precipitar-se sem saber
sem saber o que tem
o que tem no fim do fundo
*da série haicaos
e por falar em... hein?
li isso:
"éramos todos humanos até que:
a raça nos desligou.
a religião nos separou.
a política nos dividiu. .
e o dinheiro nos classificou."
peço licença para reescrever
"éramos selvagens, até que:
a raça nos classificou
a religião nos dividiu
os partidos nos partiram
e o dinheiro nos comprou"
ao reler isso, anos depois
intuí que não adianta: ser humano
é o que me resta
selvagem, demasiado urbano
antes de tudo, preciso lhe dizer
que poesia não salva ninguém
o que salva homens, mulheres, crianças
plantas e animais é olhar dentro do olho
um peito encostado no outro, lábios gotejando em outros
poesia é o meio, a mensagem, dispositivo, transmissor
de verdades cruas, nuas, absolutas, relativas
e não sabemos de onde vem
essa máxima de que versos são expressões da beleza
alguém tem que falar
que beleza é o que é, não o que era ou será
e a flor mais linda jamais será mais bela
que o sorriso de uma pessoa de bem com a vida
a lágrima pode e deve lavar
a engrenagem seca dos discursos prontos
maior pecado que a gula
é subviver com fome
palavras podem ser dardos venenosos
e matar é sempre ser pior que morrer
sobreviver é isso: sobre viver
plenamente
a mente levitando de prazer
prazer que só é possível
pelo engenho da arte
e a arte só é possível
a quem vive sobre (e além) da vida
não é diante do espelho:
a gente se enxerga melhor
no travesseiro
por isso muitos bebem:
pra dormir em pé
desligar antes
o lado de dentro
é mais depósito que sala
e não tem interruptor
foram tantos ontens
e tantas promessas por amanhãs não inaugurados
que o presente
se ressente dessa solidão
que o acompanha
sem dar as mãos