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20.9.17

Um textículo: "a vida em contraste"


todo domingo precisa de manhas para acordar
cócegas de um sol tímido
café fumegando
pedaços de pizza de ontem

isso parece chato

manhãs de domingo têm sabor de mousse de chuchu
café expresso pelando
(ou leite morno desnatado)
com adoçante

verdade inconteste, pública e final
tudo tudo tudo
pode ser piorado

3.9.17

Um textículo: "justa mente"


jura? e é assim... tão longe?
nossa! mas me diga, onde?
por freud, no lounge?

da série haicaos - fraturas poéticas e outros acidentes

31.8.17

Um textículo: "hermetiando"


abra o papel de embrulho
antes, porém, 
acenda o fogo
separe os ingredientes
junte os ingredientes
pegue uma letra p
aqueça o o
unte e
coloque (pouco) sal no s
flambe i
frite a

deixe no fogo
queime-se
apague o fogo
deixe esfriar

experimente

feche o papel de embrulho
jogue no lixo
tudo que deu errado

desligue o computador

reinicie

28.8.17

Um textículo: "os eleitos"


teu problema, índio, foi esse, ter nascido índio.
o teu, negro, é ser preto.
o teu defeito, mulher, é não ter falo nem voz.
e o teu, humana gente, não se reconhecer 
na anatomia que a natureza te vestiu.

o teu problema, pobre, é trabalhar sonhando enriquecer
e o teu, ateu, e só acreditar em si

quando cada um se colocar no seu quadrado
e todos estiverem no círculo (vicioso? que seja!)
então todos estarão felizes
cada qual no seu lugar 

senhor, me salva dos brutos
senhor, salva eu das bruxas
da inquisição
do senhor!

27.8.17

Um textículo: "não à poesia, onã!"


tire suas mãos daí (da poesia)
da caneta, do teclado, da estupenda alegria

toque o sino pequenino sino de blém blém
já se deu o desatino
para tudo e vem!

25.8.17

A fonte do desejo da sabedoria

Desconheço a autoria

Um textículo: "a gaveta aberta"


algumas cenas da infância, quase adolescência:
eu, sentado no barranco, vendo os moleques
que jogavam futebol melhor que eu
a inveja me corroendo como ácido 
por não ser o delei, o baianinho ou o paulinho

ouvindo distraído, george benson, gal costa 
e gilberto gil. que meu irmão ouvia
e também led, belchior e sá e guarabira
que meu outro irmão ouvia
e mais beth carvalho, tim maia, bebeto
e kc and sunshine band
que um terceiro irmão ouvia

ouvindo os programas do zé bétio e gil gomes
que minha mãe curtia no rádio

eu deitado em cima da laje de casa ouvindo
o alto-falante do parquinho ou do circo 
que tocavam sem parar raul seixas, antônio marcos
agepê e roberto carlos

eu deitado em cima de casa pensando na dulcinéia
ou contando vantagem na rodinha de amigos
no portão de casa ou da escola

emocionado depois de defender um pênalti 
na final do campeonato de futsal

a vertigem de ver meu irmão com o joelho aberto
depois de uma queda
a primeira vez que dancei com uma garota
o primeiro beijo
a primeira transa

naqueles tempos, um comercial de tv dizia que 
o primeiro sutiã a gente nunca esquece
até hoje me lembro do conjunto dela,
calcinha preta e amarela, combinando

lembro que não fui à festa de formatura do ensino básico
e ainda agora lembro que fiquei a noite inteira acordado
odiando meus pais porque eram pobres
e não tinham grana para pagar um terno barato 
e o convite pra festa

a primeira vez que vi uma pessoa morta, a dona vilma
descansando num caixão; eu tinha seis anos
e aquele homem moreno, caído numa poça
na esquina da rua da escola, um tiro certeiro
furo seco no peito (a chuva fina que caía
desmanchando o jornal que o cobria)
justamente quando voltava da excursão ao playcenter
e eu só tinha 9, tavez 10 anos

e o meu tio e meus primos, de quem não lembro os rostos
e morreram num acidente 
quando iam passear na caverna do diabo?

e teve aquela professora do segundo ano, 
a primeira pessoa, depois da minha mãe 
e da minha avó, a me chamar de lindinho 
até hoje choro quando lembro que chorei naquele dia

ef, sampalândia, ago/2017

23.8.17

Um textículo: "pois é a"


quando poetas debruçam sobre a palavra
acredito
estão meditando 

pois é a flor
ação da cor
que nos impele a recobrir o organismo vivo

poetas vão ao ringue de lutas
esbofetear letras
à mesa de cirurgia fracionar sílabas
em laboratórios praticar mediunidades

crianças com lego

quando se debruçam sobre a palavra
creio
estão mendigando

pois não é
uma víscera exposta
a magia sem segredos
o conto sem mistérios
e crianças sem imaginação

que decretarão a sobrevida do organismo

a morte é o poema vital
não o amor