Pesquisar este blog

24.12.07

Sete Filmes em 2007

1 – O Ano Em que Meus Pais Saíram de Férias (Brasil, 2006, 110´, dir. Cao Hamburger, com Michel Joelsas, entre outros)
Enquanto aguarda notícias dos pais, que estão fugindo da repressão militar em 1970, o garoto Mauro é iniciado num longo périplo de descobertas, sob os cuidados de um solitário zelador da sinagoga do bairro do Bom Retiro, em São Paulo.
Uma rara sutileza das variações diversas do fazer fílmico, seja no aspecto político, na ação da memória(o roteiro é semi-auto-biográfico), na construção dos personagens, e na noção objetiva da discussão religiosa sem quedar-se para discursos passionais.

2 – Medos Privados em Lugares Públicos (Coeurs, França-Itália, 2006, 120´, dir. Alain Resnais, com Sabine Azéma, Lambert Wilson e outros)
O relacionamento humano sob os mais diversos(e complexos) ângulos, como, por exemplo, o corretor que tem uma maneira muito peculiar de amar a amiga de trabalho, entre outros casos.

3 – O Passado (El Pasado, dir. Hector Babenco, Brasil/Argentina, 115´, com Gael García Bernal, Ana Celentano, e mais)
Um casal termina seu longo casamento. Enquanto ele tenta reconstruir sua vida, sua ex torna-se uma pedra em seu sapato. Uma lúcida visão de como vive-se o relacionamento amoroso nas urbes contemporâneas desse século.

4 – Piaf – Um Hino ao Amor (La Vie Em Rose, França-Inglaterra-Rep. Tcheca, 2007, 140´, dir. Olivier Dahan, com Marion Cottilard, Sylvie Testud, Gerard Depardieu, e outros)
A vida da grande diva da música francesa, Edith Piaf, contada a partir das fatalidades que configuraram a sua vida.

5 – Jogo de Cena (Brasil, 2007, 100´, documentário, dir. Eduardo Coutinho, com Marília Pêra, Fernanda Torres, Andréa Beltrão, e outras)
O que é a “ficção” diante de uma câmera? Quem está representando, e o quê? O que é cinema e é teatro, o que é vida e é imagem midiatizada, o que é profundo e o que é rarefeito; tudo pode ser modificado ou solidificado por uma câmera.

6 – O Grande Chefe (The Boss of it All, Dinamarca, 2006, 100´, dir. Lars Von Trier, com Jens Ibinus e Peter Gantzler, e mais um grande elenco)
O dono de uma empresa, para não ter que assumir certas responsabilidades, inventa uma matriz fictícia, nos EUA, de onde “vem” as ordens de demissão, entre outros assuntos delicados. Ocorre que os interessados em comprar a firma querem conhecer o “chefe”. Então o empresário contrata um ator de teatro para desempenhar este papel.

7 – Império dos Sonhos (Inland Empire, EUA-França-Polônia, 2006, 180´, dir. David Lynch, com Jeremy Irons, Justin Thoreaux, Laura Dern, e outros)
O que acontece quando uma atriz se apaixona pelo ator, mais do que pelo personagem? Ou quando a encenação de um texto é um arremate contra uma tragédia acontecida com o elenco anterior? Esse o mote da história, uma radicalização do processo criativo de Lynch, aqui apenas com câmeras digitais, e cenografia e fotografia que são um espetáculo à parte.

EPÍGRAFE

"no consigo ser la misma,
me domina la contradicción".
(Pedro Herrero, pela voz de Mercedes Sosa)

22.12.07

A TRILHA SONORA DAS VILAS

Hoje, voltando para casa, não sei se motivado inconscientemente por alguma conversa paralela no trem, me peguei listando a trilha sonora do subúrbio nas três últimas décadas. Apesar do asco(pretensamente intelectual), confesso que foi um exercício gostoso lembrar que no início dos anos 80, quem imperava nas rádios e nos aparelhos 3-em-1 eram, pela ordem, Martinho da Vila, Agepê, Clara Nunes e Benito di Paula. Na continuação, a lista também poderia citar Amado Batista, Perla, Trio Parada Dura, Carlos Alexandre e Barros de Alencar. Cabe aqui também o sucesso fugaz da banda Blitz. A segunda metade dessa mesma década viu a explosão do RPM e seu pop-rock intelectualóide, mas de postura mais voltada ao imediato midiático e sensual. A eles se somaram Jovelina Pérola Negra, Almir Guineto e o franzino garoto Zeca Pagodinho. O trono maior, porém foi ocupado incontestavelmente por Bezerra da Silva, cronista suprarreal de um mundo tão à margem que muitos ainda hoje julgam realidade fictícia e/ou apologia simplória da malandragem. Os anos 90 viram o cetro da liderança ser passado ao grupo Racionais MC’s. O domínio da linguagem lírica e dura do rap, recriando a crônica do real a partir de novos enunciados poéticos, permitiu aos manos racionais adentrar o terreno periférico de forma mais ampla, mais geral e mais irrestrita. O surto roqueiro ocorrido na década anterior entrava em eclipse, mas deixava suas marcas com a visceralidade dos Raimundos e Skank, além do curto-circuito provocado pelos Mamonas Assassinas, abatidos ainda na decolagem do sucesso. E em qualquer tarde de sábado ou domingo, ou nas longas noites de sexta, sempre tinha uma casa, ou um carro velho, mas equipado com um "Pionner", tocando grupos de pagode(Raça, Raça Negra, Katinguelê, Exaltasamba e Só Pra Contrariar, entre outros), axé(É O Tchan, por exemplo); e então sepultamos o século 20. O amanhecer do novo século viu nascer junto consigo, ainda sob o completo domínio da sisudez racional(que perdura até hoje), outros grupos de rap, forró e pagode. Mas essa presença está sendo confrontada com o advento do funk pancadão, oriundo dos morros fluminenses, que com sua alegria e linguagem chulas, sua sexualidade exarcebada e provocações adolescentes, tomou de assalto os adolescentes paulistanos. Raul Seixas, Jorge Benjor, Xuxa e Legião Urbana recebem registro, pois são constantes e imexíveis no bolo da massa musical periférica. Acima deles, reinam absolutos Tim Maia e Roberto Carlos, que cobrem um longo período musical no imaginário suburbano paulistano e brasileiro, agregando a atenção de jovens, adultos e velhos. Se alguém tiver dúvidas sobre essas informações, não discutirei, pois essa não tem caráter sociológico ou estatístico. Mas é só dar um rolezinho pela Cidade Tiradentes, Cohabs de Carapicuíba, Itaquera e Taipas, Capão Redondo, Elisa Maria, Embu, Itaim Paulista, Heliópolis, Jaraguá, Taboão, Canão, Embu, Paraisópolis, São Mateus ou mesmo na Ladeira General Carneiro num domingo à tarde, e depois vir contar que posso até estar esquecendo algum nome e ou sobrepesando outros. Mas que essa é a realidade, não há dúvidas.
* Publicado originalmente no jornal "O Grito"(j.ogrito@uol.com.br - Monteiro Lobato, SP), nº 9, JULHO DE 2007

16.12.07



Prédio do MASP(Museu de Arte de São Paulo), decorado para o natal. Av. Paulista, terça-feira, 11/12/2007, 22:32h.

DECORAÇÃO NATALINA

Árvore do Parque Trianon, debruçada sobre a av. Paulista, com o caule enfeitado para o natal. Terça-feira, 11 de dezembro de 2007, 22:31h.

12.12.07

SAMPA – UMA BIOGRAFIA ITINERANTE

Mostra Internacional de Cinema, Free Jazz Festival, Philips Monsters of Rock, MUBE, Carlton Dance Festival, MIS, Salão do Automóvel, Virada Cultural, Itaú Cultural, Bienal Internacional, MASP, Centro Cultural Banco do Brasil, Parque Ibirapuera, Parque da Aclimação, Zé do Caixão, Arnaldo Antunes, Rita Lee, Lira Paulistana, Aeroanta, Centro Cultural São Paulo, Pinacoteca, Galeria Olido, Centro Cultural São Paulo, Cidade Universitária.
Cidade Tiradentes, Diadema, Capão Redondo, Itaim Paulista, Marcola, Favela do Gato, Favela do Canão, Cracolândia, Largo 13, Guaianases, Grajaú, Praça da Sé, PCC, Maníaco do Parque, Largo da Batata, Largo da Concórdia, 3ª Divisão.
Não esqueça nada disso. Esqueça tudo isso.
Esquecer ou lembrar são os dois verbos possíveis e impassíveis diante dessa moeda capital, a memória. E a dita é quem possibilita as diversas mariposas em torno dessa luz, a diversidade. E o diverso, o diferente, é quem equaliza o som da vida. É ele quem condimenta o mundo.
Agora pense em São Paulo – a capital – ou Sampa, ou Paulicéia Desvairada, ou a Terra da Garoa – não importa a alcunha – sendo isso. É preciso entendê-la assim, metrópole do "país do futuro", porém cosmopolita e provinciana. Comece pelos caldeirões multiétnicos que vão do bairro do Bom Retiro(mundo multifacetadamente árabe e judaico), ao bairro da Liberdade(nipônico), do Bixiga com sua italianidade heterodoxa, à noturna e sorridente Vila Madalena.
Dê uma passada na mítica rua Santa Ifigênia, templo aberto de culto ao mundo eletro-eletrônico, dos Play-Stations "destravados", dos DVDs chineses, dos brinquedos paraguaios, dos softwares "piratas". Dali, passe pelo viaduto homônimo e entre na rua Florêncio de Abreu, paraíso das ferramentas e maquinarias. Mais um salto abaixo e então estamos 25 de Março, talvez a rua mais famosa de toda a América Latina no quesito comércio popular. É lá que você encontra tudo o que imaginar para armarinhos, tecidos, brinquedos e quinquilharias eletro-eletrônicas, além de outros apetrechos, trecos e bugigangas. Agora tome o metrô para o Jabaquara, desça na estação Paraíso e comece a debutar na av. Paulista via Bernardino de Campos. Lá, entre gravatas e cofres, também encontraremos a onipresente parafernália dos eletro-eletrônicos(computadores, MP3, I-PODs, aparelhos de som, games, CDs, DVDs, palm-tops e monitores). Saiu de lá, desça pela av. Rebouças ou rua Cardeal Arcoverde sentido Praça do Pôr-do-Sol, em Pinheiros. O nome explica tudo. É impossível sair de lá sem se apaixonar, nem que seja pela própria respiração. No retorno, passando pela rua 13 de Maio, no coração do Bixiga, experimente não ficar mais gordo numa daquelas cantinas de sotaque paulistanado, evidenciado por outros dois ícones da cultura pop dessas bandas: Demônios da Garoa e Adoniran Barbosa. Antes, uma licencinha para voltar a Pinheiros: é melhor nem tentar entender porque a rua Teodoro Sampaio é um mito dos instrumentos musicais, entre tantas outras que a Paulicéia abriga.
Quer mais? Desça pela av. Rangel Pestana a partir do marco zero da Praça da Sé e chegue ao éden do vestuário popular, o bairro do Brás. Quer roupa sofisticada? Então tome Oscar Freire. As roupas são filhas das mesmas oficinas, a diferença está no preço da etiqueta. Quer agora uma explicação não teórica para a um tipo inespecífico de democracia? Galeria do Rock! Ali, na rua 24 de Maio, no centro velho: sub-solo e térreo são para os "manos e minas" da cultura hip-hop, o 1º e 2º andar para os cultores do rock(e todas as suas tendências e variações). Acima, a indústria do silk-screen. Tudo em um único prédio.
Uma outra divagação teórica: por que é que algumas linhas de trem da CPTM tem ar-condicionado melhor que o Metrô ISO 9000? Mas o que se ganha em ar fresco perde-se em atrasos, mendicância e na informalidade comercial e de pedintes. Parece-me essa a verdadeira vocação da malha ferroviária, numa metáfora infeliz sobre o Brasil. Aproveitando a deixa, uma curiosidade: por que a estação Domingos de Moraes, na zona oeste, tem uma das melhores exposições abertas de arte urbana e não é citada em nenhum catálogo? E o ingresso custa a pataca de R$ 2,30, o preço do embarque. Um preço caro para andar em trem sujo e mal- conservado, mas bem barato para curtir arte moderna, urgente e urbana, com artistas criativos que não fazem parte dos circuitos do mainstream.
Sampa também tem três enormes, floridos, arborizados, maravilhosos e fedidos rios: Tietê, Pinheiros e Tamanduateí.
A Terra da Garoa tem TODAS as estações do ano num único dia. E(coincidência?), duas bicas d´água nas duas Cohab 2: em Itaquera, na av. Nagib Farah Maluf, em frente à estação José Bonifácio. No lado oposto da cidade, em Carapicuíba, na av. Amazonas, em frente à lanchonete Seringueira. Sábado e domingo em ambas são dias sagrados pra quem quer manter a caranga limpinha sem gastar bulhufas.
E tem também o Sarau da Cooperifa, lá nos confins da zona sul, dirigido pelo incansável Sérgio Vaz(http://colecionadordepedras.blogspot.com). Espaço democrático para o dramático exercício da abstração: ler poesia feita por quem está à margem. E de lá manda sua mensagem.
E tem muito, muito mais por aí.
Por ora, fiquemos com esse pequeno aperitivo introdutório.

* Texto publicado originalmente no jornal O Grito(Monteiro Lobato, SP), Nº 2, Novembro de 2006, com pequenas alterações.

11.12.07


obtuso

tão tonto fico

quando fico pronto

que fico em silêncio

(esse poema que não se acaba em mim)

do livro hardrockcorenroll, Ed. Scortecci, SP, 1ª ed. 1998, p. 69

3.12.07

2.12.07

Campeonato Brasileiro ou Como Lula é Igual ao São Paulo

"Os campeões asa-delta".

Ufa, enfim acabou o pior campeonato brasileiro que já pude assistir(e olha que acompanho razoavelmente o futebol desde 1977).
Tivemos o rebaixamento do Corinthians mas isso tanto faz: poderia ser qualquer clube dos antigamente chamados "grandes". Para quem se propôs a realizar um Copa do Mundo a daqui 7 anos nesses campos(campos?), temos muito o que aprender a fazer. Organizar, por exemplo. Pois de nada nos adianta ter realizado um PAN no Rio, colhido várias medalhas inéditas(dá-lhe natação, judô, futebol - feminino, claro! -, vôlei e ginástica), e depois devolvê-lo ao tráfico, ao BOPE, aos desmandos e à incapacidade de gestão da coisa pública. Para fazer uma Copa do Mundo e depois voltar à estaca zero, é melhor deixar como está, não criar falsas esperanças de um país que não suporta ser mais humano; que não consegue ser bom, ser o melhor.
Os clubes brasileiros capengam em tudo, junto com a CBF e as federações. Faltam estrutura, interesse pelo coletivo, profissionalismo. Até o São Paulo, que é considerado modelo de administração por essas terras jecas, fica quilômetros aquém dos administradores de clubes pelo mundo afora(vide Europa, Japão e - pasme, até a Rússia).
E é justamente do São Paulo que quero falar: até torcedores tricolores amigos meus são quase unânimes em afirmar: o São Paulo foi, simplesmente, o menos ruim dese campeonatinho chinfrim. Não teve jogador destaque de verdade. Rogério Ceni? Ah... Breno? Fala sério!... Tivemos o Acosta? Nem brasileiro é! Valdívia? Estrangeiro! Josuel? É!... Aliás, destaque mesmo teve dois goleiros: um deles é de um dos times que caíram, Felipe, do Corinthians; e Diego, do time campeão da inconstância, o Palmeiras. Verdade seja dita, o alviverde tanto poderia ter ido para as Libertadores quanto poderia ter caído para Segundona(de novo). Fez um campeonato de altos mais ou menos altos, e baixos baixíssimos.
O São Paulo(vamos voltar ao assunto?), foi o campeão dos ventos favoráveis. Assim como o Lula faz um bom governo(bom? governo?), aproveitando-se da brisa suave da economia mundial, que sopra tranquila em céus brasileiros, para todos os lados dessa terra. O Luís Inácio, aliás, merece receber o Oscar de ator coadjuvante, pois só ele consegue a proeza de acender uma vela pra Deus e outra pro diabo ao mesmo tempo. Ser "amigo"(sic) do Bush e do Chávez ao mesmo tempo, é tarefa de ator risível. Resta saber qual dos três é o diabo, nessa comédia putrefata da política norte-sul-americana. Deus? É melhor não pronunciar seu nome em vão.
Cheguei inclusive, a uma definição que acho coerente para estes dois "vencedores" de áureos tempos( quero dizer, ventos), em pátria fértil brasileira: campeões asa-delta(ou campeões pipa), aqueles que só ganham porque tudo soprou a favor.

29.11.07


Teatro Municipal de São Paulo, terça-feira, 27 de novembro, às 08:28 h. Manhã fria!

26.11.07



Leiam também www.leialivro.com.br.

Literatura feita por quem lê!

Filme a 2 - eu e a musa - com direção seguríssima de Hector Babenco sobre um elenco maravilhoso!
Nota: última participação de Paulo Autran (saudades!).

24.11.07

Mais que 1000 palavras


"meu filho João, 4 anos, apreendendo a manobrar ludicamente o "rato" em cima da mesa"

Prêmio Barueri de Literatura

Segunda-feira, a partir das 19h., vamos lá, prestigiar a entrega dos prêmios aos ganhadores do 4º Prêmio Barueri de Literatura, no Teatro Municipal.
Participei como poeta e contista "não residente", mas não fui contemplado.
Valeu! Esse foi mais um duro exercício para o amanhã que a vida ensinou: auto-lapidação. Vou reler meus escritos, rearranjar minhas idéias no papel e reaprender a aprender.
...
Daqui, ouvindo Teenage Fan Club e Belchior nessa noite lúdica de sábado, mando um alô.
Agora vou de "Escritura e Nomadismo", de (e com) Paul Zumthor. Depois, cama.
Há braços,

22.11.07

Conto Erótico - "Viés"

Foi por volta da meia-noite que o telefone tocou. Eu estava no meio de um sono cansado, mas tranqüilo. Ouvi a campainha ressoar ao longe, em ruídos breves, que chegavam aos tímpanos pelo efeito da gradação. Foi aí que acordei. Peguei no gancho instintivamente, num sobressalto:
"Alô?"
"Por favor, o Ministro está?"
Despertei totalmente:
"Quem gostaria?"
"Eu só queria saber se ele está."
Tentei raciocinar. Estava difícil. Ao meu lado, um ressonar lento e suave contrastavam com o meu pavor, com a luz débil da lua, que incidia sobre a cortina:
"O Ministro está ou não está?"
"É... eu..."
"Ele está ou?..."
"Não!" – e bati o telefone severamente. Fiquei alguns minutos esperando o novo toque, tentando imaginar quem estaria procurando o Ministro ali, àquela hora.
Um gato miou. Levantei e adivinhei-o atrás das cortinas, sobre o muro lá fora. Seu dorso esguio sobressaía-se contra as folhas que tremulavam sob a luz opaca da lua. Tive vontade de fumar. Ameacei levantar. Ele se mexeu ao meu lado:
"Hã?!..."
"Dorme, meu bem, dorme."
Ajeitei a camisola que embaralhava-se debaixo do corpo. O corpo dele exalava um cheiro nauseante de suor e alfazema. Enfim levantei-me devagar e fui para a janela.
O telefone não tocava e eu não conseguia pensar em nada. O gato saltou do muro ao chão, caminhou pelo pátio e saltou no parapeito da janela:
"Miau!"
"Miau pra você também!" – berrei baixinho.
Acho que ele percebeu minha insolência e saltou de novo para o chão. Perambulou um pouco na sombra do muro e acabou sumindo entre as árvores que circundam o jardim.
O telefone não tocava e eu me exasperava com isso. Soprava uma brisa morna contra a janela e a lua derramava raios precisos e cheios de luz sobre meu corpo. Abri a janela mais um pouco. Não conseguia pensar em mais nada. Dois carros passaram ziguezagueando na estrada. Um deles tinha um farol queimado e de longe pensei que fosse uma moto. O cigarro acabou. O telefone não tocava. Joguei a bituca no chão, cerrei as cortinas e voltei para a cama. Tinha uma garrafa de champanhe pela metade em cima do criado-mudo. Bebi tudo no gargalo.
Sentei na cama e fiquei um longo tempo alisando os cabelo dele. Gostava disso, talvez porque soubesse que ele gostava disso. Gostava daquele ressonar sereno depois do sexo. Gostava... oras, gostava de um monte de coisas, mas a porra do telefone não tocava. Olhei seu rosto na penumbra, aqueles dentes cerrados em contrição. Era nervoso até dormindo. Por que será, hein? Observei-o longamente. Não conseguia pensar em nada mais. Diziam-no feio mas eu discordava. Era, antes de tudo, um atleta viril a serviço do sexo. Disposto, forte e, acima de tudo, completo. Eu não tinha do que reclamar. Ouvia amigas de manicure e cabeleireiro reclamar dos seus pares, justamente elas, casadas com dândis que orvalhavam beleza por todos os poros. Talvez fosse a pertinência do lugar, típico para alguma ficção ou divagação sobre a condição de humanas. Pois todas - ou perto disso -, exercitavam-se sobre a alquimia da reclamação. Eu, no meu round, asseverava com a cabeça, mas não reclamava. Não tinha motivos para isso. Tinha tudo num só homem. E isso me bastava para guardar silêncio sobre os segredos de nosso sexo e nosso amor único.
Então ele acordou. Primeiro se mexeu um pouco, virou de bruços, depois para o meu lado e, enfim abriu um pouco os olhos:
"Que horas são?"
"Meia-noite e vinte e cinco."
Mexeu-se um pouco mais, puxou o cobertor até os ombros:
"Tô com frio." – olhou-me nos olhos – "Você não tá?"
"Não."
"Vamos embora?"
"Vamos."
Ameaçou levantar-se, mas acho que o frio o impedia. Sorriu cândido:
"É, acho que tá na hora mesmo."
"É..."
"Antes vem cá, vem... Cê deve tar com frio também, tá sem roupa nenhuma."
"Não muito." – e fui cedendo devagar, deitando-me, medindo tempo, espaço e palavras – "Deputado?"
"Sim?"
"Quem é que chama você de Ministro?"
Ele premonizou. Pude adivinhar que afogueava-se todo no rosto:
"Minha mulher. Por quê?"
"É que... que uma voz feminina ligou aqui perguntando-me..." – e tomei um tapa na cara.
"Ah, seu viado, por que não me avisou antes?"

17.11.07

PARA PENSAR

Por que será que todo país de origem católica é sempre mais atrasado em índices de IDH?

3.11.07

Ensaio Sobre a Dependência

Já repararam como pululam novas igrejas, novos bares, e novas farmácias? Estranho, né?
Pensando no assunto sem muito catequismo, cheguei à conclusão: é a sempiterna dependência do Homem, seja no espectro individual, ou no seu coletivismo social. O Homem é um ser cosmético, já repararam? Vive sempre às turras com sua imagem, quando ela não corresponde à imagem que ele mesmo quer ver de(em) si. Difícil? Hermético? Nem tanto...
Vejamos; mas antes, volto a ponderar: essa não é uma pesquisa sistemática! Repare bem, no entanto, nesse detalhe: pra que serve uma igreja? Bimba! Pra sanear, limpar, melhorar a aparência, enfim, apresentar uma imagem melhor do Homem diante do Mistério Divino(Deus, numa interpretação cristã e ocidental).
Para que nos servimos da droga, da transcedência do sentido, do aliteração do comportamento? Oras, porque simplesmente é esse o instrumento que melhor traduz nossa insignificância humana. Precisamos do álcool(ou de outras drogas), para substancializar aquilo que não nos é palpável, diante do desconhecido. Necessitamos diariamente de doses cavalares de elementos que desencadeiem uma reação diante de nossas fraquezas. Como não podemos administrar a timidez, iludimos a personalidade, para nos apropriarmos de uma iamgem que não é a nossa, e assim vendermos os nossos peixes. Quantas vezes você já ouviu falar de um empresário, um vendedor, um consultor, que, no momento de apresentar seu produto ou sua palestra, não toma sua dosezinha qualquer para poder ficar mais "à vontade"? Quando você chega numa festa, qual é o elemento da socialização; o canapé? "Claro que não!" É uísque, ou vinho, ou cerveja. Enquanto você espera sua mulher na hora do parto, o que faz? Fuma, não é? Então...
E a farmácia? As drogarias(note bem, "droga" + "ria"), vendem a ilusão para o corpo externo, e o comestismo para a doença interna. Afinal, o que é o remédio, senão o disfarce, o personagem, a representação; diante do qual a doença vai ficar aquartelada até encontrar a porta aberta para atacar novamente?
Pretendo voltar a esse assunto.
Hoje não! Comecei a escrever a esmo e fiquei desembestado diante da tela.

Em Itu

Estou em Itu, acho que uns 100 km. distante de Sampa. Terra plana, lugar bonito, boas opções de lazer, entretenimento, enriquecimento cultural. Falta cinemas com melhores opções, falta um bom palco para o Teatro, falta mais espaço(e tempo) para a música de câmara, o jazz,o chorinho, a bossa-nova. Falta espaços para o samba(samba, viu? Não aquele pagode requentado em teclado). Sobram espaços para "forrozeiros dos teclados", diversos, aos montes, demais. Sobram espaços para andar de bicicleta, charrete, cavalo. Mas não falta carro.
Que herança tosca é essa dos estadunidenses? Parece doença crônica dos paulistanos. Se o vizinho da esquerda vai à padaria, tome carro! Se o da direita vai ao campo do Ituano, a menos de 1 km., vai de carro! Se a outra da frente que ir na Floriano Peixoto, centrão velho(lindo de morrer com suas praças e casarões), se sente na obrigação de ir de carro. Uma chateação.
Pois Itu é uma cidade plana, retilínea. Já vim de Itapevi até aqui, eu e a musa, a pé, menos de dois dias de viagem, curtindo a paisagem, encontrando sujeira adoidado na borda das pistas(dá-lhe, McDonalds! Dá-lhe, Coca-Cola!); uma paradinha estratégica no Hotel Tucumán(km 72 da Castelo - pessoal bacana lá, hein?!), e chegamos inteiraços na casa da vó, no colo da vó. Meu guri, hoje com 12 anos, sempre que vem aqui traz a bicicleta. E tome Estrada do Parque, Parque do Varvito, adjacências do Majestoso da Vila Nova, e tantos outros lugares. Eu, ainda em condições física, faço o mesmo. Aliás, vou até combinar com ele. Qualquer feriado desses, vamos vir os dois, de São Paulo até aqui, de bike. E vou postar bastante fotos. Se vir por dentro, então, benzadeus!, não quero nem pensar na fruição: curtindo Santana do Parnaíba, Cabreúva, a Estrada do Parque, o Tietê. Vocês vão ver! Nós todos vamos ver.
Esse o meu desabafo contra a hóstia da gasolina vs. meu pulmão poético.

5.9.07

DICA DE LEITURA

Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar, de Eliane Cavalleiro

Fazendo uso de um portentoso aforismo do mestre Paulo Freire logo na abertura de sua Introdução, a autora deste livro fino, mas substancioso, aqui nos interpela sobre fatos verossímeis que atingem uma parcela importantíssima da população, que às vezes imaginamos imunes às manifestações de racismo: as crianças. Mais especificamente: as crianças em idade pré-escolar. Quero dizer, a criança em sua sedenta absorção do experimento e do saber.


Advogo que a pesquisadora foi muitíssimo feliz pela sua originalidade, como também pela instrumentação e logística utilizadas com destreza no seu campo de pesquisa. Outro fato a ser exaltado(e muito), é a facilidade de comunicação proporcionados por sua escrita densa (mas leve), fluida (porém não “líquida”, escorregadia), e também muito cristalina (logo, bem objetiva).


Partindo da historiografia do negro na sociedade brasileira, com o subtítulo "Racismo, preconceito e discriminação na educação infantil", o livro nos dá o mote para que entendamos os conceitos vistos, ouvidos e vividos pela autora, quando atuava em sua trincheira de observação. Logo ela nos mostra então para que veio: usando citações múltiplas de outros pesquisadores igualmente profundos, Eliane Cavalleiro adensa sua tese com muitos números e fatos. Tudo isso para que todos entendam como o negro está amalgamado nas entranhas da formação do país Brasil. E como a questão ainda melindra qualquer tipo de discussão. E mais, o quanto está coberta pela nuvem dos estereótipos.


Logo após, ela nos mostra como foi sua atuação no campo da observação, de onde tira um conjunto de idéias que, coletiva ou individualmente, demonstram com clareza que “EXISTE, SIM, RACISMO JÁ NAS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES SOCIAIS DA CRIANÇA”. Para exemplificar, um grupo de meninas que têm várias bonecas brancas e só uma preta. Instadas a citar a boneca mais feia, nenhuma delas hesita em apontar a “boneca preta”.


Outro exemplo, agora dentro da observação do grupo docente da escola pesquisada: as professoras beijam e elogiam muito mais os alunos brancos que os alunos negros, mesmo em igualdade de condições. Uma outra demonstração? A criança negra levou um brinquedo diferente para casa. A mãe o inquire, e depois de muita persuasão, ouve o filho de 6 anos dizer que o trouxe induzido por um amiguinho branco, que dissera: “preto tem que roubar mesmo”. São muitas outras observações anotadas pela pesquisadora. Tem, inclusive, notas crônicas (e quase que paradoxalmente cômicas) sobre a menina negra que se dizia branca. E a professora que esconde temas espinhosos sobre racismo em sala de aula, “para que as reuniões pedagógicas não fiquem muito longas”, portanto cansativas.


Foi um feliz achado esse meu encontro com essa obra tão lúcida e perspicaz quanto inédita. Emprestei-o de uma amiga que, solícita, não o negou diante de meu pedido. Detalhe a ser comentado: ela pegara o livro emprestado da biblioteca da escola onde trabalha. Enfim, é uma pantomina cíclica de uma obra única, que muito lapida o indivíduo que se propõe a lê-la, sem amarras e -se possível- sem pré-conceitos.

dica de leitura: "Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar", de Eliane Cavalleiro, Editora Contexto, SP

(publicado originalmente no sítio www.leialivro.com.br)

29.8.07

PANORAMA DA LITERATURA DA ZONA LESTE DA CIDADE DE SÃO PAULO

Há muito tempo venho debatendo sobre como escrever sobre a produção literária na zona leste da cidade de São Paulo. Quero lembrar que estas linhas são apenas um aperitivo introdutório àquilo que entendo como literatura praticada por essas bandas. E não custa nada enfatizar que entendo como produção literária todo o universo que compõe a pluralidade textual, incluindo aí não só aqueles que fazem a escrita ficcional ou não, mas inclusive aqueles que tornam o universo das letras a sua profissão de fé, como historiadores, jornalistas e - evidentemente - os professores. E convém lembrar que o que chamo zona leste nada tem de exercício xenofóbico microcósmico. É apenas uma idéia geográfica que uso para denominar uma parte de São Paulo, com suas riquezas relativas, sua gente, sua pobreza e seus desacertos, querendo provocar alguma cócega no marasmo literário paulista. Neste mundo zona leste existem poucas livrarias ou editoras de representatividade qualitativa. Até as bancas de jornais, que são um passo de iniciação na vastidão das letras, são poucas, com uma variedade tacanha de revistas, jornais, dvds, cds, cds-rom ou livros a se encontrar.
Mas há muita gente produzindo textos legais e - principalmente - um público leitor irrequieto, crítico e inteligente. Quem teve ou tiver a oportunidade de frequentar uma roda literária, um sarau ou equivalente, vai sair embasbacado com a proliferação de tantos poetas, contistas e ficcionistas. No concertos de rap, nas quadras de escolas de samba, no ensaio das bandas de rock nas garagens, também podemos encontrar muito dessa atividade que estou a dissertar aqui.
Como militante cultural e artista, em cada vão que descortino nos escombros dessa periferia ferida, estou convencido que bairros, vilas, o subúrbio como um todo, comporta uma rica colcha de retalhos, onde se pode garimpar textos que com certeza ajudam e muito a enriquecer as letras tupiniquins.
Ouso lembrar, contudo, que a caudalosa maioria daquilo que é feito na zona leste é frágil demais para ser chamado "literatura", no máximo rompantes juvenis, fulcros emocionais, que o tempo e a crítica irão tragar com certeza. O que não deve ser usado como elemento desencorajador. É a partir destes "rascunhos" que irá surgir a rutilância do diamante. É a partir do embate diário com a caneta e o teclado, do exercício metódico e cotidiano que possibilitaremos o surgimento de novos nomes que irão dignificar o texto de São Paulo e do Brasil. Quiçá do mundo.
Nesta embalagem que tento formular, quero dispor de alguns nomes que me surgiram nesta empreitada pelas alamedas literárias de bairros tão díspares como Itaim Paulista, Moóca, Vila Esperança, Vila Cisper, Tatuapé, Cidade Tiradentes, Penha, São Mateus, Itaquera, Guaianases, e por aí vai... Nessas caminhadas tive a oportunidade de encontrar pessoalmente ou me deparar com textos de Marciano Vasques(prosa), Cida Santos(biografia), Paulinho Bomfim(conto), Cláudio Gomes(poesia), Vânia Cardoso Coelho(ensaio e ficção), Claudemir Santos(prosa, poesia e teatro), Rosilene Valério(poesia), Costa Senna(prosa e poesia), Wilson Paulo da Costa(ficção), Nilda Magalhães(poesia e ficção), Dalvina das Neves(poesia), Olimaris de Freitas(poesia e teatro), Antônio Primus(teatro), Luciano dos Santos(poesia), Walffy Magalhães Biserra(teatro e ficção), Sueli de Souza(poesia), Nilda Magalhães(poesia), Akira Yamasaki(poesia), Ivan Néri(prosa, poesia e teatro), Azhu´l(poesia e teatro), Marcelo de Oliveira(poesia e ensaio), Alessandro Buzzo(ficção), Paulo Rodrigues(ficção, incensado por Raduan Nassar e Marcelo Coelho, entre outros, por seu "À Margem da Linha"), Sydney Bomfim(teatro), Carlos Teixeira de Freitas(prosa e poesia), Ernesto Martinho Filho(poesia) e Waldomiro Grenhanin(poesia).
Sem dúvida alguma, há muito mais gente, outros talentos, neste perímetro denominado zona leste. Alguns eu omiti por não saber ou lembrar o nome. Outros, pela dúvida que paira sobre os seus trabalhos. O que tenho visto, contudo, nestes saraus e concursos distribuídos a granel, é que, se o balaio acondicionar, ainda assim vai faltar espaço pra muita gente.
O que eu quis, desde o início, foi suscitar uma polêmica, chamar a atenção, provocar. É esse o papel que reconheço do verdadeiro jornalismo: questionar, pôr à prova, duvidar e, se for o caso, elogiar.
Continuo, continuarei a minha peregrinação pelos vãos dessa região inóspita de atenção real. Ainda falta encontrar o pessoal que está fazendo o rap, o choro, rodas de samba, artes plásticas, teatro, vídeo, dança. Enquanto caminharmos nessa margem, estaremos propensos a encontrar esses prodígios, não só por suas aptidões mas - e principalmente - por sobreviverem na zona leste.

(publicado originalmente nos jornais "Frente e Verso"(Ermelino Matarazo, SP), "José Bonifácio em Notícias"(Itaquera, SP), "Cidade Tiradentes em Notícias"(Guaianases, SP) e "O Grito"(Monteiro Lobato, SP). Também no sítio literário www.recantodasletras.com.br/autores/escobarfranelas. Com alterações)

3.8.07

Conto Erótico

CORPO SANTO
Sempre que ela ia lá em casa, a gente acabava dormindo junto. E sempre que a gente dormia junto, ela se enrolava no meu corpo.
Acho que nunca conseguirei explicar pra você como é a sensação exata que sinto, que um homem sente, quando dois seios roçam seu peito. Ou então uma bunda empinada, comprimida contra você, em atrito suave numa noite serena, embalada pela música de uma respiração sossegada, fluida, cansada...
Mas o que eu ia dizendo é que ela, de vez em quando, dormia lá em casa. Na minha cama.
O que eu mais gostava era quando ela saía do banho. O quarto era contíguo ao lavabo, com a porta espreguiçando aos pés da cama. E quando ela abria a porta, aquele vapor de alfazema morna debruçava sobre o espaço. Nessas horas, eu já tinha apagado todas as luzes, deixando apenas dois abajures ligados, um em cima da escrivaninha e outro ao lado da cama, numa armação leve, em ferro, argila e arames retorcidos. A silhueta dela invadia a penumbra, na neblina do quarto.
Causava-me um certo terror o fato dela não ter pudores comigo. Deixava cair a toalha num gesto tão natural, que me custava acreditar que assim o fosse. Ficava sempre com a impressão de que era um ensaio teatral bem calculado, amalgamando frenesi e sutileza na mesma obscenidade gestual. Os seus seios saltavam em perfil; era o meu deleite. O que mais gostava, contudo, era observar suas pernas. Esguias e rígidas, sustentavam o corpo como um pássaro pronto para o vôo. Uma penugem luzidia a envolvia, das coxas ao tornozelo, subpondo-se a uma borboleta pintada em rosa e preto, que abraçava em cor e luminância toda a região maleolar. E ela ficava ali, nesse exercício de exibição, por infinitos minutos. Primeiro, enchia a palma da mão com aquele licor de deusas e começava a envernizar cada curva, cada linha daquele horizonte que vibrava na exata distância entre minhas retinas e a fantasia.
Eu? Eu ficava ali, feito bicho mudo, acuado, no desvelo daquele momento que me parecia tão curto, tão longo, conforme a história que inventava para nós dois. Ela não sabia - eu acho - que, ficando ali, daquele jeito, amassava, afagava, apertava meu ego, enquanto eu ofegava, em riste, suando frio, na bênção daquela hora úmida, talvez a única em que descortinava uma felicidade absoluta, por não compreendê-la completamente.
Depois de besuntar todo os recôncavos, dava voltas em torno de si, com as mãos orquestrando uma regência tirana, sôfrega, muda. Apreciava toda a disposição do espelho em ornamentar o gesto como um impulso de ventos boreais. Mais que uma obsolescência das horas, o que contemplava era uma religião que zelava veladamente pela contenção dos impulsos. A pele enegrecida na penumbra era mais que um corpo para o sacrifício de qualquer uma das partes. Era sim a contramão do raciocínio, um signo único para o esforço da libertação. Dessas gostosas ternuras que fazemos com nosso pensamento quando ficamos olhando sem pressa para as nuvens que se deslocam. Para o nada. Era assim que ficava, enquanto o corpo cansado das horas, reclamava dessa catatonia nobre da alma.
Por fim, depois de prestar o culto ao corpo, ela vinha. Parecia uma sereia alada, uma fada, que resvalava de leve na minha loucura, enquanto sorria, sorria só pra mim. E eu, tão aturdido ficava, que não retribuía.
Ela então trepava na cama, puxava lençóis, cobertores, travesseiros, peles, tudo; fazia o que tinha que ser feito, desfazia e fazia tudo de novo. E então eu sorria. Olhava. O lustre, pendendo no teto, cintilava sobre as feições abobalhadas que sulcavam meu rosto. O espelho do canto não omitia nenhum sinal. E aquele movimento, então... louco, meio caracol, meio centopéia. Tentava fitar sugar chupar os olhos dela, a cara dela, as palavras dela... e justamente aí tinha vontade de parar. Parar tudo. Plantar uma rosa entre suas pernas. Ficava tão perplexo com aquele rosto crispado de tesão, que tinha pequenos mimos, vontades maternais. Acariciá-lo com o dorso das mãos. Deixar escorrer uma gota de vinho entre os seios. Sugá-la quando baixasse à púbis.
Diminuía então ritmo da minha dança para tentar acompanhar a música de meu pensamento. O frenesi dos seus quadris, contudo, exigiam de mim um outro compasso. Havia naquele estupor uma catarse. Uma centelha inflamada que era como uma sinfonia atonal um balé sem fuga um ritual sem prédicas. E um dia toda aquela nota dissonante me conduziria a um salto a um olhar felino a um desmembramento do corpo... como se a alma não mais o suportasse e quisesse dividi-lo em tantos outros, até que eu não mais existisse.
Geralmente aí, nesse exato momento do pensamento, eu retrocedia todos os músculos de tal forma que a repelia com sutileza indiscreta. E ela ameaçava gritar. Algumas vezes gritava mesmo. E reclamava uma nota nova para prosseguir o baile.
Então nós, corpo e alma, nos encontrávamos novamente. E somávamos tudo e dividíamos tudo: langores sabores amores. Gozávamos os auspícios desse encontro súbito letal gratuito. Ríamos muito, algumas vezes ainda tesos para novos encontros, até o esgotamento que nos esvaziaria de vez. Dormíamos juntos, então.
Quando ela ia embora, eu estava feliz.
Quando ela dormia lá, eu ficava feliz.

28.7.07

OBTUSO

tão tonto fico
quando fico pronto
que fico em silêncio

(esse poema que não se acaba em mim)


filho das páginas de hardrockcoreNroll, 1998, Ed. Scortecci, SP

18.7.07

definitivamente...

conseguimos: demorou muito, passamos de pedro primeiro ao segundo, passamos por marechais, ditadores e tant´outros, mas ufa!, enfim conseguimos. CONSEGUIMOS PIORAR O BRASIL. Mas não digo isso de bobeira não, senhor! Falo com propriedade, com a propriedade científica de quem analisa detalhes com apuro técnico. Quer um exemplo? Que país do mundo você conhece que em vez de melhorar os trens , ônibus e metrôs, eles CONSEGUEM piorar os aviões e aeroportos? Bimba: só o Brasil pode exportar essa falta de respeito, esse "ser não importante" no atendimento da coisa humana: atraso, filas, descaso, falta de memória coletiva, retardo, bloqueio, cancelamento.
Agora tudo isso somado à falha técnica, à necessidade de urgência eleitoral e agrupeira, ao conceito da entrega pass-thru da coisa pública, à pressa fast-food. Só o Brasil permite que seus aviões derrapem na pista do carro, atropelem gente que nunca sequer sonhou em viajar em éirbuzz, e - pasmem! - só o Brasil consegue entender que qualquer medalha do Pan(pã?)pode ser mais importante que as centas pessoas que perderam a vida em frente ao aeroporto.

17.7.07

Dyrce Araújo

Estou com o livro "Sagrada Paixão" de Dyrce Araújo, às mãos.
Caudal, fresco e conciso, é quase uma profanidade de incensos sobejados à guisa de nosso olfato intelectualóide.
Vide "" Minha coragem / É nada mais / Que um medo suicida
à página 53, devidamente acomodado ao lado de um Boticelli marmóreo e transcendente.

Em "Crucis" Maria / De tantos nomes / Imaculada / Redentora / Aparecida / Qual é o tamanho / De tua dor / Diante da tua cruz?
temos um aprofundamento desse Sagrada Paixão aos intensos jogos verbais que nos traduzem mais que palavras ou sentimentos: trazem consigo todo o logos do mundo, repercutindo em nossa afetividade memorial.
Este livro(excelentemente bem acabado pela Escrituras Editora, SP - diga-se), traz um apelo de nova construção possível do mundo das afetividades. É possível, sim, viver o sagrado sem ser espiritualista demais. É possível ser profano sem radicalizações juvenis. É possível exercer o direito e o ofício do amar sem abater as asas do pássaro que voa dentro de nós e dos outros. E mais: é possível enternecer-se a não mais poder, e ainda assim, descobrir que o mistério do Amor é duradouro e profundo. Ao contrário do que nos dizem a avassaladora maioria em suas estéreis relações atuais.