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19.9.15

7ª Semana Literária da EMEF Pres. Epitácio Pessoa




Atendendo a um convite da profª Maria Albina Magera, com a intermediação sempre positiva de Sacha Arcanjo, eu e o poeta Akira Yamasaki participamos nesta terça, dia 15 de setembro, da segunda noite da 7ª Semana Literária da EMEF Pres. Epitácio Pessoa. Foi um evento muito bacana.
Alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) ouviram atentos e interagiram com a gente. Destaque-se a participação de Emanoel, Erivan, Taiane e Fabiana, que trouxeram questões interessantes para o debate, tiraram dúvidas, leram poemas em nossa companhia, proporcionando uma agradabilíssima noite de celebração da arte e da cultura.
A Semana Literária teve outros convidados, como José Roberto Torero, Moreira de Acopiara, Carlos Davissara e Pedro Monteiro, além de um elenco de atividades interativas com os alunos, como declamações, dramatizações, leituras coletivas, conferências virtuais, apresentações musicais, coral em libras, exposições e uma persuasiva "leitura ao pé da árvore".







fotos: Akira Yamasaki e Maria Albina Magera
texto: Escobar Franelas

14.9.15

XXV Cantoria de São Gabriel - Pequeno diário do tributo a Sacha Arcanjo







Sexta-feira, 4 de setembro. Às 6 e pouco da manhã levanto voo em Guarulhos, SP. Destino: Salvador, BA. Chego cedo, perambulo pela velha São Salvador e às 13:05 pego ônibus para Irecê, onde chego às 21:15. André Marques, Célia Cabelo e Sacha Arcanjo me recepcionam. Embarcamos no carro de André e menos de 20 minutos depois chegamos em São Gabriel. Estou exausto, com sono, mesmo assim interajo, tomo banho, respondo perguntas, como, me farto, troco ideias e impressões. Da casa de Maria (prima de Sacha que nos acolhe - junto com sua linda família - num carinho difícil de descrever aqui), ouço a música da XXV Cantoria de São Gabriel, invadindo meus pensamentos, minhas intenções, minhas sensações. Bom demais estar aqui... saio com o povo, chego a tempo de ver&ouvir as três músicas finais de Welton Gabriel, todo o show de Adão Negro, daí perco forças, não consigo esperar para ver no palco Gerri Cunha, desisto, vou dormir
Sábado pela manhã: horas de internet lenta e no celular do Sacha (meu TIM não serve pra nada nesses rincões de céu azul puro), tudo porque preciso mudar a data do meu voo de volta para São Paulo. Depois de longa espera, paciência zen-nordestina sendo elevada à enésima potência, enfim fecho essas pendengas, tudo resolvido: resta a tarde para iniciar o périplo, afinal, estou ávido para conhecer à luz do sol o chão mítico que viu e sentiu os passos de Sacha em sua infância e juventude. Sonhava conhecer São Gabriel desde que conheci o seu filho mais famoso, em 1998. Por isso a minha cara assombrada e curiosa quando saímos por volta do meio-dia para o ensaio já programado. Antes, porém, uma parada providencial para um almoço meio costelada/meio feijoada. A culinária, definitivamente, é uma excelente porta de entrada quando se quer receber bem alguém em algum lugar. Pelo cheiro e pelo sabor, ambos diplomáticos com esse e outros forasteiros à mesa, tenho certeza de que estou (estamos) sendo bem acolhidos. Depois, sol, muito sol!... e música pelo restante da tarde, entrando pela noite. Volto pra casa de Maria, com toda a família dando uma atenção que até me constrange. Banho tomado, estômago forrado, André vai vem nos buscar: eu, Sacha e Célia. A Cantoria já está em seus primeiros acordes quando chegamos, já noitinha na cidade que respira poesia e música neste fim de semana. Fico apreciando Danielle Bonfim, que mistura talento, carisma e beleza com a mesma proporção.  Depois vem o filho da terra. Sacha Arcanjo, justamente homenageado nestas bodas de prata da festa, entra no palco por volta da meia-noite. É ovacionado. O show vai até as tantas, com uma fugaz participação minha, a presença sempre marcante de André Marques e a participação especialíssima de sua sobrinha, Gabriela Gomes. Depois vem Raimundo Sodré (um showman que merece uma resenha exclusiva) e a Banda Flor de Barriguda faz as honras finais. Lá pelas tantas, creio que 4 e meia ou 5 da matina, a festa acaba mas não acaba. Todos os que resistem vão para a praça aguardar o início da  feira para comer pastel.  O povo, principalmente a molecada, estão todos dispostos. Então... tome-lhe cantoria! O violão, a percussão, as palmas, nada para, numa rodinha cantam, noutra puxam poemas, e em outras, conta-se piadas, faz-se fofocas, o flerte corre à solta. O Woodstock da Chapada é um tributo à vida. Volto para casa por volta das 7 e meia da manhã. Em estado de sublimação.
Domingo pela manhã: cama. Tarde: o pós-almoço é um circuladô pela cidade, conhecer gente conterrânea, apertar mãos e abraçar no atacado. Sacha me apresenta pessoas e lugares, passamos por ruelas, praças, vielas. Encontramos em todo lugar gente estrangeira, ancorada em São Gabriel, na fervilhança da cantoria. Cantoria, aliás, que promove encontros, oficinas e outros quetais enquanto não rolam os shows à noite. Paramos na praça em frente à Prefeitura, onde fanfarras juvenis se apresentam. Calor infernal de tão quente no inverno. Mesmo assim as ruas estão cheias. Saímos a passear, vamos ver a área rural, plantas, pequenos animais, céu aberto. Me deleito com a paisagem que é reta na linha do horizonte. Ainda bem que levei a filmadora comigo, faço imagens, eternizo tudo com paixão adolescente. Voltamos. Praças cheias, muita gente nas ruas, hora de tomar banho e voltar para a última noite da Cantoria: Francisco Gui, Cátia de França, Genésio Tocantins e Chico Lobo, só feras: me enlevo, embebedo, tomo banhos dionisíacos, homéricos, embasbacantes da fartura e música e violão inconfundíveis. 
Não fosse a necessidade de voltar à realidade, nunca mais sairia dali, daquele lugar, daquele momento.
A XXV Cantoria de São Gabriel homenageava Sacha Arcanjo. quando ele me convidou para estar com ele nesse momento delirante da vida dele, talvez não soubesse, mas foi este reles escrevinhador que foi levado ao delírio.
Segunda cedinho, 6 da manhã: o celular desperta na casa de André Marques, em Irecê. Acordo, me arrumo, ele me chama, tira o carro da garagem, rumamos para a rodoviária, compro minha passagem, tomamos um café basicão, o ônibus chega, abraço meu mais novo irmão, nos despedimos. Zarpo daquele lugar trazendo uma saudade gorda. E a certeza de que vou voltar.

22.8.15

Cine-debate no CCA Paschoal Bianco: filme "Linha de Passe"

Assista o filme 


Assista o trailer

Convidado pelo meu bróder Roberto Maty, ontem à noite pude discorrer sobre o filme Linha de Passe com pais de crianças e adolescentes atendidos no CCA (Centro de Criança e Adolescente) Padre Paschoal Bianco, na Vila Califórnia, no vértice entre São Paulo, São Caetano e Santo André. O público - majoritariamente de mães - assistiu atento ao filme e depois pudemos trocar impressões e tirar algumas sugestões sobre questões que permeiam nosso tempo, nossa cidade e nossa condição social.
"Linha de Passe" é um filme de 2008, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, com roteiro dos mesmos e mais Bráulio Mantovani. O resumo da ópera é sobre uma mãe que luta para criar sozinha quatro filhos meninos, com idades e pais variados. Um quer ser jogador de futebol, outro é motoboy e outro é evangélico fervoroso. O caçula é criança ainda, e quem oferece alguns poucos momentos cômicos do filme. Não bastasse as complexidades do cotidiano, a mulher está grávida novamente, acentuando ainda mais as contradições da vida de todos.
Sandra Corveloni ganhou o prêmio de melhor atriz do Festival de Cannes pela interpretação de Cleuza, a mãe.
Com Vinícius de Oliveira, João Baldasserini, José Geraldo Rodrigues, Kaíque Jesus Santos e Sandra Corveloni.
Brasil, 2008, 98´

14.8.15

Pequenos processos, grandes progressos (ou, aprendendo jornalismo na prática)

Noite de festa eclética na Augusta

cobertura por Coletivo Ounão: texto por Escobar Franelas | Fotos por Fernando Antunes

22:45h de uma noite tranquila e amena. Terça-feira, 22 de março, rua Augusta, Studio SP, centrão de Sampalândia. A banda Do Amor, do Rio de Janeiro, sobe ao palco, abrindo mais uma noite do Cedo e Sentado Fora do Eixo, projeto mantido em parceria com a casa.
Após a canja inicial do dj Barata, que uniu em seu set-list vários elementos musicais, a Do Amor (Gabriel Bubu (guita/voz), Gustavo Benjão (guita/voz), Marcello Calado (batera/voz) e Ricardo Dias Gomes (baixo/voz), atacou com Babydoll de Nylon, música irreverente e que deixa bem clara a proposta musical do quarteto, que é fazer um rock´n´roll brazuca despretensioso, unindo as várias possibilidades e texturas no terreno das músicas populares praticadas nesses Brasis. Egressos de grupos distintos como o Cê (que acompanha Caetano Veloso), Los Hermanos e também Lucas Santana, os músicos se dividem ao microfone, sem perder a consistência e coesão que norteiam suas apresentações.
Pausa para novas intervenções do dj da casa, e aí entrou o power trio Nevilton, do Paraná, com o próprio na guitarra e voz, Lobão no baixo, e Chapolla na bateria, exatamente no primeiro minuto da madrugada. Banda catártica que em alguns momentos lembrou-me os gaúchos Replicantes (anos 80), dominou o palco com seu rock sincero, curto, certeiro e grosso. Com uma presença de palco marcante e visceral, os músicos mantiveram o público em inquietude natural durante sua hora de show.
Nova pausa, idas ao banheiro, bar e xavecos à solta, e então, faltando quinze pras duas, com a quase bem mais lotada, a rapper Flora Matos, de Brasília, tomou o palco para si, acompanhada de das vozes maviosas de Karol Koncá e Karol de Souza e do dj LX.
Sexy e insinuante, moderna e antenada, a menina-moça-mulher, flor em seus 22 anos, com domínio sossegado de sua platéia, com a qual divide suas letras cheias de sutilezas que adoçam seus raps pop-românticos. No fim, ela lançou oficialmente o clipe de “Pretin”, ótima música de sucesso garantido.

7.8.15

Entrevista: NÉLIO GEMUSSE (Literatura) - Moçambique




(Nélio Gemusse, jovem promessa das letras moçambicanas, aporta aqui para falar da beleza da arte conjugada com a vida. Cita fatos, relembra o mano, comenta sobre sua obra e faz planos para o futuro: degustem-no!)

1) Quem é Nelio Gemusse?
Bom, Nélio Gemusse é um escritor e poeta moçambicano, nascido na cidade de Maputo aos 04 de Fevereiro de 1993.
Vindo de uma família humilde, apaixonou-se pelas letras muito cedo, influenciado por grandes escritores como: Pablo Neruda, Agostinho Neto, Calane da Silva, Paulo Coelho, entre outros, começou a escrever poesias.
Pela dificuldade que enfrentou em termos financeiros, somente em 2015 lançou a sua obra de estreia, intitulada “Valério", que para muitos foi um espanto, já que se trata de um conto, pois as pessoas apenas conheciam o seu lado poético. Para além da sua obra, participa de duas colectâneas, nomeadamente: “Antologia de poesia contemporânea V.6“, com “Poema de Saudade" e da “Antologia de Poesia em Homenagem à Manoel de Oliveira”, com o poema “Manoel de Oliveira".

2) Conte um pouco de sua infância:
A minha infância foi muito simples e boa.
Sendo filho de um funcionário público, vivi em duas cidades (Maputo e Quelimane), devido às transferências do meu pai, e isso fez com que eu conhecesse e fizesse boas e novas amizades e entrasse em contacto com novas culturas.
Isto é que marcou mais a minha infância, não me esquecendo daquelas brincadeiras do bairro, com aqueles brinquedos inventados por nós, pois não tínhamos condições para comprar brinquedos novos ou nas caixas como os outros meninos da cidade.
A perda do meu irmão mais novo, foi uma ferida adquirida na infância que não se cicatriza até hoje, apesar da idade que tinha, aquele acontecimento mexeu muito comigo.

3) Quando foi que você começou a sentir os primeiros sobejos da arte em sua vida?
Tudo começou quando li um livro por completo pela primeira vez (“Sagrada Esperança”, de Agostinho Neto), para além dos textos que vinham nos nossos livros de português do ensino primário.
As telenovelas brasileiras, os filmes, etc, influenciaram de uma certa forma para o meu gosto pela arte, devido aos papeis dos personagens, as estórias, as surpresas, por ai em diante.
Mas de uma forma resumida, o amor, a paixão pelas artes se manifestou ainda cedo em mim. Tanto que hoje em dia, não vivo sem assistir um bom filme, sem ir ao teatro de vez em quando, de ler um bom livro e de escutar uma boa música.

4) E a vontade de escrever mais seriamente?
Naquela de contar histórias, muitas das vezes improvisadas para amigos da zona e colegas da escola, algum tempo depois, eles próprios aconselharam-me a escrever a sério e mostrar para o mundo, pois eu tinha talento para tal (segundo eles).
E dai comecei, em 2012.

5) Conte pra nós um pouco como é sua vida, o que faz, no que trabalha, se estuda, os divertimentos, a cena cultural em Moçambique (lembre-se que estou entrevistando você a partir do Brasil e tenho minhas curiosidades):
Bom, eu levo uma vida muito simples, curso ciências policiais pela ACIPOL (Academia de Ciências Policiais). A residir em Maputo, sempre que posso desloco-me à cidade de Quelimane onde sou patrono de um projecto (Allien Eventos), que promove lanches para os meninos de rua, pelo menos uma ou duas vezes por ano.
Como qualquer jovem da minha idade, também tenho os meus momentos de lazer, que no fundo, também envolvem a cultura, música, filmes, teatro (principalmente).
A cena cultural em Moçambique está no seu mais alto nível, talentos não faltam nessas terras de Machel, mas acredito que estaríamos melhores ainda, se tivéssemos mais apoio por parte do governo.
Mas enquanto não há esse apoio, nós os artistas fazemos a nossa parte (e fazemos bem).

6) Fale sobre Valério:
De uma forma resumida:
“Valério" conta a história de um menino de rua e usuário de drogas, que no desenrolar do conto conhece alguém, que sou eu (conto a história na primeira pessoa), e graças a Deus ganha uma oportunidade de mudar de vida, e por acaso muda. Contudo, passou por altos e baixos, superando vários obstáculos.
E para a surpresa de todos, no final de tudo, quando tudo parecia estar bem, cometeu o maior erro da sua vida, que foi… (Só lendo) hehehe.
Por que Valério?
Porque foi uma forma de homenagear o meu irmão mais novo, que infelizmente já não se encontra no mundo dos vivos, não só, quando procurei a origem do nome descobri que Valério significa "robusto", "cheio de vigor", "cheio de saúde" e e até "valente". Vem da palavra latina “valere”, que significa "ter saúde". E isso se enquadrava perfeitamente no personagem, e dai ficou.

7) E agora, está preparando algo novo para seus leitores?
Sim.
Já agora estou a negociar com algumas editoras, pretendo lançar ainda este ano uma obra poética, intitulada "Poemas Genuínos", que conta com o prefácio do grande escritor Helder Diniz e com a capa do grande artísta plástico Jõao Timane.

8) Como você sente hoje o mundo das criações artísticas em Moçambique? Pode considerar que há uma arte genuína ou a influência de outros países é mais determinante? Por favor, comente sobre isso:
O mundo das criações artísticas em Moçambique está e sempre esteve bem, apesar das dificuldades que os artístas enfrentam cá. 
Quanto às criações artísticas, nós, os artístas contemporâneos é que sofremos um pouco das influências dos outros países, por causa dos intercâmbios, da mídia, etc. Mas sem perder a originalidade e o foco, que é de transmitir a nossa cultura para os outros cantos deste mundo.

9) Tem alguma pergunta que não fiz mas que você gostaria que eu tivesse feito e não fiz? Se tiver, faça você mesmo e a responda, por favor.
Acredito que não, através das tuas perguntas acabei abordando um pouco de tudo,
O essencial ficou.



Texto: Escobar Franelas
Fotos: página de Nélio Gemusse no Facebook

Participação na Banca de Poesia - São Miguel Paulista




Participar como convidado da Banca de Poesia foi uma das grandes experiências que tive na vida. O encontro, promovido pelo Movimento Aliança da Praça (MAP), no dia 30 de julho, na banca de jornal da família de um dos organizadores (Rafael Carnevalli), foi de uma beleza tão indescritível que o relato aqui não vai sequer triscar no que foi a energia do momento.
Eu já tinha sido convidado numa outra oportunidade, quando dividiria o espaço com meu bróder Akira Yamasaki. Mas aconteceram problemas no trabalho e tive que declinar do convite aos 45 do segundo tempo. Mesmo com essa mancada das bravas, o Rafa me bancou e chamou de novo. Dessa vez, fui! Aliás, iria mesmo que acontecesse um dilúvio.
Cheguei lá em clima de intimidade, um pouco nervoso - confesso - ele montando os "bagulho", eu tentando disfarçar o medo de enfrentar a juventude. Parece quase uma idiotice repetir esse mantra, mas o friozinho na barriga quase vira resfriado na virilha em certos momentos... como naquela noite! 
Pra aliviar a tensão fui pra padaria prum café, encontrei com Akira dando uma forrada no estômago, na saída da padoca a Rosinha nos encontrou e ficamos  papeando. O sr. Carnevalli chega na humildade geral, sempre com a voz branda, quas epedindo desculpas por entrar na conversa, cumprimenta o Akira (ainda não tinham se visto), trocam elogios mútuos e... bora começar? Bora lá!
O mote do encontro era um novo lançamento de meu romance de 2011, Antes de Evanescer, na banca. O mestre de cerimônia inicia lendo a 4ª capa do livro, depois dá o apito inicial para o sarau, chama o povo para o microfone aberto, convoca eu para contar umas groselhas e abobrinhas sobre o livro, apresenta uma pequena cantata literária com o Lobinho e a Tayla, a partir de poemas meus dispersos pelo universo internético; depois a molecada vem de novo, exclama, declama, reclama, inspira, transpira, fala, dá o recado.
Tudo lindo demais...
Pra tentar estragar o clima de extasia, a cada cinco minutos uma viatura vem devagar, para, presta atenção, pousa seus olhos nervosos naqueles jovens que ousam declamar poesia e arranhar falas teatrais, reinterpretar músicas, abrir os braços para os abraços sinceros, sorrir, quando poderia estar fazendo arruaça, fumando, bebendo, roubando, pedindo... mas não!  Desconfio que pesam mil argumentos em suas cabeças atônitas para abordar poetas soltos praticando o escambo da arte pela arte sob a lua brilhante. Em determinado momento surgem algumas motos, estou declamando, colam bem de ladinho, quase param, fazem barulho com seus escapamentos engasgados mas... volto a repetir, "o que pode o aparato policial contra a arte"? ainda não está na Constituição que falar poemas em público seja passível de prisão, apreensão e multa!
Feitas as contas, só comemorações. A Banca de Poesia, que acontece mensalmente ali, em frente à biblioteca Raimundo de Menezes, na av. Nordestina, altura do nº 780, cumpre o papel quixotesco de ser a semeadura de alimentos para o qual há estômagos não preparados. Em tempos de transgênicos, a pureza e a leveza podem maltratar espíritos secos e duros.
Seja como for, gratidão, todos/todas!

Texto: Escobar Franelas
Fotos: arquivo Banca de Poesia
Capa do livro: arquivo EF












26.7.15

Entrevista: PAULINHO DHI ANDRADE (Literatura) - SP

Paulinho Dhi Andrade (Foto: arquivo pessoal PDA)

Eu Te Amo, Papai: obra de Paulinho Dhi Andrade (foto; arquivo pessoal PDA)
Declamando no Sarau da Maria, SP (foto: arquivo Sarau da Maria)
(Paulinho Dhi Andrade  foi salvo pelas letras, ele mesmo confessa. Passando por crises existenciais profundas, encontrou na expressão literária os motivos para prosseguir na luta. Autor de "A Tragédia dos Mentirosos" (contos) e "Eu Te Amo, Papai" (romance), ele conta aqui, neste depoimento, um pouco de sua trajetória)

1) Quem é Paulinho Dhi Andrade?
PDA: Sou uma cópia de mim mesmo.

2) E quem (ou o quê) é o original?
PDA: Tenho dúvidas, principalmente quando escrevo.  O ato de escrever me parece tão real que para não encarar uma desilusão muitas vezes prefiro fechar os olhos...

3) Nessa sociedade contemporânea, onde o pós-modernismo determina a cultura pelo fragmento, o que pode o artista?
PDA: O artista pode tudo. Ele tem o poder. Mas utilizando do velho entendimento que "nem tudo convém", é preciso tomar cuidado com a própria arte. Por exemplo: um autor escreve sobre política, e crescimento econômico de uma nação, de repente ele resolve por em prática sua arte, ai eu pergunto: Ele conseguiria levar a sério sua ideia exposta de forma artística a ponto de não se corromper? Tenho essa dúvida desde de que li "A Revolução dos Bichos", e também quando tomei conhecimento de muitos que no passado lutaram por uma nação melhor e hoje nos envergonham...

4) Robert Filliou asseverou que "Arte é o que faz a vida ser mais interessante que a arte". Você poderia comentar sobre isso?
PDA: Concordo. A vida já é uma arte em si. No entanto parece que somos todos artistas porque criamos um modo de viver, mesmo sentindo ou sabendo que a vida não existe, o que existe é a morte. Passamos a morrer a partir do momento em que somos gerados, pois passamos a envelhecer, então não vivemos, morremos... Parece-me que a maior arte criada é a vida.
Vou complementar a resposta com um pequeno poema...

"Às vezes parece ser tão difícil ter que ficar aqui.
Talvez o que nos faz suportar o peso que é viver, seja o lado romântico que a vida nos proporciona. 
nós somos incríveis..."
"Jesuis Cristin"
"Quié Pai?"
"Venha cá, seu mininu..."
"Já tô inu, Pai"
"Pronto Pai, qui cê quê?"
"ôi Jesuis, vô botá ocê na iscola. Cê vai lá pra Terra aprendê di tudo que eles insinam lá, inté essi tal de negócio qui é morrê, adispois cê vorta pra dize u qui é."
"Tá bom, Pai."
"Otra coisa, a respeite todos os seus professô, visse? 
Agora vai, mininu, vai cum Deus..."
"Há, há, há... tá bom Pai, fica com Deus tamém."

Nós somos incríveis.
Somos tão incríveis que conseguirmos até... morrer.

5) Como foi a sua infância e juventude?
PDA: Minha infância foi, de uma forma ou de outra, feliz. Lagos, banho de chuva, uma namoradinha amiga, sem noção do que era sofrimento e muio mais...
Minha juventude, a partir dos 12 ou treze ano, já foi diferente. Comecei a me perder na vida. Uso de bebidas alcoólicas, maconha e vários tipos de comprimidos. Enfim, dominado pelo vício. Trafiquei, assaltei, muitas vezes me vi obrigado a atirar contra bandidos e policiais... Quando entrei para a vida do crime, foi com a intenção de levar comida para casa, mas isso acabou ficando em segundo plano, pois meu vício  precisava ser alimentado. Entre os quatorze membros do grupo eu era o único que lia escrevia. Eu estudava muito, mesmo sob os sorrisos irônicos dos demais.

6) E quando foi que sentiu os primeiros pruridos que o levaram para o mundo da criação artística?
PDA: Eu comecei a escrever pequenos poemas aos doze anos na escola. Comecei a me interessar por livros aos nove, lembro que o primeiro livro que li foi "O menino de asas" da coleção Vaga-Lume. Depois vieram vários, mas o que mais me chamou a atenção foi: "Lúcio Flávio, o passageiro da agonia" e "Papillon". Aos quinze anos ganhei do diretor de uma escola, onde eu fazia um curso de pintor letrista, o livro "Coração de onça" da coleção Vaga-Lume, por ter sido o leitor mais assíduo num período de quatro meses. A partir daí comecei a ler mais ainda e a produzir versos e pequenos contos que hoje já não existem mais, os perdi...

7) Conte agora como foi escrever  e publicar "A Tragédia dos Mentirosos", a pequena coletânea de 4 contos.
PDA: Em 1997 participei pela primeira vez em uma antologia poética pela Editora Phisys, provavelmente já extinta, e no mesmo ano fiz minha primeira exposição de poemas e contos no Parque Chico Mendes, zona leste de São Paulo. A partir daí comecei a cogitar a ideia de escrever um livro de poemas, mas meus poemas eram muito do contra, eu criticava muitos religiosos e políticos, sendo que no tempo de escola meus versos eram de amor. Certa vez cheguei da rua dopado de bebida alcoólica e comprimidos e comecei relembrar minha vida, desde o tempo em que havia entrado para o crime. Perguntei-me:  "O que você quer da vida, Pardal?". Foi ai que peguei um caderno de brochura e comecei a escrever tudo que me vinha na cabeça. Comecei a escreve às 23 horas e terminei às 7 da manhã...
Então lembrei da vontade que tinha de lançar um livro. Entrei em contato com a Phisys Editora e negociamos um valor, não lembro qual era a moeda usada na época, mas sei que custou muito caro.
Eu trabalhava no Hipermercado Carrefour e meus amigos de serviço sempre faziam festas na casa de outros comprando bebidas em lata, e toda vez que acabava a festa eles juntavam tudo, as amassavam e me entregam para que eu as vendesse e conseguisse o dinheiro para pagar a Editora. Minha ex-esposa, Miriane  Carolina, também me ajudou muito, me emprestando dinheiro para completar o que eu já havia conseguido.
Com 300 livros nas mãos, tive que vender de mão em mão, pois a Editora era pequena e não fazia distribuição em livrarias. Vendi 200, dos cem que sobraram eu doei para bibliotecas e também vendi para alguns amigos, e ainda não recebi, já faz mais de quinze anos. rsrsrs
Em 2000, fiquei internado numa clínica do governo para fazer tratamento de minha depressão. A psicóloga da clínica me levou até a faculdade Cruzeiro do Sul para apresentar meu livro aos alunos de psicologia. Eles me fizeram muitas perguntas sobre a obra e outras coisa mais. Acabei vendendo livro para a sala inteira e ainda por cima o professor deles usou um dos contos, "Edna, infeliz para sempre", como tema de aula. Isso me deixou muito contente.

8) E como foi escrever "Papai, eu te amo"?
PDA: Foi-me uma experiência  incrível. Estava muito doente, depressão profunda, e resolvi dar fim a tudo.  Comecei a me despedir de meus amigos na rede social e de repente senti vontade de ouvir música. Como gosto muito de ouvir a Ave Maria, coloquei para tocar. E foi ai que comecei a escrever algumas memórias e sensações que estava sentindo em relação a muitas pessoas, inclusive a minha amiga Thainan que eu, de alguma forma, passei a tê-la como filha em outras vidas, como se eu acreditasse nisso.
Todas as noites eu escrevia várias páginas, cheguei a escrever 450 páginas em 38 dias, sempre ouvindo a Ave Maria. Reduzi o livro a 220 páginas, até agora não sei porque fiz tal coisa, poderia ter deixado, mas...

9) Tem alguma coisa em planejamento para um futuro próximo?
PDA: Sim. Estou escrevendo três livros ao "mesmo tempo", sendo que o terceiro é o que eu mais darei atenção. Nele eu conto a história de um homem que depois de ter, supostamente, se desiludido com algumas religiões, torna-se ateu. Quando morre descobre que foi parar no Inferno. Então, com a alma cheia de conflitos e dúvidas, chega a acreditar que de lá nunca mais sairia, mas... ele descobre uma maneira de escapar...  e saí do Inferno de cabeça erguida.
O livro ainda não tem título.

10) Tem alguma pergunta que não fiz e você gostaria que eu tivesse feito? Se sim, por favor formule-a você mesmo, responda-a e poste aqui. Obrigado, abraços.
PDA: Apesar de se considerar ateu, por que em seu livro "Eu te amo, papai" você chama a atenção para a "Fé" em todos os âmbitos?
PDA: Faço isso porque acredito que a "Fé" me parece ser muito confundida com o "Medo".
Qual seria a resposta de alguém que diz ter muita fé em Deus se eu lhe perguntasse: "Você tem fé em Deus porque Ele merece ou porque você tem medo de ir para o inferno?"
Parece-me que muitos tentariam enganar a onisciência de Deus alegando que o inferno não lhes provocaria medo algum...

11) Dessa pergunta que você formulou e respondeu, surgiu-me outra: por que essa obsessão por Deus? Você, como ateu que afirma ser, não acha que cita demais a personalidade de Deus?
PDA: Nietzsche também foi suspeito quanto a isso, mas na verdade só tento entender aqueles que se dizem cristãos ou de outra religião e no entanto fazem totalmente o contrário à vontade de seu Deus.

12) E o que é "a vontade de Deus"? Aliás, qual Deus? O judaico-cristão? E como ficam as outras religiões monoteístas, que apresentam deuses similares e dogmas parecidos?
PDA: Talvez o que falta em tal conceito seja a compreensão de que se Deus existe, ele é um só. Provavelmente a diferença de culturas fez com que pudéssemos criar os nossos próprios pensamentos relativamente divinos.
Antes dos homens chegarem aqui, os índios já acreditavam em Tupã.
Quem disse a eles sobre tal divindade? Seriamos extra-terrestres vindo para a Terra numa provável poeira cósmica, cada qual de um sistema solar com crenças diferentes? Talvez isso explique as raças e línguas variadas. Parece que criamos um deus a cada necessidade, quem já não teve confiança em amuletos? No pai, na mãe, no irmão mais velho?

Performance poética durante Sarau da Casa Amarela, S. Miguel Pta, SP (foto: Luka Magalhães)
Performance poética durante Sarau da Casa Amarela, S. Miguel Pta, SP (foto: Luka Magalhães)
Performance poética durante Sarau da Casa Amarela, S. Miguel Pta, SP (foto: Luka Magalhães)


25.7.15

Um poemeu: "A metalinguística da metafísica"




súbito 
o céu é sol
o sol é quente
quente é o sal
sal é veneno
veneno é tempero
tempero é sentido
o sentido é a projeção
a projeção é a pose
a pose é posse
posse é pré-domínio
pré-domínio é amor
amor é o inferno
inferno é o céu