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8.3.13

Entrevista: Francisco Xavier (poesia e fotografia)



Há casos em que a modéstia atrapalha. O médico, fotógrafo e poeta Francisco Xavier é um desses. Inspirado e tímido, o nordestino de comportamento zen, sorriso fácil e gestos comedidos, talvez não tenha ainda se dado conta de que o minimalismo com que compõe sua arte é elaboração extática e de profundo “atingimento”. Passei meses colhendo seu depoimento, via e-mail, no conta-gotas. Nessa empreitada de "desbravá-lo", descobri um pouco da essência que o move. O resultado desse diálogo está aqui. Convido-os a conhecê-lo.
Xavier: braço tenso, olhar atento
 1) Quem é Francisco Xavier? 

Em 1966 nasci no município de São Raimundo Nonato. Na Fazenda Duas Barras, coração árido do Piauí, chorei pela primeira vez.
Retirante, cheguei em São Paulo aos 10 anos.
Ingressei na Faculdade de Medicina de Taubaté no ano de 1987. A realização deste sonho trouxe-me uma alegria que me acompanha e me cura até os dias atuais. Abracei minha profissão com tanta força que a ela me fundi.
Sou o cirurgião que exibe no consultório, em São Miguel Paulista, um chapéu de couro sobre a mesa há 18 anos.
Casei-me após 20 anos de namoro e tenho 3 filhos, sendo que o mais velho, está seguindo os passos do pai.
Sou silvestre. Apesar da saudade do sertão ser permanente, sinto-me feliz na cidade que me acolheu.

2) Sabendo que suas mãos destilam arte na prática da medicina, sabemos que esse seu pendor artístico se estende por outras praias (poesia, fotografia etc). Como se deu esse "chamamento"?

Sou muito tímido e, minha timidez levava-me ao isolamento.
Na adolescência percebi que a música, o desenho, a fotografia e a poesia eram os meus remédios. Apeguei-me a eles, sem nenhuma pretensão, até os meus 22 anos.
Durante o curso universitário, inscrevi alguns trabalhos em concursos e, para minha surpresa, fui premiado algumas vezes.
Envolvido com o meu trabalho, fiquei cerca de 25 anos sem escrever.
Neste ano (2012) tive o prazer de conhecer vários artistas, muitos deles, participantes do histórico Movimento Popular de Arte (MPA). Entre tantos artistas maravilhosos tive o prazer de conhecer Escobar Franelas. Este poeta, generoso, teve a paciência de ler e comentar alguns escritos que eu escondia. Deu-me segurança e ânimo para um novo começo. Como agradecer?
Hoje, posso dizer que estes amigos e minha arte, mesmo amadora, foi o que trouxe de volta este meu riso, que tinha se tornado arredio.

3) De onde (e como) vem a inspiração para as artes que você pratica?

Tudo que eu faço tem como base a minha infância e as lembranças que trago da Fazenda Ciências, onde fui criado.
Acho muito difícil e arriscado o ato de escrever. Não consegui perder o medo. Escrever é como pular de um trampolim, fazer manobras no ar e confiar que o leitor, inclusive o próprio escritor, devolva o trapézio, evitando a queda.
Acredito que escrevo como quem toma um medicamento essencial para manter a vida, a saúde.
A fotografia, eu pratico de forma recreativa, com equipamento amador. Desejo estudar e adquirir alguma técnica futuramente.

4) Percebo que você tem um método, curiosidade e paixão pela pesquisa. Acredita que a prática da medicina ajuda na metodologia artística?

Sim. Devido ao treinamento que recebi, escrevo como um cirurgião. Quando faço a primeira incisão, digo, rascunho as primeiras palavras, começa uma corrida contra o tempo. Quanto mais rápido e direto, melhor. Nada de firulas, nada de nós inovadores. Só o essencial. Os enfeites aumentam o tempo cirúrgico, infectam a inspiração e, complicado, o poema pode ir para o necrotério.

5) Putz, você escreve poesia até quando dá respostas para um perguntador chato! rs Então, ampliando o assunto,onde mais você vê poesia nesse "mundão de meu-deus"?

Em tudo há poesia. Quando não a vejo foi porque não observei o suficiente. A poesia que mais admiro encontro na labuta diária, nas lembranças da minha infância e na natureza. Agora, o que mais me encanta é o trabalho do poeta, este que passa a vida procurando uma nova interpretação, o embelezamento do corriqueiro e o inesperado. Este trabalho é poesia da boa.

6) O que você lê, ouve e assiste?

Atualmente estou lendo Ensaio Sobre a Cegueira, do Saramago e a obra do José Inácio Vieira de Mello. Gosto muito da poesia do Mario Quintana, Drummond e João Cabral.
Com relação à música sou eclético. Gosto muito dos clássicos, principalmente Bach. Música popular eu ouço no dia-a-dia e, entre os artistas que mais admiro estão: Chico Buarque, Djavan, Cartola, Zé Ramalho, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca, Toninho Ferragucci e Arnaldo Antunes.
Assisto poucos filmes, mas os que mais me marcaram foram: Baile Perfumado, O Palhaço e Abril Despedaçado entre os nacionais. Entre os internacionais os que mais gostei foram Sonhos e Rapsódia em agosto, do Akira Kurosawa, O perfume, A Origem e Imensidão Azul.

7) Recentemente você publicou no Facebook o poema Conjugação Carnal e depois comentou o medo de não ser compreendido. A incompreensão na arte o incomoda?

O meu objetivo, ao escrever, é ser o mais simples e direto possível. Nos casos em que arrisco um pouco, sempre sinto um frio na barriga que, normalmente, é estimulante. Em mim, o frio na barriga é glacial. Mesmo assim, acho que sem o risco não dá para fazer arte. Só o insosso é possível.

8) O que é a Casa de Farinha?

A casa de farinha é o local de trabalho das famílias do sertão nordestino. É onde se produz a base da nossa alimentação: a farinha de mandioca. Sendo símbolo de alegria e de fartura, deu nome a um espaço dedicado aos costumes do povo do semi-árido aqui em São Miguel Paulista. Aos poucos estamos trazendo nossa culinária, música, literatura, objetos e, futuramente os sons da caatinga. É um local ainda em formação, mas muito querido.

9) E o que é poesia?

Para mim é poesia o ponto de vista, incomum, que causa admiração e espanto em quem lê, vê, degusta, ouve e/ou toca.
A inspiração é o que desencadeia tudo. Esta, porém, tem origem desconhecida, parece que nasce com o indivíduo e independe do nível cultural e social.
A poesia, como todas as artes, é necessária para diminuir a angustia, e manter a vida.

Poesia no olhar

Os vira-latas

Forró, latinha e fuá

Nas noites uivam tristes.

Insone, contenho meu uivar.


CHEIODEMIM

OVAZIO

DETI


Seqüestro relâmpago

Sem crédito

O débito

É obito


AMOR

ACUA

ADOR

 
* Nota 1: Restaurante Casa de Farinha: rua Santa Rosa de Lima, 1341, São Miguel Paulista, SP

* Nota 2: um pouco da arte fotográfica de Xavier poderá ser vista a partir de 06 de abril próximo, quando será aberta no espaço A Casa Amarela a exposição “Sujeito São Miguel – Diálogos Intermitentes”. A mostra trará ainda fotos de Alexandre D´Lou e Vanderson Atalaia. A Casa Amarela – Espaço Cultural (R. Julião Pereira Machado, 7, São Miguel Paulista, SP)



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