"A Poesia não é cordial, tampouco democrática, cristã ou educada. A Poesia é apenas... justa!"
5.3.15
Um poemeu: "Ceciliando"
eu sou um título em caixa alta
não sou notícia nem ficção
sou poema
trago em mim todas as cores ainda não criadas
e sons ainda não ouvidos
as dores em várias camadas
todos os tons em todos os sentidos
eu só ando de cabeça alta
não sou alegre nem sou triste
sou um falso profeta
um falso convite
falso brilhante
sou poeta
18.2.15
Resenha - livro "Oliveiras Blues" (Akira Yamasaki)
Oliveiras Blues - A alquimia poética de Akira Yamasaki
“oh pássaro breve
leve-me leve”
A Poesia é, das expressões da Arte, talvez a que melhor traduza a sensorialização do bicho humano diante das coisas do mundo e da vida. Pela sua própria forma de exteriorização (a escrita e a audição), a Poesia requer instrumentos específicos de emissão e recepção para que se manifeste. A boca, a mão, o ouvido (logo, a fala, o gesto e a interpretação), fazem dessa arte a tradução da vida. Se um dia for extinta a força que impulsiona o ser vivente à criação e fruição do êxtase artístico, é porque a vida está encerrada aqui sobre essa camada. Impossível imaginar o homem sem o insight criador da Poesia, elã que o liga ao mistério que o diviniza.
O blues é quase um mantra, música cantada ao léu por negros escravizados nos campos de algodão em toda a vastidão do sul estadunidense, traz em sua melodia todos os exílios do homem. Tanto lamento como evocação divina, o blues é exaltação da África natal, é memória de seus mitos, lendas, guerras e amores.
Ler, portanto, “Oliveiras Blues”, segundo livro de uma produção caudalosa de um poeta brasileiro descendente de japonês, nascido no interior de São Paulo e crescido nos rincões da periferia de Sampa, parece um desencontro geográfico que só a Arte pode corrigir. Akira Yamasaki, nesta obra que homenageia o bairro onde vive, reafirma e reforça o raciocínio que tento elaborar. Demiurgo poético cujo refinamento vem da contemplação transparente e da reflexão nua, ao Akira pouco importa do que é feita a pedra, pois o melhor de sua alquimia é burilar essa pedra de tal forma que ela vire qualquer coisa em sua linguagem, em seu instinto criador. Assim, um simples olhar de um boi condenado vira mote para um texto que nos embriaga:
“nunca esqueço
uma cena de infância
uma volta da pescaria
uma curva na estrada
um boi amarrado
pelas patas e pescoço
em duas árvores
uma marreta
ainda hoje me assombra
o olho do boi”
Uma reflexão materna ilustra todas o desmedido amor de todas as mães do mundo: “(...) esse é treze de pedra e não tem cura, de hoje em diante só vou amá-lo e seja o que deus quiser”.
Também há uma vontade incontrolável de versejar a amada e a ela oferecer tudo o que sua matéria-prima permitir:
“fiquei do outro lado
da rua da sua casa
sob a garoa da saudade
ficou no meu coração
enterrado para sempre
o punhal do seu perfume”.
E, justificando o título, o filho dileto presta culto à terra onde fincou suas raízes, o Jardim das Oliveiras, no extremo leste da cidade de São Paulo:
“bem que estranhei
o movimento incomum
nos últimos dias
mas só hoje eu soube
pelo cara do churrasquinho
que fica na porta
da rainha do oliveiras
houve, alguns dias atrás
uma rebelião na fundação
coisa feia mesmo
só para constar
o diretor da instituição
ainda está na uteí
queima de colchões
queima da unidade
queima de arquivos
e uma pá de moleques
pá pá pá nas ruas
por mera coincidência
vi dedo mole de novo
adequado ao padrão fifa
tênis da mizuno
boné do neymar”
Akira tem a peculiaridade de pegar a crônica mais vã, a mais prosaica visão do cotidiano e transformar, com toques sutis de poeta genial - que ele de fato é - a trama refinada que lembra a confecção de um tapete persa fino e raro. Este “Oliveiras Blues”, que poderia trazer o peso quase insustentável da musicalidade densa e etérea oriundas das fazendas ensolaradas do sul dos Estados Unidos, confunde, e traz o frescor da nota que não saiu na página policial do jornal. Traz o lirismo que desconcerta o leitor, a luz que destoa do cinza previsível da rotina. O brasileiríssimo poeta, descendente de orientais, que se dá ao luxo de abrir mão de régua e compasso na elaboração de suas composições, o generoso articulador cultural que mantém vários projetos de produção artística na região aonde mora, Akira Yamasaki, neste novo livro (o primeiro foi o já clássico “Bentevi, Itaim”, de 2012), proclama com clareza tão óbvia que até nos tonteia:
“não adianta portos
navios e oceanos
se não há acenos
partidas e chegadas”
Em tempo: “Oliveiras Blues” é um dos quatro títulos da série E.X.E.M.P.L.O.S., desenvolvida pela editora Lunna Guedes para a Scenarium Plural. Todos os livros dessa série foram feitos manualmente.
Texto Escobar Franelas
Fotos: arquivo pessoal AY
17.2.15
Um poemeu: "Confidência de drummondiano"
CONFIDÊNCIA DO DRUMMONDIANO
alguns anos vivi em itaguases
principalmente nasci em itaguases
por isso sou triste, orgulhoso: de ferro
noventa por cento de ferro nos músculos
oitenta por cento de ferro nos ossos
a vontade de amar, que me paralisa o trabalho
vem de Itaguases, suas noites brancas, suas mulheres e seus horizontes.
e o hábito de sofrer, que tanto me diverte
é doce herança itaguaiana
de itaguases trouxe prendas diversas que ofereço:
essa pedra, esse ferro, futuro aço de meus braços
este são benedito, este santo daime, esta Iemanjá
este couro untado de suor, estendido no sofá da sala aos domingos
esse orgulho de cabeça baixa
tive ouro, tive gado, tive fazendas
hoje sou funcionário público
itaguases é apenas uma fotografia na parede
mas como dói!
poema: Escobar Franelas (livremente baseado em Confidência de Itabirano, CDA)
foto: http://penseforadacaixa.com/wp-content/uploads/2013/04/Est%C3%A1tua-Carlos-Drummond.jpg
14.2.15
10.2.15
Um poemeu: "Ave, Cézar!"
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| foto: arquivo feicibuquiano de Célia Maria Ribeiro |
Ave, Cezar!
Hoje pela manhã
No aconchego do lar
Estava em desassossego.
Como poderia estar bem
Se lá, depois da neblina
Dentro do Santa Marcelina
A dor mantém um refém?
Sem saber o que fazer
Me pus a compor versos
Pois esse é o meu terço
Minha maneira de rezar
O que me dá prazer
E faço em qualquer lugar.
Prazer igual, só o do sexo.
A caneta andando sem rumo
Desfilando no papel jornal
Coloquei a mente no prumo
Me peguei filosofando:
Vou tentar ser maioral
Quero ser bem igual
Esse tal de Cezar Baiano.
(Homenagem aos 55 anos de idade do bróder Cézar Baiano, que é uma estrela em algum lugar desse infinito)
24.1.15
Resenha - livro "Te Pego Lá Fora" (Rodrigo Ciríaco)
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| A nova capa, na segunda edição, pela DSOP |
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| Ferréz dá o tom na Livraria Cultura, no lançamento do livro, em outubro de 2014 |
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| Lançamento de "Te Pego Lá Fora" na Livraria cultura, av. Paulista |
A leitura dos contos de "Te Pego Lá Fora!", do escritor e educador Rodrigo Ciríaco, traduz a crônica diária (ou seria diário crônico?), de um território por onde transito com certa frequência: a sala de aula. Temos nos textos as contradições que fazem parte desse mundo complexo que é a escola. Uma escola heterogênea, múltipla, pública, juvenil.
Dividido em quatro partes (estações), os textos atestam a assinatura humana, demasiadamente humana, do autor. A nova edição, agora pela editora DSOP (a primeira era um edição independente de 2009), ganhou o reforço de quatro textos adicionais: Pratos Limpos" (no capítulo Verão), "Sem Volta" (Outono), "Boas-vindas" (Inverno) e "Poeta" (Primavera).
Todos os textos refletem a escola que temos nesse início de século. Chama a atenção em "Te Pego Lá Fora" a polifonia de vozes que Ciríaco traz à tona: alunos, diretores, professores, funcionários em geral, todos são convocados para dar suas versões. Então, como não se surpreender com a menina que desmaia de fome mas mesmo assim não come a merenda, por vergonha ("Bia Não Quer Merendar", p. 19)? Ou o giro apocalíptico que nos é ofertado na leitura de "Pratos Limpos (p. 29)? Ou o desconcerto corporativista, oficialesco e medieval da hierarquia escolar em "Papo Reto" (p. 49)? A viagem pelos contos do livro também nos traz humor, mesmo que seja meio blasé, no divertido diálogo de "Boi na Linha" (p. 89), onde os dialetos diferentes da aluna e do professor não permitem que o segundo não entenda o recado da primeira. Ou o irônico "Aprendiz" (p. 17), enredo com cara de crônica que deságua num desfecho dolorido e escatológico.
Antes de fechar esta parte, cito dois curtos, dos quais gostei muito, justamente pela síntese e sutileza que reforçam meus aplausos ao lirismo do autor. E por serem curtíssimos, tomo a liberdade de reproduzi-los integralmente:
"Tio, me dá um conto?"
("Pedido Irrecusável", p. 35);
"Na sala dos professores, um aviso:
- Não alimentem os animais."
("Medo", p. 61)
Ciríaco está cercado de bambas que guardam o caminho por onde trafega este professor que não admite o papel de mártir. Desde as epígrafes que recorrem a Hannah Arendt e Paulo Freire, passando pela apresentação do maior símbolo da literatura periférica no Brasil, Ferréz, mas também recebendo nas orelhas as bênçãos de outro ícone da poesia suburbana, Sérgio Vaz, e ganhando uma quarta capa assinada por Marcelo Laier, este "Te Pego Lá Fora" nos dá porradas tortas e diretas na boca do estômago de cidadãos do bem que somos, bons cristãos e pagadores de impostos. Desde o título, que expressa bem uma fase específica do universo belicista de todo adolescente, até na capa que reproduz uma cena comum na sala de aula - as carteiras amontoadas depois da guerra, seja de corpos, seja de ideias - somos a todo momento confrontados com as certezas que exalávamos até momentos antes da leitura.
Aos 33 anos, Rodrigo Ciríaco já é um soldado experiente. Também autor de "100 Mágoas" e "Vendo Pó...esia", há quase dez anos está na rinha, seja com o Sarau dos Mesquiteiros (que ele organiza no Ermelino Matarazzo), ou o concurso literário "Pode Pá Que É Nóis Que Tá", ou o Rachão Poético, entre outros eventos, ele solidifica uma luta. Convenhamos, quando um artista inspirado vive no mesmo corpo de um cidadão devotado, pronto!, reforçamos a certeza de que esse mundo tem jeito.
Mais sobre Ciríaco: https://www.facebook.com/rodrigociriacoprofessor?fref=ts
Dividido em quatro partes (estações), os textos atestam a assinatura humana, demasiadamente humana, do autor. A nova edição, agora pela editora DSOP (a primeira era um edição independente de 2009), ganhou o reforço de quatro textos adicionais: Pratos Limpos" (no capítulo Verão), "Sem Volta" (Outono), "Boas-vindas" (Inverno) e "Poeta" (Primavera).
Todos os textos refletem a escola que temos nesse início de século. Chama a atenção em "Te Pego Lá Fora" a polifonia de vozes que Ciríaco traz à tona: alunos, diretores, professores, funcionários em geral, todos são convocados para dar suas versões. Então, como não se surpreender com a menina que desmaia de fome mas mesmo assim não come a merenda, por vergonha ("Bia Não Quer Merendar", p. 19)? Ou o giro apocalíptico que nos é ofertado na leitura de "Pratos Limpos (p. 29)? Ou o desconcerto corporativista, oficialesco e medieval da hierarquia escolar em "Papo Reto" (p. 49)? A viagem pelos contos do livro também nos traz humor, mesmo que seja meio blasé, no divertido diálogo de "Boi na Linha" (p. 89), onde os dialetos diferentes da aluna e do professor não permitem que o segundo não entenda o recado da primeira. Ou o irônico "Aprendiz" (p. 17), enredo com cara de crônica que deságua num desfecho dolorido e escatológico.
Antes de fechar esta parte, cito dois curtos, dos quais gostei muito, justamente pela síntese e sutileza que reforçam meus aplausos ao lirismo do autor. E por serem curtíssimos, tomo a liberdade de reproduzi-los integralmente:
"Tio, me dá um conto?"
("Pedido Irrecusável", p. 35);
"Na sala dos professores, um aviso:
- Não alimentem os animais."
("Medo", p. 61)
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| O soldado com suas armas: na mão e no microfone |
Aos 33 anos, Rodrigo Ciríaco já é um soldado experiente. Também autor de "100 Mágoas" e "Vendo Pó...esia", há quase dez anos está na rinha, seja com o Sarau dos Mesquiteiros (que ele organiza no Ermelino Matarazzo), ou o concurso literário "Pode Pá Que É Nóis Que Tá", ou o Rachão Poético, entre outros eventos, ele solidifica uma luta. Convenhamos, quando um artista inspirado vive no mesmo corpo de um cidadão devotado, pronto!, reforçamos a certeza de que esse mundo tem jeito.
Mais sobre Ciríaco: https://www.facebook.com/rodrigociriacoprofessor?fref=ts
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| A 1ª capa de "Te Pego Lá Fora" |
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| Com a "ídala", Mafalda, em Bueno Aires |
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| Debatendo com Bruno Azenha e Ni Brisant na Casa Amarela, em São Miguel |
fotos: arquivo feicebuquiano de Rodrigo Ciríaco
texto: Escobar Franelas
16.1.15
Entrevista: "Guilvan Miragaya" (Poesia) - SP
"Foi no sarau da livraria Suburbano Convicto, dirigido por Alessandro Buzo e Tubarão Dulixo, no Bixiga, que conheci o Miragaya. Figura carismática, vestido como um guerrilheiro zapatista, performer extático, o poeta tem uma metralhadora giratória nos lábios. Mas também é a afabilidade em pessoa quando aplaude o confrade que se apresenta: suas palmas e seus gritos efusivos são famosos! Miragaya está lançando seu primeiro livro, "Palavras Envenenadas", cujos poemas são dardos certeiros. Nesta entrevista que ele me concedeu por e-mail, soltou o verbo e matou algumas curiosidades. Mire com ele, passe ao largo ou torne-se alvo: cuide-se!"
1) Quem é Miragaya?
M: Quem sou eu? Uma boa pergunta. Vamos lá.
Sou um homem inquieto que desde cedo começou a se envolver com a leitura e a escrita, tendo a imaginação como comparsa. Nunca fui chegado em matemática, alias nunca me dei bem com ela. Nasci por aí na cidade de São Paulo no ano de 1981. Minha leitura começou pelos quadrinhos, que mantenho até hoje, depois fui para os livros que tinha bastante figuras e por fim migrei para os de sem figuras onde pude viajar cada vez mais nesse estranho louco universo da literatura.
2) Como surgiram os eflúvios poéticos em sua vida?
M: Os primeiros rabiscos começaram no colegial, na época em que comecei a estudar as escolas literárias. Aquilo me chamava a atenção, pois explorava a história da literatura e depois arrisquei alguns versos, nas primeiras vezes fazia sonetos com rimas e depois parei por anos, contudo retornei a escrita pra valer em 2008 quando cursava o segundo ano de Letras na Uniban e por coincidência ( ou não ) estudava as escolas literárias, contudo outro fator que me influenciou foram os vários acontecimentos na minha vida: problemas em casa, correria na faculdade, falta de tempo, o trabalho e etc. Todos esses acontecimentos e mais a paixão pela literatura me empurraram para a poesia.
3) Como e aonde se deu seu encontro com os saraus?
M: Foi uma coisa bem curiosa (ou mágica). Na época da faculdade conheci a Casa Mario de Andrade, que fica na Rua Lopes Chaves perto da região da Barra Funda, onde participei de várias oficinas culturais. Em 2010, fiz amizade com um poeta, o Tiago Cordeiro, que era envolvido com os saraus. Beleza. No começo de Maio daquele ano recebi um email da Casa Mario de Andrade me convidando para um sarau que ocorreria numa sexta que era véspera da virada cultural e chegando lá dei de cara com o Tiago que depois me apresentou uma galera que até hoje convivo, como: Marco Pezão, Galdino, Jaime Matos e outros. No dia eu deixei o meu email na lista de presença e sempre recebia convites e as fotos dos saraus por ele. E com isso ampliei a minha produção poética. Entretanto, a minha expansão nos saraus se deu no final de 2012 quando comecei a ir a lugares longe como o Grajaú onde comecei a participar regularmente do Sarau Sobrenome Liberdade, e depois fui ampliando mais e conhecendo mais pessoas. Tem sido uma ótima experiência.
4) Você acabou de lançar seu primeiro livro, "Páginas Envenenadas". Como foi o processo de confecção desta obra e por que este título?
M: Sim inclusive ele foi lançado no final de novembro de 2014 pela editora Beco dos Poetas e Escritores, composta por 70 poemas que escrevi entre 2008 e 2010. Durante um bom tempo não sabia como fazer para lançá-lo, mas foram as caminhadas em saraus que me ajudaram bastante. Para se ter uma ideia conheci diversas pessoas e algumas delas me deram conselhos valiosos para trabalhar melhor no livro que me foram bem úteis, então em 2013 montei o livro e defini os poemas, depois convidei uma galera com quem tinha um forte laço para fazerem os textos. Ni Brisant fez o prefácio, Hugo Paz a introdução, Patricia Cândido a orelha e o Costa Senna a contracapa. A obra estava parcialmente pronta, só precisava de uma editora confiável e o dinheiro pra bancar, coisa que só consegui no segundo semestre de 2014 quando saí de uma livraria.
A editora foi indicada pela Patricia Cândido, a galera me deu a maior atenção possível e algumas orientações, e durante o processo fiquei bem ansioso queria ver e pegar a versão impressa do meu trabalho era constante troca de emails e telefonemas e ao mesmo tempo agendava os lançamentos em dezembro em vários saraus. E no final foi um lançamento em novembro e seis em dezembro.
Sobre o título, em principio foram diversos até chegar em um que me agradasse. Precisei meditar um pouco sobre isso pra se ter uma ideia os títulos foram Páginas da Vida, Linhas da Vida, Linhas Envenenadas e por fim ficou Páginas Envenenadas. E até achei legal de colocar algo ligado a veneno no título. E uma coisa eu te digo, levei anos para lançar o livro, mas lancei no momento certo porque esse período me serviu para amadurecer o trabalho e assim lançar uma coisa de qualidade, por isso eu me dou por satisfeito com isso.
5) O poema Ode aos Cães (p.19) parece sintetizar a idéia primordial do título Páginas Envenenadas, com a sutileza e a ambiguidade latentes nos versos? Estarei correto em minhas interpretações?
M: Sim a ideia é essa, pois o livro apresenta inúmeros tipos de venenos, e o Ode aos Cães escrevi como um ato de revolta contra os maus tratos que eles sofrem ao mesmo tempo que procuro ressaltar a sua importância e presença em nossas vidas.
6) Quem e o quê você lê?
M: No geral costumo ler romances de diversos gêneros, poesias, biografia e um pouco de história. E os autores que andei lendo bastante foram Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Stephen King, J.K. Rowling e alguns outros, mas esses que citei foram os que tive um contato maior nas leituras porque vira e mexe tô sempre lendo algum autor diferente ou até pouco conhecido.
7) O que você tem planejado para este ano de 2015?
M: Bem... pra 2015... estou planejando me dedicar aos lançamentos do meu livro em vários saraus possível, participar mais ainda nos eventos culturais e também me voltar aos estudos na área de literatura pelo mestrado. Quero aproveitar ao máximo esse tempo que agora tenho disponível depois que saí da livraria onde trabalhei até o final de 2014, e se tiver um pouco de sorte quem sabe eu não consiga viajar por aí. Tudo o que eu quero é aproveitar a vida. Esses são os meus planos.
8) O que você já pode citar como mais interessante(s) nessa experiência de ter publicado um livro?
M: Além dos lançamentos que são experiencias marcantes, é o comentário do leitor a respeito da obra. No meu caso tive alguns conhecidos que leram o livro (alguns toda a obra e outros uma parte dela), e é muito gratificante esse retorno e principalmente saber que algum poema tocou aquela pessoa, principalmente quando é um poema que você menos espera. E isso vale a pena destacar é uma experiência unica.
9) Por que a máscara parecida com a indumentária zapatista faz parte de suas apresentações?
M: Digamos que é com ela é que eu tiro a minha máscara em público e consigo me soltar através da poesia libertando toda a loucura dormente na minha alma.
10) 10) Tem alguma pergunta que gostaria que eu tivesse feito? Se tiver, faça-a você mesmo e depois a responda, por favor!
M: Hummmm.... deixa ver! Deixa ver! Não, amigo Escobar. Realmente é isso mesmo. Muito obrigado por tudo.
"Manifesto Artístico"
Toda a arte é
livre.
Livre
23.12.14
Ninguém Lê - "o incrível acordo entre o silêncio & o alter ego" (Caco Pontes)
O Ninguém Lê, projeto de fôlego apresentado por Victor Rodrigues e Ni Brisant, teve sua última edição de 2014 realizada em 08 de dezembro. Agora na Galeria Olido, depois de ter percorrido outros espaços no centro da Sampalândia, o NL traz todo mês um livro convidado, que é "virado ao avesso" pela plateia leitora. Ao autor cabe ouvir as interpretações, tirar dúvidas, desmistificar e ver seus textos na mesa do legista, escarafunchada pelos leitores.
O convidado desta vez era o livro "o incrível acordo entre o silêncio & o alter ego", de Caco Pontes. No evento, iniciado sob a batuta de Victor, o autor - que é um dos pilares do coletivo Poesia Maloqueirista - pode saber a quantas anda a leitura de sua poesia solar e urbana. O apresentador abriu a sessão e a roda toda participou da leitura dos textos de Caco.
Após a leitura, as digressões vieram naturalmente. Apontamentos como o de Victor, "a gente passou a escrever melhor que aprendemos a ler melhor", serviram para nortear a discussão. O viés introdutório, porém, logo é dedicado ao polêmico texto inicial do livro, "Em forma de Caco Pontes", escrito por Antônio Vicente Seraphim Pietroforte, professor de Semiótica e Linguística da USP. Caco enfatiza que "se fosse reeditar este livro, tiraria o prefácio, pois o contexto hoje é outro". Alguém do público quebra o gelo, lembrando que não é citada a autoria de quem fez as ilustrações do livro. Caco desculpa-se pelo erro gráfico e cita a ilustradora Emília Santos como autora dos traços perspicazes que permeiam a obra.
A conversa volta para o assunto "prefácio". O autor continua as explicações: "este prefácio é uma pedra no sapato. Foi muito questionado na época em que o livro foi lançado, 2008". Ni cutuca: "a polêmica fez bem para o livro?" Caco disfarça e despista: "legitima a obra ser respaldado por um doutor da USP". A plateia não deixa o tema morrer: "por que você escolheu ele para escrever o prefácio?" Caco explica: "vendi um um libreto para o Vicente na Praça Benedito Calixto". ele gostou e elogiou, depois me convidou para participar de algumas antologias. Como ele foi me dando aberturas, neste primeiro livro oficial quis trazer todo o amadurecimento que tinha naquele momento".
Victor, libertando Caco do redoma prefaciana, recorta e recorda: "dos livros que estava comprando, este foi o que mais gostei na época". A conversa envereda por um novo caminho, onde agora cabem considerações sobre a artesania poética. Caco Pontes pisa fundo no acelerador. "A poesia é subjetiva, sinestésica, sensorial", afirma e depois aprofunda: "É uma antena em que vem um raio e... então vem o trabalho braçal, lapidar, como diria o Ademir Assunção". Provocado, acaba confessando "tenho uma certa influência de uma arte esquizofrênica, do delírio, do transtorno mental, tipo Tom Zé ou Arnaldo Antunes. Comecei a escrever pois estava lendo poemas do Jim Morrison, que estava entre o xamã e o surto provocado pelas drogas".
Do livro
Com poemas curtos, urdidos no contexto pós-geração mimeógrafo, o poeta tem uma oficina de tramas por onde confecciona algumas pérolas, como esta
Enquanto todos
tentam pegar o rei
eu
só quero
comer a rainha
("Xadrez ou confissão de um peão"),
que ele tece com destreza.
Ter acesso à poesia maior de Caco Pontes via "o incrível acordo entre o silêncio & o alter ego" foi o mérito deste último Ninguém Lê do ano.
O Ninguém Lê cumpre, assim, seu destino inexorável, sempre lembrado por Ni Brisant e Victor Rodrigues nas rodas de conversa: "ouvir o autor ainda vivo!".
Ter acesso à poesia maior de Caco Pontes via "o incrível acordo entre o silêncio & o alter ego" foi o mérito deste último Ninguém Lê do ano.
O Ninguém Lê cumpre, assim, seu destino inexorável, sempre lembrado por Ni Brisant e Victor Rodrigues nas rodas de conversa: "ouvir o autor ainda vivo!".
1.12.14
Entrevista para Marciano Vasques - II (17/11/12)
SÁBADO, 24 DE NOVEMBRO DE 2012
PALAVRA FIANDEIRA — 93
PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA LITERÁRIA
Publicação digital de Literatura e Artes
ANO 4 —Nº93 — 17 Novembro 2012
EDIÇÕES AOS SÁBADOS
NESTA EDIÇÃO:
ESCOBAR FRANELAS
___________________________________________
1.Quem é Escobar Franelas?
Engraçado que há um ano e meio eu me apresentava aqui mesmo no Palavra Fiandeira (edição 63, julho de 2011) como escritor e videomaker. Hoje sou Educador! O poeta, o prosador e o criador audiovisual continuam existindo, evidentemente, mas o Educador surgiu espontânea e imperativamente nesse período. Trabalhei com educação voluntária por nove anos na região de Barueri mas hoje trabalho full time em um projeto muito bonito e inspirado chamado "Programa Jovens Urbanos", na região de São Miguel Paulista.
2.Com tudo isso, qual o tempo que você dedica aos escritos e ao vídeo?
Fins de semana, basicamente. Quer dizer, com essa imersão na Pedagogia, uso as horas iniciais da manhã para praticar a escrita e preparar matérias. E os sábados dedico aos saraus, shows, eventos, rodas literárias, essas coisas. Quando tenho alguma produção na área audiovisual, aí geralmente marco nos domingos. É claro que isso tudo pode ser regra, mas com ampla abertura para exceções na agenda. Até porque tenho que contemplar outras coisas: a casa, a família, viagens, visita à amigos e parentes, assistir um cineminha, um teatro, ir a um show...
3.Importante ter ressaltado a família. Como você “vive” em família?
Creio que vivo bem. Por forças dessas circunstâncias já citadas, vivo mais próximo do caçula, João, que está pela manhã em casa, e esse é o momento em que também estou.
Tento formular algumas regrinhas de convivência pra gente sobreviver a essa correria. Decidimos, por exemplo, que ninguém come na sala de tv ou no quarto. Então, por essa regrinha, somos “obrigados” a conviver com o outro pelo menos na hora da alimentação, pois nesse momento todos nos ajuntamos no mesmo espaço. Assim, aumentamos a chance do diálogo, e potencializamos as oportunidades de conversa e troca de saberes.
Outra regra determinante é a de não termos TV ou computador nos quartos. Assim, novamente a regra agrega um pouco de civilidade às relações, pois tivemos que aprender a ouvir música no micro, por exemplo, com fone de ouvido, pois está no mesmo ambiente em que alguém pode estar assistindo TV. Aprendemos assim a conviver num mesmo território sem atrapalhar quem está praticamente ao lado da gente.
Parece que por enquanto está dando certo...
4.O que representou para você, como poeta e artista, e ser humano, ter prefaciado o livro SERAFIN DE POETAS II, uma antologia com apenas poemas de crianças?
Uma oportunidade única de alimentar (e exercitar) uma paixão avassaladora. Quando me questionam se sou otimista ou pessimista com relação às coisas do mundo, digo sempre que sou realista. E enxergar esse mundo sem viseiras significa, pra mim, trabalhar incessantemente para que estas crianças e adolescentes de hoje tenham tudo o de melhor em relação à geração anterior. E, consequentemente, que eles deixem um rastro de beleza para as gerações futuras.
Quanto à apresentação do livro Serafin de Poetas II, foi uma surpresa o convite que você me lançou, e um desafio, pois tive que sair de minha zona de conforto e me dedicar a algo que fosse sucinto e profundo ao mesmo tempo. E isso é algo difícil de se alcançar.
Foto de Escobar Franelas, no lançamento do livro SERAFIN DE POETAS, em Novembro de 2011
Livro SERAFIN DE POETAS II, lançado hoje
(SERAFIN DE POETAS é marca registrada ©)
5.Acredita que estamos no caminho certo em relação às oportunidades que as novas tecnologias oferecem?
Vasques, você está certíssimo. As chances que as tecnologias oferecem são a realidade que não tivemos mas esses jovens de hoje têm. E não adianta querer combater com essas frases ridículas tipo “no meu tempo tinha isso ou aquilo”. “No seu tempo”, você utilizou as tecnologias, as narrativas e os mitos que você tinha em mãos. Hoje eles se apropriam dos meios, conceitos e contextos que são inerentes a essa época, este período, entende? Então, acho justo bater palmas para um educador como você, que entende as demandas e as peculiaridades desse tempo, entende a cabeça desses jovens, e procura trabalhar uma imersão pela sublimação poética sem que eles percam as referências e os instrumentos que estão dispostos aí, como os celulares, a mobilidade urbana, as redes sociais, a interatividade.
A “ciranda-cirandinha” de hoje é o Facebook, o Twitter, o mundo blogueiro. E não há mais volta. Então, acho justo parabenizá-lo pela ideia de tornar esses espaços um lugar também para a introspecção, a reflexão e a prática lúdica. E o Serafin de Poetas me parece ser exatamente isso, um jardinzinho onde eles praticam o “ce-ce-cere-ce-ce” contemporâneo.
6.Na entrevista anterior, dedicamos um momento especial para o Raberuan, que partiu meses depois para as estrelas. Queria que você fizesse algumas considerações sobre esse artista.
Raberuan foi uma estrela que acendeu, piscou, iluminou e deixou um rastro de luz durante 58 anos, aqui na região leste de São Paulo e outros lugares. Logo após seu aniversário, em outubro do ano passado, ele subiu e agora pisca pra gente aqui embaixo, para que possamos nos inspirar e tentar escrever algumas pérolas, como esta que ele nos deixou: “Saudade: / esse capim novo que ora invade / meu canteiro verde de lembranças / onde sempre plantei a verdade. Saudade: / deu caruncho na felicidade / no feijão, no milho, na mandioca / ou no estalar sua pipoca / ou no comer sua tapioca. / Saudades / do beijo do Severino do Ramo / de ouvir o Akira recitando / nas festas do MPA. / dos nossos velhos novos planos / que se perderam com os anos / na plantação do meu pomar. / Saudade / da caminhada ao Casteluche / preparação do desmantelo / Ceciro, Osnofa e Gildão. / Saudade / do clima do quintal do Sacha / da ilusão de mil cachaças / da Célia fazendo o feijão / e o Zulu chamando o refrão. / Saudades / dos namoricos e paqueras / todas as meninas eram belas / só poesia e devaneio. / Saudade / de quando o povo rareava / lá pelas 4 da manhã / e o Gordo tocando o bongô. / Ô Gordo!” (“No Quintal do Sacha”. Link para o clipe em http://www.youtube.com/watch?v=WGS4X5W-6Dw)
RABERUAN!
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7.Já que disse que agora é também um Educador, como sente a educação praticada hoje?
A formal desinforma, e a informal preenche. Quero dizer com isso que no momento não sabemos o que estamos praticando. Estamos, para usar um termo marxista, alienados. E isso justamente no ambiente – a educação – onde deveríamos estar filtrando idéias e saberes.
Mas penso também que é um problema conjuntural e estrutural. Conjuntural,pois não pode ser pensado em partes, tem que ser pelo todo. E isso nos leva para a outra questão, estrutural, pois temos que pensar pelo viés da organicidade. As ações isoladas, que têm sido muitas, não se completam. Então, é preciso a instauração de uma nova ordem, que passe pela revalorização do papel do professor, do pesquisador, do pensador.
Esse é o papel da arte: repensar, reponderar, des-represar a água que está contida. Em todos os campos, aspectos e narrativas.
9.O que o encanta?
Fazer novas amizades pelo Facebook, ouvir o bem-te-vi que canta na árvore da casa vizinha toda manhã, ver um botão novo numa das mini-roseiras que conservo em minha coleção de tetrapaks, ser acordado por uma ideia às 3 da manhã e ter que sair da cama para rascunhar a ideia que me tomou, comer pizza com meus filhos e a musa, ler Akira Yamasaki no metrô, ouvir Sacha Arcanjo no meu celular, ver um clipe novo do Edvaldo Santana no Youtube, trocar idéias com Marciano Vasques às sete da manhã pelas redes sociais, tudo isso me encanta...
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Com o cantor Jocélio Amaro, na noite de lançamento do livro O VOO DE PÉGASO
10.Afinal, você tem alguma hora de ócio?
Todo dia. Embora possa parecer que não, a todo momento me dou o direito de furtar um pouco de meu tempo para ficar a sós, comigo. E esses momentos são muito importantes, pois reabasteço as energias e as idéias para prosseguir a caminhada.
11.Quais os seus projetos?
Estou escrevendo um novo livro, um romance. Rascunho ele num caderno universitário quando venho de trem para casa, à meia-noite, e de manhã digito.
E estou tomado pela ideia de finalizar o documentário sobre o Movimento Popular de Arte (MPA), de São Miguel, já que encontrei uma parceira para codirigir comigo esse projeto que tinha se tornado inviável para levar sozinho. Mas a Sheilinha Procópio, mal entrou em sintonia comigo, já se revelou a parceira ideal para levar a cabo esse empreendimento.
12.Deixe aqui a sua mensagem final. Qual a sua Palavra Fiandeira?
“Para aquele que pensa em desistir, dou idéias de outros caminhos. Para aquele que pensa em resistir, oferto novos argumentos. E para os que pensam em existir, dou minha mão: posso ir junto?”
Foto de Francisco Xavier ©
PALAVRA FIANDEIRA
Ano IV
Publicação digital semanal
Literatura e Artes
Edições aos sábados
Edição 93 — 24 Novembro 2012
Edição ESCOBAR FRANELAS
PALAVRA FIANDEIRA - Fundada pelo escritor Marciano Vasques
*Original em http://palavrafiandeira.blogspot.com.br/search/label/ESCOBAR%20FRANELAS%20II
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