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24.9.26

Croniqueta: "Gustavo Scarpa - Nem tudo é igual no futebol"

Quando era adolescente e sonhava ser quem sabe um zagueiro reserva do Votuporanguense, um esforçado volante do Inter de Limeira, talvez um lateral do Matsubara ou um meia do Íbis de Pernambuco; ou mesmo o sucessor do Pelé (o sonho é uma nuvem que não tem forma ou limite), quando entrava no campinho, eu não passava de um palhaço; fazer magia com a bola nos pés, como o Paulinho, o Luizinho, o Rato ou o Cabeção, os ídolos da minha infância nos terrões do Jardim São Pedro, esse direito não me foi outorgado por esse deus travesso e cruel que me colocou na esteira uterina.

Então eu passava horas como um olheiro, observando o movimento deles, o que faziam quando estavam com a bola nos pés, qual era o movimento das pernas, dos braços, dos quadris, para onde olhavam no momento cruciante de receber ou dar um passe. E depois, quando os reis da bola se retiravam e eu me reunia com os outros desafortunados dessa deusa de beleza plástica, tentava reproduzir todos os movimentos que tinha decorado nas aulas informais, sentado na grama rala ao lado do campo.

Como não era possível alcançá-los em graça e nem mesmo em força, tentei aprender o simulacro,  a ginga, o andar malemolente, os ombros assimétricos, as mãos na cintura e aquele olhar de enfado que só os craques ostentam. Lembro de um conhecido, pouca coisa mais velho, que um dia me viu passando na rua e depois comentou que eu tinha postura de jogador de futebol. O tempo nem precisou caminhar para corrigir essa interpretação: ambos estávamos errados, eu no andar, ele no olhar.

Ainda tentei outra fórmula, essa mais desgastada e absurda: como os grandes jogadores sentavam-se sempre no fundo da sala, o que o aspirante aqui fez? Mudou-se para o mesmo território. É claro que meu futebol não evoluiu absolutamente nada; em compensação, aprendi muito sobre paqueras, beijos, golpes no jogo do bafo e formas originais de passar cola nas provas. Conviver com os craques deu régua e compasso, como diria o poeta, para negociar os dons ou bens que a vida me presenteou. Era chegado o momento da clareza espiritual, da dor de saber que a vida não é justa e tem seus caprichos inapeláveis. Essa dor é da mutação, momento das desilusões e dos profundos aprendizados, onde depositamos o lixo das nossas fantasias e trocamos pelas descobertas ou desenvolvimento de outras qualidades que nem sabíamos que dominávamos.

Em meu caso, vieram os livros. E com eles, a escrita.

Queria ser como Gustavo Scarpa, mas a vida ofertou polos opostos e hoje escrevo enquanto ele desfila pelos estádios e arenas. Não consigo mensurar se como escritor sou goleiro, lateral, zagueiro, volante ou atacante. Confesso que minha fascinação é pelo 10 clássico, como Tolstoi, Machado, Clarice, Virginia, Conceição; como Edson, Lionel, Diego, Marta, Gustavo. A torcida é para que seus olhos um dia tropecem em mim numa prateleira, assim como um dia os meus o contemplaram vestindo o manto verde que elegi amar desde a infância. Afinal, quem saberá predizer os caminhos e as encruzilhadas dos destinos?

Falar que gosto do atleta pode parecer redundante agora que ele faz gols diversos em um campo aonde atuo, o da literatura; mas a verdade que já procurava desde a adolescência um atleta que tivesse uma dimensão própria, além do futebol, e esses foram poucos: Reinaldo, Afonsinho, os democratas corintianos e queles do bom-senso. Agora encontro essa correspondência em alguém que já vestiu o mesmo manto que ostento em meu guarda-roupa.

Acreditem, isso é caro, de tão raro.

 

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Foto Fabio Giovanelli / Soccer Digital, alterada por IA


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