Pesquisar este blog

4.1.23

Pelé

 


tudo o que a gente não entendia

pelé compreendia

tudo o que a gente não dizia

pelé falava

tudo aquilo que a gente só se gabava

pelé jogava

7.12.22

Um textículo: "da natureza"

 

é da natureza ser complexa e simples
é da natureza ter a elegância de furacões
a força dos mares
e o ritmo do ar
é da natureza os acidentes geográficos
ser indomável e calma
abstrata e rígida

é da natureza exercer a antidiplomacia
entre a carne e o espírito
ser parte do todo
e o todo de toda parte
é da natureza ter e não ver
sorrir, servir e ser
viver pra morrer eternamente
morrer pra nascer
nascer pra viver
e ter na mente
esse medo tão presente

1.12.22

Um textículo: "às cegas"

 

- Você viu meus óculos?
- Oi?
- Perguntei se você viu meus óculos.
- Não tô ouvindo você direito. espera que vou desligar o chuveiro. Pronto. Fala...
- Perguntei se você não viu meus óculos.
- Ôxi, você não está segurando ele aí na sua mão?
- Eita. É verdade. Desculpe incomodar. Pode voltar pro seu banho.
- Tá! Já vou, mas... pra que você está segurando o celular com a lanterna acesa?
-  É pra ver se encontrava os óculos.
- Agora já encontrou.
- É verdade. Agora tenho que achar o celular.

30.11.22

Um textículo: "civis"

 

primeiro
disse que eu nada entendia de mulheres
depois
reclamou que eu não manjava nadica de cromaterapia
por último
falou que eu nada sabia da receita de tapioca
perguntei
e você, só compreende isso?
e nos calamos

 

29.11.22

Um textículo: "terceiro ser"

 

o meu querer
quer tanto você
que até se confunde
e só eu sei
que aqui dentro uma coisa remói
e se reconstrói
e funde esse ser a
outro mesmo querer
apocalipse de razões
sentimentos, sensações
asas e outras tontas, tantas e falsas concepções
de um desejo que dói
e remói sem moer
e dói sem doer
preservando esse ser,
que sou eu, que é você

23.11.22

Um textículo: "ruarrumo"

Av. 23 de Maio, SP (foto: EF, outubro/22)

 

a rua permanece lá fora.

acabou: entrada do terminal que

por muitos caminhos, leva a um lugar.

era lá que queria chegar. 

agora não mais rodas

só as da mala, pequenas, sendo puxadas.

agora só passos, passadas em direção de.

quase labirinto: ruelas, alamedas, vielas

paredes frias, escadas requentadas com o tira e põe dos pés.

um sorriso, um aceno, o frio na barriga.

um abraço sem jeito sob as vistas da multidão

que nem olhava. um abraço. perdido?

não, era para ser assim.

o táxi: novamente a rua: suja, mal cuidada, arborizada

lisa, reta, limpa.

postes, placas, casas, prédios, tudo espalhado.

hotel sem vaga, um hospital na largura da avenida

na padaria a vidraça verde do edifício em frente chama a atenção.

ruas íngremes e estreitas comportam os ônibus sanfonados

enguias movida a fósseis,

carros à frente, atrás, estacionados, parados, apressados.

o coração? disparado.

o fim de outra rua onde tantas outras desembocam.

um guichê, um elevador, uma porta a ser aberta.

outra rua se inicia: a que dá para o céu

17.11.22

Um textículo: "abraço"

 

as mãos dando voltas nas costas

peito no seio

nariz no pescoço

cabelos nos olhos

as mãos penduradas no pescoço

joelho contra joelho

coxa contra coxa

sexo contra sexo

pés sobre pés

véspera do beijo


16.11.22

Um textículo: "sorriso"

 

o céu da sua boca tem estrelas

que não consigo contar

o sol da sua boca tem um céu


da série haicaos