(Hoje, 25 de janeiro, faz 31 anos da "voadora" que o jogador Eric Cantona desferiu contra um torcedor que proferia insultos xenofóbicos contra ele. Matthew Simmons era ligado aos partidos National Front e ao British National Party, fascistas e de extrema-direita, que negam o Holocausto, defendem a supremacia branca e propõem o fim da imigração no Reino Unido. Anos antes, em 1992, Simmons tinha sido condenado por agredir com uma chave de fenda um frentista imigrante do Sri Lanka. Este conto é baseado nestes fatos)
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| Foto: Shaun Botterill (Allsport) |
Naqueles tempos, quando um filho nascia, enquanto a mãe se convalescia no hospital, do pai se esperava que comemorasse com os amigos — pagar uma rodada de cerveja e oferecer-lhes um charuto era uma tradição quase impositiva — e pegasse os papéis no hospital para registrar no cartório. Foi isso que Érico fez.
Quando Meiryellen teve alta no hospital, naquela tarde ensolarada de sexta, não sabia, mas estava levando em seus braços o pequeno Érico Cantoná Vieira da Silva Jr.
No caminho para casa, ainda dentro do táxi, ela fez a pergunta que ele temia:
— Benhê, você já registrou?
— Já — ele respondeu, evasivo —, hoje cedo, antes de vir buscar você.
— E aí?
— Aí o quê?
— Conseguiu fazer do jeito que a gente queria?
— Ah, sim — pausou a voz por um momento muito breve, depois continuou. — Ele é um júnior, do jeito que você queria.
— Conseguiu?
— Unhum.
Ela não se contentou:
— Jura? Conseguiu mesmo, mesmo, mesmo?
— Já não falei que sim, sua abestada? — E, num gesto incontido, passou a mão nervosa pela boca. Não gostava de tratá-la mal na frente de outras pessoas.
A mulher, acostumada com os maus-tratos, quase não se continha de contentamento, nem se deu conta da agressão:
— Puxa, então, é Jr.! Poxa — e olhou para ele, os olhos marejados. — Obrigada.
— Tudo bem — esticou o braço e passou dois dedos no antebraço dela.
Ela segurava o bebê, que dormia, assustou-se com o movimento inesperado dele. Estava desacostumada com carinhos, ainda mais em público. Depois, relaxando um pouco, fitou-o:
— Desculpa.
Ele puxou o braço sem muita sutileza e pousou em cima da bolsa, sobre o seu colo. Aquele romantismo da cena já o estava incomodando.
— Tudo bem, tudo bem.
O carro passou o posto de gasolina, depois, o posto de saúde. Quando se aproximava do posto policial, Érico indicou a saída, à esquerda. Estavam chegando, a menos de cinco minutos de casa.
— Benhê!
— Hummm?
— Mas você não me falou. Então, ficou Jr., do jeito que eu queria, e Eric, como você gostaria?
— Não. O estúpido lá do cartório disse que Eric é uma coisa e Érico é outra. E, pra ser Jr., teve que ser igual ao meu.
— Puxa — ela lamentou, pesarosa —, mas você queria tanto que fosse Eric, igual ao jogador que você gosta, né?
— É.
— Por isso, você não tá tão feliz, com esse olhar aí todo caído — agora, foi sua vez de esticar a mão para acariciar o braço dele. — Fica assim não. — Apesar da indiferença dele ao gesto, ela manteve a mão que sustinha a criança sobre o braço do marido, que apenas suspirou, olhando para o nada:
— Pois é.
À noite, depois de chorar muito e ouvir uma metralhada de adjetivos do marido, ela implorou, chorando:
— Pelo amor de Deus, Ezinho, já pedi desculpas, é que não gostei desse Cantoná aí no meio do nome, mas, tudo bem, entendi a sua homenagem. Tudo bem, tudo bem, tudo b... — e, neste momento, tomou o tapa, cinco dedos quentes esparramados na sua bochecha.
— Ezinho o caralho — o bicho bufava. — Se soubesse o quanto eu odeio esse apelido — e cacarejou —, ezinho, ezinho, ezinho... — Eu sou homem, porra, eu sou homem — vociferou. — Eu sou pai desse Júnior aí, ó. A partir de hoje, se quiser se dirigir a mim, tem que me chamar de Sênior, tá entendendo? — E saiu, batendo a porta.
O gesto deixou-a mais surpresa que dolorida, assim como a ele, que, sem se reconhecer em meio à fúria, saiu atônito à rua, sem saber mais o que fazer ou falar. Chorava.
Ela estava sentada na cabeceira da cama, o Juninho dormindo no colo — “Graças a Deus, esse menino é bom de sono!” —, e ficou ali, triste, pela primeira vez, depois do “dia mais feliz da minha vida”, como tinha dito ao marido ainda ontem, agraciada, logo após o parto.
Ainda não recuperada do susto da agressão, passou a mão no rosto ardente várias vezes, como que querendo confirmar se não tinha sido apenas um pesadelo. Enquanto aguardava a tal da hora do garotinho acordar pra mamar, acabou dormindo, sentada mesmo, as dores se misturando dentro do corpo e da mente, virando uma espécie de casca dura.
E Eriquinho (o pai odiava quando a sogra o chamava assim, nas visitas de domingo) foi crescendo, a mãe envelhecendo rápido, a vida toda agora dedicada a ele e às irmãs que foram nascendo, ano a ano, atrás dele. O pai, que jurara nunca mais encostar a mão na cara da mulher, tornava-se cada vez mais arredio, com aquela coleção de mulheres que foram preenchendo a casa com o rodar dos anos. Medrosos, mulher e marido só se encontravam na cama, onde ela tinha aprendido que Sênior era um poderoso estimulante para extrair de seu homem o único combustível que atendia ao interesse dos dois motores.
Contrariado pelo destino ingrato, que só lhe oferecera calcinhas para cuidar, Érico investiu toda atenção, fé e esperança no primogênito, em quem buscava a redenção através da adoração à bola. É por isso que, desde os seus sete anos, Cantoná e o pai passavam o máximo de tempo juntos, nas escolinhas de futebol da região, nas quadras e terrões. Compenetrado e metódico, um ensinava ao outro o conhecimento que tinha, aperfeiçoando-o na trajetória mágica do futebol. O menino haveria de vingá-lo, de honrar o nome com o qual tinha sido vaticinado desde antes da concepção.
Nos fins de semana, quando o pai não estava trabalhando, a mãe e as irmãs menores quase não davam pela presença dos dois homens da casa, sempre ausentes, frequentando campos, quadras e terrões, na marcha célere para a celebridade que Érico antevia em Cantoná. E o pai exigia, aonde quer que fossem, que fosse tratado assim, Can-to-ná — com acento, pra nenhum desavisado cometer a desfaçatez de desrespeitar a língua portuguesa e enfatizar o “to” do nome no momento de falar. E até exibia dotes linguísticos, quando asseverava, diante de algum mesário à beira do campo:
— Tem acento agudo no “a”, é oxítona, entendeu?
E o menino seguia incerto o rumo traçado por seu pai. Verdade seja dita, algumas coisas contrariaram as previsões iniciais. O primeiro susto do velho veio de perceber que o filho, destro na mão, era canhoto nos pés. Essa gota de óleo na água o incomodou um pouco, mas muito menos do que notar que o garoto era menos afeito ao futebol do que ele, velho rabuja, gostaria. Bastava uma mínima desatenção, e o garoto já queria ir pro videogame, ou trocar cards de Pokémon, ou — sacrilégio! — assistir animes na TV. No início, tentava persuadir com uma paciência falsa, depois, passou a embrutecer e, depois, alertado pela mulher, voltou a argumentar com uma calma sofrível. Ainda assim, com a insistência tenaz dos abnegados, o menino progredia, estava um rapagão considerável, dono de bons chutes com os dois pés e o olhar altivo antes de passar a bola. Mas o técnico insistia, todos os técnicos insistiam, que era preciso reconhecer, os dotes certeiros podiam inocular talvez um Dinei, um bom Polozzi, se vingasse — quem sabe? —, um Aldair, mas daí querer que fosse um Zidane, não tinha um que apostasse nessa promessa. Assim, de clube em clube, o menino foi percorrendo, com pouca idade, todos os times da região, enquanto Ericão procurava um técnico que visse o talento orquestral que ele conseguia antever nos pés do seu filho.
— Um Cantoná não pode ser zagueiro ou lateral, tem que ser de volante pra frente — repetia ele, sozinho, isolado, sonhador.
E investia no menino, treinava à noite, quando chegava do trabalho: voleio, finta, marcação, jogo de corpo, lançamento. Domínio da bola, o moleque já tinha, bom passe também. Já olhava antes do toque ou do cruzamento, aprendera a cabecear, depois dos treinamentos insistentes do professor, que não o deixava descansar.
— Meu filho há de honrar o nome que ganhou — repetia, os olhos postos no infinito, crente em algum milagre.
Com o desenrolar do tempo, o homem começou a se exasperar com o original, que vinha, ano a ano, decepcionando ele, a ponto de se aposentar cedo ainda, antes da hora. Heróis não se despedem assim, lutam até o fim, brigam, tiram sangue. Não foi isso que ele fez com um torcedor quando jogava com os reds? Nunca entendeu direito esse negócio de “fascista”, mas tinha achado linda a voadora, até tinha ampliado uma foto e feito uma moldura cara para a foto que ficara eternizada. Torcedor o xingou? Tome-lhe uma cravejada no peito! Por quê? Não importa, o gesto é que importa, com certeza, tinha lá seus motivos. O importante é que tinha sido lindo de ver, mais bonito que uma defesa no ângulo ou um gol do meio de campo.
Mas, depois, muitos anos depois, o seu Cantoná jogando no sub-10 do Olaria, quando ouviu dois pais conversando sobre ele, não o filho, mas o original, que, segundo um deles, era comunista. Na hora, ficou muito incomodado com a história. “Onde já se viu isso? Comunista? Como assim? E jogador de futebol é lá comunista? Esse cara não sabe de nada, nem de futebol nem de comunismo. Que conversa sem pé nem cabeça.” E quase foi lá tirar satisfação com a burrice do homem. Mas, como era tímido e vergonhoso, ficou quieto. Mas a mosca tinha picado sua pele, e ele começou, desde então, a tentar entender melhor o seu ídolo. E a roda-gigante começou a girar, a cada informação nova, a vontade de se desfazer dos pôsteres, das fotos, das camisetas, aumentava gradativamente.
Quando Cantoná se tornou titular do sub-12 do Santa Terezinha, ele, pela primeira vez, quis rebatizá-lo de Jr. O técnico até tentou, mas cadê os amigos colaborarem? Era um tal de “Cantoná, passa a bola”, “Chega junto, Cantoná” e “Dá um chutão, Cantoná”, que ele tirou o moleque do time e levou para outro, bem longe, onde ninguém o conhecia.
Foi no Pedreirense que o Érico Jr. estreou, num jogo contra o Mogiano. O garoto nem foi com a turma, ele mesmo fez questão da viagem e ainda deu carona pra mais dois. A estreia não foi ruim, o menino jogou bem, salvou gol em cima da linha, foi aprovado. O revertério, porém, não tardou, veio na final do campeonato intermunicipal, naquele mesmo ano. Quando Juninho ia partir para a cobrança do pênalti, a torcida do Penharol passou a chamá-lo com um nome até então desconhecido. E foi tanto “Ericuzinho” pra lá e pra cá, que o garoto desconcentrou e perdeu o pênalti; o time, o campeonato. Pra desgosto (ou alívio) do pai, nunca mais quis saber de futebol.
As rodas do tempo deram voltas, e o Érico pai tornou-se um sisudo profissional, perdeu o viço; o brilho nos olhos só voltou mais recentemente, quando a caçula — quem diria? — foi contratada, vai jogar no sub-16 do Sereias da Vila.
A contrariedade, porém, resolveu acompanhá-lo quando Érico decidiu estudar teatro. “Teatro?”, desarvorou o pai, desiludido a não mais poder com seu filho homem. Mas ele retrucou para si, sempre em silêncio, com medo que as paredes o ouvissem. Pelo menos, não virou comunista.
Dias atrás, porém, faltou-lhe chão e ar no pulmão ao ver o filho sair com um amigo, iriam para uma manifestação na avenida Paulista.
*Extraído do livro Contos Crônicos (Editora Lavra, 2024): https://lavraeditora.com.br/produto/contos-cronicos/

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