Era uma vez uma linda garotinha de gorro vermelho que comeu a vovozinha que matara um lobo que tinha traçado um caçador.
Morreu de indigestão, não sabemos se pela refeição ou pelas sobremesas.
Era uma vez uma linda garotinha de gorro vermelho que comeu a vovozinha que matara um lobo que tinha traçado um caçador.
Morreu de indigestão, não sabemos se pela refeição ou pelas sobremesas.
Havia muita coisa dentro da sala.
Muito pouca coisa se aproveitava naquela sala.
Pouca coisa foi doada tempos depois.
Hoje um jogo de muita sombra e pouca luz relata que tem uma sala obesa, estriada, cansada e relaxada naquela casa.
Entrou.
Estava afoita, sequer virou-se para me cumprimentar. Jogou o corpo contra a cadeira, que até gemeu, mas resistiu. Fiz sombra, nuvens desfilavam ao sol. Levantou-se. Partiu de novo. Contra todos.
Saiu.
Fiquei para cuidar de sua memória.
Você gosta de carne crua? - balançou os quadris e abaixou-se. Sorria com desenvoltura.
Como? - meu rosto queimava.
Você prefere crua?... Ou cozida? - gargalhou, o rosto expandindo-se maroto e solto.
Tentei rir também. Nada. Ela impacientou-se com discrição, abriu a porta e entrou no carro. Bafejou nas mãos.
Está uma friaca danada lá fora, sabia? - engraçado como ela continuava sorrindo ao falar. - Então?...
Então... O quê? - gaguejei.
Então... - ela também ficou perdida mas recompôs-se rapidamente. - Então, o que vamos fazer, benzinho?
Pela primeira vez, não gostei de estar ali. Perdi a timidez.
Desculpa, é minha primeira vez assim... Aqui... Não sei bem o que fazer. - sorri, buscando aquiescência. Ela não retribuiu. - Entende?
É, acho que entendo. - ela pareceu-me desanimada. Olhou para longe, os olhos escuros palpitando o silêncio. Já não sorria mais, mas o desenho da boca era o mesmo, bonito.
Entrevei-me na timidez, tudo de novo! Cerrei as mãos, impaciente, odiando estar ali. Ela socorreu-me numa nova tentativa:
Já sei o que você vai fazer. Vai me deixar aqui, numa boa, pegar o carro, dar uma volta no quarteirão. Se sentir confiança, você volta, nem que for só pra gente tomar um drinque. Somos excelentes psicólogas, sabia? - sorriu, esfregando sua gentileza na minha cara.
Pensei “isso é uma tremenda de uma insensatez”, balançando a cabeça que sim.
Tá certo. - disse sem certeza e sem sutileza.
Ela desceu do carro. Como eu não saía do lugar, exasperou-se:
Vamos, meu bem, se você tiver afim, vai voltar. Mas, anda, vai!...
Saí, quase cantando pneus. E nunca mais voltei.
Melhor, quando voltei, dois minutos depois, ela não estava mais lá.