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25.7.15

Um poemeu: "A metalinguística da metafísica"




súbito 
o céu é sol
o sol é quente
quente é o sal
sal é veneno
veneno é tempero
tempero é sentido
o sentido é a projeção
a projeção é a pose
a pose é posse
posse é pré-domínio
pré-domínio é amor
amor é o inferno
inferno é o céu

21.7.15

Entrevista: JOÃO TIMANE (Artes Visuais) - Moçambique


O criador e sua obra, em exposição em Moçambique (foto: arquivo JT/Facebook)
A enigmática capa da revista Entrementes (Brasil) 
Explosão de cores, efeitos e sensações (foto: arquivo JT/Facebook) 
(Foi na revista Entrementes (São José dos Campos, São Paulo, Brasil), na edição Outono de 2015, que tive o primeiro contato com João Timane. Seu trabalho “Hirondina Joshua”, um acrílico sobre tela, ilustra, com força solar, a capa do periódico. Um rosto de tristeza enigmática sentenciado por um olhar de monalisa desdenhosa, cujos lábios tanto podem estar rindo vingativamente quanto podem estar contraídos numa dor extrema, oferecem um painel pan-étnico, que nos permite pensar inúmeras variações para este concerto de cor e traço. Fui pesquisar e descobri um jovem e árduo trabalhador das artes visuais em Moçambique. Nada mais natural do que querer compartilhá-lo aqui, com todos. Desfrutem-no! Edição de texto e seleção de fotos: Escobar Franelas)


1) Quem é João Timane?
João Timane é artista plástico moçambicano, formado pela escola Nacional de Artes Visuais em Maputo. Actualmente frequenta o curso de Engenharia Geológica e de Minas na Universidade Universidade Wutive. Nasceu, cresceu e vive no bairro do Aeroporto, conhecido internacionalmente como sendo o bairro dos artistas.


2) Quando foi que você sentiu as primeiras manifestações da arte em sua vida?
JT: Desde infância já fazia arte sem noção. Fazia desenhos infantis de bonecos que via pela televisão. Em 2009 concorri a Escola Nacional de Artes Visuais por conselho do meu primo Timóteo Bila que na altura era o meu encarregado de Educação.
Longe de pensar que fosse ser artista e que existiam escolas que formam técnicos de artes visuais. Quando entrei por acaso com a melhor nota, dediquei-me duma forma extremamente intensiva que cheguei a perder amigos por esta paixão, isto porque não dava mais atenção a eles... Desenhava dia e noite.
Certo dia com alguns colegas de nomes Patrício Simbine (artista) e Santos Pitelek visitamos o Museu Nacional de Arte. Foi ali que a verdadeira paixão fluiu no meu interior, quando logo na entrada deparei-me com as belas e magníficas pinturas do artista moçambicano  radicalizado em Portugal, Roberto Chichorro. A maravilhosa combinação cromática e a alegria deste povo moçambicano ali representado cativou-me profundamente, foi quando depois fui apreciando muitos outros artistas, identifiquei-me também nas pinturas do Naguib, pertencentes à sua primeira exposição intitulada “O grito da paz”. Desde lá até hoje esta paixão não hospedou mas sim encontrou o seu verdadeiro lar no meu interior, um lugar  onde os poetas tem mencionado bastante, esse lugar chama-se coração.


3) Já participou de alguma exposição, individual ou coletiva? Quando? Aonde?
JT: Claro que sim.  Estou nas artes plásticas profissionalmente há 6 anos e desde lá fiz duas exposições individuais na Mediateca do BCI em Maputo, sendo que a primeira intitulada "Cartas dum grau de mostarda" e a segunda "Retratos de mil gotas de sonho" e  sempre participei em inúmeras exposições coletivas dentro e fora do país.


4) Como é o seu processo de produção? Tem um dia ou horário certo para produzir? Divide a tarefa com outros afazeres? Consegue ficar muito tempo sem produzir?
JT: Confesso ser um artista sem processo definitivo de produção, isto porque tudo depende da inspiração do artista que está em mim. Sou um artista movido pelo espírito espontâneo, ou seja, produzo o que vem em mente nesse exato momento.
Para além de artista plástico, sou estudante de engenharia geológica e de minas em Maputo e para além dessas duas áreas, tenho feito exercícios físicos pois sou apaixonado pelo fitness.
Não consigo de jeito nenhum ficar sem produzir mesmo sem material, trabalho com o que existir nesse momento, por exemplo, na falta de tintas, faço desenhos artísticos, na falta da tela, pinto em cartolinas...


5) Por que a falta de tintas e telas?
JT: As tintas no pais em que encontro-me infelizmente existem em pouca quantidade, sendo este rico em diversidade plástica. Neste exato momento estou a pintar quadros e os mesmos não estão à venda, logo, este é um dos motivos pelos quais o artista acaba tendo dificuldade em aquisição do material.


6) Como você entende que este problema pode ser resolvido? Trabalhar na importação? Incentivo à indústria química para que produza os materiais que os artistas necessitam? Criação de cooperativas?
JT: No meu ponto de vista, as instituições comercias deviam importar mais os materiais de pintura, ou seja, das artes plásticas no geral, apesar de que o artista não se limite no que é novo mas sim recicla o que lhe rodeia e para o restante da população não tem beneficio com a finalidade de produzir um utensílio utilitário. Enquanto não serem importadas as tintas pelas instituições comerciais locais, continuaremos saindo do país em busca principalmente  na vizinha África do Sul, sendo assim as telas ficam ainda mais caras e esta acaba sendo uma dificuldade para aquisição das mesmas pelo povo moçambicano.


7) Você considera que os artistas estejam procurando caminhos para uma produção menos individual e voltada mais para o coletivo? Ou há uma exacerbação do individualismo tipicamente ocidental?
Há uma década atrás era abusivamente notável a presença do individualismo nas artes plásticas africanas, especificamente nesta região que pertenço mas, nestes últimos tempos graças a alguns artistas estudados além continente africano,  as coisas mudaram devido a essas influências que visavam a unir os artistas em movimentos fortes para a elevação das artes plásticas moçambicanas em particular.
Contando também que perdemos grandes fazedores das artes plásticas moçambicanas, estes que elevaram o nome de Moçambique além fronteiras.  Daí que surge um grupo extremamente forte designado Muvart (Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique ) liderado pelos artistas e professores de arte Jorge Dias e Pumpílio Hilário, artisticamente conhecido como Gemuce, grupo este que trouxe um questionamento na arte actual devido a forma de expressão diferente do habitual e principalmente por trabalharem com a reciclagem num país com muita diversidade de objectos recicláveis.
Desde já parabenizo a este grupo constituídos pelos artistas Gemuce, Jorge Dias, Mudaulane, Carmen Muiengua, Titos Mabota...


8) Como você vê a produção visual na arte que se pratica no momento?
Baseando-me no princípio de que no mundo quase tudo já se fez, actualmente a nossa geração vive refazendo, ou seja, reconstruindo o que já se fez pelos grandes artistas da antiguidade, modernizando e contextualizando com o momento contemporâneo.
Penso que é um momento em que as coisas tornaram-se fáceis principalmente com a implementação da tecnologia nas artes plásticas.


9) Tem predileção por algum artista, ou grupo, ou coletivo, na arte moçambicana e/ou brasileira e/ou mundial atual?
Desde o princípio da carreira artística sempre inspirei-me pelos artistas moçambicanos: Chichorro (actualmente radicalizado em Portugal), Naguib, João Paulo Quehá, Gemuce e Silvério Sitoe. Estas grandes referências das artes plásticas moçambicanas tem influenciado grande número de jovens aqui.
 Além fronteiras tenho visto e acompanhado o que se está a fazer mas não tanto para que não haja muita influência extra europeia nos meus trabalhos artísticos, porque isso dificulta a identidade do artista, embora alguns conseguem estar no seu devido lugar. Mas a maioría está fazer arte extra europeia, ou seja, já não tem raízes.


10) Por último, tem alguma pergunta que gostaria que eu tivesse feito e não fiz? Caso haja, por favor formule-a e responda em seguida. Obrigado.
Bem, quanto às perguntas, eu penso que foram as essenciais e através de algumas foi possível falar de outros assuntos, ou seja, responder a algumas perguntas não feitas. Desculpe a demora para responder. Nestes últimos tempos andei muito atarefado,  na maioria das vezes mostra que estou online, mas se calhar, distante hehehehehhe...

Obra de JT também na capa da revista literária Omnira (Moçambique)
Um artista escultor de sinuosidades (foto: arquivo JT/Facebook)
Capa do catálogo de exposição individual de JT (Moçambique)


9.7.15

Resenha - livro "Os laços da fita" (Fernando Rocha)



Fernando Rocha na Casa Amarela (S. Miguel Pta.), clicado por Xavier

Os Laços da Fita (Fernando Rocha)

Uma mãe que perde um filho e o marido logo a seguir, que cuida do neto órfão, já que a mãe deste está internada pelo excesso de consumo de drogas diversas. Que vê o outro filho, mais velho, abandonar a promissora carreira de jogador e entregar-se passivamente à bebida.
Escrito assim, pode-se pressupor que “Os Laços da Fita”, segundo livro do escritor paulistano Fernando Rocha, é uma ode niilista, deprê, ao contrário, uma “desode”, uma entrega passiva da vida às circunstâncias impostas. É!
É isso mesmo. “Os Laços da Fita” é uma linha contínua de ruptura, que estabelece uma antiordem nas convenções medianamente aceitas.

A vida é muito longa quando se está sozinho sim, e não há companhia que resista ao fantasma da solidão, ele afugenta como cão bravo, ninguém tem coragem de encarar, muito menos de ouvir o rosnado feroz do silêncio.” (p. 74)

E mais, muito mais: Fernando Rocha é um autor que sabe como poucos burilar o interior nada homogêneo dos seres em processo que somos. Se as câmeras insistem em ter um plano composto, distante, frio e imparcial, o autor recorre ao close-up, à profundidade da digressão, dialoga com os demoninhos que habitam os pensamentos. Por exemplo, neste hiato poético de um dos personagens, dentro do enredo contundente da prosa:

Ora, Horas!
Este eterno cortejo fúnebre.” (p. 75)

Já em seu livro anterior, “Sujeito Sem Verbo”, Rocha nos indicava o caminho por onde trilha, entre as sombras, próximo das margens mais pantanosas, onde percebe melhor a massa do que somos feitos. Marceneiro que sabe como desbastar, lixar e limar a madeira com que irá esculpir um mundo muito particularizado, o autor instaura em sua obra uma construção in progress do humano, em que aos poucos vamos percebendo e reconhecendo cada nó da madeira, cada fio mantido visível, cada lâmpada mantida acesa ou apagada, cada fímbria por onde passam os pós que irão nos sujar, no sufocar, aderir em nossas peles e contaminar nossos olhos.

Em alguns momentos tropeçamos e entre o chão e o levantar parece estar a eternidade. Quando estamos eretos, não percebemos o tempo, mas com o rosto rente ao chão é possível ver as pegadas do fracasso, do nada, do vazio.” (p. 7)

Insisto neste preâmbulo noturno, pois é necessário não enganar o leitor: Fernando Rocha não oferece perfume; antes, mostra os espinhos. Propõe que enxergue a flor como ela é, em sua totalidade.
Em “Os Laços da Fita”, os fios se tornaram um único laço que por sua vez, virou nó, difícil de desatar. Arrisco dizer que este nó só se desfará se for em outro sentido, em outra forma, apertando, apartando, comprimindo e matando, homicida ou suicidamente; eufemística ou realisticamente. Faço, aliás, um recorte aqui: a capa é bem emblemática em oferecer subsídios para essa interpretação. Sua ilustração é uma forca. O nó dessa forca, contudo, é feito com uma sequência de diversos tipos e tamanhos da palavra “viver”. A gradação das quatro letras (o “v” é repetido), faz com que pareça uma corda industrializada, onde as linhas estão banalizadas, cumprem apenas a sua função primária. Viver então seria prender, amarrar, sufocar. Paradoxalmente, o fim utilitário dos vários “viver” encadeados, seria a morte. Na trama, porém, depois de percorrermos os subterrâneos sombrios, uma luz se insinua no fim dos túneis e corredores por onde trafegam a mãe que também é avó, o filho que também é tio, o neto que também é sobrinho.
Estar lançado no mar revolto dessas sensações que, de tão bem descritas, marcam nossas peles, envolve o leitor de “Os Laços da Fita” num enredo profundo, numa névoa que exigirá muito cuidado até chegar à ilha da redenção. Quem suportar esse mergulho profundo, não sairá o mesmo quando quando chegar ao porto seguro do último ponto, o final. Sairá dessas águas em estado de purificação, batizado, transformado e levitado. Nada de mitologias cristãs, por favor. Estou falando de outras inteligências: subjetivas, introspectivas e intuitivas.
Relendo essa resenha, tomo um susto, quase me sai outra coisa, um ensaio fugidio talvez. Quis elogiar, considerar, persuadir, mas só soube viajar nos labirintos de uma trama feita com os melhores cipós da floresta existencial. Perdoe, Fernando, mas não soube escrever de outra forma. Sei que seu livro merece considerações mais objetivas de gente mais competente mas minha tagarelice só me levou para esses mangues e pântanos. Mas a culpa é sua, quem manda escrever tão bem? Tão bem que confunde...

Onde foi parar o menino que chorava sentido? Agora ele escreve e acha que é mais bonito do que chorar, chega de estilística, meus olhos embaçados quiseram eternizar a beleza do comum, mas falharam.” (p. 29)

Escobar Franelas

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“Os Laços da Fita”
(Fernando Rocha)
88 pág.
Editora Penalux, SP, 2014 (www.editorapenalux.com.br)




18.6.15

Um poemeu: "Be Soul"


BE SOUL

não sou capitalista
não sou comunista
não sou anarquista
sou tudo isso: talvez outro ser

não sou nada prático
não sou carismático
não sou democrático
sou tudo isso: talvez outro ser

não sou ateu
não sou judeu
não sou ladrão
sou tudo isso: talvez outro ser

não sou artista, não sou polícia, nem cristão
sou tudo isso
talvez outro ser

não sou homem, nem sou mulher, tampouco animal
sou tudo isso
talvez outro ser

não sou poeta, não sou profeta, nem humano
sou tudo isso,
talvez outro ser

não sou um 10
eu não sou 3
talvez seja 1:
um outro ser


15.6.15

Um poemeu: "Chomskyano"

CHOMSKYANO

não desconfiaram que não sabem
não descobrirão que não sabem
não sabem que não sabem

7.6.15

Ligia Regina e Eder lima musicam meu poema "Pisagens"

Foi com muita emoção que em novembro do ano passado a Lígia Regina e seu marido, Éder Lima, pegaram um poema meu, "Pisagens" e musicaram ela de maneira muito singela. Apreciem:

https://www.youtube.com/watch?v=cAz-WKW3ue4


6.6.15

Parceria em Moçambique - Revista SOLETRAS







A internet permitiu que eu adentrasse na literatura moçambicana que não é midiática, tampouco menos rica, densa e ululante. Junto com Mia e Chiziane, vem uma porção de gente muito legal, que tem me permitido ampliar o horizonte de contemplações que está a oeste do oceano Índico.

A revista SOLETRAS, na qual pude contribuir com um texto para a edição recente ( maio), é uma prova dessa resistência e afirmação (https://www.dropbox.com/s/f9214iebssfzt1m/SOLETRAS%20MAIO%20DE%202015.pdf?dl=0)

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.

Quem quiser conhecer um pouco mais da nova literatura praticada em Moz, tenho alguma coisa em meus arquivos. Confiram:

- Entrevista com Pedro Pereria Lopes: http://escobarfranelas.blogspot.com.br/2013/06/entrevista-pedro-pereira-lopes.html

- Entrevista com Angelina Neves (Parte 1): http://www.recantodasletras.com.br/entrevistas/2177575

- Entrevista com Angelina Neves (Parte 2): http://www.recantodasletras.com.br/entrevistas/2231901

- O poeta Sanjo Muchanga é colaborador do portal Entrementes (São José dos Campos, SP), no qual também dou minhas contribuições: http://entrementes.com.br/2014/06/antes-de-despertar-do-sonho/






11.5.15

Um poemeu: "Às vezes"



ÀS VEZES

quando te amo
te digo
sinto

quando te digo
te amo
minto

quando te sinto
te amo

quando te minto
te amo

quando te amo
te amo
Escobar Franela

5.5.15

Um conto (ou um exercício de terror): Fim de semana na praia

http://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=0CAYQjB0&url=http%3A%2F%2Fwww.littlepicklepress.com%2Ftag%2Ffeatured-young-writer-of-the-month%2F&ei=JTFJVY_zOdfdsASRoYHACA&bvm=bv.92291466,d.cWc&psig=AFQjCNHmK8phk06OlWMXYhAePAvqrUQ2nQ&ust=1430946410247716

http://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=0CAYQjB0&url=http%3A%2F%2Furbanlegends.about.com%2Fod%2Fhorrors%2Fss%2FTravel-Horror-Stories.htm&ei=ojFJVYn8HK6HsQSxu4CYDA&bvm=bv.92291466,d.cWc&psig=AFQjCNHmK8phk06OlWMXYhAePAvqrUQ2nQ&ust=1430946410247716

https://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=0CAYQjB0&url=https%3A%2F%2Famywhitedesign.wordpress.com%2F2012%2F04%2F22%2Fhorror-story-killer-bees-attack-nudists%2F&ei=2DFJVZLCI7iIsQSyyYG4BA&bvm=bv.92291466,d.cWc&psig=AFQjCNHS4aDYyak8BMtu7kHbVxfJv_ISfg&ust=1430946621587938
Fim de semana na praia


Passou, pagou, pegou a chave.
A velhinha tá de dá dó.
Van até o metrô. Metrô até a Sé. Sé até Jabaquara. Van de novo, agora descendo a serra, Anchieta com o trânsito de sempre, carregado. Entrou na cidade, trânsito do mesmo jeito, doido e demorado. Desceu na esquina.
Saiu caminhando pela transversal. Gostava do carinho do vento na cara, vento por aqui mais úmido, mais intenso, mais nervoso. A areia vinha bêbada, em atropelos contra o cabelo, grudando na língua, riscando as fossas do nariz. O sol, encardido e forte, também não dava tréguas. Melhor assim, pensou. O fim de semana promete.
Sacou o molho de chaves do bolso, deu uma conferida no predinho judiado. Abriu o portão, passou pelo primeiro pavimento, quase tudo fechado, caminhou para o elevador. Olhou o relógio, quase cinco da tarde.
O barulho de martelo repicava no ambiente, o hall da entrada estava todo travado por madeiras, montes de areia e pedra e sacos de cimento. Esticou o pescoço, dois pedreiros, acocorados de costas, esticavam a régua, estavam trocando o piso. Deu a volta, a porta estava fechada. Pegou a segunda chave e abriu. Decidiu ir pela escada mesmo.
O quadro enorme estava no chão, junto com o espelho da outra entrada. Ambos cheios de pó. Tá na hora de trocar esses também, pensou. Tantos anos que venho aqui e nunca trocaram esse quadro feio, já todo meio cinza meio marrom. E esse espelho também, com essa moldura feia e velha, tomara que troquem tudo. Até a câmera tinha sido arrancada, ficara enganchada na presilha como se fosse um pescoço quebrado e caído.
Pensava, deveriam trocar tudo, o elevador antiquado q3eu fazia um barulhão dos diabos. E demorava uma década para subir. Deveriam trocar até esse prédio antiquado, parecendo peça de museu. Subia devagar, a pequena mala pesava. Contornou a última curva, abriu a porta e deu de frente o apertamento.
Não tem ninguém nessa porra? Pode não ter ninguém nessa joça mas tenho certeza de que já já aquela síndica chata vai aparecer por aqui. Já já vai chegar com aquele olhão enorme que vê tudo e fazer a ladainha de sempre, não faz isso, não aquilo, não pise ali, não faz barulho, não pode ter mais de seis no apê, não não não. A mulher só sabe falar pela linguagem do não.
O corredor era puro breu, sem movimento, sem janelas. Uma luz perpendicular descia pelas escadas e bateu seca contra o chão vermelho escuro. Procurou o botão de luz mas não encontrou. Dirigiu-se para a porta. Quando a abria, o elevador passou devagar e trôpego, fazendo um escarcéu com seus cabos. Entrou tatenado. Bateu a palma da mão até encontrar a tomada. Um cheiro forte de chulé saiu das entranhas da casa e fugiu para o corredor. Caraio, será que esqueceram um sapato velho aqui? Tonteou, abriu a cortina e a janela da sala, o vitrô da cozinha, escancarou a janela do quarto e olhou a rua. Lá de cima chegava apenas o alarido das ruas abafado pelo dolby da distância. Voltou para a cozinha, de onde podia se enxergar melhor um trecho do mar. De lá ficou um bocadinho de tempo observando uma ponta da baía. Vazia. Uns poucos pescadores, dois ou três barquinhos à solta, um jet-ski acelerado riscando uma barba branca na pele azulada e um veleiro bem longe. Na praia, uns velhos curtiam suas estrias, a flacidez daquela hora morta.
Voltou, o chulé passara quase de todo, deixando apenas uma réstia falha de odor de vinagre. Pensou que pudesse ser um alho ou cebola podre. Olhou nos cantos da pia, dos armários e do fogão. Nada! Depois vou ver na sala e no quarto. Abriu também o banheiro, voltou ao quarto, depositando na passagem a mala sobre o sofá. Tudo estava arrumado, cada coisa em seu lugar.
O celular tocou, oi amor, tudo bem?  Aqui tá. Cheguei! Cheguei agora. Tá tudo arrumadinho já, uma beleza. É, vou só passar uma vassoura, comprar umas cervejas e depois vou dormir! A que horas vocês chegarão? Tá bom! Bem, quando chegar provavelmente vou acordar. Tudo bem. Beijão, tchau! Desligou.
Olhou o chão novamente. Não precisava nem de vassoura. Parecia que tinha sido lustrado ontem. A mulher me falou que faz quase um mês que não aluga e não tem pó. Ou ela tá maluca ou tá mentindo. Pensou em ir buscar a cerveja mas ficou com preguiça. Vou é dormir, antes que o povo todo chegue de uma vez, na madrugada.
Durante o banho, pensou melhor. Se enxugou, saiu, comprou a bebida, voltou, deitou, dormiu.
Duas e vinte e cinco da madrugada e o pessoal chegou.  Mulher trouxe um mundaréu de gente, o filho. A irmã, o cunhado, sobrinhos buliçosos. Trouxe vozerio descontrolado, gritinhos de felicidade das crianças no meio da madrugada, cestas amarrotadas, malas pesadas e bolsas amassadas. E mais colchonetes e edredons. O cunhado perguntou se podia guardar o carro na garagem, ele cedeu a chave e o homem desceu. A duas mulheres se revezavam na arrumação. Era um tal de tirar o colchão do beliche, arrumar os lençóis,  puxar as beiradas e a criançada pulando feliz de uma canto pra outro. Nem parece que tinham dormido a viagem toda.
Ele, ainda sonolento, não sabia como ajudar e foi pra cozinha. A mãe pediu então para o filho para prender a ponta debaixo do colchão. O menino, a contragosto, atende ao pedido e debruça-se para debaixo da cama enorme. Antes de cumprir a tarefa, vira-se para o alto e grita, tem um hômi dormindo aqui debaixo.
Era bem jovem, estava morto.


Escobar Franelas