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26.2.26

Resenha: Jardim Quitaúna (Rodrigo Carneiro)

 Jardim Quitaúna é o mundo 



Talvez o primeiro gesto de simpatia com Jardim Quitaúna - crônicas de paixão, política e cultura pop, de Rodrigo Carneiro, seja por ter ganhado este livro de um cara que é como um irmão gêmeo que a vida me presenteou: Edhson FM. Uma segunda possibilidade: saber que o autor e eu temos quase a mesma idade e vivemos paixões (literatura, cinema e música), se não parecidas, paralelas. Um terceiro fato coincidente: a sensação de que professamos uma mesma fé ideológica, que parte sempre do “nós”, da tchurma, do coletivo; enfim, uma devoção mais grupal e menos sobre individualidades.

Poderia enumerar uma quarta hipótese: a epígrafe de Lélia Gonzalez, “O lixo vai falar, e numa boa”; um soco no estômago, um mantra, um rastilho de pólvora no galpão dos acomodados. Quinta? Vá lá: a benquerença por Paula Saldanha. Poderia enumerar mais motivos de empatia pelas crônicas de Carneiro, mas acho que já está de bom tamanho. Então, vamos aos fatos:

O livro é relativamente pequeno e muito aprazível de ser lido: em 140 páginas, disseca a sua formação cultural, a mesma por onde transitou a inteligência alternativa brasileira dos anos 1970 até aqui pertinho, nas bordas da pandemia, essa que nos assolou há poucos anos e que ainda dá sinais de sobrevida, mesmo com vacina. Lembremo-nos: desinformações (sanitárias e, principalmente, cognitivas) têm nos violentado cotidianamente, como preconizou Arendt.

Com belo projeto gráfico assinado por Renata Coelho, a obra compreende uma sinopse na orelha, um prefácio esclarecedor de Adriana Ferreira Silva, uma curta (mas norteadora) nota introdutória do autor e a sua biografia no fim. E 41 crônicas!

E que crônicas! Elas percorrem desde o período de formação do autor - “Primeira paixão”, o hilário texto sobre Magal, dá a largada - e então somos levados em uma viagem panorâmica que percorre o surgimento dos primeiros videoclipes no Brasil, os shows incendiários nos inferninhos da metrópole, até o estabelecimento do país como palco de grandes e lendários shows, tudo escrito com elegância e concisão pelo autor. 

Jornalista, escritor e músico (vocalista da banda Mickey Junkies desde a sua fundação, no início dos anos 1990), Carneiro caminha com desenvoltura no solo das experiências sonoras, audiovisuais e literárias. Nos textos do livro, fala (pouco) de sua banda e muito do que ouviu, sentiu e viu nesses anos todos. Justapõe Bob Dylan e Leonard Cohen, com notas pessoais, sem perder o ponto de equilíbrio entre descrição e sensação. Enumera fatos, celebra encontros e amizades, enaltece quem (por ele) pode ser enaltecido, defenestra detratores e detratados. Faz literatura com a memória, mas também com a alma. Quando recorda Itamar Assumpção, é como se estivesse servindo um manjar. Quando recorre a jazzistas e beatniks para ordenar uma cronologia histórica, social e cultural, o faz com erudição e clareza. Até uma sessão de cinema com Chico Science e seu pessoal, para assistir um autêntico Spike Lee no centro de SP, vira um curto e contundente tratado sociológico sobre um filme, um tempo, um lugar.

Mais não consigo elogiar, sob risco de redundância. Mas se você está procurando um livrinho honesto, ideal para ler nas férias, numa viagem ou talvez recuperar um período híbrido, de profundas transformações sociais, comportamentais e tecnológicas, talvez este Jardim Quitaúna - crônicas de paixão, política e cultura pop possa ser uma indicação bacanuda, um presente despretensioso e ao mesmo tempo muito sofisticado.



Foto: Nilson Paes


Serviço: 

Livro: Jardim Quitaúna - crônicas de paixão, política e cultura pop

Autor: Rodrigo Carneiro

Gênero: Crônica

Editora: Terreno Estranho, SP

Ano: 2025

Páginas: 140

 


5.2.26

4 de fevereiro de 1986

 Uma gugada rápida e fico sabendo que 4 de fevereiro de 1986 foi uma terça. Semana pré-carnaval. Àquela época, era comum a gente desfilar no bairro com discos debaixo do braço em nossos rolês de fim de semana. É provável que nos dias 1 ou 2 eu tivesse colado no escadão de Guaianases, um dos principais pontos de encontro para a juventude daquela quebrada. Ou esbarrado com algumas de  minhas amizades na Dany´s, a danceteria que frequentávamos com mais assiduidade. Tinha outras bem legais também, mas eram longe: a Toco, na Vila Matilde, e a Contra-Mão, no Tatuapé.  Ah, e o Poaense.
Se colei no escadão, então as chances de ter baixado na casa do Jailson (que morava em frente), também foram grandes. E se fui na casa dele, com certeza ouvimos as pérola do rock nacional lançadas no ano anterior: "Legião Urbana"; "Mudança de Comportamento", do Ira! (o preferido da turma);  "Educação Sentimental", do Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens; "Revoluções por Minuto", do RPM; "Nós Vamos Invadir sua Praia", do Ultraje a Rigor e os dois primeiros do Camisa de Vênus.
A gente estava tentando montar uma banda e a casa do nosso amigo era o nosso QG. Mas, mais que compor ou ensaiar, ali acabava sendo um espaço-tempo de degustação sonora: e tome-lhe horas e horas ouvindo a guitarra de Edgard Scandurra, o baixo do Negrete (apelido do Renato Rocha, do Legião), a bateria nervosa e segura do João Barone (Paralamas do Sucesso) e a voz agridoce do Morrissey, que estava deixando de pilotar o Smiths bem nesse período, mas como notícia gringa demorava a chegar, a gente nem sabia disso. Éramos nós, mais o Nenê, o Tucano, o Ricky, a Silvinha, o Marcão. Depois o Marcelo começou a colar com a gente e o seu ar introspectivo e de "metaleiro radical" não indicava que ele seria o único de nós que seguiria a sina musical, no caso como radialista. Eu também sempre levava comigo "a rapa" da minha vila (Jardim São Pedro), para essas rodas de camaradagem: Wilsão, Cel, Giba, Tati, Eri, Benê, Vagão. Apesar da pose punk´n´roll, éramos boa-praça e a mãe do Jailson nos servia café, sucos e umas bolachinhas. E nada de ensaio! Até hoje...
Comecei a rememorar isso pois acabei de ler que O Concreto Já Rachou, da Plebe Rude foi lançado nesse fevereiro de 1986. O dia? 11. 
No entanto, nós éramos (somos) pobres e nunca comprávamos discos no momento do lançamento, pois as bolachonas chegavam caras.  Esperávamos alguns meses para ir n´A Musical ou na Disco Sales para adquirir nossos tesouros, já contando com um descontinho básico. 
Hoje não desfilo mais de LP debaixo do sovaco mas, em compensação, o indefectível celular não desgruda da minha mão e foi com ele hoje cedo que, coincidentemente, vim trabalhar ouvindo Cazuza, outro que vivia de rolê com a gente naqueles tempos. 
Bateu uma puta saudade dessa tchurma que depois abraçou o mundo e, se mantenho contato com alguns, outros sumiram na poeira da estrada e de outros tenho apenas vagas notícias, algumas, aliás, não muito alvissareiras. Mas como li dia desses em algum lugar, não temos saudade "de um tempo", mas sim "do que éramos e, principalmente, do que fazíamos naquele tempo". No caso, há exatos 40 anos.

 

Escadão de Guaianases (arquivo CDPDOC Guaianás)