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30.12.12

Cronicazica: "Elucidado o Enigma de Machado"



Eu, Escobar, confesso: sou o pai de Ezequiel; fiz esse obséquio a Bentinho. Em suma, eu comi a Capitu.
Você que enxerga a vida com olhos puros, que não se consola diante das injustiças que se amontoam e atropelam no cotidiano, “que ´engole em seco´ com as inverossimilhanças ficcionais diante da vida real, por favor, há de me perdoar! Fodi o machado, agora fodo o ´de assis´. Ele que se recomponha, com sua escrita de ressaca, com suas palavras oblíquas e dissimuladas.
O mundo atual, todo virtual, em sua célere decadência, a priori, dirigida à digestão fácil, não nos permite agora qualquer tipo de assomos barrocos. Convenhamos, estamos muito mais devotados à brejeirice parnasiana, sem sequer a forma dela; e temo hoje como inevitável a facilitação de tudo: da saúde, do discurso, do entendimento, da moral, da jurisprudência.
Faz mais de 100 anos que Bentinho veio a lume falar o que bem entendia e ´como entendia´. Eu não, só agora na era dos blogs, nesses tempos de efêmeros superficiais, de superlativos banais, somente agora pude vir à luz – ó contradição! – para falar o que penso, ´como penso´. Dizer o que fiz, ´como fiz´.
Capitu ainda não, coitada! As mulheres já queimaram sutiãs, já votam (e voltam atrás), já dirigem automóveis, lares e empresas (às vezes tudo ao mesmo tempo), mas ainda comemoram essa benevolência masculina, o 8 de março. Por ora, minha querida Capitu ainda não ganhou as tintas que merece. Espero sinceramente que não demore mais 100 anos para isso, pois ela está enfastiada, não vê a hora de pegar o microfone e bradar o seu grito. Pois sendo mulher demais para o seu tempo, o Brasil e o mundo não poderiam jamais entendê-la, isso é óbvio. Fizeram com ela o que sempre fazem com as mulheres que ousam estar à frente: colocaram-na na fogueira da inquisição. Que inquisição? Oras, a que você quiser, do patriarcado, da escravidão, da injúria, da redução sexista, não importa; pralguns, o que vale é colocar a mulher ´no seu devido lugar´. Ela, justamente ela que, vamos ser sinceros!, era bem mais inteligente que meu amigo, que este seu amigo; mais altruísta e menos démodé; mais sociável e menos sociopata; veja bem o caldeirão quente em que se meteu. Ela merecia sorte maior, ela merecia eu!
Pois o Bento tinha um problema, era “afetado demais”. Não diria gay, se bem que... bem, deixa pra lá! Temo ter que recorrer a Platão, talvez Freud, ou Lacan, para explicar o que se passou entre Bentinho e eu.
Mas o que vocês devem estar se perguntando é “o que é que esse filhadaputa fez, traiu a confiança do melhor amigo, ora essa?” Não, eu não traí a confiança dele, que me era superior ao que uma amizade entre seres que se podem devotar. Meu querido Bentinho era um verdadeiro gentleman, um dândi fluminense, apaixonado demais pelo personagem que a si se criou. Era um Narciso que achava feio o que não lhe é espelho. O exercício ególatra era onde ele se regalava por completo. Ficava entorpecido pela bebedeira de seu humor flanelante.
Se ele amava Capitu? Claro, mas não mais que suas dúvidas, ruminadas na insegurança. Ele foi um autêntico homem mediano, em meditação constante na faculdade de seus meio-termos. Eu, ao contrário, sempre fui apaixonado pela exatidão sagaz, pela ciência do lucro, cioso de vitórias e conquistas. Quando ele precisou de um conselho, eu o dei; quando inquiriu-me sobre decisões, eu as tomei por ele; quando ele contraía dúzias de dúvidas, era eu quem pagava, inclusive os juros.
Sendo Capitu mulher demais e seu marido homem de menos, cheio de querelas existenciais, acabamos por nos ajustar ao tempo, às condições inexatas das paixões febris, e ao desejo inflexível que nos assalta quando na vida as coisas conjugam a nosso favor: amamo-nos. Amei Sancha, amei Bento, amei Capitu; e amei Ezequiel, filho desse desassossego plural entre pessoas vinculadas pela extrema amizade, circunstância concordante e zelo fraterno.
Agora, seu juiz, é preciso que se faça justiça, doa a quem doer. Por isso proponho que se chame agora a senhora Capitolina Santiago Franelas para depoimento.

18.12.12

5 poemeus

"Às Avessas"

alergia: a

versão disforme

no espelho: alegria



"Poema Quadrado"

Dói aquela aquarela

onde paira um adeus.

Flor à janela



"Poema Agnóstico"

deus é

aquilo que você pensa

que é



"Angu Cool"

poderia ser angústia

de rima fresca

(mas basta-se fomepoema)



"Superlativo"

todo amanhecer é hipérbole

metáfora

(anoitecer é redundância)

16.12.12

Cronicazica: "Como escrever poesia"



Como escrever poesia

Hoje cedo, no meio de uma feira, entre bananas e abacates, me peguei pensando sobre como faço poesia. O vendedor de tapioca continua o mesmo, um bigodão vetusto e encardido – deve ter fumado a vida inteira! – a sua iguaria, uma delícia. E eu pensando como pratico meus versos.
Não lembro se foi antes ou depois de comprar o alho – talvez a cebola? – que repentinamente uma dúvida foi lançada: o que escrevo primeiro, o poema ou o título? Tenho certeza de que não tinha comprado o tomate, mas a questão que me assistia naquele momento era essa, “quem, em mim, nasce primeiro?”
Sei a resposta: enquanto pegava as mexericas, provava uma jabuticaba e pedia um pastel (de carne, hein!) e um caldo de cana (com abacaxi, limão e duas pedras de gelo!), lembrei que quase sempre o título vem primeiro. Não sei dizer porquê, mas quase sempre é assim, em uma idéia de determina o que vai ser escrito depois. Só depois de pesar as goiabas é que pensei que após o nome é que meus escritos ganham roupas, contornos e formas. E o principal: sua alma.
Não é compulsão nem mania nem nada, apenas uma prática que sei fazer. O título me assalta a idéia e fica caraminholando, até que seus filhos nasçam. Tudo bem que às vezes acontece o contrário, tudo bem que às vezes o nome é até bonito, mas estéril, não gera nada, só sirva de base para desenvolver uma idéia e depois seja trocado na hora de seu batismo. Tudo bem que às vezes vem uma montanha de versos abaixo, mas nada surge no horizonte que sirva para “vestir” essa população de signos e sentidos e dê a eles uma identidade.
Pois creio que título é isso: síntese. Tanto que às vezes acontece do nome chamar essa enxurrada de palavras que depois será poesia e terá outro nome, pois alguma coisa aconteceu, uma guinada foi dada no meio do caminho, e o título – que tinha sido a causa de toda essa “grita” – repentinamente não se aplica ao que foi deveras escrito. O primeiro terá sido apenas “boi de piranha”, pra chamar os versos que estavam represados em algum lugar, à espera do chamado à vida. Queria lembrar agora quem foi que disse que a escultura sempre esteve lá, dentro do bloco de pedra. O artista é “apenas” aquele que vai “tirar a gordura” dessa pedra, seus excessos, para que a figura, a imagem, o signo, o sentido, surja para a contemplação de todos. Acredito que a poesia que escrevo tem esse sentido. Escrevo tirando os excessos que permeiam pensamentos, reflexões e sensações. A poesia surge em mim justamente para desbastar, limar, lapidar, limpar e sublimar o que penso, ou, pelo menos, julgo pensar.
Foi assim que terminei minhas compras, paguei o “flanelinha” que tomava conta do carro e voltei para casa. Pois a feira foi meu poema. Sair de casa foi um título primário, saciar minha fome de frutas e legumes tornou-se o título final.

publicado originalmente no jornal O Grito Cultural (São José dos Campos, SP), edição 30




12.12.12

Um poemeu: "Noite de São Marcos"



Noite de São Marcos

Todo o espetáculo parece preparado

para seguir um roteiro prévio



Alguns artistas, no entanto

jazzistas de mãos cheias – e santas

insistem no improviso:

a arte improvável

a mais humana

arte genial e geniosa

casada com o acaso



Arte a se completar
e ter na mente

de tão perfeita, completa, complexa


Posta de lado, acima, dentro


À parte: Arte



 Caricatura de Julinho Sertão (http://esporte.uol.com.br/album/futebol/2012/12/11/cartunistas-homenageiam-marcos.htm#fotoNav=19)


10.12.12

Sarau Agora ou Nunca - Erivaldo dos Santos na Casa Amarela

Eu, justo eu, que adoro uma roda de conversa, principalmente sobre literatura e cinema (minhas paixões), tive que bancar o advogado do diabo ontem.  A Casa Amarela - Espaço Cultural hospedou neste domingo, dia 9, o professor Erivaldo dos Santos. Meu parceiro desde a adolescência, quando discutíamos Sartre, Nietzsche, Freud e Jung pelas ruas do Jardim São Pedro, Eri - como é conhecido entre os íntimos - marcou presença no mix de sarau e roda de leitura "Agora ou Nunca". O evento foi criado e pensado justamente para recebê-lo, já que está de partida para Portugal, onde vai ministrar palestras na Universidade de Lisboa e, possivelmente, também em Hamburgo, Alemanha. O inusitado da festa foi que ela ficou claramente dividida em duas partes e acabou durando mais de cinco horas (isso mesmo, 5 horas!). Aí, aí justamente aí, tive que descer a cortina e encerrar o oba-oba, que ameaçava enveredar noite afora, madrugada a dentro. Passava das nove da noite.
Para embaralhar ainda mais a coisa, o livro dele, "Citação e Alusão nas Cônicas Machadianas - Estratégias de ler e escrever pelo avesso" - na verdade, sua tese de mestrado pela PUC-SP - foi lançado no sábado. Logo, por conveniência, o domingo foi uma continuação do fim de semana produtivo do também poeta, dramaturgo, ator, artista visual, músico, cantor, blueseiro, enólogo, alagoano, palestrino e outros quetais.

O pessoal foi chegando, alunos seus, frequentadores da Casa Amarela, outros convidados, todos bebericando o ótimo vinho que o próprio nos trouxe. No primeiro momento, ele discorreu sobre o objeto de sua análise, Machado de Assis e o uso estratégico do Sermão da Montanha bíblico como elemento constitutivo em suas crônicas. Interagindo principalmente com Tiago Araújo (ambos, puquianos, apresentaram diversos pontos de convergência e alguns poucos, e pequenos, "estranhamentos" interpretativos), a conversa acabou descambando também para outros assuntos que fazem parte do métier do artista: educação, produção literária, cinema e literatura, histórias de vida. E assim, todos ali, eu, Akira, Silvio, Iolanda e Zé Carlos, Vinicius e a musa, Zulu (cantando "a capella") e a musa, mais Mah Luporini e uma porção de convidados fomos brilhantemente inseridos no mundo machadiano, pela linha teórica de Erivaldo dos Santos.
O não imaginado, o não previsto, porém, era que após o término do encontro, as pessoas todas ali (poucos tinham ido embora, outros tinham chegado), todos jogando conversa fora, regada a vinho, amendoim, café, água e suco, a roda aos poucos foi ganhando forma novamente. Em poucos minutos, tudo tinha virado um profundo debate sobre a produção artística local, políticas públicas, meios de difusão e distribuição, entre muitos assuntos colocados na ordem do dia.
A conversa acalorada surgiu naturalmente e seguiu um curso sinuoso, com muitos apontamentos críticos que surgiram no esteio das discussões. Lembranças foram contadas, histórias relatadas, dúvidas suscitadas, encaminhamentos direcionados. Manogon, Tião Baía e Selma, recém-chegados, também ajudando a dinamitar e fundar novas perspectivas para o fazer artístico e cultural na região e outras periferias. Com tanta motivação, minha grande dificuldade foi conter os ânimos e arrumar um jeito de finalizar o encontro, o que fiz, sem talento algum, confesso.
Pra variar, chegando em casa, me dei conta da mancada genial que dei com o poeta Manogon, que tinha subido da praia direto para o sarau e trouxera um belo texto, meio-termo entre conto e poesia (seria prosa poética? seria poesia em prosa?). Como ele chegou no fim da palestra inicial, guardei comigo e fiquei de dar algum encaminhamento, não tinha mais clima pra leitura, ponderei erroneamente. 
Quando, meia hora depois, rolou o improvável segundo tempo de conversa, esqueci o belo texto dele dentro de minha agenda. Manogon, cordato e diplomático, não me cobrou o que eu displicentemente guardara e sua história hilária e poética não pode ali ser compartilhada.
Para tentar reparar o erro crasso que cometi, divulgo o mesmo aqui abaixo:
 


"Ubaldo, Badinho, Badí"

- Ei, você, viu Badí?
- Olá, onde ele está?
- Ui, ai, aonde Badí vai?
- Menina, corre aqui, vá chamar o meu Badí. Diga-lhe que estou aqui, aflita, com a gota atacada, andando torta, desajustada.
- Seu Zé, me faz um favor? Apelo ao Santo Nosso Senhor, que o senhor vá na carreira buscar Badí. Vê lá na goiabeira, fala pra ele não dá bobeira. É que eu já ando na tremedeirade meu Badí fazer besteira.
- Homem, por onde Badí se enfiou?  Pegou outro rumo? Evaporou? Eu estou aqui nesse batente, a perna dói, me bate os dentes, sinto afluição, fico dormente.
-Ah, dona Maria, me pega aquela bacia que eu vou jogar sal grosso, rezar Ave Maria, pedir pra todos os anjos que façam lá seus arranjos, mas me tragam meu Badí, nem que seja aos solavancos.
- Corre Nina, voa Nino, depressa Jair, chama logo meu Badí, que eu não aguento mais saudades do meu rapaz.
- Badí... Badí...Badí...
Mas Badí não ouviu. Ninguém sabe ninguém viu. Só um corpo boiando no rio. Sem lenço nem documento, sem nome nem sobrenome. Nem ao mesno um ser humano, um fulano, beltrano ou ciclano, que fosse bolar um plano de tirá-lo dali, de levar o pobre Badí.
Badí que nasceu Ubaldo, mesmo nome de seu pai, que ganhou o mundo e não voltou mais. Virou Badinho, por causa da mãe do padrinho, que lhe enchiam de carinho. Devido à priminha Gabi, virou de vez o Badí, que vivia aqui e ali.
Badí da mãe querida, por causa de uma ferida, de doença envelhecida, viva vida sofrida. Só tinha mesmo a Badí, a quem recomendava estudar para sair dali. Mas Badí com isso não dava. Fugia, corria pulava, jogava bola e fumava, e até birita tomava.
Porém, mesmo assim, erra bom esse Badí. E a tragédia que conto aqui foi porque ele, junto dos amigos peladeiros, pulou o quintal do Teobaldo, velho sisudo e malvado, só para pegar caqui. Teobaldo nem pensou, chamou os cabras e mandou que daquilo eles cuidassem. Foi o que se passou. Foi na covardia, no meio da gritaria, enquanto Badí corria, que a bala no ouvido zumbia. Com um tiro no meio das costas, tombando no meio da bosta, Badí morto caía.
- Badí... ah, Badí... onde está o meu Badí?
Mas Badí não ouviu.
Seu corpo bóia no rio.
 Manogon - Manoel Gonçalves

23.11.12

Um ano sem Raberuan - um show de homenagens

Ontem à noite o CEU Parque São Carlos tornou-se um templo. O motivo era prestar um culto à memória, à poesia, à musicalidade, à vida ímpar de Raberuan, o crooner do Ermelino. Raberuan subiu para as estrelas em 18 de novembro do ano passado, mas sua música cresce a cada dia. 
Sacha e Akira - "Emocionais" MC´s (foto de Francisco Xavier)

Prova disso foi o encontro no palco do CEU, que reuniu, além do Sachinha Gabriel - organizador do evento e mestre de cerimônia - seu pai, Sacha Arcanjo, o sempiterno parceiro de Tião, um dos codinomes do Raberuan - e o poeta Akira Yamasaki, que o resgatou do limbo, por volta de 2002, quando Raberuan estava "escondido" lá no Arizona, Itaquá.
Fabinho Lima - emocionado e emocionando (foto de Francisco Xavier)

Tangidos pela emoção, aqueles que subiram ao palco fizeram um show incerto e sincero, com diversos deslizes e esquecimentos, típicos de quem está mais emocionado do que as luzes do palco permitiam ver. Mesmo assim toda a nata da região passou por lá e deu seu recado comovido, desde Eliel Lima, Fabinho Lima e Edsinho - "Gordo" - Tomaz de Lima, até Sara Pitanga (filha), Tiago Pedro (filho) e Claudia (última esposa), passando por Daniel Marques, Samara & Ébios, Ravi Landim, Tião Baía, Nando Z, Tiago Araújo e Valter  Pasasrinho, todos tomados pelo mesmo torpor e amor, à presença visceral - e cada vez mais essencial - de Raberuan.
Akira, "Pitanga", "Pedro", Claudia e Sacha - "família" Raberuan (foto de Francisco Xavier)

Precedidos pelo clipe No Quintal do Sacha, cuja música e letra são do Bentevi (outra alcunha que Raberuan ganhou, depois de musicar o poema seminal de Akira), um a um, todos o que pegavam no microfone sacavam antigos versos, ou tocavam e cantavam velhos sucessos, na verdade choravam e celebravam sua arte, provocavam uma epifania, enfim, que aludia à vida intensa e breve do mestre partido. Mestre musical, mas também nas ciências da vida, como bem lembrou Sachinha, já no final do evento, antes que Sachão chamasse todo o povo para brindar Raberuan com o a malemolência de Jangadeiro, emblemática canção dos dois, a dupla  roberto&erasmo (ou lennon/maccartney, como queiram!) são-miguelina.
Haja lágrimas para regar as sementes na memória!
Eliel Lima - "Raberuan era mestre, pai, irmão, tudo!..." (foto de Francisco Xavier)

9.11.12

Entrevista - Cida Santos (historiadora da zona leste)



Em algum dia da década de 1990 recebi em minha casa a visita principesca do cantor e compositor Cacá Lopes. Ele, cortês, deu-me de presente um exemplar do livro Zona Leste Meu Amor, de Cida Santos. Eu não a conhecia, mas a partir da leitura dessa obra essencial, comecei a “acompanhá-la”, segui-la em suas andanças públicas. Mas ela não sabia de minha existência. O tempo passou e surgiram então essas novas tecnologias maravilhosas que permitem uma aproximação mais sutil entre as pessoas.
Troquei alguns e-mails com Cida, tornamo-nos amigos no Facebook e enfim nos encontramos em maio desse ano para um abraço fraterno durante um evento do Projeto Bentevi, comandado pelo poeta Akira Yamasaki, no restaurante Casa de Farinha, em São Miguel. 
Ficamos, estamos, somos, amigos desde então. Na sinceridade mais genuína que se possa construir - ou permitir.
 1)      Quem é Cida Santos?
Resposta: CIDA SANTOS, 57 anos, Assistente Social por opção, formada na Faculdade da Zona Leste (hoje, UNICID) e escritora por acaso. A profissional fala mais alto sempre! Descobri, desde criança, que queria ser Assistente Social, sem saber ao menos o verdadeiro significado da profissão.
Quando iniciei meu estágio, no primeiro ano de faculdade, estava eu numa das muitas favelas que conheci e entrei num barraco pra conversar com a moradora e percebi que sua filha não parava de chorar. Aí perguntei pra aquela senhora, por que sua filha chorava tanto e ela me respondeu:
- Ela está com fome e eu não tenho nada para dar a ela.
Num gesto automático, saí correndo, fui num daqueles botecos  que existem nas favelas e costumam ter de tudo, pedi dois pacotes de macarrão, um litro de óleo e um quilo de sal; paguei e retornei aquele barraco e entreguei tudo para aquela senhora, que me agradeceu muito. Saí do barraco de alma lavada, “achando” que salvei o mundo! Ledo engano, ao entrar no segundo, no terceiro, no quarto barraco, a situação era a mesma e eu só tinha dinheiro para chegar até a minha casa, pois havia necessidade de tomar dois ônibus. Sentei-me numa pedra que havia naquela comunidade e comecei a chorar e aí, a minha orientadora sentou-se ao meu lado, perguntando o que havia acontecido? Relatei o ocorrido e então ela me disse:
- Se você acredita que ser Assistente Social é isso, então é melhor você parar por aqui e rever os seus conceitos. Naquele momento, senti uma tristeza tão grande, mas ao mesmo tempo descobri que serviço social significava algo muito mais nobre que promover o ser humano, era muito mais importante do que “dar esmolas”. Cresci muito a partir daquele momento e optei por continuar meus estudos. Eu e outras colegas passamos a promover ações de geração de renda, criar vínculos com todas as famílias e a vida delas começou a mudar.
A partir do momento em que você cria vínculos com uma comunidade, é incrível, as pessoas passam a ter consciência dos seus valores e automaticamente elas mudam de vida. Passei a entender a profissão que eu havia escolhido e me entreguei de corpo e alma. Ser Assistente Social, hoje é minha Missão.

(Nasce a escritora)
A escritora nasceu por acaso. Andando pelos caminhos tortuosos da minha querida Zona Leste, descobri “pequenos mundos” que me fascinaram! Conheci “líderes de comunidades”, como José MESSIAS da Silva, ELGITO Boaventura, Santo,   Amaury Joaquim da Silva, Seu Luiz, Vera Lucia Alves da Silva, Luzia Monteiro, Padre Ticão, Dalva Paixão, Seu Espíndola, Luizão, Seu Elias, Chico Terra, João Lucas, Honório Arce, Socorro, Dona Lola, Jorge do Carmo, Tauá, Ana Maria Martins, etc... e tantos outros, líderes no sentido exato da palavra, que me davam lição de vida a cada momento. Um deles, o MESSIAS da Favela Jardim Robru, passou a ser o meu “herói”, tamanha era a admiração que eu tinha por ele!
Em nome de fascínio pelas lideranças, decidi escrever um livro e o título nasceu primeiro: ZONA LESTE MEU AMOR. Fui colhendo depoimentos de todos eles e o primeiro livro ficou pronto rapidinho. Lembro-me do lançamento, na Casa de Cultura Chico Mendes, que o meu querido amigo Cacá de Oliveira era o Diretor. O evento teve início às 8 da manhã e só terminou às 18 horas. Foi um evento e tanto, porque tratava-se do primeiro livro sobre a Zona Leste e que contava a história de heróis anônimos que as pessoas “achavam” que conheciam mas, que na realidade, por trás deles havia uma riqueza cultural muito grande.
Acredito que em toda a história da ZL, nunca alguém conseguiu reunir tanta gente importante num só lugar e num só dia! Tinha gente de todas as classes sociais e  políticos de todos os partidos, todos ali, debaixo do mesmo teto! Foi realmente um dia inesquecível! Pra mim e para todos aqueles líderes, que se transformaram em “amigos” de verdade! 

2) Baseada nessas experiências tão ricas, como você sente o mundo hoje? As coisas realmente melhoraram? Ou há uma ilusão de ótica na interpretação do social?
R: O mundo hoje, meu caro Escobar, penso que está havendo uma grande inversão de valores... As pessoas perderam muito de sensibilidade, tornaram-se “práticas” demais; o essencial, o simples, perdeu o valor! O ser humano está valendo muito pouco. Não estou sendo pessimista não; sei que ainda existem pessoas “que pensam”, que “fazem” a diferença, graças a Deus!
Quanto ao social, sim, há uma ilusão de ótica na interpretação de muitos, principalmente para grande parcela da população pobre e também dentro da classe política! O social tem sido interpretado como uma “muleta”... Poucos buscam a “promoção” do ser humano e muitos desejam que o ser humano não cresça, não desperte para a vida; para eles, é melhor que o ser humano continue sendo “coitadinho”, porque o “coitadinho” precisa de esmolas, o “coitadinho” será sempre “dependente” de tudo!
Mas vejo uma luz no fim do túnel, pois percebo em alguns lugares, muitos jovens despertando para a verdadeira vida, pensando como “gente grande”, fazendo arte com consciência, preocupando-se com os graves problemas que o País enfrenta. Tudo isso traz a esperança e a gente passa a acreditar que ainda é possível vivermos num mundo melhor.    

3) Você citou grandes nomes que contribuíram para o crescimento da zona leste. Eles deixaram "herdeiros" de suas militâncias?
R: Sim, nomes importantíssimos que misturam-se com a própria história da Zona Leste! Contribuíram muito para o crescimento dessa região, mas fico procurando outros líderes, iguais ou semelhantes e não consigo visualizar nenhum!!! Talvez, no momento atual, eu esteja um pouco distante da ZL, por estar morando aqui em Laranjal Paulista! Mas, nunca mais ouvi falar de líderes como o Messias, por exemplo! Ele era capaz de dar a vida pela sua comunidade! Será que hoje existe alguém na ZL, que seja capaz disso? Não sei, penso que é muito difícil! Mas a essência desses grandes líderes ficou em nós, para que possamos perpetuá-los pela eternidade! Hoje, dentro de comunidades, eu só vejo um líder, capaz de coisas excepcionais! Esse Homem chama-se Padre Ticão!  

4) O que a faz acreditar que não há mais líderes como estes que você citou? Estamos realmente vivendo o fim das utopias?
R: Você fala em utopia! Penso que eles viveram, realmente, a maior das utopias!!! Por outro lado, eles foram capazes de transformar a Comunidade em que viviam, mudaram planos de governo, foram presos muitas vezes, enfrentaram tempestades, mas mudaram muita coisa, então não foi um sonho? Foi tudo real...
Penso que o mundo mudou e os líderes também mudaram! Talvez estejamos mesmo, vivendo o fim das utopias e isso me causa certa nostalgia...

5) Quais livros você publicou?
R: Publiquei dois livros:
 Zona Leste Meu Amor – Personagens de uma história de lutas – 1994 – 144 páginas – Editora Marco Markovitch
 Zona Leste Fazendo História – 1997 – 144 páginas – Editora Marco Markovitch

6) Tem intenção de publicar mais algum?
R: Sim, eu gostaria de publicar mais um livro, creio que no início do próximo ano! Estou fazendo uma pesquisa sobre a história de minha família materna “os Ferrari”! São muitos e muitos anos, que meus “nonnos” maternos vieram de Verona/Itália. Desde 1892, já se passaram 120 anos, que essa família foi se formando aqui no Brasil! Essa pesquisa envolve muitas viagens e, neste momento, não estou conseguindo viajar devido à doença de meu pai. Mesmo assim, tenho obtido muitas informações através da  internet. Já tenho pelo menos 200 páginas escritas e cerca de 2000 fotografias! Creio que até o início de 2013, vou conseguir. A história dos Ferrari é fascinante!

7) O que a fez sair da zona leste da Sampalândia para Laranjal Paulista?
R: No ano 2000, precisamente no dia 26  de março, infelizmente, minha mãe faleceu... Fato esse que mudou completamente a minha trajetória. Meu pai ficou sozinho aqui em Laranjal Paulista e eu não tive outra opção, fiquei aqui, cuidando dele. Já no mês de abril, o então Prefeito de Laranjal Paulista me nomeou Secretária Municipal de Assistência Social, cargo esse que me deu muita projeção na região e muito prazer em exercê-lo. Naquele ano 2000, o então Prefeito perdeu a eleição e eu resolvi retornar para SP, mas fiquei apenas dois meses, pois o novo Prefeito eleito convidou-me pra exercer o mesmo cargo naquela nova gestão. Em resumo, fiquei mais 4 anos. Se não bastasse isso, esse Prefeito foi reeleito e eu permaneci por mais quatro anos no mesmo cargo. Nesses nove anos, tive a oportunidade de contribuir muito para o crescimento da área da assistência social em minha terra natal e isso me orgulha muito. Implantei uma Secretaria que, antes não existia, desenvolvi projetos sociais maravilhosos!
Um projeto, em especial, a CRECHE NOTURNA BRASILIA FERRARI DOS SANTOS (em homenagem à minha mãe), foi tão pioneiro na região, que me projetou muito como profissional. Fui premiada pela Fundação Getúlio Vargas entre as Vinte Experiências  Inovadoras no Brasil; apresentei esse projeto no Rio de Janeiro para uma plateia muita seleta. Foram vários projetos sociais que a população colhe os frutos até hoje.
Já em 2009, tendo acabado o mandato daquele Prefeito, decidi retornar à SP, mas fiquei apenas 5 meses, pois fui convidada para ser Secretária Municipal de Assistência Social do Município de Conchas (terra de minha mãe), que fica a 18 km daqui de Laranjal Paulista e aceitei mais um desafio. Fiquei nesse cargo por quase três anos, tendo saído agora em fevereiro de 2012. Esses doze anos de Secretariado, trouxe-me uma experiência muito rica dentro da área de assistência social e me deu a oportunidade de ficar mais próxima de meu pai, que hoje, tem 93 anos de idade e precisa muito de atenção mas, por outro lado, a Zona Leste não me sai da cabeça.
Continuo mantendo a minha residência oficial na Cidade A. E. Carvalho, pois esse é o lugar que eu aprendi a amar como se ama a um filho. Tudo o que sou, tudo o que construí em minha vida, está na ZL e é totalmente impossível esquecê-la! Afinal, a ZONA LESTE É O MEU AMOR!

8) Quais são seus planos para o futuro imediato?
R: De imediato, estou deixando a vida acontecer... Como já disse, estou cuidando do papai e vou permanecer por aqui, porque ele está precisando de mim. Estou aproveitando, também, para estudar, estou me atualizando na área social, pois é uma área muito dinâmica, que muda a cada dia e é necessário acompanhar tudo isso!

9) Quais obras (cinema, livro, teatro, música etc) que são referência para você?
R: Minhas preferências? Cinema gosto, mas não sou fanática! Literatura, amo de paixão, todos os grandes escritores brasileiros, apaixonada por Guimarães Rosa, Jorge Amado, Machado de Assis, Ferreira Gullar e muitos e muitos outros! Amo o Poeta Chileno Pablo Neruda, o seu livro “Confesso que Vivi” é o meu livro de cabeceira, junto com “Água Viva” de Clarice Lispector! Enfim, tudo o que é bom eu gosto de ler.
Sou apaixonada pela poesia de Escobar Franelas, Francisco Xavier, Alvaro Posselt, Akira Yamasaki, Gilberto Braz, Paulo Alvarenga, José Vicente de Lima, Cecília Fidelli, Yohana Sanfer, esse povo mais novo que me encanta com seus poemas todos os dias! O teatro eu amo de paixão, lembro-me da Escola Dom Pedro em São Miguel, lá pelos idos de 67, 68 e 69, quando eu tive aulas de Artes Dramáticas com o Professor Luiz! Lembro-me de encenar o Auto da Compadecida de Gil Vicente.
Morro de saudade de tudo isso! Penso que o Teatro tem um poder transformador na vida das pessoas! Quanto à Música, sou apaixonada por Música Popular Brasileira de qualidade, sou fã número 1 de Chico Buarque de Hollanda. Adoro Milton Nascimento e Caetano Veloso! Sou apaixonada, ainda, pela Música Regional, que passa por Almir Sater, Renato Teixeira, Vidal França, João Bá, Dércio Marques (que se foi recentemente), Vital Faria, Geraldo Azevedo, Elomar Figueira, etc. Amo a música chilena, tenho três discos de Victor Jara que são os maiores tesouros que guardo comigo. Amo, ainda, a música cubana de Silvio Rodriguez e Pablo Milanés! Amo esses meninos todos que fazem arte na ZL, Edvaldo Santana, Cacá Lopes, Ronaldo Ferro, Sacha Arcanjo, Zulú de Arrebatá, Ceciro Cordeiro, enfim, todos esses que fazem parte desse rol de amigos...
Outra coisa que eu também sou apaixonada, são algumas cantoras maravilhosas, como: Maria Martha (ela cantava no Boca da Noite do Bixiga e, hoje, canta e encanta Paraty), Mirian Mirah que fazia parte do Grupo Tarancón e também Mônica Albuquerque, que são pessoas que não estão na mídia televisiva, mas que lotam teatros e encantam plateias inteiras. Enfim, eu gosto também do Cururú da minha região; conheci, desde criança todos os monstros sagrados do Cururu, como: Parafuso, Pedro Chiquito, Zico Moreira, Nhô Serra, Horácio Neto e Luizinho Rosa. Além das modas de viola, feitas pelos grandes compositores caipiras de verdade. As coisas regionais me encantam! Amo o folclore, as festas religiosas, principalmente, as festas do Divino Espírito Santo e do Reizado, que acontecem aqui na minha região.

10) Cida  Santos, faça uma pergunta que não fiz. E responda ela, por favor? Obrigado.
R: Uma mensagem
Quero dizer a você e a todos os que me leem, que tive uma trajetória até aqui, marcada por altos e baixos, como é normal na vida de todos os seres humanos que vivem com intensidade! Mas, não me arrependo, em absolutamente nada do que já fiz e venho fazendo! Se tivesse que repetir tudo, eu repetiria exatamente igual! Acredito muito, que a vida é um bem valioso que nos é dado de graça e temos que vivê-la com muita intensidade e com muito amor.
Acredito muito na grandeza do ser humano, no valor das amizades e acima de tudo, acredito nesse Poder Criador chamado DEUS, que move meus passos e me irradia essa luz, capaz de dissipar todos os dias cinzas que, às vezes, teimam em surgir.
Obrigada, meu querido Amigo Escobar Franelas!      


30.10.12

CD de estreia da banda Tourrets (SP)


Formada por Arthur Chinaglia (guitarra e backing vocals), Johnny Gomes (baixo e leading vocals) e Rafael Suzuki (bateria e backing vocals), o trio de hard rock paulistano Tourrets traz em seu EP homônimo, recém-lançado, um acerto de contas sonoro com as influências, que faz uma linha do tempo com as bandas que preconizaram a cena rock no Brasil na década de 1980. Quero dizer, a banda não inova, mas renova a sensação de viver o espírito do rock como êxtase musical, atitude comportamental e pulsão juvenil.
Bonito, bem diagramado, todo composto entre o sépia e o preto-e-branco básico, o disco revela ainda a surpresa de ter sido muito bem produzido. Uma a uma, as músicas vão desfilando elegantes para os ouvidos
“Palavra”, a primeira música do EP, é uma colcha adornada de belas costuras musicais. Iniciada como um mantra sutil de cordas e ritmos, segue num “crescendo” que no fim reflui novamente, sem perda da coesão, enquanto diversas vocalizações constroem uma poderosa parede de grossas camadas sonoras.
“Sangue nos Olhos”, a segunda, diz tudo já no título. A introdução é uma porta aberta para a pancadaria sonora que se desdobra em um veemente discurso gutural, com muita vitamina musical e pouco espaço para a inocência adolescente. Relembra as grandes bandas híbridas do punk rock da década de 1980, como Plebe Rude. “Outro Lugar” é de uma sonoridade instigante. Com uma textura sutil, traz no seu bojo um discurso “meio Renato Russo” sob uma base limpa em que cada instrumento destaca-se por si, sem prejuízo do conjunto, num resultado muito bom, principalmente se levarmos em conta que estamos ouvindo uma banda iniciante e independente.
“A Sua Alma” é candidata a hit imediato. Impressiona, pois reúne em seu caldo sonoro uma base pulsante ao mesmo tempo que “adocicada”, dessas de ouvir e ficar assobiando o restante do dia. Música com aura própria e personalidade marcante. “Ego” é um discurso forte e violento (“Fortuna é o seu poder / Mas com o suor de quem?”), construído novamente sobre uma usina de sons dispostos em fúria, mas plenamente audíveis.
“Trincheira”, última música deste mini-disco gigante, tem um pouco de Racionais ou O Rappa. Os garotos entendem a necessidade de expulsar os demônios que permeiam a vida atribulada na cidade grande. Entram de sola naquilo que acreditam, esperneiam, gritam, mas não desafinam nunca: “Estou cansado da trincheira / Já aposentei o meu fuzil / Meu capacete é uma peneira / Não tenho perna pra fugir”.
Ficar colocando Tourrets em confronto com alguns ícones do roquenrol brazuca aqui é elogio. O terceto paulistano trafega com honestidade, talento, coerência e qualidade ímpares nessa revolta sincera em diálogo permanente com o modus vivendi que se oferece nas metrópoles do século XXI.
E revelam aí uma constante de todas as banda citadas: escrevem e tocam com competência, sem perder a atitude, causa e efeito primordiais do rock, desde sempre.
Mais informações sobre a banda e o cd: www.tourrets.com.br
Videoclipe de “palavra” em https://www.youtube.com/watch?v=HaNFhfqMX4s

Texto de Escobar Franelas / fotos Arquivo Pessoal Tourrets

28.10.12

Maria Dumário - "eNTRE vISTAS"



Após incessantes tentativas de entrevistar a ficcionista Maria Dumário, o Poeta radicalizou e convidou o Zeh, seu principal personagem, para uma conversa fiada. Como todo bom poeta que gosta de uma boa prosa, entre vistas a todas as possibilidades, saiu esse rascunho:

Poeta – Você é o protagonista de “Z vs. A”. Como foi que tudo nasceu, se é que você sabe dessa história?!
Zeh – Poucos sabem, mas na verdade eu nasci “A”. Não ria, essa ordenação foi muito natural, mas como a exigência é pelo cultural, então, houve um desmembramento racional, no qual eu fui levado para o fim, para poder tornar-se uma rima perfeita.

P – E como você reagiu a isso? Essa imposição gramatical implicou em sua forma de ver a vida?
Z – Sim, com certeza. Uma coisa é ver a vida com o olho da testa, outra coisa é ver a “coisa” com esse olho coisado, coisificado, codificado para ver as coisas a partir do fundo, pela parte de trás. Não ria, por favor, pois o assunto é sério. A Maria, com certeza, não previu isso tudo quando me pariu, afinal, personagem, ao contrário da criança natural, se rebela mais cedo. A minha adolescência deu-se na terceira linha. E reconheço que não fui um filho fácil não!

P – E como foi o relacionamento com sua mãe?
Z – Minha mãe na ficção ou na vida virtual?

P – A que o criou.
Z – Como você não respondeu corretamente à minha pergunta, vou responder do meu jeito. Mãe, antes de tudo, é aquela que cria. Pô, você vai rir? Tá bom, tá bom, mas que fique bem claro, "mão" - mão, viu? - realmente é aquela que cria. Não basta botar o filho no mundo. É preciso dar carinho, roupa, brinquedo no Natal, teta na hora certa, presente no dia certo, fazer dormir na hora certa. E também educação na medida certa. Só que minha mãe tinha muitos afazeres a fazer com suas duas mãos, uma hora era prosa, outra poesia. E aí, já viu, né? Deu no que deu. Acabei criado quase só, ela dedicava-se a múltiplas tarefas e acabei por tomar corpo sozinho. Quando ela colocou o ponto final no “Z”, eu já era um Zeh criado, com barba e bigode.

P – Sinto uma certa dor, um rancor nas suas ponderações...
Z – ´magina! Minha mãe foi maravilhosa. Apesar da solidão de minhas brincadeiras, apenas do quarto branco, da sala branca, da cozinha branca, das poucas amizades, ainda assim fui muito feliz, mesmo com uma mão ausente que me afagasse, me apoquentasse... Pois assim ela revelava-se também um pai para mim, e me enchia de nuvens, metáforas, eufemismos, aliterações, prosopopéias e brinquedos com os quais me divertia à beça. O que fiz mais engraçado foi uma série de onomatopéias.

P – Mas você não sentia falta de um primo, um carrossel, uma pipa, televisão?
Z – Eu não sabia que isso tudo existia. Melhor, até sabia que havia um outro lugar, que parecia o paraíso, quando o livro ficasse pronto eu iria pra lá. Mas fui educado de uma forma agnóstica, então isso não se materializava em mim. Isso tudo parecia um sonho distante. E eu me diverti muito nos jardins com flores de letras, nas lombadas dos livros, no esconde-esconde das folhas, no escorregador da caneta. Enfim, fui feliz do jeito que eu conhecia a felicidade. Depois surgiram outras...

P – E a música, como ela chegou em sua vida? Na sua juventude você gostava de dançar?
Z – Se você observar meu registro de nascimento, vai ver que já nasci numa dança: “Naquela manhã Zeh nasceu. Era pra ser A ou Agá, era pra ter nascido à noite. Mas a dor dura, a anestesia mal aplicada, o parto difícil, só nos primeiros raios de sol puderam surpreender os olhos semicerrados e ainda turvos de Zeh.” Isso é música pura, dança intensa, baile dos bons. Nasci música, pura poesia. E aí reside um pouco de minha dor...

P – Por quê?
Z – Pois eu era outra coisa, sei lá! Talvez uma abstração, uma ficção mais impura, cheia de “por fazer”. Mas então vim assim, já durinho, engomado, vitaminado, metrificado, rimado. Nasci errado.

(continua; um dia)

x.x.x.x.x.x.x.

(mas poderia ser uma crônica, um conto...)

20.10.12

Resenha - "Caixa Preta" e "Ocidente", livros de Nilson Galvão



 Nilson Galvão clicado no último rasante pela Sampalândia, outubro de 2012 (foto EF)

Dois livros de um mesmo poeta, o baiano Nilson Galvão, editados pela coleção Cartas Bahianas, do selo P55 Edições, revelam-se leituras complementares, diferentes, surpreendentes e... profundamente poéticas! Se ambos foram escritos sob os fluidos da sublimação, os códices adotados pelo autor, todavia, revelam sutilezas bem peculiares para cada uma das obras.
O livro “Caixa Preta”, de 2009, é um invólucro de alguém que estréia sem subterfúgios, com a narrativa e a poética de quem quer falar, e tem o que falar. Principiando com um inusitado “Poema de uma linha só”: “Leveza, nessa vida, é a linha de partida.”, o poeta diz logo de cara a que veio: buscar o espanto criativo, solapar a base estabelecida, duvidar, questionar e liricar. Pois não se é bom poeta sem a prerrogativa da intenção poética. E nisso Nilson Galvão dá mostras de vivacidade muito sagaz e original.
Outro exemplo sucinto é “Todo intervalo, toda pausa, algo em tudo denuncia / o vão. Onde não somos e no entanto ousamos / caber. E é inútil saber [...]”, em “O vão das coisas”. Mais adiante, agora em duas linhas, temos outra lírica rica em “A palavra coisa”: A palavra coisa, que estranha: / feito objeto sem forma.
Mais alguns passos e o poema “Crendo, crendo”, bem mais longo, revela todo o imã por onde se orienta a bússola do poema. Extraio um pequeno excerto só para aguçar a vontade do leitor: “Todos deveriam deixar de saber / um dia. Nossas idéias esquecidas / numa caixa de guardados / sem uso, nossos corações em dúvida.[...]”
O livro todo se mantém coeso com a proposta poética do também jornalista Nilson Galvão. Essa coerência está em todo o seu pomar poético, já que o ritmo, a imaginação, o ineditismo e a singularidade do artista permeiam toda a caixa preta, até a última página.
“Ocidente”, seu segundo livro pela mesma editora, é de safra colhida neste ano. Nele, percebe-se que, se sobrava maturidade ao poeta estreante, agora somam-se outros atributos: suntuosidade, estilo, mais conhecimento e – claro! – inspiração ainda mais solar. Nilson desengaveta aqui seus sortilégios estelares, verdadeiras pepitas de jóia rara, como em “Sal e pimenta”: “[...] E penduramos a dor como no / açougue: sangrando, sangrando, até ficar / exangue e pronta para ser levada por aí, / alimento nas intempéries. [...]”
Em outro momento feliz do livro, “Guia de viagens”, o curto poema diz com perspicácia: “A fé conduziu / Dante. / O ácido, Huxley. / Vai-se, de um jeito / ou de outro, ao inferno / e ao céu.” Os versos redondos fecham-se com argúcia e – agora sem as dúvidas do iniciante – instauram um “e” na última linha, que bem poderia suscitar um desgosto crente. Bastava para isso um “ou”, mas o poeta preferiu a ousadia e destreza de suas certezas.
Ganham todos, aquele que escreve, quem o lê, aquele que reflete, e quem, como eu, ceticiza.



12.10.12

Sampalândia: por do sol

São Miguel, bairro Alto do Pedroso, terça-feira, 09 de outubro de 2012, por volta das 17h. (foto EF)

11.10.12

Resenha literária: "Valentia" (Deborah Goldemberg)



“A história contada pelos perdedores”
 Valentia, de Deborah Gondemberg, é um livro bonito e intrigante desde a capa. Esta, é de um vermelho encarnado com um desenho sutilmente trabalhado em tom cinza para não contrastar severamente com a cor dominante. O título, vazado pelos traços, metaforiza de cara que o enredo trata de sangue. Bingo!
O romance leva-nos à Cabanagem, guerra travada pelos portugueses contra a população no norte do Brasil entre 1835 e 1840, e que permanece escondida nas brumas históricas. Déborah (que também é antropóloga) nos diz, que quando estava enfurnada no meio do nada, lutando para dissipar um pouco dessa nuvem negra na história do Brasil, foi que a história lhe surgiu. Com essa trama, urdida entre a verdade histórica e os tons romanescos e fictícios, acentuou-se ainda mais a riqueza do estudo que a autora pequisa empiricamente.
Da leitura que fiz, posso dizer que o livro conta a versão pelas palavras dos “derrotados”. A história é montada em dois planos: um, no passado, através das peripécias de Samaúma, o inquieto herói do enredo, que narra as condições em que entrou na resistência aos portugueses que estavam retomando as cidades que os revolucionários tinham dominado. No outro plano, já no presente, os descendentes do lugar comentam a herança do horror da guerra e como a história foi tantas vezes recontada pelos seus ancestrais, sobrevivendo na língua do povo. Aqui, o romance incorpora elementos não fictícios e desdobra-se pendularmente com o real. Os dois lados ganham.
Sem mais delongas, vamos ao enredo: Luís Samaúma, ex-seminarista, filho de pai índio e mãe francesa, cresce com o amigo Deusdete em um internato em São Luís, no Maranhão. Por motivos diversos, ambos entram para a resistência aos legalistas, as tropas federais que, depois do assalto à Belém, lentamente penetram no interior a serviço do governo, recuperando os territórios, dizimando sem piedade as populações ribeirinhas, sejam crianças, mulheres, velhos ou jovens. Como em toda a guerra, porém, a questão mais importante não é a simples retomada da terra da mão dos incautos incendiários que ousaram sonhar com a liberdade. Às tropas do governo, interessa, sim, usurpar, violentar, fazer sangria de toda a força revolucionária, apagando qualquer chama libertária daquele povo que ousou combater os desmandos do governo. Aos soldados, importa a morte exemplar, a não indulgência, a potência da “voz oficial” que rompe qualquer laço de afetividade, memória ou história. O que deve prevalecer é a ordem institucional. A quem ousou questionar essa ordem, morte! A quem vive próximo, a mesma sorte.
É nessa luta desigual que Samaúma torna-se guerreiro-guerrilheiro, vira homem, torna-se bicho. Faz amizades, inquire, sonha, saudadeia, ri, chora, lastima, comemora. Vai amealhando amigos, personagens que ensinam a ele a arte de crescer e viver, com suas transitoriedades e controvérsias. O homem descobre que a luta renhida não é só contra o inimigo, mas às vezes contra seu próximo e até contra si mesmo, seus instintos.
A alternância temporal – recurso que a autora usa com muita propriedade – ajuda a quebrar, no leitor, a navegação in loco, que pareceria uma viagem labiríntica. A partir do momento que somos remetidos aos depoimentos do presente, temos então uma “historicidade narrativa” que nos lembra que a luta de Samaúma é no campo de ficção, é re-criação, é artesania artística, os relatos dos herdeiros da Cabanagem é que são realidade. Todavia, logo no capítulo seguinte somos levados de volta à Amazônia do século 19 e adentrados no terror da guerra novamente. Essa disposição textual, então, cumpre seu papel, fazendo com que essa duplicidade na leitura engendre um certo ineditismo narrativo, ao mesmo tempo que soma vertentes que escolas caducas definiriam como antagônicas: o depoimento real justapondo-se à ficção.
Hoje sabemos que não é assim. Que ambos – História e ficção romanesca – bebem no mesmo cântaro e processam-se pelo engenho da arte.

Goldemberg, Deborah Kietzmann. Valentia. SP: Grua. 1ª ed. 2012.