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30.5.26

Um texticulo: "em resposta a"


li isso:

"éramos todos humanos até que:

a raça nos desligou.

a religião nos separou.

a política nos dividiu. .

e o dinheiro nos classificou."

peço licença para reescrever

"éramos selvagens, até que:

a raça nos classificou

a religião nos dividiu

os partidos nos partiram

e o dinheiro nos comprou"

ao reler isso, anos depois

intuí que não adianta: ser humano

é o que me resta

selvagem, demasiado urbano

 

Escultura de Tomie Ohtake, IEB USP

 

Um textículo: "exsudar"

 antes de tudo, preciso lhe dizer

que poesia não salva ninguém

o que salva homens, mulheres, crianças

plantas e animais é olhar dentro do olho

um peito encostado no outro, lábios gotejando em outros

poesia é o meio, a mensagem, dispositivo, transmissor

de verdades cruas, nuas, absolutas, relativas

e não sabemos de onde vem

essa máxima de que versos são expressões da beleza

alguém tem que falar

que beleza é o que é, não o que era ou será

e a flor mais linda jamais será mais bela

que o sorriso de uma pessoa de bem com a vida

a lágrima pode e deve lavar

a engrenagem seca dos discursos prontos

maior pecado que a gula

é subviver com fome

palavras podem ser dardos venenosos

e matar é sempre ser pior que morrer

sobreviver é isso: sobre viver

plenamente

a mente levitando de prazer

prazer que só é possível

pelo engenho da arte

e a arte só é possível

a quem vive sobre (e além) da vida




24.5.26

Um textículo: "leminsquiando"

 

não é diante do espelho:

a gente se enxerga melhor

no travesseiro

por isso muitos bebem:

pra dormir em pé

desligar antes

o lado de dentro

é mais depósito que sala

e não tem interruptor




23.5.26

Um texticulozinho: "descaso"

 foram tantos ontens
e tantas promessas por amanhãs não inaugurados
que o presente
se ressente dessa solidão
que o acompanha
sem dar as mãos


 

 

12.5.26

Resenha sobre "Contos Crônicos" (Soniamar Salin)

A Arquitetura Literária de Contos Crônicos, de Escobar Franelas

Por Soniamar Salin (LiterArte - Amazônia)

Foto: João Ramos

Em Contos Crônicos antes da primeira frase, já há um murmúrio, o rumor de uma panela no fogo, o eco de um estádio distante, o arrastar de uma cadeira no bar, o sussurro de uma mãe que já não está. Escobar Franelas escreve como quem recolhe restos de vida no chão da casa e os transforma em matéria de mundo.

Cada conto é uma fresta por onde o cotidiano, esse animal indomável, respira. Aqui, a memória não é fotografia: é ferida aberta, é cheiro de Ki-Suco, é nome que pesa mais que o corpo que o carrega. A violência não chega com estrondo, mas com a delicadeza de um gesto repetido até se tornar destino.

A linguagem, às vezes, tropeça de tão humana; outras vezes, dança como quem tenta escapar de si mesma. Há dias em que o espelho devolve um rosto que não reconhecemos. Há noites em que o banho se torna fronteira entre o sono e o fim. Há manhãs em que o pão e o café são tudo o que resta de uma fé cansada. Franelas escreve para lembrar que a vida é feita de pequenas mortes e pequenas iluminações. Que o riso pode nascer no mesmo lugar onde a dor se esconde. Que o corpo é casa, palco e abismo. Que o Brasil cabe dentro de uma cozinha pobre, de um bar antigo, de uma sala onde um pai insiste em ser chamado de “Sênior”. Que a infância nunca termina: apenas muda de voz.

Este livro não pede leitura — pede convivência. Pede que o leitor se sente à mesa, escute as histórias, aceite o desconforto, reconheça os silêncios. Porque, ao fim, Contos Crônicos não fala apenas dos personagens que o habitam. Fala de nós. Do que fomos, do que fingimos ser, do que ainda tentamos salvar antes que a memória se apague.

Contos Crônicos, de Escobar Franelas, configura-se como uma das obras mais expressivas da literatura brasileira contemporânea ao transformar o cotidiano - doméstico, urbano, íntimo ou simbólico - em campo de tensão estética, crítica social e revelação existencial. A coletânea, embora composta por textos de extensão e estilos variados, apresenta uma unidade profunda: a investigação da condição humana por meio da oralidade, da memória, da violência estrutural, do corpo e da impermanência.

A obra se organiza como um ciclo, no qual cada conto representa uma estação da experiência humana: nascimento, formação, conflito, dissolução e silêncio. O conjunto revela um autor que domina tanto a narrativa longa quanto o microconto, tanto a sátira política quanto a prosa poética, compondo um mosaico que espelha o Brasil íntimo e social.

1. O Cotidiano como Território de Conflito e Revelação: Desde o início, Franelas demonstra que o cotidiano não é banal: é palco de disputas simbólicas, afetivas e ideológicas. Em “Cantoná”, um dos contos centrais da coletânea, o futebol, elemento cultural profundamente brasileiro, torna-se alegoria da masculinidade tóxica, da frustração social e da herança patriarcal. O pai, obcecado pelo jogador Eric Cantona, transforma o próprio filho em extensão de seu ideal de virilidade, revelando como a violência simbólica se infiltra na linguagem, no nome e no corpo.

A narrativa, que começa com humor, evolui para um desconforto crescente, expondo a fragilidade emocional do pai e a opressão doméstica que estrutura a vida familiar. A ironia — como a obsessão pela pronúncia correta de “Cantoná” — convive com cenas de brutalidade, compondo um retrato complexo da masculinidade brasileira.

2. A Oralidade como Forma e como Mundo: A oralidade é o eixo estético da coletânea. Franelas escreve como quem escuta: diálogos vivos, pausas, repetições, marcas regionais e silêncios constroem personagens e atmosferas. Em “Velório”, a narrativa é inteiramente dialogada. A conversa entre familiares transforma lembranças gastronômicas — “tronchinhas”, sagu com Ki-Suco, restos do açougue — em arquivo emocional da infância.

Mas a nostalgia cede lugar à revelação de mágoas profundas, como quando um personagem confessa ter desejado a morte da própria mãe. A memória, aqui, é ambígua: mistura afeto e rancor, ternura e culpa. A oralidade também estrutura “Vs. Eu”, ambientado num bar antigo, onde a repetição rítmica da linguagem reproduz o ciclo de bravatas, decadência e autoconfronto que marca a sociabilidade masculina.

3. Corpo, Imagem e Performance: Outra vertente da coletânea explora o corpo como palco de identidade, desejo e transformação. Em “Côncavo e Convexo”, uma mulher diante do espelho encena sua própria imagem. O reflexo torna-se interlocutor, consciência e máscara. O conto discute a tensão entre aparência e essência, entre o que se é e o que se performa para o mundo. Já “Noir” transforma cores em emoções: verde da sedução, azul dos argumentos, carmim da arguição. A narrativa é pictórica, sensual, quase cinematográfica, e revela o fracasso da comunicação amorosa. Em “Copa Copo Corpo”, o corpo se dissolve no álcool enquanto o país vibra com a Copa do Mundo. O copo, o corpo e a copa se entrelaçam foneticamente e simbolicamente, compondo um quadro de solidão em meio à festa coletiva.

4. Violência, Fragilidade e Destino: A violência cotidiana aparece de forma abrupta e silenciosa em “Ou se Mata ou se Morre”. Hidônio, exausto e sonolento, é assassinado no banho enquanto a espuma do xampu lhe cobre os olhos. A narrativa transforma gestos banais, levantar-se, urinar, lavar os cabelos, em movimentos carregados de ameaça. A morte, aqui, é extensão natural da rotina, revelando a invisibilidade social de certas vidas.

"Ou se Mata ou se Morre” dialoga com tradições do conto noir, do realismo brutalista e da literatura existencial contemporânea. Há ecos da secura narrativa de Rubem Fonseca e da violência silenciosa presente em Patrícia Melo, mas Franelas imprime ao texto uma identidade própria ao incorporar oralidade, lentidão psicológica e melancolia cotidiana.

5. Linguagem, Ritual e Delírio: Alguns textos da coletânea exploram a repetição como forma de transe. Em alguns contos, a linguagem se torna mantra, liturgia profana, crítica à religiosidade mecânica e à alienação cotidiana. A repetição musicaliza o texto e transforma o gesto doméstico em ritual existencial. Em “Glossolalia”, Franelas satiriza o discurso político e midiático, imitando o ritmo frenético da televisão e expondo o vazio de sentido que permeia o noticiário. A linguagem caótica funciona como metáfora da confusão coletiva.

6. Natureza, Tempo e Metamorfose: O conto “As Estações” representa o ápice simbólico da coletânea. Nele, uma mulher que planta uma horta passa por uma metamorfose lenta e orgânica, fundindo-se à terra, às folhas e ao ciclo natural. O corpo torna-se vegetal; o humano retorna ao ritmo da natureza. A narrativa abandona o social e mergulha no metafísico, explorando o tempo lento, a morte e a continuidade da vida.

7. O Silêncio Final-Mente e Esquecimento: A coletânea se encerra com “Alzheimer”, um microconto devastador. Em poucas linhas, “pensava que pensava”, Franelas revela o colapso da consciência. O personagem pisa em minhocas “no chão e no ar”, confundindo realidade e imaginação. A linguagem se reduz ao essencial, como se o próprio texto estivesse sendo corroído pelo esquecimento.

Se “As Estações” trata da dissolução do corpo na natureza, “Alzheimer” trata da dissolução da mente no vazio. Juntos, os dois contos fecham o ciclo da existência.


"A Poética da Impermanência"

Contos Crônicos é uma obra que articula o íntimo e o social, o trágico e o cômico, o cotidiano e o metafísico. Franelas transforma:

o futebol em crítica à masculinidade,

a comida em memória afetiva,

o espelho em palco identitário,

o bar em arena de autoconfronto,

o corpo em metáfora,

a natureza em destino,

o esquecimento em arte.

A coletânea começa com vozes — diálogos, conflitos, afetos — e termina com o apagamento dessas vozes. É uma obra sobre a impermanência: tudo nasce, cresce, se desgasta, se transforma e, por fim, se dissolve.

Escobar Franelas emerge como um dos grandes cronistas da alma brasileira contemporânea, capaz de transformar o mínimo em infinito e o cotidiano em revelação.

Ao terminar Contos Crônicos, não é o silêncio que fica, é o murmúrio. Um rumor que continua vibrando no fundo da memória, como se cada conto deixasse uma pequena rachadura por onde a vida insiste em entrar. Escobar Franelas não escreve para concluir: escreve para abrir. Abre feridas, abre janelas, abre lembranças que preferíamos manter trancadas. E, quando a última página se dobra, percebemos que algo em nós também se deslocou. Os personagens - tão comuns, tão frágeis, tão nossos - permanecem caminhando dentro da gente. O pai que pronuncia “Cantoná” como quem tenta segurar o próprio mundo. Os irmãos que mastigam infância e mágoa no mesmo prato. Hidônio, que cai no chão do banheiro como quem cai da própria vida. A mulher que se olha no espelho e encontra, no reflexo, uma versão de si que talvez nunca tenha existido. A horta que cresce devagar, como cresce o corpo, como cresce o tempo. A mente que se apaga, mas ainda tenta lembrar que pensava.

Franelas nos lembra que o cotidiano é uma máquina de moer e de iluminar. Que a violência pode morar na mesa do jantar. Que a ternura pode surgir no meio da sujeira. Que a memória é um animal indócil, que morde e acaricia ao mesmo tempo. Que o Brasil cabe em uma frase dita no bar, em um nome mal pronunciado, em um pedaço de pão dividido entre irmãos.

Encerrar este livro é aceitar que a vida não cabe inteira em nenhuma narrativa, mas cabe nos fragmentos. Nos restos. Nos gestos mínimos que, quando observados com atenção, revelam tudo o que somos: côncavos e convexos, frágeis e ferozes, ridículos e sublimes. E assim, ao fechar Contos Crônicos, não fechamos um livro. Fechamos um espelho. E nele ainda vemos, por um instante, o reflexo de tudo aquilo que tentamos esquecer — e de tudo aquilo que, apesar de tudo, ainda nos mantém vivos.


FRANELAS, Escobar. Contos Crônicos. 1. ed. Mogi das Cruzes, SP: Lavra Editora, 2024. Capa: Manogon

Foto: João Ramos


Postagem original em https://www.palavraearte.com/resenhas/contos-crônicos-escobar-franelas?fbclid=IwY2xjawRuFs9leHRuA2FlbQIxMABicmlkETFlWWJGQkQwTGNTMkV0RWM5c3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHgPgOO-8Kw1Z3aMUTCqvurGNFS1KaMG9O9s08wl6LDwIZ0fOmTzxDVxObnKl_aem_z8vqz9mICEJtYT1eCdPCeg

Foto: João Ramos


26.2.26

Resenha: Jardim Quitaúna (Rodrigo Carneiro)

 Jardim Quitaúna é o mundo 



Talvez o primeiro gesto de simpatia com Jardim Quitaúna - crônicas de paixão, política e cultura pop, de Rodrigo Carneiro, seja por ter ganhado este livro de um cara que é como um irmão gêmeo que a vida me presenteou: Edhson FM. Uma segunda possibilidade: saber que o autor e eu temos quase a mesma idade e vivemos paixões (literatura, cinema e música), se não parecidas, paralelas. Um terceiro fato coincidente: a sensação de que professamos uma mesma fé ideológica, que parte sempre do “nós”, da tchurma, do coletivo; enfim, uma devoção mais grupal e menos sobre individualidades.

Poderia enumerar uma quarta hipótese: a epígrafe de Lélia Gonzalez, “O lixo vai falar, e numa boa”; um soco no estômago, um mantra, um rastilho de pólvora no galpão dos acomodados. Quinta? Vá lá: a benquerença por Paula Saldanha. Poderia enumerar mais motivos de empatia pelas crônicas de Carneiro, mas acho que já está de bom tamanho. Então, vamos aos fatos:

O livro é relativamente pequeno e muito aprazível de ser lido: em 140 páginas, disseca a sua formação cultural, a mesma por onde transitou a inteligência alternativa brasileira dos anos 1970 até aqui pertinho, nas bordas da pandemia, essa que nos assolou há poucos anos e que ainda dá sinais de sobrevida, mesmo com vacina. Lembremo-nos: desinformações (sanitárias e, principalmente, cognitivas) têm nos violentado cotidianamente, como preconizou Arendt.

Com belo projeto gráfico assinado por Renata Coelho, a obra compreende uma sinopse na orelha, um prefácio esclarecedor de Adriana Ferreira Silva, uma curta (mas norteadora) nota introdutória do autor e a sua biografia no fim. E 41 crônicas!

E que crônicas! Elas percorrem desde o período de formação do autor - “Primeira paixão”, o hilário texto sobre Magal, dá a largada - e então somos levados em uma viagem panorâmica que percorre o surgimento dos primeiros videoclipes no Brasil, os shows incendiários nos inferninhos da metrópole, até o estabelecimento do país como palco de grandes e lendários shows, tudo escrito com elegância e concisão pelo autor. 

Jornalista, escritor e músico (vocalista da banda Mickey Junkies desde a sua fundação, no início dos anos 1990), Carneiro caminha com desenvoltura no solo das experiências sonoras, audiovisuais e literárias. Nos textos do livro, fala (pouco) de sua banda e muito do que ouviu, sentiu e viu nesses anos todos. Justapõe Bob Dylan e Leonard Cohen, com notas pessoais, sem perder o ponto de equilíbrio entre descrição e sensação. Enumera fatos, celebra encontros e amizades, enaltece quem (por ele) pode ser enaltecido, defenestra detratores e detratados. Faz literatura com a memória, mas também com a alma. Quando recorda Itamar Assumpção, é como se estivesse servindo um manjar. Quando recorre a jazzistas e beatniks para ordenar uma cronologia histórica, social e cultural, o faz com erudição e clareza. Até uma sessão de cinema com Chico Science e seu pessoal, para assistir um autêntico Spike Lee no centro de SP, vira um curto e contundente tratado sociológico sobre um filme, um tempo, um lugar.

Mais não consigo elogiar, sob risco de redundância. Mas se você está procurando um livrinho honesto, ideal para ler nas férias, numa viagem ou talvez recuperar um período híbrido, de profundas transformações sociais, comportamentais e tecnológicas, talvez este Jardim Quitaúna - crônicas de paixão, política e cultura pop possa ser uma indicação bacanuda, um presente despretensioso e ao mesmo tempo muito sofisticado.



Foto: Nilson Paes


Serviço: 

Livro: Jardim Quitaúna - crônicas de paixão, política e cultura pop

Autor: Rodrigo Carneiro

Gênero: Crônica

Editora: Terreno Estranho, SP

Ano: 2025

Páginas: 140