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18.12.18

8 frases de Belchior para mudar seu modo de ver a vida

(Do canal Epifania Experiência)

Belchior é uma das figuras mais incríveis e misteriosas da música brasileira. Suas músicas não foram feitas somente para serem escutadas e admiradas, mas para serem vividas e foi assim que ele mesmo fez, abandonando os palcos para viver essa vida, desaparecendo completamente num mundo onde é praticamente impossível desaparecer.
Depois de ter lutado muito para consolidar o seu lugar entre os maiores músicos brasileiros:
“A música popular brasileira precisa perder o medo dos ídolos. Não estamos interessados em idolatrias, em mitologias. Todos os mitos são iguais aos sabonetes.”
Mas talvez o mais surpreendente é que mesmo ausente Belchior manteve uma legião de fãs fiéis que se dividiram entre os que nunca perderam a esperança de que ele voltaria e os que acreditavam que ele tinha encontrado o seu caminho e respeitava essa sua decisão.
Toda a sua arte era a mais pura expressão da sua alma, da sua essência, então nesse episódio de oito frases incríveis, temos algo que vai além de simples frases inspiradoras, temos uma verdadeira filosofia estruturada. Além do impacto singular de cada frase, vamos ver como elas conversam entre si de forma harmoniosa, formando uma corrente de pensamento interligada e coesa.

1- “tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro; ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.”

Quem nunca teve um ano ruim, um ano que parece que tudo deu errado? pois
então, é isso que Belchior compara com ‘morrer’. Ele, inclusive, diz ter sangrado
demais, com referência a tudo que sofreu no ano que passou, fazendo que a
metáfora para a morte seja ainda mais expressiva. Mas apesar das aparências
essa música é bem otimista, o próprio título é Sujeito de Sorte. Toda a dor que
passou não vai se repetir. Se no ano passado ele sente que morreu, esse ano
não, esse é o ano de viver

Ele ainda completa esse pensamento de uma forma que é tão óbvia quanto
genial: “Não posso sofrer no ano passado” – é literalmente impossível sofrer no
passado. Quando sofremos pelo que passou, estamos sofrendo no presente
por coisas que já aconteceram, que não estão mais aqui, o que restou foi o
sentimento, a lembrança de ter sangrado, mas já é hora de deixar isso para trás,
no ano passado e viver o agora, o ano presente.

2 – “O passado é uma roupa que não nos serve mais”. 

Quando eu disse que as frases de Belchior conversam entre si não foi por acaso.
Aqui ele explora o outro lado do passado, a nostalgia. Por mais maravilhoso que
tenha sido o passado, ele não se repete nunca mais. As coisas mudam o tempo
todo e não temos outra escolha senão aceitar.

Nessa música belchior diz: “O que era jovem e novo, hoje é antigo, precisamos
todos rejuvenescer.” – isto também é visto como uma crítica ao comodismo do
estado em que a música se encontrava na época, que recusava qualquer forma
nova de expressão e tentava manter os mesmos artistas de maneira intocável,
sem aceitar as mudanças e as renovações inevitáveis que surgiam.

Por outro lado também é uma bela releitura da filosofia de Heráclito, de
aproximadamente 535 anos antes de Cristo, que dizia que nada é permanente,
exceto a mudança e que ninguém se banha no mesmo rio duas vezes,
remetendo à ideia de que tanto a água quanto a pessoa já terão mudado na
segunda vez em que entrar em contato.

Da mesma forma Belchior diz que a velha roupa colorida, que antes nos servia,
não nos serve mais, e devemos portanto aceitar a mudança.

3 – “tenho pressa de viver, mas quando você me amar, me abrace e me beije 
bem devagar, que é para eu ter tempo de me apaixonar.”

Essa é, na minha opinião, uma das frases que melhor resume o coração jovem,
aquela necessidade de viver intensamente, experimentar o mundo por completo e
fazer tudo o mais rápido possível, como se não houvesse amanhã, até que em
meio a toda essa tempestade surge a breve calmaria do momento a dois,
quando o casal se conhece, se encontra, se encosta e cada segundo é sagrado.
Quando esquecermos do passado e paramos de correr atrás do futuro para
vivermos somente o presente. Quando dois corpos viram um é como se o mundo
de repente deixasse de correr em velocidade dobrada e tudo ficasse em câmera
lenta, dando tempo para a paixão nascer aos poucos, florescendo em meio ao
caos.

4 – “Viver é melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa, mas 
também sei que qualquer canto é menor que a vida de qualquer pessoa.”

A vida é melhor que o sonhos, a vida é maior do que a música. Belchior nos
mostra aqui que não importa o quão magnífico e espetacular seja o seu sonho, a
vida sempre vai ser mais incrível. Não importa o quão perfeitas sejam a melodia,
a letra e a composição, a música nunca vai ser mais importante do que a vida
em si.

Se Nietzsche dizia que “sem a música a vida seria um erro”, Belchior parece
acrescentar que sem a vida, a música não seria nada. É interessante como esse
tema é recorrente na obra de Belchior. Ele, que parece totalmente devoto a arte,
a música, a poesia sempre faz questão de deixar claro que o seu amor
verdadeiro é a vida e ela sempre virá em primeiro lugar. Prestem bem atenção
no que ele queria dizer, por mais difícil que seja concordar com Belchior e botar a
arte em segundo plano, é simplesmente impossível discordar. A vida é o
combustível e a razão da arte, o começo e o fim, a causa e a consequência.

5 – “Não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja”

Sabe aquela sensação de sempre estarmos correndo atrás de algo para
preencher os vazios das nossas vidas? queremos sucesso, felicidade, dinheiro,
etc. Racionalmente nós sabemos o que queremos, mas quando alcançamos
esses objetivos, não nos sentimos completos, queremos sempre mais.

Parece que Belchior entende que não adianta seguir o que a cabeça pensa, o
caminho é mais profundo. A vida é para ser vivida e não planejada. No dia a dia,
no momento presente, o que realmente importa é o que a alma deseja.

Vale refletir: será que estamos correndo atrás dos objetivos certos, será que
sabemos o que realmente precisamos, o só sabemos o que queremos
momentaneamente?

6 – “Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém sem 
querer ferir ninguém.”

Mais uma vez Belchior mostra que a sua música vai refletir diretamente no mundo
real, que quando ele se expressa através da sua arte, existem grandes chances
de alguém sair ferido.

Como disse Jordan Peterson na famosa entrevista do Channel 4: “Para poder
pensar, você tem que arriscar a ser ofensivo”. Essa é a premissa da liberdade
de expressão, em busca da verdade você pode machucar pessoas que
discordam de você, da mesma forma em que elas podem te machucar em busca
do mesmo. Se tentarmos limitar isso, teremos como consequência o
totalitarismo, uma realidade, infelizmente, não muito distante do que vivemos
hoje, onde qualquer discurso contrário ou politicamente correto é considerado
ofensivo e fica cada vez mais perto de ser censurado por completo.

Em outra música, A Palo Seco, Belchior é mais enfático ainda: “Eu quero ´[e que
esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”. Aqui cabe a famosa frase de
Evelyn Beatrice Hall sobre a filosofia de Voltaire: “Eu discordo do que você diz, 
mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”.

7 – “Mamãe quando eu crescer eu quero ser um grande milionário socialista. De carrão eu chego mais rápido à revolução”.

Belchior realmente não tava preocupado em agradar e, talvez, paradoxalmente
seja por isso que ele foi um dos únicos músicos que podemos dizer que caíram
nas graças tanto da esquerda, quanto da direita e não se comprometia com
nenhum dos lados e tinha liberdade para criticar ambos. No caso dessa música,
especificamente a hipocrisia da famosa esquerda caviar.

Nessa frase ele ironiza a contradição de quem prega uma realidade e vive outra,
da mesma forma que ele confronta Caetano em algumas músicas como em
Fotografia 3/4 com a frase: “Veloso, o sol não é tão bonito para quem vem do 
norte e vai viver nas rua”, com referência ao otimismo da música Alegria Alegria.

Belchior não fugia de polêmicas e nem tentava se encaixar nos padrões
impostos pelo pessoal que monopolizava a MPB. Como vimos antes, ele queria
ser a inovação, abre aspas: “Eu acho que até agora a gente tem feito uma arte
de evasão, eu quero é que o meu trabalho seja um trabalho de confrontação com
o real”.

8 – “Amar e mudar as coisas me interessa mais”

Mesmo analisando somente essas oito frases, não é difícil notar que nas
músicas de Belchior a vida é a temática central, mais especificamente, viver a
vida intensamente.

Nessa música ele diz que não ta interessado em teorias, fantasias , tinta pro
rosto, romances astrais, todas essas coisas que permeiam o mundo dos
intelectuais acadêmicos e revolucionários de sofá. Ele descarta a parte teórica
e enfatiza a prática.

Mesmo Belchior, que era um ávido leitor, com extenso conhecimento poético e
literário, entendia explicar a vida e teorizar sobre a existência não é tão
importante quanto viver em si, quanto existir. O que interessa mesmo é amar e
mudar as coisas, agir, sentir, compartilhar essa jornada na Terra com outros
seres humanos. Não é se refugiando em um quarto, se isolando em uma
montanha que vamos experimentar a vida, que vamos mudar as coisas, que
vamos amar os outros.

Nessa mesma música ele usa uma frase que fecha esse pensamento de forma
perfeita: ” A minha alucinação é suportar o dia a dia e o meu delírio é a
experiência com coisas reais.

E é isso aí, ouvir, ler e experimentar Belchior é ter uma verdadeira aula, é
engrandecer a alma. Não era só inteligência e cultura, não era só um poeta nem
só um músico. Era alguém que tinha uma relação fiel com a vida, seja nos bons
ou nos maus momentos, mas sempre realisticamente apaixonado por viver e
sempre pronto para se reerguer. Então, finalizando com uma frase da sua música
Hora do Almoço:
“Eu ainda sou bem moço para tanta tristeza, deixemos de coisa, cuidemos da
vida, senão chega a Morte ou coisa parecida e nos arrasta moço sem ter visto a
vida”.

* Esse texto é uma transcrição do vídeo 8 Frases de BELCHIOR pra MUDAR A SUA VIDA do canal Epifania Experiência, transcrito na íntegra de https://www.pensarcontemporaneo.com/8-frases-de-belchior-para-mudar-seu-modo-de-ver-a-vida/?fbclid=IwAR0TWDPftR5D9QXA5jp6o6ndQKifXYjrb3-bvEDSJNofLRkt5zwPzwvp4-g

1.12.18

Exibição de filme + roda de conversa


Hoje foi dia de exibição do meu filme "São Miguel - Destino: Movimento Popular de Arte", no Sesc Itaquera, seguido de roda de conversa sobre o MPA. Os convidados  para esta mesa que tive o prazer de mediar foram a poeta e pesquisadora Eliana Mara e o jornalista Gilberto Nascimento.
Apesar do público pequeno, foi um momento de intensa troca de saberes.
Numa São Paulo em plena ebulição política, social e cultural em 1978, o movimento é fruto desse tempo e de protagonistas que ousaram fazer o que tinha que ser feito. Considerado por diversas linhas de pesquisa como o primeiro movimento cultural organizado na cidade de São Paulo, muitos artistas e pensadores que se dispuseram a contar suas própria história através do grupo até hoje permanecem na ativa, ajudando a escrever essa história de quem não espera que outras pessoas façam por si.
Não por acaso, nesse momento estão sendo celebrados seus 40 anos de permanência. Para quem quiser saber mais, segue o link das atividades: https://www.facebook.com/mpa.40anos/





30.11.18

Meu filme na programação do Sesc Itaquera

Amanhã, 1º de dezembro, o documentário "São Miguel - Destino: Movimento Popular de Arte", será exibido às 13h no Sesc Itaquera. O filme de 54 minutos, que dirigi e produzi em parceria com o coletivo Lentes Periféricas e a produtora DMK+G, fala da trajetória do Movimento Popular de Arte  (MPA), que neste ano está celebrando 40 anos de agitação cultural e artística na região de São Miguel, zona leste da cidade de Sampalândia.
Logo após a exibição do filme, haverá uma roda de conversa com a participação de Eliana Mara, poeta e pesquisadora e fundadora do MPA e Gilberto Nascimento, jornalista também egresso do MPA e que foi o primeiro a estudar o fenômeno de forma mais sistemática.

https://www.sescsp.org.br/programacao/174615_SAO+MIGUEL+DESTINO+MOVIMENTO+POPULAR+DE+ARTE
"O documentário, com base em 27 depoimentos inéditos, fotos e vídeos, retrata aquele que é considerado por muitos como o primeiro movimento cultural organizado na cidade de São Paulo, surgido em dezembro de 1978: o Movimento Popular de Arte. Com 54 minutos de duração, o filme contribuiu para o entendimento do contexto histórico de um Brasil que tateava em busca de redemocratização em seus aspectos políticos, sociais, econômicos, culturais e artísticos.

Em quase 50 horas de gravação, o filme recupera o contexto local, a importância da Capela Histórica (1622), na Praça do Forró, a contextualização do fazer arte independente num circuito periférico, o sistema de autogestão para projetos como a Casa do MPA e o Circo MPA (de 1985, que recebeu artistas como Tom Zé, Inezita Barroso, Belchior, Walter Franco, Zé Geraldo e Tetê Espíndola, entre outros), além do legado que deixou para as gerações seguintes.
Local: Espaço de Tecnologias e Artes 
O MPA nasceu dentro do período em que a ditadura militar ainda imperava no Brasil, e mesmo assim propôs um inédito ativismo cultural em todas as linguagens artísticas, dando voz e vez para que artistas locais pudessem apresentar-se como criadores de seu próprio saber, em seu espaço e tempo. Ao mesmo tempo, o grupo trabalhou intensamente na formação de público para estes artistas e pensadores locais. Para tanto, foram criados diversos mecanismos de interlocução com outros movimentos sociais organizados, como os movimentos de luta por moradia e saúde, além de sindicatos, escolas, universidades, grupos de teatros e outros movimentos culturais organizados e setores progressistas da igreja católica.

Escobar Franelas é cineasta, escritor e educador. Formado em História, tem 4 livros lançados. Há trinta anos trabalha com produção audiovisual, tendo roteirizado, produzido e dirigido filmes em diversos formatos e gêneros. É um dos gestores da Casa Amarela - Espaço Cultural, em São Miguel Paulista. Faz parte do coletivo de audiovisual Lentes Periféricas e é um dos organizadores da mostra de cinema Curta Suzano."

https://www.sescsp.org.br/programacao/174617_BATEPAPO+SAO+MIGUEL+DESTINO+MOVIMENTO+POPULAR+DE+ARTE
"Roda de conversa que celebra os 40 anos de existência do movimento que surgiu em São Paulo em 1978, sendo considerado por muitos estudiosos como o primeiro movimento cultural organizado na cidade, o Movimento Popular de Arte (MPA). O bate-papo é mediado pelo realizador do filme, o cineasta Escobar Franelas, e tem como convidados/as a educadora e poeta Elina Mara Chiossi e o jornalista Gilberto Nascimento.
Local: Espaço de Tecnologias e Artes 
O MPA nasceu dentro do período em que a ditadura militar ainda imperava no Brasil, e mesmo assim propôs um inédito ativismo cultural em todas as linguagens artísticas, dando voz e vez para que artistas locais pudessem apresentar-se como criadores de seu próprio saber, em seu espaço e tempo. Paralelamente, o grupo trabalhou intensamente na formação de público para estes artistas e pensadores locais. Para tanto, foram criados diversos mecanismos de interlocução com outros movimentos sociais organizados, como os movimentos de luta por moradia e saúde, além de sindicatos, escolas, universidades, grupos de teatros e outros movimentos culturais organizados e setores progressistas da igreja católica.
Escobar Franelas é cineasta, escritor e educador. Formado em História, tem quatro livros lançados. Há trinta anos trabalha com produção audiovisual, tendo roteirizado, produzido e dirigido filmes em diversos formatos e gêneros. É um dos gestores da Casa Amarela - Espaço Cultural, em São Miguel Paulista. Faz parte do coletivo de audiovisual Lentes Periféricas e é um dos organizadores da mostra de cinema Curta Suzano.
Eliana Mara é escritora, compositora, roteirista, crítica literária e professora. Doutora em Letras, com ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Autora de Fábulas Delicadas (2009), também atua com mentoria e assessoria na área de Comunicação e Expressão. É colunista do jornal A Voz da Favela. Integrou o Movimento Popular de Arte desde o início. Atualmente mora no Rio de Janeiro.
Gilberto Nascimento é jornalista especializado em Direitos Humanos pela Universidade Columbia. Trabalhou nos principais veículos de comunicação do País: Folha de S. Paulo, Estadão, O Globo, Jornal do Brasil, Istoé, Carta Capital, TV Record e Correio Braziliense. Foi oficial de comunicação do Unicef e fez parte do Movimento Popular de Arte (MPA) na década de 1980."

27.11.18

Resenha - livro: "Kanova e o segredo da caveira" (Pedro Pereira Lopes)

Baseado em um antigo conto africano cujo enredo é uma ode à prudência, Kanova  e o Segredo da Caveira, de Pedro Pereira Lopes, refaz o percurso narrativo da lenda tradicional. Porém, a maior virtude do texto de Lopes vem da ousadia deste autor moçambicano em transformar o conto mitológico "O rapaz e a caveira" em uma fábula contextualizada aos dias atuais.
Por ser uma história dedicada ao público infanto-juvenil, a audácia do autor pela renovação do enredo estabelece uma ruptura. O tópos da narração deixa de lado "a lição de moral" trágica (o herói da narrativa morria ao fim da história original). Na transcriação de Lopes, a saga desse (anti?) herói é consagrada com a vitória (a preservação da vida), após o longo martírio.
O enredo, já tantas vezes repetido, fala de um rapaz que sai à procura de materiais diferentes  para fazer uma nova coroa para seu mambo (rei), que é muito vaidoso. Em sua peregrinação, ele se depara uma caveira falante, conversam bastante e ela o ajuda a conseguir os itens ideais para ornamentar o rei. Na volta, ele é recebido com pompas por ter encontrado as peças que agradaram ao seu soberano, mas acaba comentando de forma imprudente sobre o encontro com a caveira, traindo o pacto feito com ela. A partir daí, todos duvidam de sua história, que lhes parece fantasiosa demais. Ele chega a ser ameçado de morte, quando então a caveira o socorre novamente e todos passam a acreditar nele, fazendo com que sua vida mude de forma incontestável.
Ilustrada com a vibrante paleta de cores de Walter Zand, a narrativa do autor arrisca com audácia ao burilar a tradição estabelecida, para daí  extrair formas inéditas de diálogo com o presente. Como elemento dinâmico que é, a linguagem - e, por conseguinte, as histórias - são constantemente reelaboradas para dar voz e vez aos novos paradigmas que surgem. Por isso mesmo são adaptadas pelo engenho humano a cada vez que são recontadas.
Pedro Pereira Lopes, apesar de jovem, é um veterano das letras moçambicanas, com livros lançados quase anualmente desde 2012. É tambem professor, pesquisador, contador de histórias e poeta, criador da revista de literatura “Lidilisha” e do “Projecto Ler para Ser”. Ganhou os prêmios Lusofonia (Trofa, 2010), Maria Odete de Jesus (Maputo, 2016) e o Eugénio Lisboa (Maputo, 2017). além de diversas menções honrosas.

Serviço:
Título: Kanova e o segredo da caveira (infantoio-juvenil)
Autor: Pedro Pereira Lopes
ilustrações: Walter Zand
páginas: 32
Série "Contos de Moçambique" - vol. 5
Editora: EPM/CELP (Moçambique) / Kapulana (Brasil), 2017






25.11.18

Um textículo: "multi"



o brasil
nega
o brasil
nega ao brasil
o direitos aos brasis

regra:
o brasil
negro brasil
nega ao brasil
o direito de ser
negro

negar é fácil
difícil é ser-brasil

23.11.18

João Timane em Sampalândia

João Timane e eu em Monteiro Lobato. Foto de Beth

Um dos grandes nomes das artes moçambicana deste século, o jovem João Timane esteve em São Paulo para diversas atividades, como encontros, apresentações e exposições.  
Convidado pela Beth (editora do portal Entrementes, de São José dos Campos, e do qual sou colunista) para eventos no Vale do Paraíba, me comprometi com ambos de que o buscaria em Diadema (Grande São Paulo), na casa do artista angolano Paul Afonso Chavonga, onde Timane estava hospedado, para levá-lo a São José.  
Momento especial de minha vida: encontrar um artista que admiro à distância, poder abraçá-lo e trocar muitas ideias, informações e impressões, é um momento que esculpi no mármore da memória e envernizei com a afetividade deste dia auspicioso. Rodar com ele pela Ayrton Senna (antiga Trabalhadores) e a Dutra, ouvindo-o dissertar sobre sua vida em Moçambique, influências, amizades, gostos, exposições, vida política de lá e de cá e outros assuntos afins, foi de grande valia, um momento eternizado como suas melhores obras.
Para completar com "a cereja do bolo" deste encontro, chegamos a SJC, com a Beth - solícita e desprendida, como sempre - nos convidou para almoçarmos em Monteiro Lobato, cidade de ótimas lembranças, pelas diversas oportunidades que pude passear em suas ruas bucólicas na companhia do saudoso poeta e jornalista Dailor Varela. Lá, passeamos pela praça central, degustamos algumas iguarias locais e encontramos gente bonita de sorrisos acolhedores e palavras hospitaleiras. Mais momentos deliciantes para guardar na gaveta embelezada pelas cores das boas lembranças.  
Pelo meio da tarde, deixei-os, pois tinha compromisso em Sampalândia naquela mesma noite de 30 de outubro, uma das poucas mas memoráveis desse ano esquisito que estamos vivendo. Obrigado, Timane, por trazer cor, flor e calor a nós, nesse inverno social que estamos passando.

Mais sobre o artista visual João Timane: https://www.facebook.com/joao.timane
Sobre o Entrementes: https://entrementes.com.br/category/colunistas/escobar-franelas/

João Timane e Beth, em Monteiro Lobato. Foto EF


Um texticulozinho: "dádiva - II"


nem tudo que se escreve é literatura
mas tudo o que se vê, sente, ouve
é leitura
do mundo
das coisas
das pessoas
da vida