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1.12.14

Entrevista para Marciano Vasques (16/7/11)

SÁBADO, 16 DE JULHO DE 2011


PALAVRA FIANDEIRA — 63




PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
REVISTA DIGITAL LITERÁRIA
17/JULHO/2011
ANO 2 — 63

 NESTA EDIÇÃO:
ESCOBAR FRANELAS
"Meu viver é a experiência poética mais completa."
 Escobar Franelas — foto: Raquel Ramos
______________________
Exposição de Fotopoemas—Sacramento, MG —foto: Escobar Franelas


1—Quem é Escobar Franelas?
Escritor e videomaker paulistano. Depois de muito perambular, estou quase terminando uma graduação, em História. Gosto sobretudo de livros, mas também de artes em geral, filosofia e práticas ambientais sustentáveis. É sobre esse quadrado que minha vida está estruturada.
 Escobar Franelas —gravação do CD "Sacha 60" — foto: Akira Yamasaki

2—Já nos encontramos em algumas pontas de uma corrente serena formada por poetas, jornalistas, idealistas, sonhadores, que com suas antologias, suas páginas literárias vão conduzindo essa vontade de divulgar os fazedores de poesia e arte. Entre esses amigos, o Zanoto, que nos deixou recentemente, e o Selmo Vasconcelos, de Rondônia. O que é para você, participar dessa pulsação?
É participar – como você mesmo nos diz – da essência de uma produção devotada ao “fazer”, sem que isso seja simplesmente uma submissão às exigências financeiras ou midiáticas. A maioria desse pessoal (o antigo underground, hoje não sei que palavra usar com exatidão) produz cultura e arte no sentido mais profundo, pois não estão sob sistemas, formais ou não, de dominação de mercado.
A artesania vem da experimentação, ludicidade e prazer que nos levam aos gregos, onde a arte anelava-se ao sagrado. Entendo e professo a arte assim, como o sagrado que se manifesta em vida.

3—Tive a grata alegria de estar algumas vezes com Raberuan. Poderia, por favor, contar aos nossos leitores, sobre esse artista de São Miguel Paulista, de quem tanto gosto?
 Escobar com amigos, entre os quais o cantador RaberuanBeto Rios; Akira Yamasaki; Escobar; Raberuan e Eliel Lima 
gravação do cd "Sacha 60" — foto: Ceciro Cordeiro

Raberuan é um compositor inspirado, croonerversátil e cidadão como poucos. Não é um artista deslumbrado, antes, é um militante do humano que há na arte.

4—Como você “se achou” trabalhando no mundo do audiovisual?
Iniciei no audiovisual trabalhando numa finalizadora de VHS, em 1988. O videocassete tinha acabado de chegar ao Brasil e havia uma demanda muito grande na produção de filme para o mercado doméstico. Tornei-me operador de vídeo, depois aprendi a ciência da edição de um filme, tradução, legendagem, essas coisas. Com o tempo, veio a vontade de produzir alguma coisa, dirigir... foi aí que finquei parceria com um antigo parceiro, o Gilberto Tavares, com o qual até hoje fazemos manufaturas. Atualmente, estou terminando a montagem de um vídeo experimental sobre a poesia de Dailor Varela, um poeta seminal nas letras brasileiras dos anos 60, ao mesmo tempo que estou produzindo um documentário sobre o Movimento Popular de Arte (MPA), em parceria com o Giba e o Claudemir Santos. O MPA é a principal referência quando se estuda as questões artísticas e culturais na região de São Miguel nos últimos 30 anos.

5Considero um poema de Bandeira o mais triste e belo de nosso idioma. Sei que gosta de Bandeira, e de outros poetas. Poderia nos dizer até que ponto o contato com a escrita de poetas consagrados pode influenciar o surgimento de um novo poeta?
Quando iniciei meus escritos, imitava o Bandeira pois achava que seria mais fácil escrever como ele, em branco e sem métrica. Quanto engano! Pois se não tenho rimas e metros, tinha que ter assunto, enredo e ritmo, coisas que aprendi (ou, pelo menos, julgo ter aprendido um pouco!) com o tempo, lendo, relendo e treslendo Bandeira.
Teve um momento que pensei em desistir, pois cria que não conseguiria jamais atingir o nível deles. Hoje convivo bem – aprendi com Quintana – sendo passarinho, figurante na beleza fulgurante da poesia brasileira.
Poeta Manuel Bandeira
6—Não podemos negar os benefícios da tecnologia, mas ao ver que estamos entrando numa nova era, será que a poesia, e as artes, podem contribuir de alguma forma para o retorno, ou melhor, para que a era humanista não se vá por completo?
Nunca perderemos essa verve, fique tranquilo. O máximo que acontece às vezes é que interesses de poder e capital dominam a cena por um período. Mas como bem sabemos, o mundo, a vida, são cíclicos. No dia que perdermos totalmente as referências humanísticas, não será mais mundo, ou, pelo menos, não seremos mais gente.

7—Você se assume e se reconhece poeta, “mesmo quando não está escrevendo”. O que é exatamente isso, o que significa se sentir poeta, ter essa consciência de ser?
Sou poeta não porque escreva poesia. Meu viver é a experiência poética mais completa. Isso é o que chamo irmanar a arte com o sagrado. Sempre defendo a idéia de que pode-se ser visceralmente poeta tomando café numa padaria barulhenta às sete da manhã, ou vivendo a intensidade do amor, mesmo que não se profira palavra alguma.

 Escobar Franelas — gravação do CD "Sacha 60" — foto: Akira Yamasaki

8—Você é fotógrafo, é artista audiovisual, é perfomance ambulante, é um camelô a repartir com as luzes da cidade a poesia que está no que pode ser imperceptível no cotidiano, mas pode também jorrar nos olhos de quem se atrever. A poesia é necessária em nossos dias, em nossa sociedade?
Poesia é necessidade orgânica. E, tal como o ar, só sentimos falta dela quando deixamos de “respirá-la” ou quando a sorvemos com as sujeiras que alguém lançou sobre ela.

9—Facebook e outros virtuais inauguraram uma nova era, sem dúvida. Em todos os sentidos. A criança que tem 9 anos, mas 20 no Orkut, etc. Como você traduz essa nova realidade que surge trazendo um novo espírito para a época?
Eu não ousaria traduzir, mas admito minha estupefação. Esse é o transe, a nova perspectiva que não foi dominada totalmente pelos capitalistas de plantão. O Cláudio Prado repete sempre esse bordão, as redes sociais no ambiente holográfico da internet são o novo parque de diversão, o pique-esconde que brinquei e meus filhos não brincam mais. Há uma nova maneira de ligar-se ao outro, novas formas de comunicação que fogem ao contexto de quem cresceu dependendo do mundo físico.

10—Se tivesse que escolher um de seus poemas para o nosso leitor, com qual nos brindaria?
Para não cansar os desavisados, vou com um de meus haicaos, bem curtinho:
A mobília imobiliza / a sala de estar / invente andar” (Tráfego)

11—O que seria para você o clímax poético?
É como o orgasmo, você não o explica. Mas vivencia a plenitude de seu acontecimento. Como explicar a densidade de Clarice Lispector, hein? Como colocar em palavras o que sinto quando leio Drummond? Não dá. Tudo o que falo de Borges, ainda assim não é o Borges legítimo, no original, que, aliás, todos deveriam ler – completo – pelo menos uma vez na vida.
 
Clarice Lispector - Clarice Lispector (divulgação)

12—Tem quem se supõe estrela por ter publicado o seu primeiro trabalho artístico, tem quem não consegue aceitar o outro, pelo fato de o outro não pertencer ao seu grupo, e tem aquele que apenas quer produzir arte, e seguir em frente, tentando embelezar o mundo, os corações e às consciências, e ainda tem os que “utilizam” a própria arte para denunciar as injustiças, etc... Onde vamos encontrar Escobar Franelas?
Putz. Questão difícil essa... Não sei falar de Escobar Franelas. Sabia que até inventei um alter-ego (e ainda por cima feminino!), só para tentar dialogar comigo? Chama-se Maria Dumário e desempenha o papel de psicanalista.
Então, vou pedir para ela responder essa questão. Bem, ela diz que Escobar é pura ficção, mentira das bravas! E pede para você tomar cuidado com ele. (hehehe)
Mas, tomando o microfone dela para retomar a palavra, digo que gosto mesmo é de escrever. A experiência de publicar não me realizou, como eu tinha imaginado. É bonito viver essa situação, os amigos, a festa, o reconhecimento. Mas gostoso mesmo, é ser surpreendido por uma idéia e dela se tornar prisioneiro, até que a coloque no papel.

13—Você tem um carinho especial pelos blog como espaço de cultura, de consciência, como “uma sala de leitura”. O que representa exatamente a blogosfera para você? E terá ela vida longa? Por quê?
É a nova sala de leitura, mais interativa, dinâmica, imprevisível. Sem dúvida ela representa a biblioteca. Hoje temos várias “alexandrias” a um clique dos dedos, e – incrível – não nos damos conta.

14—Certa vez eu comentei que era escritor, e alguém perguntou: qual o seu livro? Eu respondi que não tinha livro publicado, a pessoa murchou, mas eu continuei sendo escritor. Tem algo a dizer sobre isso?
Vejo duas saídas para questões como essa: tentar convencê-lo de que há erros em sua interpretação, ou dar de ombros e sair de perto. Na maioria das vezes, prefiro a segunda alternativa, que é mais rápida e facilmente aplicável.

15—Tenho um apreço especial pelos jornais de bairro, os jornais regionais. Acredita que, de um modo geral, quem tem paixão pela liberdade, busca a sua alma no jornal?
Acho que os jornais são instrumentos muito importantes para a construção do espírito democrático. Embora as instituições religiosas e a ladroada política usem sempre no sentido contrário.

16—Sempre me sopra uma alegria no coração ao ouvir falar de Akira, de Raberuan, de Jocélio Amaro, que nós, os Vasques, amamos, e também Sacha, e outros. Vocé é oriúndo do Movimento Popular de Arte, de São Miguel Paulista, terra de Antonio Marcos? Poderia contar aos leitores, de forma resumida, a história dessa história?
Nunca fui do MPA. Até me aproximei deles em 1998, 99, quando já fazia uns 13 anos que o movimento tinha implodido. Mas colho até hoje as benesses de conviver com gente tão interessante. O MPA nasceu mais ou menos em 1978, fruto de um interesse popular que discutia cultura e arte na região. Ajuntamentos humanos – como sempre repete o Luiz Alberto Mendes – sempre produzem cultura, “somos homos culturalis”, e vários artistas juntos (discutindo arte!), só poderia dar no que deu: um corolário de produção, com muita música, teatro, poesia, artes plásticas e mais, com vigor, inspiração e muita disposição. Por questões diversas, o movimento perdeu um pouco da força com o passar do tempo, mas nos legou uma história de lutas e conquistas. Tanto que Edvaldo Santana, Akira Yamasaki, Sueli Kimura, Sacha Arcanjo, Ceciro Cordeiro, Raberuan, Zulu de Arrebatá, Osnofa, Gildo Passos, Artênio Fonseca, Cláudio Gomes, Nelson Mouriz e muitos outros continuam aí, compondo, fazendo shows, se apresentando, escrevendo, pintando.

17—Pode revelar alguns de seus projetos?
Em literatura, acabei de finalizar um romance, “Antes de Evanescer”, que está na revisão. Vou atrás de editora pois espero publicá-lo ainda esse ano. E tem mais dois livros de poesia e um de contos, mas estes ficarão para depois.
Em audiovisual, estou finalizando um curta metragem experimental cujo enfoque é a poesia de Dailor Varela (ícone do movimento Poema-Processo), e fazendo as captações de imagens para o documentário sobre o MPA, que pretendo lançar no ano que vem.
Também estou publicando muito material na internet, para a revista Ounão (http://www.revistaounao.com.br/), para o Fora do Eixo (http://foradoeixo.org.br/), que é um circuito de produção independente e para a União Brasileira dos Escritores – UBE (http://www.ube.org.br/).

18—Acompanho as suas andanças, e essa persistência de Soldadinho de Chumbo é algo encantador. Qual foi o seu primeiro livro publicado?
A primeira participação foi na Antologia Poética de Pinheiros(Scortecci, SP), em 1988, com dois poemas de dar dó. Essas coletâneas são ótimas pra isso, você aprende muito convivendo com outros que praticam a mesma arte. Depois vieram outras antologias até que consegui lançar meu único livro-solo, em 1998, “hardrockcorenroll”.
Após isso, aconteceram outras coletâneas e até alguns prêmios literários.
Hoje, contudo, meu interesse maior está nas dimensões e ferramentas da cultura digital. É por esse caminho que estou me enveredando cada vez mais.

19—Era uma vez um tempo em que não havia bastidores na vida artística e musical no Brasil e nossa função, segundo alguém comentou, seria a de aplaudir e até, em certos casos, idolatrar, e a internet acabou com isso. Acredita que estamos mais próximos de uma compreensão mais ampla da importância da arte?
Não creio. Acho que surgirão sempre maneiras de tornar qualquer arte rarefeita. É o contraponto natural de qualquer tipo de expressão. Sempre há uma face mais elaborada e outra com apelo mais popular.
Agora, se entendi bem sua questão, vou ao cerne: muitas vezes leio textos, ouço cd, vejo encenações, quadros, tudo de colegas ou pares, e minha opção é não comentar. Por quê? Porque fico em dúvida quanto à qualidade destas obras. Prefiro, nesses casos, guardar silêncio. É evidente que muitas vezes o silêncio é outro, por falta de tempo para fazer um texto bom.
Quando minha humilde compreensão permite enxergar qualidades no trabalho – e há tempo para escrever um texto que dignifique este trabalho – sou o primeiro a “botar a boca do trombone.” Imagina, o artista é bom, não tem retorno de mídia e eu vou campactuar com isso? Sem chance! Alardeio, cito, comento, divulgo, sim senhor! Para isso a internet é ótima.

20—Você teve uma exposição de fotopoemas. Onde e quando isso aconteceu? Pode nos dizer sobre?
A pré-estreia foi em 25 e 26 de junho, quando participei do Festival de Inverno do Parque Náutico de Jaguara, em Sacramento, MG. A estréia mesmo será em 29 de julho próximo, n´A Casa Amarela (http://www.acasaamarela.net/), num sarau que unirá várias linguagens artísticas. Depois disso, ficarão expostos lá por um mês.
Os fotopoemas nasceram de uma combinação não prevista. Sempre uso a câmera de meu celular par fazer fotografias inusitadas. Com o tempo, percebi que elas poderiam dialogar com os poemas curtos que pratico, os “haicaos”. Daí para o casamento entre eles, foi um passo relativamente curto.


21—A partir dessa edição, PALAVRA FIANDEIRA sempre terá 22 perguntas. E você é o primeiro nisso. Poderia, num exercício poético dizer 22 palavras. Apenas isso, 22 palavras?
A palavra, seu processo e seu clímax, obedecem apenas à emoção e ao intelecto. Nessa trama, cria vida quando torna-se teia: fiandeira!”

22Que mensagem deixará aos leitores da sua PALAVRA FIANDEIRA?
Amem!” “Amém.”

 

ANDANÇAS - COHAB II (Itaquera) — foto: Escobar Franelas 

POESIA
      _______________________________________________

PALAVRA FIANDEIRA
Fundada por Marciano Vasques
A entrevista de Escobar Franelas foi concedida 
ao escritor Marciano Vasques
*Original em http://palavrafiandeira.blogspot.com.br/search/label/ESCOBAR%20FRANELAS 

29.11.14

Hoje: Pré-estreia de "Doc. Cine Campinho - da terra à tela"






Tudo começou em conversas informais com o Pedrinho, quando trabalhávamos juntos no Programa Jovens Urbanos como educadores. Ele, sabendo que trazia na bagagem alguma experiência audiovisual, repetiu várias vezes: "Escobar, você precisa contar a história do Cine Campinho!"

Eu já sabia um pouco desse enredo, tinha lido e visto reportagens falando do projeto que ele, o Renildo, o Ivan, a Mariquinha e outros tinha começado por volta de 2007, lá no Jd. Bandeirantes, pras bandas do Lajeado, em Guaianases. E o que eu não sabia, ele foi descrevendo, das primeiras sessões de cine-debate na associação da vila, do desejo de transformação social do lugar, da limpeza do campinho para a prática do futebolzinho que tanto amamos, da ampliação do campinho para a projeção de filmes e da transformação do campinho em espaço de convivência.

Eu tinha finalizado um curso de produção de vídeo e chamei um bróder que estudara comigo e já tinha feito uns trampos em parceria, o Maty. De cara, rolou ema empatia geral e a conversa fluiu. O Maty trouxe o Jonas, outro parceiro dos tempos de curso. O Pedrinho nos apresentou a um monte de gente legal, conhecemos a Grazi, a Deh, o Lico, a Edih, o Ivan, a Mariana, o Ângelo. Criamos o coletivo Lentes Periféricas, escrevemos o projeto, nos candidatamos ao edital VAI-2014 (Prefeitura de SP) e fomos aprovados. 

Pronto! 

Nesse ínterim, já tínhamos reescrito o roteiro do filme trocentas vezes. Com a grana na mão, não tínhamos o que esperar, era iniciar o trabalho. O povo do Cine Campinho já vivia na brodagem total com a gente, trocando energias e sabedorias. O povo do Rua de Fazer, idem. Com tanta gente esperta e devotada ao bem social, não tinha como dar errado. Deu tudo certo! Está dando tudo certo!

Foram seis meses de entrevistas com pensadores, fazedores, gente que produziu o Cine Campinho nesses anos todos, gente que assistiu filmes durante todo esse tempo, gente que se apropriou da ideia e de público tornou-se parceiro, como o André (que depois virou ator, quem diria?!). Aliás, o André, virou ator/um m onte de coisa, porque em algum momento alguém teve a ideia de fazermos microoficinas de audiovisual com o pessoal da comunidade. Outra mão batida no truco da vida, pois uma molecada curiosa e inteligente chegou, e produziu uns curtas bem bacanudos, com um pouco de orientação nossa que - admito a verdade - mais aprendemos que ensinamos pra eles.

Hoje, 29 de novembro, celebramos o filme pronto. A pré-estreia do "Doc. Cine Campinho - da terra à tela" é um acontecimento sui generis. Trabalhar com um grupo pequeno, com pouca grana, produzir um filme que não seja chapa-branca sobre um projeto no qual acreditamos, e imaginar como será o pessoal se vendo na tela durante a projeção, é algo que me deixa curiosíssimo.

Bora lá invadir as quebradas de Guaianases pra se confratenizar com o povo do Jd. Bandeirantes? 

1º dia de filmagem

Maty, Angelo e Jonas

Grazy, Deh, Maty, Lico, mariana e Jonas (em pé) Angelo e Escobar (sentados)

Maty

Jonas passando dias de fotografia para molecada

Jonas passando dias de fotografia para molecada. Maty no para-sol.

Grazy, Jonas e Maty

Oficina: construção coletiva imediata

Oficina: troca de energias e sabedorias
Fotos: Arquivo Lentes Periféricas

20.11.14

Ninguém Lê - "Arrabalde" (Berimba de Jesus)




   Ninguém Lê é catarse mas também é provocação. O projeto de Victor Rodrigues e Ni Brisant, que oferece visibilidade, leitura e contexto a textos de autores fora da mass media, que antes rolava no Espaço Hussardos, agora rola do outro da Praça da República, na Galeria Olido. E a reestreia não poderia ter sido melhor. O convidado de novembro era Berimba de Jesus, e a obra a ser degustada é Arrabalde.
   Chego primeiro que todos à Galeria, pego ainda o espaço sendo preparado, arrumação das cadeiras, essas coisas... retiro um exemplar da obra com Victor (esqueci de dizer, a obra a ser discutida na roda é cedida gratuitamente pela organização - como ainda não tinha retirado o meu exemplar, peço e vou dar uma passada de olhos nas páginas lá na rua, enquanto tomo um café num muquifo qualquer das redondezas). 
   O livro é pequeno, quase tímido, um cupcake de palavras. Os textos, no entanto, são caudalosos, pesados, densos, descem com dificuldade goela abaixo. Texto de gente graúda, cheio de vitamina, proteína, carboidrato. Textos que engordam a cabeça da gente. Enquanto inspiro cada linha dos contos curtos, sorvendo o moca requentado, vou me deliciando com a possibilidade de trocar ideias com o autor sobre vários contos que acho legais de se discutir. Meia hora depois, saio do boteco, volto pra Olido, outros já chegaram, procuro uma cadeira, sento, logo o evento começa.
   Como já é praxe, fazemos uma leitura coletiva, cada um lê um texto. Serve pra alimentar-se da obra antes do início das discussões e também pra ir percebendo as texturas, entranhamentos, ritmos, figurações e estranhamentos que a leitura silenciosa pode ter passado batido. Fazer leitura grupal é também um exercício de ir se acostumando com a voz do outro, os tiques, a fluidez, um belo exercício para os ouvidos.
   Depois dessa introdução, o Victor faz as considerações iniciais, justifica a ausência de Ni e o público começa a interagir com o autor: surgem análises originais, curiosidades sagazes, questionamentos profundos: "a gente leu de uma assentada", "os textos são curtos mas têm muito peso", "trazem um certo desconforto", "lembram um pouco esses programas sensacionalistas da tv", "não são de final feliz"... E o autor: "Acho que ele (o livro) tem mais de Eli Correia ("Que Saudade de Você!"), que de "Cidade Alerta", "o título Arrabalde veio de ´Clara dos Anjos´, do Lima Barreto", "a literatura periférica tá tomando um corpo que tá ficando muito bonito. Literatura Marginal é outra coisa". 
    A conversa segue serena. Berimba é todo flower-power, nas palavras e nos gestos. Os textos densos de "Arrabalde" podem confundir o incauto que for lê-lo pela primeira vez. O certo, talvez, seria dizer que suas atitudes estão mais próximas de sua poesia que de sua prosa. Em dado momento, vem uma confissão, "prefiro ler mais Sacolinha". E, mais ainda, inquirido sobre quem gostaria que lesse "Arrabalde", o autor não titubeia, "queria que João Antônio e Plínio Marcos lessem". 
   Berimba de Jesus reforça, neste encontro, a imagem que já construíra dele, um artista de sensibilidade nata que, como Pound preconizou, é "antena da raça". Como não pensar assim de alguém que afirma  "acho que eles (João Antonio e Plínio Marcos) poderiam ter escrito escrito este ´Arrabalde´", ou então "se não fosse poeta seria operário"? Bingo! 




fotos: arquivo Ninguém Lê
texto: Escobar Franelas

1.11.14

Não vai ter água

 http://www.jornalcana.com.br/
http://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2014/10/seca-em-represa-do-cantareira-revela-cemiterio-de-carros-no-interior-de-sp.html

Sinto muito começar essa crônica assim, não é pessimismo, tampouco otimismo: é fato!
Não vai ter água em Sampaulo. Nem agora, nem no próximo verão. Melhor, vai ter: quando evacuarem a área, quando a maioria debandar e o pouco que sobrou puder ser melhor dividido.
Outra noticinha: não tenho nenhuma formação técnica ou acadêmica que referende o que vou dizer. Se quiser, pode desdizer à vontade. Daqui a algum tempo, conversaremos, e nessas trocas retóricas descobriremos quem pode estar com a  razão (se razão há aqui, nessa parolagem meio escatológica, mesmo sem querer).
Agora, voltando ao tema, não vai ter água porque, antes de tudo, nas aulas de Ciências de minha adolescência, os professores cansaram de cantar a bola, "na natureza, nada se cria, tudo se transforma". Pois bem, se tudo se transforma, a água de São Paulo vive, esconde-se, está em algum lugar. Que lugar? Penso eu que debaixo dos pés, "na terra".
Melhor explicar direitinho: a água que tanto ansiamos está embaixo do "bilhares" de quilômetros da manta asfáltica que cobre o solo. Ou, quando aparece em sua forma líquida, nos rios, riachos, lagos, essa água está coberta pelo lodo morto, grudenta e nojenta.
Tem mais: nas mesmas aulas de Ciências, lembro que aprendi muito sobre o processo natural de distribuição da chuva. Ou seja, a água caía no solo, infiltrava-se, ia para o lençol freático, depois evaporava, formava as nuvens que depois condensavam-se e caíam novamente pela lei da gravidade. Agora pergunto: se a (pouca) água que cai escorre pelas sarjetas, entra nas gretas urbanas (as famintas bocas de lobo) e aprisionam-se sob os céus de asfalto e concreto que as cobrem, como vai subir aos céus? Assim como o lixo que a impede de ascender aos voos gasosos, que a tornariam poética e concretamente, em nuvem que depois desabaria em forma de chuva, como vai molhar a terra novamente?
Que as reticências que coloco aqui - espero - sejam rapidamente apagadas pela argumentação coesa e coerente de quem sabe das coisas. O zé-mané, leigo que sou, quer apenas chamar todo mundo par ao debate. O que não dá é para viver condenado ao Saara quando estamos localizados - outro dado das aulas de Ciências - bem em cima do Aquífero Guarani, a maior reserva de água doce do planeta.
Parece, aliás, que surgiram algumas saídas no horizonte seco: explorar o lençol freático com o mesmo ímpeto com que exploramos o solo atrás de petróleo. A notícia parece sensata e lógica. Dói mesmo é pensar que o futuro virá com outra nota promissória a vencer. A questão, aqui, parece outra: quem pagará a conta?

Mais informações: 
http://www.jornalcana.com.br/mudanca-climatica-e-crescimento-populacional-podem-agravar-crise-hidrica-diz-pesquisador/

http://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/3668470/para-maior-bolsa-mundo-seca-preocupa-mais-que-politica

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,seca-em-sp-deve-continuar-em-2015-diz-cientista,1584016

Escobar Franelas

Textículo: "Dalmo, de Davi"

Talvez seja só uma história natural, mas quase pode ter virado conto de fadas.
Ele nasceu, o pai o queria Talmo (em homenagem ao avô) mas o rapazola do cartório confundiu, digitou, registrou errado.
Cresceu, sofreu, saiu de casa, foi pra cidade grande, afastou-se da família, ascendeu.
Conheceu Davi: nesse, as benesses do mundo. Com ele repartiu mesa, cama, casa, a maçã. Depois, muito depois, veio a tempestade.
As águas passaram.
Então veio Sebastião, vivem juntos, desde então. Adotaram Salomão.
Parecem felizes, desde sempre.
Mas ontem pela manhã, entre uma e outra estação, dentro do metrô bem cheio, Israel piscou um olho...

 da série ´curto conto´

21.10.14

Resenha - livro "Mosaico de Rancores" (Márcia Barbieri)



A autora e sua cria

"Meu corpo é um mosaico incoerente de formas geométricas duvidosas, fórmulas fáceis somando rancores." A literatura é rica em exemplos de títulos que enfeixam e enfeitam aquilo que foi construído na trama urdida nas páginas interiores. Desde os títulos sintéticos de Camus, como "O Estrangeiro", "A Peste" e "A Queda", até o  auspício atingido por João Cabral de Melo Neto em "Morte e Vida Severina" (título que é, ele próprio, um poema). Seja como for, a ficcionista Márcia Barbiéri atinge, em sua novela "Mosaico de Rancores", um refinamento que a coloca fácil fácil no panteão das mestras que fazem da letra alquimia e arte, com a literatura feita em língua portuguesa.
Escrito como se estivesse compondo um grande mural de pequenos ladrilhos, "Mosaico" traz também indicações de uma fastidiosa luta interior, uma rinha que me levou às pessoas que lutam no silêncio contra os males da depressão. Logo à introdução, Malu, a personagem principal, escreve em primeira pessoa, que é cega: "Os dias passam e esse acontecimento voltam aos meus olhos já cegos". Li a obra toda para ter certeza se sua cegueira era física, existencial, metafísica ou uma metáfora elaboradíssima. E, confesso, não tenho a resposta definitiva. E só quando conheci os argumentos de Lúcio, seu namorado/rival (e fotógrafo), tive uma pálida introdução às nuances que entremearam o enredo.
Eis, aliás, o enredo: trancada em seu mundo, Malu vive às turras com o mundo, principalmente com Lúcio. Nesse rengue-rengue monocórdico, segue o curso dos dias num embate cotidiano contra a opressão dos pensamentos que a assaltam. A síntese da sensação desses dias só é suportável pelas mãos macias e mornas da lascívia. É através  do choque corporal que Malu se relaciona com o meio, as coisas, o mundo. Na ausência da visão, é nos outros sentidos - principalmente o tato - que se desenvolve a familiaridade de Malu com o corpo, logo, com a vida.
Vem o inesperado: surge Luís, irmão do namorido. O cunhado irá dar novo sentido ao sentido físico de suas afetividades. Com ele, irá alcançar os píncaros de uma glória jamais atingida. O êxtase torna-se troféu, a brindar a relação menos ruim. Ela aprende a voar acima dos riscos dos dias, usa o sarcasmo para sustentar sua falta de prudência: "Pedras fazem ninhos entre meus rins", desdenha. Ou "O que um Deus faz? Olha o mundo de cima e se vangloria de sua criação imperfeita", despista, filosofando.
O texto sofre uma invertida. Sai ela da primeira pessoa, entra ele. Com Lúcio  protagonista, as elucubrações, antes secas, guturais e retilíneas, passam outro mundo, agora da evasão, justificativa quadrada. Os segundos duram mais. As digressões do homem entram na mesma rota da mulher, em sentido contrário. Como ele apregoa, "O início e o fim se misturam numa lambida longa".
Os caminhos que se bifurcam levam ao choque, ou melhor, à hipótese de choque. Não há choque. De lado a lado, apenas uma enorme colcha, um extenso mosaico de rancores. Acertando o melhor que se pode ofertar sobre o contrário, alguém sofisma "Os cegos enxergam no escuro, foi a  única cosia que pude constatar". Quem? Lúcio? Malu?
Com vocês, o labirinto... ou os estilhaços de um espelho.



Mosaico de Rancores - Márcia Barbieri 
Terracota, 2013, 172 p.
Escobar Franelas