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12.9.19

Um textículo: "belchiorando - II"


e eu que fico aqui pensando nessas
coisas soltas no mundo
se o coletor fica triste se não
tem lixo pra recolher
se o guarda se chateia quando não
tem bandido para prender
se a repórter inventa notícia
pois não tem sofrimento pra relatar
se a mulher evanesce
por não ter filho para parir

e eu que fico aqui pensando nessas
pontas soltas da vida
unidas sabe-se lá por quantos nós
que juntam
depois desatam
tanta tristeza embrutecida
e a leve alegria de outras pequenas
coisas acontecidas

11.9.19

Um textículo: "flerte - II"


o mar olha a nuvem
incenso auspicioso feito das águas
de suas entranhas
agora transformadas em sonhos

o céu contempla
o tapete sobre o cristal das águas
onde os pés da chuva irão pisar
quando descerem 

quando o olhar de um arrisca-se no outro
um riso rasga a boca do horizonte
e o grito abafado de tantos tuntuns
anuncia a graça que orvalha

9.9.19

Textículo nº 2 da série "micrônicas brasileiras"


- Vamos brincar de polícia e traficante?
- Vamos! Eu sou traficante poderosão. E tenho uma Hornet.
- Eu também sou traficante bem mala e tenho uma Ranger.
- E eu também quero ser traficante pra ter...
- Não! Você não pode, pois é café-com-leite. Vai ter que ser polícia.

7.9.19

Um textículo: "transe"


sempre para felizes foram
e assim disse que
histórias de contador velho 
um vez
uma era

"esse manto azul, roupa de deus
esse zeus colossal
de rosto flamejante
cara de sol maior que o sol
e cabelos brancos 
e de lágrimas pluviais
e caridade feita de calor e brisa
dessa voz que ecoa como trovão
e dez eus trabalhando dia e noite no céu
todos embrutecidos
ensimesmados
moldando o cetro dos eleitos
forjando o cajado dos mendicantes
a foice e a força 
do martelo dos proletários"

4.9.19

Um textículo: "veneração"


calorfrio do lado de dentro
desmedido do lado de fora
pele que queima
corpo que arrasta em desassossego
e deposita um exultante eu
extasiado eu
sacrificado eu
prostrado, a alma frita,
desidratada, decomposta
diante desse deus embriagado e insone
o amor