Pesquisar este blog

29.11.19

Um textículo: "autobiografia"


o poema me pediu
uma autobiografia.

recitei:
sou a soma de todos os semáforos
que atravessei no vermelho no meio
da madrugada ou em frente ao guarda
todas as vezes que trafeguei na contramão
as conversões proibidas
a velocidade acima do permitido

e a multiplicação das encruzilhadas
onde me perdi
sem dividir isso com mais ninguém
tampouco subtrair os erros deambulantes

"poema, você que me pede essa autobiografia
deveria saber que sou abstrato
líquido disforme
alma dissonante. dentro de mim
bate esse corpo autoerrante
aqui tem um coração, e nele
todas as razões do mundo
para me jogar em seus braços
me arrastar a seus pés
me prostrar de joelhos
e falar que pra você confesso tudo
que pra você eu digo tudo
mas ainda assim não sou eu
não é o todo de mim que se declara aqui

poema, te amo
mas mesmo assim
por mais sincero que seja
você sabe que minto
você sabe onde eu minto
e mesmo assim, você sabe
- só você sabe - o que não sei
mas sinto"

o poema me pediu um poema
dediquei a ele esses rascunhos
"creio que você entende essa incrível
saudade da rima
essa paixão pelo ritmo
a devoção pelas imagens
mas você, poema, sabe, sabe muito
de minha inveja
de compositores, de artistas
sobre como transformo o teclado,
as folhas do caderno
num palco
e atuo pra você

poema, tenha dó dessa alma
cercada de corpo por todos os lados

poema,
tenha dó de minha falta de sentido
tenha dó do meu excesso de sentidos
tenha dó de eu não fazer sentido"

28.11.19

Um textículo: "peregrinação"


O mesmo drama.
A mesma brahma.
A mesma bruma.
Aliás, a mesma embromação.
Tudo bem. Vamos lá. Jacó e Isaque, co-irmãos, enfim desdebruçaram-se diante do tanque de areia. Havia muito a fazer.
Depois de uma longa jornada, com fome, cofiando suas barbas sujas, barbas feias e ralas, chegaram ao destino. Tomaram conta da casa almejada. Pintaram o sete. Aboletaram-se na cumeeira. Voavam em felicidades. 
De longe, quem os vê, imagina passarinhos.
Outro tanto de gente, a meio caminho, pensa enxergar anjos suspensos.
Algumas pessoas plasmam, choram e oram.
Tem criança que acredita em mágico.
Mulheres ciumeiam.
Tarólogos lêem o futuro.
Um grupo, o mais cético, cobra ingressos do espetáculo. Há muito a fazer. Organizar filas, por exemplo.

26.11.19

Um textículo: "oferenda"


Preciso te ver nem que seja entre meia noite e meia noite e meio dia entre o por do sol e o sol se pondo, 25 horas por dia Pra você faço farei fiz os mesmos versos Inimagináveis e impossíveis A loucura como diapasão

24.11.19

Um textículo: "convocação"


apresenta suas mãos
é chegada a hora
antes eram os livros de história
que descreviam vida e obra de mártires mortos
agora somos nós que vamos escrever
as próximas páginas
com suor e sangue

apresenta seus olhos
esteja atento
e aprenda que a vigília de agora
é porque dormimos em alguma hora errada
(os chacais nunca descansam, mesmo na hora
do gozo em motéis caros; não
dormem, ainda que bêbados, nem
descansam, mesmo em piscinas)

apresenta seus pés
suas cabeças
as esperanças
deposite tudo aqui
agora marche!

quanta tristeza há no dilúvio, meu deus!
dois a dois, os eleitos sobem
os degraus da imortalidade.
a seleção se prepara para zarpar
enquanto a torcida
solta fogos e bombas cedidos pelos céus
sem nenhum artifício

21.11.19

Um textículo: "a revolução"


as saídas estão todas tomadas
ouve
só sua solidão fala
no meio dessa multidão
as ruas intimidadas pela
falsa calmaria da normalidade

confessa
você fica feliz nas horas mais impróprias
você se envergonha de ficar feliz por muito tempo
urrando por dentro
em tímido contentamento pois comprou
algo da cor amarela; outro, azul ou preto

oras oras oras
seu sorriso é vulnerável
a felicidade é revolucionária
pois feita de beijos e abraços
atrai mais inimigos que a guerra

confessa
você já disse eu te amo pra muita gente, né?
repita, sempre que necessário. não há fórmulas
o amor é uma arma recarregável
e mais revolucionário que a felicidade

lembre-se
a revolução é um dos improvisos da utopia