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27.11.08

CEM idéias

Aqui estou eu, diante do micro, com trocentas idéias para uma crônica que não vingam diante da tela em branco. Há poucas horas atrás, no meio de uma madrugada insone, rascunhei umas cinco ou seis no papel, algumas até evoluí para um início de texto, outras ficaram a ver navios apenas no argumento, e outras nem isso: ficaram apenas na sugestão de um título, por exemplo.


Que monstro é esse, a dificuldade de escrever? A tela em branco do micro é um desafio irritante. Engraçado que às vezes me pego pensando que a folha em branco não representava esse mesmo medo diante do abismo.

Que foi, será que a intermitências dos pixels gera uma confusão tamanha que se torna difícil encadear o que

se pensa?

O será um bloqueio específico meu?


14.11.08

Esqueçam o que escrevi...

My god, o que foi que fiz? Relendo este último texto aqui postado, tive ânsias. Que coisa chinfrim sem cabeça  foi essa? De onde veio esse "recondicionamento" do meu pensar? De onde partiu a ordem para escrever tamanhas superficialidades? Quando foi que me dei o direito de escrever tão mal? Acabou a bateria? Melhor seria se tivesse ficado em silêncio. Mas não fiquei.

Escrevi. Já faz bem uns 10 dias que estou tentado a exclui-lo. Mas isso seria um abrandamento do meu erro. Resolvi deixá-lo à crítica reta, à retidão de análise de tantos quantos quiserem. Só para me lembrar de que a gente nunca pode deixar de repensar cada linha que escreve, para não cometer bobeira e ficar em impedimento assim... tão de bobeira.

O fato é que as agora já pretéritas eleição nos stêitis e fórmula (vruuuu)um ficaram tão à tona naquela semana que pareceu tão eterna, que me senti sequestrado pela idéia de evoluir e/ou ao menos desenvolver um pouco mais esse assunto. Me entreguei de corpo e alma a uma nova utopia que nos brindou momentaneamente, num vértice não previsto pela história. E a história tem disso: às vezes colhe-se pepitas no óbvio.

Mas temos que cuidar para que nossas análises não fiquem rarefeitas. Pois basta-nos essa superficialização estéril do pensamento daqueles que deveriam cuidar do nosso estado, do nosso estudo, nossa cultura, segurança e afins. Quando perdemos o cuidado da análise fria e isenta, muitas vezes damos margem para que sejamos mal interpretados, ou pior!, para que os críticos(sempre há, e vários), não pulem na nossa goela para nos introjetar uma mesma rarefação de apontamenos. A superação dos fatos se dá somente com a evolução. Analistas já observaram que todo assentamento de uma revolução é um novo espezinhamento das mesmas idéias anteriores, agora travestidas de "revolucionárias", ou nova onda, um modismo tão aberrante quanto qualquer estado anterior. O stalinismo, o fascismo e revolução cubana são alguns exemplos recentes disso que estou a asseverar.

Pois bem, o assunto é a eleição de Obama e o campeonato de Hamilton. Um visão crítica do (bom) momento que o mundo vive hoje exige que se projete para amanhã os ganhos de agora. A dúvida mais pertinente é "vão deixar um governar", ou vão patrocinar a instabilidade, para tentar uma tentativa de golpe na Venezulea anos atrás. ou tentar desestabilizar como têm feito como Evo Morales na Bolívia?
Não que esteja defendendo estados de excessão já vislumbrados no governo Chávez. Mesmo com seus achaques é possível perceber que ele talvez não seja tão louco assim, retrocedeu a um estado de impertinência infantil quando foi acuado pelos majors que controlam toda a vida latina, asiática, afrincana e tant'outros.

5.11.08

Sincronismo Histórico

Ponto final: o dia 4 de novembro de 2008 é um dia histórico para o entendimento do mundo enquanto geografia global. Barack Hussein Obama, 47 anos, havaiano descendentes de africanos, mestiço(como ele se proclama), é eleito o 44º presidente dos Estados Unidos da América. Há exatos três dias atrás - já estamos agora no dia 5 - um outro negro, o inglês Lewis Hamilton se tornou campeão mundial de Fórmula 1.
Estamos diante daquilo que os filósofos citam como o "imponderável" na construção da estrada humana. Por uma dessas artimanhas que o destino nos impõe, fatos novos desfilam num recurso de fastforward na tela de nossos dias. O fato de dois negros cometerem dois feitos até então inéditos na história, nos colocam diante desde já diante de um vértice cronológico. Mas, e o mundo? Está preparado para lidar com essas situações? Desconfio que não.

Os dados nos dizem que houve um conluio de situações anômalas para que Hamilton se tornasse o primeiro negro a pilotar na elite dos carros de corrida. Foi preciso muito(muitíssimo) talento, o apoio incondicional da família, a aposta metódica de um chefe cujo currículo de descobridor de talentos é irretocável - Ron Denis - e uma equipe fortíssima e que desenvolve um trabalho de relógio suíço na mecânica de seus carros. Confesso anarquicamente que gosto da figura jovial e simpática do Massa, o brasileiro que melhor nos representa na categoria até agora. Mas perder a oportunidade de ver uma radicalização na história, isso eu não queria de maneira alguma. Então, depois de mais de 15 anos afastado "das pistas", eis que no domingo me vi dirigindo ao lado do inglês impetuoso, em cada curva do sinuoso autódromo de Interlagos. Foi maravilhoso, vibrante, chato e muito denso torcer por uma vitória do brasileiro ao mesmo tempo que queria o campeonato para Hamilton. Tudo bem, isso foi resolvido faltando menos de 500 metros para o fim. E tivemos um final eletrizante, não previsto em qualquer roteiro roliudiano. Ficou chato ver meus dois filhos tristes só porque o brasileiro perdeu. Pior, cruzou a linha de chegada vencendo a corrida e o campeonato, apenas não contava com a falibilidade da chuva, que antes provocara a vitória e agora a tirava, com a anuência do almeão Timo Block, que teve que "tirar o pé" para não rodar na pista, já que tinha pneus gastos e impróprios.

Mais anômalos foram os fatos que permitiram que Obama fosse eleito presidente no dia de ontem. Ele representa o oposto de todo conteúdo que sabemos fazer parte da orientação política dos estadunidenses. Por incrível que pareça, o fator cor é emblemático mas, velado na penumbra, diz mais em seu silêncio sepulcral do que outros detalhes da biografia do eleito: tem simpatias para a discussão sobre as desconfortantes questões que abordam a união civil entre pessoas do mesmo sexo e o aborto; quer o fim da guerra do Iraque e essa insânia cega contra o terror; demonstrou aversão aos ritos maniqueístas da cristandade que dirige todo discurso e todo ato de grande parcela da população, que quer palavras de ordens e atos de bravura e coragem; e, principalmente, não é apenas militante negro. Fosse isso, teria sucumbido às intempéries diárias da construção de sua personalidade política. A vida já nos ensinou muito sobre até onde vão aqueles que não dominam a arte global de exercer a política.

Quer dizer, dois figuras que correm na contramão da história repentinamente e por motivos alhures entram em sincronicidade e provocam comoção e utopia num momento em que se respira crise e desencanto financeiro. Verdade reconhecida aqui, foram os ventos tempestuosos dos desencontros financeiros ao redor do globo que permitiram a Obama entrar para a história e não enfurnar fantasias. Caso o mundo continuasse em sua marcha lenta progressiva, provavelmente teria o mesmo encontro com a parede de vidro que impediu o ingresso de Gabeira há poucos dias atrás no Rio de Janeiro.

1.11.08

Achado não é roubado (?) (!):


(Acrílico sobre tela, sem título, 50x70, encontrado numa caçamba de lixo, no bairro da Saúde, SP, capital, em meados de 2001. Desde então exibe-se na sala de casa)
EF

25.10.08

Como Entender os Filhos - Parte 2

Continuo sem entender os filhos. E sem entender o mundo, e - principalmente - sem saber o que fazer com a minha crise criativa. Criativa?, oras bolas!, vá catar coquinhos, Escobar, pois quem falou que você é criativo?

É isso o que acontecesse quando bate aquele branco em sua mente, e você se pega sem saber o que escrever. Tampouco, como escrever. Estou tão mal na/da ciência labiríntica da digitação, que ouço vozes ao meu redor dizendo com todas as letras que sou melhor jogador de biboquê que poeta. Logo eu, que sempre fui péssimo em jogar peteca,peão, bolinha de gude, pipa, handebol, basquete, vôlei, aquaplay, TGA, Pac-Man, dominó, xadrez, dama, pega-vareta e palitinho. Futebol então... Então me diga, meu caro, por que é que esse diabinho sentou-se aqui em meu ombro e vem me contar asneiras, querendo me assegurar que sou peladeiro, melhor que a caneta e o mouse às mãos? Quem me garante que sou mesmo um atleta em pleno vigor juvenil de seus 40 anos, quando desde os 13 o que melhor pratico são os versinhos que ofertava de montão às namoradas?

Essa não, Mané... tão querendo me enganar, me deixar confuso, achando que o melhor que posso ofertar ao mundo é minha retidão de caráter, minha humildade às vezes indulgente demais, meus assomros de civilidade que beiram a inocência política, e minha atitude servil, a serviço da família, da pátria, do patrão. Mas não, quero voltar a ser punk, grunge, moleque e adolescente de novo. Por que não? Por que aos mais velhos não é dado o direito de errar inclusive no trato com seus filhos que estão querendo imitar? Essa não, Mané, que não vou dar o braço a torcer. Ninguém vai me convencer de quem sou bom de bola, que sou de cama, que sou bom de letra, que sou bonde por onde trafegam sonhos os mais diversos, inéditos e instáveis que se possa imaginar.

Anjo ou diabo que está sentado no meu ombro, por favor, cale-se. Deixe-me ao menos uma vez duvidar ou acreditar por mim mesmo. Essa de você ficar bafejando na minha orelha que esse negócio de escrever é coisa de Drummond, Machado, Graciliano, Clarice e Ubaldo, poxa vida, tá impedindo-me de ser pelo menos um reles escobarzinho, com direito a duas linhas de rodapé de um jornaleco mensal lá na conchichina.

Pare de mentir pra mim, por favor! Pare de me provocar, já que Pelé eu não serei mesmo. Nem pra Tonhão ou Dinei eu tenho jeito. Então, deixe-me a sós com esses brancos de memória, ou esses excessos de idéias. Uma hora vou colocar tudo no liquidificador e quem sabe daí não saia um bolo. Enquanto isso, vou treinando as letras, pois idade pra isso eu ainda tenho.

16.10.08

Como Entender os Filhos

Não sabia o que escrever mas sabia que tinha que escrever. Ficar muitos dias sem aparecer na cara da net pode parecer falta de responsabilidade, talento mal aproveitado, conversa mole de botequim, sei lá!

O fato é que estava procurando um fato novo. Dizem que todo cronista passa por essa dor-de-barriga quase sempre, a falta de assunto. Diria, aliás, o contrário: excesso de assunto. Pois está aí a crise mundial do dinheiro atrapalhando os planos de Lula de nadar no mar negro e sem ondas do pré-sal; tem o caso sem fim do Iraque, um novo Vietnã inventado pelo bush (perdoem-me, mas perdi o respeito por ele de tal forma, que escrever o nome dele com maiúscula é dar um deferimento que aquele cidadão (cidadão?!) não merece). Temos litros e litros de bate-papo sobre essa guerra chinfrinzinha entre o Kassab e a Marta. Tomaria umas boas biritas sinucando e filosofando sobre como seria o governo Gabeira no Rio. Seria, pois ele prefeito da Cidade Maravilhosa e Obama no comando do estados do norte da América, só vou acreditar a posteriori. Por enquanto.... Aliás, essa seria uma outra crônica interessante: digredir sobre essa (boa)novidade, o Obama; afinal, a utopia não pode acabar, certo? Principalmente, em se tratando de política quentinha vinda dos States.
E a seleçoca do Dunga, hein? Excelente para condimentar um papinho regado a cerveja, uísque ou conhaque, num final de tarde de sexta, ouvindo batuque nas mesas e vendo desfile de beldades num barzinho qualquer da Vila Madalena, do Bixiga, do Tatuapé, em qualquer lugar.
Uma outra crônica, falar desse demente que faz dois dias mantém uma ex-namorada presa no apartamento em Santo André. Qual é o nome do moleque? O da menina é Eloá, gravei bem; lembra a senhora Jânio Quadros. Será que foi o pai da garota que deu esse nome a ela? Culto à vassourinha janista? Se for, azar duplo dessa menina; ter uma pai retrô e um fã doido total.
Fiquei vendo uma foto dela hoje no jornal, o flagrante de um grito à janela na tarde de ontem, e me peguei refletindo sobre a idiotice da posse. Ainda tem gente que acredita que a conquista do amor pode ser pela força. Que força, cacete? Amor é uma conquista de todo dia. Ou ele acredita que depois de apontar uma arma pra ela, o caso ficaria resolvido e ela se descobriria apaixonada novamente, e viveriam juntos até o "final feliz"? Ao contrário do que nos faz crer o pensamento coletivo popular, são os homens que têm uma certa facilidade em acreditar em historinhas da carochinha, comp príncipes, dragões, carrruagens e princesas. Na maioria das vezes, porém, agem como sapos.

Voltando à estaca zero, estava sofismando sobre o que escrever. como escrever. Se escrever. Tranquei-me por algum tempo ouvindo Beatles ("Abbey Road"), e depois Mahler (1ª e 4ª Sinfornias"). Na meditação, acabei por desistir e fui fuçar os rascunhos pra ver se tinha algo que fosse o start de um texto. Definitivamente, hoje não.

Resolvi então escrever sobre meus filhos. Tenho dois de um casamento estável, e o maior, aos 13 anos, está ganhando abraçando uma "independência" que não sabe se existe, nem onde está, tampouco como usar. Mas agora vejo que já é tarde, e isso vai ter que virar outro texto.

E o que vocês estão lendo fica sendo o rascunho sobre a impotência do homem diante da falta de inspiração. Transpiração ajuda, mas, sozinha, soçobra.
(Só para informação, eu não bebo nada alcoólico, tá? As citações etílicas são só pra estilizar o texto)

Dubiedades

Estamos cercados pelo dúbio: claro/escuro, sol/lua, mãe/pai, marta/kassab, osama/bush, amada/amante. Essa certeza, tão reta quanto pontaria de de um ianomâmi em caça na floresta, fez-me pensar um pouco sobre a atividade humana. Vem daí o primeiro paradoxo: o que é humano?

O homo sapiens, ascendente do virtualman (não esqueçamos, por favor, que desconhecemos o que nos espera no futuro, mas, além dessa certeza, também podemos asseverar que o futuro é um cheque ainda sem fundos, (as)sustado pela liquidez do presente, e com assinatura indecifrável), desde sempre serviu-nos de culto para cultuarmos um passado balizador e simbólico.

Tínhamos a pedra, mas não a roda. Hoje temos o domínio do ciberespaço, mas não temos o domínio do espaço. Sequer sabemos o que há ness espaço. Tínhamos o grito como expressão, hoje falamos seis idiomas, entendemos o alfabeto dos surdos-mudos, praticamos esperanto e outros quetais. Orientávamos pelo sol (e sua sombra sobre a copa da árvore), e hoje temos moderníssimos gps.

De onde provém a questão da dubiedade, então? Simples, das dúvidas que suscitam ao longo do pensar o homem. Se Deus tem o diabo como inimigo, se Deus tem o homem como seu complemento, se Deus tem anjos como exército, então, pra que serve o pensamento humano? Precisamos de fato "pensar"? Pra quê? Nossa extasia não seria simplesmente comer, defecar, gozar e frutificar?

Desconfio muito desse "humano" que foi certificado a nós. Isso tem servido para práticas de sentido único (aí está outro sentido da dubiedade), dominação, politicagens (no seu sentido mais perverso), e divisões. a prática da vida tem me ensinado muito, inclusive a beleza da doação. Mas ela só faz sentido quando contextualizada no sentido do capitalismo ("doação" seria uma espiritualização - ou a parte frágil - do ato de lucrar), e da prática existencial como um todo (disse o apóstolo Paulo na carta ao aos corinti(an)os que "permaneçam pois a fé, a esperança e a caridade, e desses o maior ato é o de caridade").

Será que eu poderia ser mais inumano mas ainda amando meus filhos, minha mulher, meus amigos, as árvores, as águas e os animais?

Quero fazer uma última colocação: acho que o maior duplo de mim, sou eu mesmo. Tenho sido meu inimigo declarado em circunstâncias diversas. Quando aprender a me domar melhor, acho que serei um novo homem, mais amoroso, moderno e prático. Menos patético.

2.10.08

O Cão Quer Morrer

Hoje, como ontem, como sempre, tomei café na rua. Uma mania antiga que tenho, a de tomar muito café, em qualquer lugar, a qualquer hora, sem respeitar muito os critérios de asseio exigidos pelo meu estômago. É uma coisa meio autômata e anômala. Quer dizer, verdade seja dita - e tem que ser "bendita"! - às vezes, como hoje, bebo café em casa, mas esse foi curto, rápido, com um dessabor de requentado. Então... tome-lhe café da padaria, de barraquinha, ou de "donas Marias" diversas em esquinas ou filas diversas. Rerrequentados ou - pior ainda! - mornos.
Pois bem, eu e o Dailor Varela, poetaço, ele um dos genitores do poema-processo na década de 1960 em terras potiguares; o dito está passsando uns dias em meu casebre, aqui na província de Sampalândia; eu e ele fomos ontem visitar o Sacha Arcanjo, cantador dos bons, músico e poeta mineiramente baiano, estabelecido nas terras de São Miguel Paulista, aqui, bem "pertinho" (de novo mineiramente falando) de casa , na zona leste paulistana. Então, como eu tava dizendo, fomos visitar o Sacha. O Dailor dirige um jornal no Vale do Paraíba, SP, "O Grito", e queria uma entrevista com esse baiano incandescente e bem-humorado, letrista que honra a língua pôrtugo-brasileira, com seus achados poéticos ricos e sutis.
Conversa vai conversa vem, a entrevista rolou, eu aproveitei e filmei, e daí fomos tomar um cafezinho lá na esquina da av. Nordestina, numa padariazinha dessas comuns em vilas e bairros. Estava chovendo pacas. Tomamos uns vanilas e voltamos em papo animado. Mas eis que quando saía porta afora, tropecei num autêntico viralata. Branco amarronzado, cara pidona e triste mas esperto o suficiente para roubar o lanche de algum incauto distraído, ele olhou-me inquiridor, como a exigir desculpas, que, obviamente, pedi no olhar. Depois de atravessar a avenida, olhei para trás e os olhos dele me seguiam entre grossas gotas de chuva.
Esqueci o caso logo em seguida quando voltamos pra casa . Hoje cedo acordamos, eu e o Dailor, enganamos o estômago e fomos nos compor com um cafezinho básico no terminal Itaquera. Àquela hora, já umas nove e pouco, não tinha mais aquele frenesi de horas antes, quando sequer conseguimos andar no meio da multidão compacta, acelerada para pegar metrô, trem, lotação ou ônibus, e sumir na massa férrea em direção ao trabalho.
Descemos da van, achamos uma lanchonete não muito aprazível mas com poucos fregueses, e pedimos dois cafés. As balconistas conversavam animadamente sobre algum show no próximo final de semana e tive que repetir o pedido mais de uma vez. O café veio intragável. Biquei e despejei o resto no tambor que tinha ao lado. Não sei para que servia, mas eu queria evitar qualquer tipo de argumento por não ter tomado aquele líquido. Espero sinceramente que alguém tenha me feito o favor de reclamar daquele visgo preto de 70 centavos. Eu, agora, só queria ir embora logo. Iríamos encontrar o jornalista e escritor José Nêumanne em seu escritório, lá na sede da editora "A Girafa". O Dailor queria aproveitar a estadia na Pauliceia e matar a saudade do amigo com quem morou junto nos anos 70 e aproveitar e fazer uma entrevista para seu tabloide.
Não sei para que servia aquele enorme balde de plástico ali ao lado da barraquinha, mas foi lá que lancei o "pretóleo" que, respingando no plástico, acabou por cair no chão, onde foi sorvido rapidamente por um viralata. Branco e amarronzado. Esse filadaputa de cão quer morrer, pensei de relance. Mas o que ficou vivo em minha memória foi o célere salto que deu, para agarrar o copinho antes que caísse no chão. Equilibrista da sobrevivência, ele.

26.9.08

Cinto Verde Para Barriga Cinza

Há muito tempo não passava pela av. Sumaré, ali na zona oeste de Sampa. Lá se vão bem uns dois ou três anos.

O fato é que gosto dela. Tem lá seu encanto num canteiro central onde algumas árvores dezenárias, perfilam-se distraídas, num clima bem bucólico. A qualquer hora do dia e também à noite é possível ver caminhantes, corredores, ciclistas e cachorros concorrendo democraticamente ao seu ar tranquilo. Um cinto verde discreto na gordura cinzenta dessa metrópole.

Passei por ela anteontem cedo, de ônibus, bem rápido. Não sei bem o que me faz sentir-se tão anelado a ela. Será o fato de ligar duas grandes paixões minhas, a boêmia Vila Madalena ao Parque Antárctica? Ou pelo fato de já ter ficado horas a fio em papao descontraído tomando cerveja lá no Jucalemão, com o Levi, antigo parceiro de trabalho e copo? Não sei.

O fato é que desenlaçou um nó em mim o passar por ela nessa manhã ensolarada de uma primavera nascente. Às vezes, sinto uma angústia feliz, bem roseana, quando desfruto dessa condição de vivenciar algo que me entorpece, me transporta para uma dimensão meio inexata, complexa, bem contundente de ser experimentada. Pode ser na leitura de um poema, ouvindo Wagner ou Bethoveen, Miles Davis ou Djavan, Sacha Arcanjo ou Carla Bley. Também acontece de me acometer no meio de um Akira Kurosawa, David Lynch, Fellini ou Joaquim Pedro de Andrade. Outras maneiras são diante de um Brecheret, um Botero, um Vermeer ou Di Cavalcanti.

O fato é que o engenho da vida é evanescente, mas a arte aprofunda os campos sensoriais. Essa experiência com o cosmo, de completa aliteração, é que nos permite enxergar a vida não como uma vitrine esquisitóide e compartimentada. Ela deixa uma outra evasão, permitindo-nos enxergar a vida com os olhos da desrazão, onde pulsa uma infinita vontade de prosseguir, independendo das máculas que o cotidiano gera em nossas peles tão frágeis.

22.9.08

Crônicas Horas

Hoje é segunda. Dia nem ruim nem bom, apenas diferente. Síndrome de Garfield.
Venho de uma noite estranha: dois sonhos justapostos e incompletos e uma insônia cavalar, que me pegou das duas e meia até por volta das seis da manhã. Isso porque tinha que acordar às 6:30h. Como já previsto, perdi hora, compromisso, argumento e bônus. Tudo bem, parto pra outra; fica pra outra.

Queria entender esse negócio de insônia. Ela, que me é uma companheira constante, e tremendamente produtiva, às vezes me agride de uma maneira enviesada e, por que não dizer?, cruel. Pois noites insones normalmente rendem alguns bons poemas, que depois são desbastados com formão e dicionário à luz do dia. Também rendem ótimos filmes, sem interferência de filhos, mulher, testemunhas de jeová, brigas no videogame ou gritos de gol da casa vizinha. Outra coisa legal de noites de "olhos pregados" é a leitura tranquila de um bom livro ou um programa legal(mas não previsto) na tv. Mas hoje não foi assim.

Acordei suado, tentando juntar os remendos dos sonhos que tinha me levado a despertar. Não lembro, ou melhor, lembro-me sim, apenas que num deles(o primeiro?), eu e meu filho pegávamos três pipas sozinhos numa rua do bairro. Só isso, o resto caiu no limbo do esquecimento. Do outro sonho, lhufas; quero dizer zero, nada. O fato é que despertei e não mais dormi. Com um pouco de boa vontade de meus músculos, depois de uma hora e treze(contados!), resolvi levantar, fazendo um esforço insano para não acordar ninguém. Consegui! Fui pra sala. Na televisão, necas de pitibiriba. A tv paga se assemelha à qualquer outro canal aberto em alguns momentos, principalmente na madrugada; seus programas, quando não são reprise enfadonha, são "focados", pontuais; devotados a uma faixa restrita de público.

Sem contar a alopração dos evangélicos que invadiram os canais abertos e "roubaram" mais de 50% da programação dos canais abertos, a partir das 9 da noite.
A cultura televisiva, que era algo que os "crentes" discutiam muito, se era perniciosa ou não, isso há não
mais que uns 25 anos atrás, hoje é obliquamente monoteísta. Quando eu resolver fazer um programa voltado para os ateus, como é que vou ser recebido? A pedradas? Como se sentem os espíritas, os budistas, o pessoal do candomblé nessa história?

Restou-me o consolo de jogar Playstation sozinho, com medo que meus filhos acordassem e dessem um flagra no papai, ali, escondido. Pior que isso, só quando me levantei do sofá, com fome, e assaltei o iogurte na geladeira.