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6.6.15

Parceria em Moçambique - Revista SOLETRAS







A internet permitiu que eu adentrasse na literatura moçambicana que não é midiática, tampouco menos rica, densa e ululante. Junto com Mia e Chiziane, vem uma porção de gente muito legal, que tem me permitido ampliar o horizonte de contemplações que está a oeste do oceano Índico.

A revista SOLETRAS, na qual pude contribuir com um texto para a edição recente ( maio), é uma prova dessa resistência e afirmação (https://www.dropbox.com/s/f9214iebssfzt1m/SOLETRAS%20MAIO%20DE%202015.pdf?dl=0)

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.

Quem quiser conhecer um pouco mais da nova literatura praticada em Moz, tenho alguma coisa em meus arquivos. Confiram:

- Entrevista com Pedro Pereria Lopes: http://escobarfranelas.blogspot.com.br/2013/06/entrevista-pedro-pereira-lopes.html

- Entrevista com Angelina Neves (Parte 1): http://www.recantodasletras.com.br/entrevistas/2177575

- Entrevista com Angelina Neves (Parte 2): http://www.recantodasletras.com.br/entrevistas/2231901

- O poeta Sanjo Muchanga é colaborador do portal Entrementes (São José dos Campos, SP), no qual também dou minhas contribuições: http://entrementes.com.br/2014/06/antes-de-despertar-do-sonho/






11.5.15

Um poemeu: "Às vezes"



ÀS VEZES

quando te amo
te digo
sinto

quando te digo
te amo
minto

quando te sinto
te amo

quando te minto
te amo

quando te amo
te amo
Escobar Franela

5.5.15

Um conto (ou um exercício de terror): Fim de semana na praia

http://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=0CAYQjB0&url=http%3A%2F%2Fwww.littlepicklepress.com%2Ftag%2Ffeatured-young-writer-of-the-month%2F&ei=JTFJVY_zOdfdsASRoYHACA&bvm=bv.92291466,d.cWc&psig=AFQjCNHmK8phk06OlWMXYhAePAvqrUQ2nQ&ust=1430946410247716

http://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=0CAYQjB0&url=http%3A%2F%2Furbanlegends.about.com%2Fod%2Fhorrors%2Fss%2FTravel-Horror-Stories.htm&ei=ojFJVYn8HK6HsQSxu4CYDA&bvm=bv.92291466,d.cWc&psig=AFQjCNHmK8phk06OlWMXYhAePAvqrUQ2nQ&ust=1430946410247716

https://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=0CAYQjB0&url=https%3A%2F%2Famywhitedesign.wordpress.com%2F2012%2F04%2F22%2Fhorror-story-killer-bees-attack-nudists%2F&ei=2DFJVZLCI7iIsQSyyYG4BA&bvm=bv.92291466,d.cWc&psig=AFQjCNHS4aDYyak8BMtu7kHbVxfJv_ISfg&ust=1430946621587938
Fim de semana na praia


Passou, pagou, pegou a chave.
A velhinha tá de dá dó.
Van até o metrô. Metrô até a Sé. Sé até Jabaquara. Van de novo, agora descendo a serra, Anchieta com o trânsito de sempre, carregado. Entrou na cidade, trânsito do mesmo jeito, doido e demorado. Desceu na esquina.
Saiu caminhando pela transversal. Gostava do carinho do vento na cara, vento por aqui mais úmido, mais intenso, mais nervoso. A areia vinha bêbada, em atropelos contra o cabelo, grudando na língua, riscando as fossas do nariz. O sol, encardido e forte, também não dava tréguas. Melhor assim, pensou. O fim de semana promete.
Sacou o molho de chaves do bolso, deu uma conferida no predinho judiado. Abriu o portão, passou pelo primeiro pavimento, quase tudo fechado, caminhou para o elevador. Olhou o relógio, quase cinco da tarde.
O barulho de martelo repicava no ambiente, o hall da entrada estava todo travado por madeiras, montes de areia e pedra e sacos de cimento. Esticou o pescoço, dois pedreiros, acocorados de costas, esticavam a régua, estavam trocando o piso. Deu a volta, a porta estava fechada. Pegou a segunda chave e abriu. Decidiu ir pela escada mesmo.
O quadro enorme estava no chão, junto com o espelho da outra entrada. Ambos cheios de pó. Tá na hora de trocar esses também, pensou. Tantos anos que venho aqui e nunca trocaram esse quadro feio, já todo meio cinza meio marrom. E esse espelho também, com essa moldura feia e velha, tomara que troquem tudo. Até a câmera tinha sido arrancada, ficara enganchada na presilha como se fosse um pescoço quebrado e caído.
Pensava, deveriam trocar tudo, o elevador antiquado q3eu fazia um barulhão dos diabos. E demorava uma década para subir. Deveriam trocar até esse prédio antiquado, parecendo peça de museu. Subia devagar, a pequena mala pesava. Contornou a última curva, abriu a porta e deu de frente o apertamento.
Não tem ninguém nessa porra? Pode não ter ninguém nessa joça mas tenho certeza de que já já aquela síndica chata vai aparecer por aqui. Já já vai chegar com aquele olhão enorme que vê tudo e fazer a ladainha de sempre, não faz isso, não aquilo, não pise ali, não faz barulho, não pode ter mais de seis no apê, não não não. A mulher só sabe falar pela linguagem do não.
O corredor era puro breu, sem movimento, sem janelas. Uma luz perpendicular descia pelas escadas e bateu seca contra o chão vermelho escuro. Procurou o botão de luz mas não encontrou. Dirigiu-se para a porta. Quando a abria, o elevador passou devagar e trôpego, fazendo um escarcéu com seus cabos. Entrou tatenado. Bateu a palma da mão até encontrar a tomada. Um cheiro forte de chulé saiu das entranhas da casa e fugiu para o corredor. Caraio, será que esqueceram um sapato velho aqui? Tonteou, abriu a cortina e a janela da sala, o vitrô da cozinha, escancarou a janela do quarto e olhou a rua. Lá de cima chegava apenas o alarido das ruas abafado pelo dolby da distância. Voltou para a cozinha, de onde podia se enxergar melhor um trecho do mar. De lá ficou um bocadinho de tempo observando uma ponta da baía. Vazia. Uns poucos pescadores, dois ou três barquinhos à solta, um jet-ski acelerado riscando uma barba branca na pele azulada e um veleiro bem longe. Na praia, uns velhos curtiam suas estrias, a flacidez daquela hora morta.
Voltou, o chulé passara quase de todo, deixando apenas uma réstia falha de odor de vinagre. Pensou que pudesse ser um alho ou cebola podre. Olhou nos cantos da pia, dos armários e do fogão. Nada! Depois vou ver na sala e no quarto. Abriu também o banheiro, voltou ao quarto, depositando na passagem a mala sobre o sofá. Tudo estava arrumado, cada coisa em seu lugar.
O celular tocou, oi amor, tudo bem?  Aqui tá. Cheguei! Cheguei agora. Tá tudo arrumadinho já, uma beleza. É, vou só passar uma vassoura, comprar umas cervejas e depois vou dormir! A que horas vocês chegarão? Tá bom! Bem, quando chegar provavelmente vou acordar. Tudo bem. Beijão, tchau! Desligou.
Olhou o chão novamente. Não precisava nem de vassoura. Parecia que tinha sido lustrado ontem. A mulher me falou que faz quase um mês que não aluga e não tem pó. Ou ela tá maluca ou tá mentindo. Pensou em ir buscar a cerveja mas ficou com preguiça. Vou é dormir, antes que o povo todo chegue de uma vez, na madrugada.
Durante o banho, pensou melhor. Se enxugou, saiu, comprou a bebida, voltou, deitou, dormiu.
Duas e vinte e cinco da madrugada e o pessoal chegou.  Mulher trouxe um mundaréu de gente, o filho. A irmã, o cunhado, sobrinhos buliçosos. Trouxe vozerio descontrolado, gritinhos de felicidade das crianças no meio da madrugada, cestas amarrotadas, malas pesadas e bolsas amassadas. E mais colchonetes e edredons. O cunhado perguntou se podia guardar o carro na garagem, ele cedeu a chave e o homem desceu. A duas mulheres se revezavam na arrumação. Era um tal de tirar o colchão do beliche, arrumar os lençóis,  puxar as beiradas e a criançada pulando feliz de uma canto pra outro. Nem parece que tinham dormido a viagem toda.
Ele, ainda sonolento, não sabia como ajudar e foi pra cozinha. A mãe pediu então para o filho para prender a ponta debaixo do colchão. O menino, a contragosto, atende ao pedido e debruça-se para debaixo da cama enorme. Antes de cumprir a tarefa, vira-se para o alto e grita, tem um hômi dormindo aqui debaixo.
Era bem jovem, estava morto.


Escobar Franelas

6.4.15

Um poemeu: "Canção Clara"






 fotos: Raquel Ramos

basta uma manhã
única
de úmido sol de outono
uma manhã preguiçosa
estirada sobre um cavalete
ou numa canção de caetano

basta este clarão
esse ás tirado à sorte
primavera que se ameaça
sinfonia em sol maior com nona aumentada
esse ar marinho embriagante

basta isso
e verão
que o inverno
são os outros

5.3.15

Considerações sobre a poesia






"A Poesia não é cordial, tampouco democrática, cristã ou educada. A Poesia é apenas... justa!"

Um poemeu: "Ceciliando"


eu sou um título em caixa alta
não sou notícia nem ficção
sou poema

trago em mim todas as cores ainda não criadas
e sons ainda não ouvidos
as dores em várias camadas
todos os tons em todos os sentidos

eu só ando de cabeça alta
não sou alegre nem sou triste
sou um falso profeta
um falso convite
falso brilhante
sou poeta



18.2.15

Resenha - livro "Oliveiras Blues" (Akira Yamasaki)






Oliveiras Blues - A alquimia poética de Akira Yamasaki

oh pássaro breve
leve-me leve

A Poesia é, das expressões da Arte, talvez a que melhor traduza a sensorialização do bicho humano diante das coisas do mundo e da vida. Pela sua própria forma de exteriorização (a escrita e a audição), a Poesia requer instrumentos específicos de emissão e recepção para que se manifeste. A boca, a mão, o ouvido (logo, a fala, o gesto e a interpretação), fazem dessa arte a tradução da vida. Se um dia for extinta a força que impulsiona o ser vivente à criação e fruição do êxtase artístico, é porque a vida está encerrada aqui sobre essa camada. Impossível imaginar o homem sem o insight criador da Poesia, elã que o liga ao mistério que o diviniza.
O blues é quase um mantra, música cantada ao léu por negros escravizados nos campos de algodão em toda a vastidão do sul estadunidense, traz em sua melodia todos os exílios do homem. Tanto  lamento como evocação divina, o blues é exaltação da África natal, é memória de seus mitos, lendas, guerras e amores.
Ler, portanto, “Oliveiras Blues”, segundo livro de uma produção caudalosa de um poeta brasileiro descendente de japonês, nascido no interior de São Paulo e crescido nos rincões da periferia de Sampa, parece um desencontro geográfico que só a Arte pode corrigir. Akira Yamasaki, nesta obra que homenageia o bairro onde vive, reafirma e reforça o raciocínio que tento elaborar. Demiurgo poético cujo refinamento vem da contemplação transparente e da reflexão nua, ao Akira pouco importa do que é feita a pedra, pois o melhor de sua alquimia é burilar essa pedra de tal forma que ela vire qualquer coisa em sua linguagem, em seu instinto criador. Assim, um simples olhar de um boi condenado vira mote para um texto que nos embriaga:

nunca esqueço
uma cena de infância

uma volta da pescaria
uma curva na estrada
um boi amarrado
pelas patas e pescoço
em duas árvores
uma marreta

ainda hoje me assombra
o olho do boi

Uma reflexão materna ilustra todas o desmedido amor de todas as mães do mundo: “(...) esse é treze de pedra e não tem cura, de hoje em diante só vou amá-lo e seja o que deus quiser”.


Também há uma vontade incontrolável de versejar a amada e a ela oferecer tudo o que sua matéria-prima permitir:

fiquei do outro lado
da rua da sua casa
sob a garoa da saudade

ficou no meu coração
enterrado para sempre
o punhal do seu perfume”.

E, justificando o título, o filho dileto presta culto à terra onde fincou suas raízes, o Jardim das Oliveiras, no extremo leste da cidade de São Paulo:

bem que estranhei
o movimento incomum
nos últimos dias 
mas só hoje eu soube
pelo cara do churrasquinho
que fica na porta
da rainha do oliveiras

houve, alguns dias atrás
uma rebelião na fundação
coisa feia mesmo
só para constar
o diretor da instituição
ainda está na uteí

queima de colchões
queima da unidade
queima de arquivos
e uma pá de moleques
pá pá pá nas ruas

por mera coincidência
vi dedo mole de novo
adequado ao padrão fifa
tênis da mizuno
boné do neymar

Akira tem a peculiaridade de pegar a crônica mais vã, a mais prosaica visão do cotidiano e transformar, com toques sutis de poeta genial - que ele de fato é - a trama refinada que lembra a confecção de um tapete persa fino e raro. Este “Oliveiras Blues”, que poderia trazer o peso quase insustentável da musicalidade densa e etérea oriundas das fazendas ensolaradas do sul dos Estados Unidos, confunde, e traz o frescor da nota que não saiu na página policial do jornal. Traz o lirismo que desconcerta o leitor, a luz que destoa do cinza previsível da rotina. O brasileiríssimo poeta, descendente de orientais, que se dá ao luxo de abrir mão de régua e compasso na elaboração de suas composições, o generoso articulador cultural que mantém vários projetos de produção artística na região aonde mora, Akira Yamasaki, neste novo livro (o primeiro foi o já clássico “Bentevi, Itaim”, de 2012), proclama com clareza tão óbvia que até nos tonteia:

não adianta portos
navios e oceanos
se não há acenos
partidas e chegadas

Em tempo: “Oliveiras Blues” é um dos quatro títulos da série E.X.E.M.P.L.O.S., desenvolvida pela editora Lunna Guedes para a Scenarium Plural. Todos os livros dessa série foram feitos manualmente.

Texto Escobar Franelas
Fotos: arquivo pessoal AY

17.2.15

Um poemeu: "Confidência de drummondiano"


CONFIDÊNCIA DO DRUMMONDIANO

alguns anos vivi em itaguases
principalmente nasci em itaguases
por isso sou triste, orgulhoso: de ferro
noventa por cento de ferro nos músculos
oitenta por cento de ferro nos ossos

a vontade de amar, que me paralisa o trabalho
vem de Itaguases, suas noites brancas, suas mulheres e seus horizontes.

e o hábito de sofrer, que tanto me diverte
é doce herança itaguaiana

de itaguases trouxe prendas diversas que ofereço:
essa pedra, esse ferro, futuro aço de meus braços
este são benedito, este santo daime, esta Iemanjá
este couro untado de suor, estendido no sofá da sala aos domingos
esse orgulho de cabeça baixa

tive ouro, tive gado, tive fazendas
hoje sou funcionário público
itaguases é apenas uma fotografia na parede
mas como dói!


poema: Escobar Franelas (livremente baseado em Confidência de Itabirano, CDA)
foto: http://penseforadacaixa.com/wp-content/uploads/2013/04/Est%C3%A1tua-Carlos-Drummond.jpg 

10.2.15

Um poemeu: "Ave, Cézar!"



foto: arquivo feicibuquiano de Célia Maria Ribeiro

Ave, Cezar!

 Hoje pela manhã
No aconchego do lar
Estava em desassossego.
Como poderia estar bem
Se lá, depois da neblina
Dentro do Santa Marcelina
A dor mantém um refém?

Sem saber o que fazer
Me pus a compor versos
Pois esse é o meu terço
Minha maneira de rezar
O que me dá prazer
E faço em qualquer lugar.
Prazer igual, só o do sexo.

A caneta andando sem rumo
Desfilando no papel jornal
Coloquei a mente no prumo
Me peguei filosofando:
Vou tentar ser maioral
Quero ser bem igual
Esse tal de Cezar Baiano.

(Homenagem aos 55 anos de idade do bróder Cézar Baiano, que é uma estrela em algum lugar desse infinito)