todo dia pela manhã
cumprir a sina assassina
andar por 57 anos
pelas mesmas ruas que sempre desconheço
todo dia abraçar esse sol
beijar essa chuva
dançar com esse vento
todo dia uma novidade
nessa monotonia
todo dia pela manhã
cumprir a sina assassina
andar por 57 anos
pelas mesmas ruas que sempre desconheço
todo dia abraçar esse sol
beijar essa chuva
dançar com esse vento
todo dia uma novidade
nessa monotonia
a poeira toma assento
no vagão
a poesia toma conta
em todo canto
nos vãos
#poesia #poesiabrasileira #poesiabrasileiracontemporanea #poesiazinha #preenchimento
a mente segue
indefinida
mente
passo a passo
continuará assim
arará estradas
antes
durante
depois dos seus passos
depois do fim
antes de mim
o tempo, esse delírio em linha reta
esse espaço de oco a oco
vácuos que passam
passaram
passarão
passarinhos
(Constructo de Alba Atróz – 05 de julho de 2019)
Tenho lido muita coisa, sobre poucas tenho escrito. Nessa semana, eu li Premiado, o novo romance de Escobar Franelas, e resolvi escrever minhas percepções aqui sobre essa obra e sugeri-la ao leitor caroneiro.
Analisando, notei que, numa linguagem simples e concisa, o autor, ao discorrer sobre os medos, angústias, delírios e alucinações de um protagonista que se vê de repente como o novo ganhador da loteria, traz à tona discussões sobre a gatesfobia (*) e, sobretudo, uma importante percepção dos interesses comerciais e materiais atrelados às relações e conflitos sociais que podem afundar o já fragilizado lado humano do indivíduo.
Um bilhete premiado, a princípio, aparece como uma conquista para a liberdade e felicidade da personagem de Escobar, mas, pelo contrário, traz-lhe a inquietação, uma excitação doentia, enredando-lhe numa tenebrosa e angustiante luta interior, cheia de questionamentos e confusões perturbadoras.
Franelas nos mostra um sujeito em estresse, despreparado, receoso e perdido, debatendo-se consigo mesmo. A personagem, ao sentir o peso de ter que romper com sua classe social, acaba perdendo a serenidade necessária para lidar com seus problemas cotidianos, dando vasão a comportamentos esquisitos, gerando ações inadequadas ao padrão de seu grupo social, criando assim entraves que vão alimentando crescentes conflitos internos e externos.
A obra de Escobar Franelas vai nos mostrando que, à medida que a personagem vai se afogando em tais confusos gatilhos emocionais, acentuando seus dramas já preexistentes, que envolvem instinto de sobrevivência, sexo, amor familiar, simplicidade e luxo, pobreza e riqueza, o protagonista vê subtraída uma rara liberdade, que um dia achou não ter, e passa a esconder-se e enclausurar-se, caindo e recaindo em angustiantes dicotomias, flutuando entre a sanidade e loucura, extremos sentimentos que o travam, o engessam, tendo que aderir à mentiras e disfarces, tornando-se incapaz de voltar a um estado social considerado pelo seu meio de convivência como normal.
Eis uma obra rápida de ler, mas pode suscitar muitas reflexões posteriores, descortinando muita coisa além, para o depois; já que nos desafia a buscar compreender com mais profundidade o ser humano, a sociedade, seus estranhos atos e conflitos, vistos, muitas vezes, pelo desavisado senso comum como absurdos praticados. Ótima leitura.
(*) É o nome dado às pessoas que sofrem de distúrbios advindos do medo irracional e apavorante de ficarem ricas, bem como das mudanças que a riqueza pode trazer em suas vidas. O nome dessa doença veio em homenagem ao magnata e empresário Bill Gates, um dos fundadores da empresa de programas para computadores Microsoft, e que sempre tem mantido o status de homem mais rico do mundo.
li isso:
"éramos todos humanos até que:
a raça nos desligou.
a religião nos separou.
a política nos dividiu. .
e o dinheiro nos classificou."
peço licença para reescrever
"éramos selvagens, até que:
a raça nos classificou
a religião nos dividiu
os partidos nos partiram
e o dinheiro nos comprou"
ao reler isso, anos depois
intuí que não adianta: ser humano
é o que me resta
selvagem, demasiado urbano