-novo"

o que será o novo ano?
é novo?
ou um enigma linguístico?
novo enquanto envelhecemos?
enquanto repetimos as mesmas mentiras
prometidas ao velho ano-novo
este que está terminando?
o que será ano? esse acúmulo de meses, dias
horas, minutos, segundos e outros espaços
que ocupamos no vácuo do tempo?

às vezes fico olhando as pálpebras esgarçadas
desse tempo (aliás, o que é tempo?)
será que o ano de astronautas é igual ao de poetas?
será que o novo para um bebê
é diferente do do vovô caduco?
o  ouro de um ourives tem o mesmo valor do de um ladrão?
cientistas seriam cientistas se errassem menos?
um ano novo é igual a um novo ano?

nesse momento olho o relógio parado na parede
sem ele, o novo virá?
o velho irá?
o relógio, essa engrenagem feita de
vidro opaco, ferro oxidado
plástico mumificado
poeira anestésica
esse relógio me encara e desdenha:
a vida, meu caro, pulsa
com ou sem sua sábia filosofia.
recria, escobar: tudo que não é
pode ser que vire poesia.
e então o espetáculo de fogos artificiais
inaugura o céu




28.12.25

Micrônicas - "Livros lidos em 2025"

Nesses quase 60 anos de vida, um dado que nunca contabilizei foi contar quantos livros li num determinado período ou ano, exercício que me parece hedonista e contraditório, pois o quantitativo sempre rivaliza com o qualitativo. Ao mesmo tempo,  lembro de um ano (2014 ou 15), que li A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e a biografia do Freud, de Peter Gay, duas obras bem parrudas, portanto, demoradas de dar cabo, que me tomaram quase todos os 365 dias daquele período.
Da última vez que me impus à releitura completa da Bíblia (acho que em 2011), atravessei um ano inteiro e mais alguns meses nessa empreitada. Isso, naturalmente, diminuiu outras leituras, a menos que consideremos que a "sagrada escritura" seja interpretada com seus 66 livros independentes um do outro e então poderei dizer que, numericamente, foi a época que li mais livros. Minto: a primeira leitura bíblica completa foi por volta dos 16 anos e bem mais rápida (sei disso pois estava fazendo um curso de teologia por correspondência - que hoje corresponderia a EAD - e toda a leitura e bem menos de um ano, talvez uns 8 meses).  Aqui cabe um complemento, creio: minha base de leitura sempre foi a Bíblia protestante (acabei de pensar que talvez seja bacana colocar como meta fazer uma leitura da católica como comparativa. Quem sabe?).
Por último, nos anos em que estou preparando um livro novo, naturalmente tenho a minha atenção concentrada nessa tarefa, o que implica menos leituras de outros textos.
Bem, sem mais elucubrações, vamos aos fatos. No fim de 2024, porém, depois de ouvir vários amigos comentando sobre essa prática (quase) olímpica, decidi anotar o que estava lendo ou iniciando a leitura. O que não contava, contudo, era que logo em janeiro viria o diagnóstico de câncer, as três internações em sequência e suas cirurgias e as mudanças drásticas de rotina em decorrência do ineditismo da situação. Mesmo assim segui anotando cada livro finalizado até agora e - surpresa! - descobri que li menos livros do que tinha projetado, apesar dos períodos de internação que supostamente me levaram a ler mais. Talvez o motivo disso seja que nos períodos de recuperação em casa tenha me dedicada a assistir mais filmes e maratonar séries nas plataformas, o que implicou menos tempo de leitura. Verdade seja admitida e dita aqui, passei por longos hiatos, principalmente nos primeiros dias pós-cirúrgicos, sem nenhuma vontade de ler. Lembro que nesses dias o pouco de fruição vinha da música, basicamente jazz, Wagner e música brasileira. O restante do tempo era de muitas elucubrações e poemas "escritos" com o pensamento. Nem preciso dizer que tudo isso se perdeu como fumaça, né?
E agora, a lista. Na virada do ano passado estava lendo O Vermelho e o Negro (Sthendal) e Tchevengur (Platonov). Finalizei ambos em janeiro ainda. Depois vieram Poemas (Mao Tse-Tung), Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu), Fim (Fernanda Torres, numa feliz coincidência com o empréstimo  de uma prima minha e o período em que ela já estava concorrendo ao Oscar que, de fato, ganhou), Haicaixambu (Maciel Machado), Meu Sonho É Escrever (Carolina Maria de Jesus), O Enterro do Lobo Branco e A Casa das Aranhas (ambos de Márcia Barbieri), Testamento de João Rims (Alba Atróz), As Portas da Percepção (Aldous Huxley), A Paixão Segundo GH (Clarice Lispector), A Sibila (Agustina Bessa-Luís), O Livro da Literatura (James Canton, org.), Os Pássaros Agora Estão Dormindo (Celso de Alencar),  Oré - Antologia Poética, Dança das Samambaias e O Corpo Sabe Que É Terça, Mas Se Distrai (ambos de Girlene Verly) e Oração Para Desaparecer (Socorro Acioly). Estou iniciando hoje as leituras de Jardim Quitaúna (Rodrigo Carneiro) e Relato da Vida de Frederick Douglass (do mesmo).
Fica este registro e, por ora, apenas a certeza de que é pouco provável que eu faça outra dessa no futuro. Listinhas têm lá o seu apelo, mas... bem, fiquemos nesse "mas" para não parecer mais pedante do que de fato assumidamente sou, ou ao menos pareça, mesmo que lute encarniçadamente contra.

 


 

27.12.25

haiquase 157

 sol destampado no céu
recomendação: vários banhos ao dia
chuveiro praia cachoeira piscina língua