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20.9.17

Um textículo: "a vida em contraste"


todo domingo precisa de manhas para acordar
cócegas de um sol tímido
café fumegando
pedaços de pizza de ontem

isso parece chato

manhãs de domingo têm sabor de mousse de chuchu
café expresso pelando
(ou leite morno desnatado)
com adoçante

verdade inconteste, pública e final
tudo tudo tudo
pode ser piorado

3.9.17

Um textículo: "justa mente"


jura? e é assim... tão longe?
nossa! mas me diga, onde?
por freud, no lounge?

da série haicaos - fraturas poéticas e outros acidentes

31.8.17

Um textículo: "hermetiando"


abra o papel de embrulho
antes, porém, 
acenda o fogo
separe os ingredientes
junte os ingredientes
pegue uma letra p
aqueça o o
unte e
coloque (pouco) sal no s
flambe i
frite a

deixe no fogo
queime-se
apague o fogo
deixe esfriar

experimente

feche o papel de embrulho
jogue no lixo
tudo que deu errado

desligue o computador

reinicie

28.8.17

Um textículo: "os eleitos"


teu problema, índio, foi esse, ter nascido índio.
o teu, negro, é ser preto.
o teu defeito, mulher, é não ter falo nem voz.
e o teu, humana gente, não se reconhecer 
na anatomia que a natureza te vestiu.

o teu problema, pobre, é trabalhar sonhando enriquecer
e o teu, ateu, e só acreditar em si

quando cada um se colocar no seu quadrado
e todos estiverem no círculo (vicioso? que seja!)
então todos estarão felizes
cada qual no seu lugar 

senhor, me salva dos brutos
senhor, salva eu das bruxas
da inquisição
do senhor!

27.8.17

Um textículo: "não à poesia, onã!"


tire suas mãos daí (da poesia)
da caneta, do teclado, da estupenda alegria

toque o sino pequenino sino de blém blém
já se deu o desatino
para tudo e vem!

25.8.17

A fonte do desejo da sabedoria

Desconheço a autoria

Um textículo: "a gaveta aberta"


algumas cenas da infância, quase adolescência:
eu, sentado no barranco, vendo os moleques
que jogavam futebol melhor que eu
a inveja me corroendo como ácido 
por não ser o delei, o baianinho ou o paulinho

ouvindo distraído, george benson, gal costa 
e gilberto gil. que meu irmão ouvia
e também led, belchior e sá e guarabira
que meu outro irmão ouvia
e mais beth carvalho, tim maia, bebeto
e kc and sunshine band
que um terceiro irmão ouvia

ouvindo os programas do zé bétio e gil gomes
que minha mãe curtia no rádio

eu deitado em cima da laje de casa ouvindo
o alto-falante do parquinho ou do circo 
que tocavam sem parar raul seixas, antônio marcos
agepê e roberto carlos

eu deitado em cima de casa pensando na dulcinéia
ou contando vantagem na rodinha de amigos
no portão de casa ou da escola

emocionado depois de defender um pênalti 
na final do campeonato de futsal

a vertigem de ver meu irmão com o joelho aberto
depois de uma queda
a primeira vez que dancei com uma garota
o primeiro beijo
a primeira transa

naqueles tempos, um comercial de tv dizia que 
o primeiro sutiã a gente nunca esquece
até hoje me lembro do conjunto dela,
calcinha preta e amarela, combinando

lembro que não fui à festa de formatura do ensino básico
e ainda agora lembro que fiquei a noite inteira acordado
odiando meus pais porque eram pobres
e não tinham grana para pagar um terno barato 
e o convite pra festa

a primeira vez que vi uma pessoa morta, a dona vilma
descansando num caixão; eu tinha seis anos
e aquele homem moreno, caído numa poça
na esquina da rua da escola, um tiro certeiro
furo seco no peito (a chuva fina que caía
desmanchando o jornal que o cobria)
justamente quando voltava da excursão ao playcenter
e eu só tinha 9, tavez 10 anos

e o meu tio e meus primos, de quem não lembro os rostos
e morreram num acidente 
quando iam passear na caverna do diabo?

e teve aquela professora do segundo ano, 
a primeira pessoa, depois da minha mãe 
e da minha avó, a me chamar de lindinho 
até hoje choro quando lembro que chorei naquele dia

ef, sampalândia, ago/2017

23.8.17

Um textículo: "pois é a"


quando poetas debruçam sobre a palavra
acredito
estão meditando 

pois é a flor
ação da cor
que nos impele a recobrir o organismo vivo

poetas vão ao ringue de lutas
esbofetear letras
à mesa de cirurgia fracionar sílabas
em laboratórios praticar mediunidades

crianças com lego

quando se debruçam sobre a palavra
creio
estão mendigando

pois não é
uma víscera exposta
a magia sem segredos
o conto sem mistérios
e crianças sem imaginação

que decretarão a sobrevida do organismo

a morte é o poema vital
não o amor

22.8.17

Resenha - livro "O rio de todas as nossas dores" (João Caetano do Nascimento)


Foto Urbanista Concreto


Um rio com o sangue frio das indiferenças

Em tantos modelos possíveis de literatura longa, temos hoje três que parecem capilares: as obras em que situações, pessoas e tempos estão concentradas na ambiência externa. Nelas, os elementos são dispostos de modo a sustentar ações, os verbos reverberam. Um bom exemplo é Érico Veríssimo, com sua alusão à amplidão dos pampas gaúchos. Outra literatura é a que elabora a construção interior, cujo maior nome na literatura brasileira é Clarice Lispector. Nessa situação, temos como matriz a interlocução monológica. Já mestre Machado é uma referência ao terceiro grupo, aquele que equilibra a capitulação interior e o tracejamento da paisagem com a mesma luminosidade.
O Rio de Todas as Nossas Dores, primeiro romance de João Caetano do Nascimento, é um livro raro, pois nasceu na intersecção entre a primeira e a terceira condição, com pequena propensão a deter-se mais na última, e conservando elementos diversos da segunda. Robusta, a obra desnuda as camadas sociais menos favorecidas dentro do jogo político-econômico, contextualizando aquilo que conhecemos como romance social. Nas linhas precisas do enredo há um estudo profundo dos estratos que sempre ficaram à margem, seja na literatura, arte ou mídia, num rótulo de indiferença ou exotismo. A pobreza descrita no livro não é plástica ou pontual, mas cruel, orgânica e dolorida, como são de fato todas as pobrezas reais. O romancista, que demorou um longo inverno (quase seis décadas) para florescer no mundo literário, ainda assim revela domínio total sobre a sua matéria-prima – a escrita – aliando a isso a consciência ampliada do indivíduo pensante. João Caetano anda de cabeça erguida no chão pedregoso onde pisa, dá voz a personagens que têm alma, corpo, dores e sonhos. Têm opinião.
O enredo do livro aborda nove dias na vida de um homem que se hospeda numa pensão sórdida de uma favela com um nome peculiar, Vila da Alegria. Seu motivo é simples: vingar o pai, desalojado e morto há 28 anos no mesmo local onde se encontra agora. Para isso, ele deixou para trás seu nome original, Vicente, para tornar-se Luís Silva, uma máquina movida pela vingança. A missão que o move faz com que seja um ator camaleônico, focado apenas no objeto de sua perseguição: o dr. Fulgêncio, dono da fábrica Papeleira, algoz de seu pai e da gente sofrida da vila. Vicente/Luís gravita em torno de pessoas com diversos matizes, expressões e significações. Suas relações vão desde o afetado Rosendo, que o indica para trabalhar na Papeleleira até o irascível ex-militar Randolfo que desconfia estar sendo seguido e ameaçado (o que revelará a exatidão dos penamentos dos loucos e desvairados). Tem também a calada e sensível Celestina, empregada da pensão; e Tiziu, o garoto que está pós-graduando nas ruas, sem pai nem mãe; indo até Alice, mulher que deixou a vida Secretária do proprietário da fábrica e aproximou-se de sindicalistas e do povo do lugar, indo inclusive morar na vila. Tornou-se, assim, inimiga de Fulgêncio. A própria fábrica de papel vira personagem, com o papel que lhe é dado pela história e as circunstâncias, tornando-a protagonista, com seus excrementos poluidores, sejam os lançados no ar ou no rio.
Diante dos imediatismos propostos pela hiperconectividade e a conseqüente superficialidade imposta pelas redes sociais, síntese de que a literatura está constantemente ameaçada pela pós-modernidade, é possível perceber que a sociedade está perdendo a capacidade de imaginar, de sonhar, de interpretar jogos mais complexos. Neste embate, é muito saudável ver que O Rio de Todas as Nossas Dores é um alento. Feito nas condições mais libertárias possíveis – o autor autopublicou a obra – assim como teve o apoio de pessoas próximas para os trabalhos de revisão, diagramação e montagem, traz no próprio título um diagnóstico lírico daquilo que de fato oferece. A sujeira que suas águas transportam, bordeando a Vila da Alegria, numa constância férrea, adquire um simbolismo pungente, quando pensamos que a vingança é um fel que o vingador carrega em seu caminho sinuoso, até expiar o sangue inimigo nas águas plácidas de um rio improvável e incompreensível, maior que todas as nossas dores.


Serviço
Título: O Rio de Todas as Nossas Dores
Autoria: João Caetano do Nascimento
Páginas: 228
1ª edição (do autor): 2017

Foto Luka Magalhães
Foto do arquivo de JCN (Facebook)

Foto Maria Cecília Quintal



15.8.17

Um textículo: "regeneração"


quero alegria
dispenso a dos comediantes pagos
quero música - muita música - 
mas não aquela do toca-discos
sim para os sons de chuva, de nós
de um presente sendo desatado
quero paz
ainda que  descarte o fetichismo
de bandeiras ou pombas brancas

quero alegria
mas nada de comediantes tristes e deprimentes
e música, concerto de gemidos
suspiros apaixonados, sussurros
em noites de amor insone
quero paz - muita paz! -
a paz que declara guerra ao marasmo
à rotina, aos bons costumes  

só a carne me interessa
a carne, com seu humor e textura
cheiro e sabor 
suas sentenças bélicas
sangue represado nas veias
espírito rutilante 
alma evanescente como éter

11.8.17

Um textículo: "sobrentendidos"


Agridoce, mais que adjetivo, é metáfora do amor. Nada, ninguém explica  o que é, mas todos reconhecem o seu gozo.

10.8.17

Um textículo: "vento"


vento
tempo de bagunçar tudo
de levantar cabelos
subir vestido
de ajudar a apertar o abraço
elevar as asas 
até você

vento
tempo em distorção
apressado atrasando
todo esse querer

tempo é brisa
vento que nunca para

9.8.17

Um textículo: "espelho"


Oi,

as metáfora sempre explicam mais, pois sempre vêm desvestidas da casca dura dos significados reais. 
Fique com um forte abraçaço, 
Eu

8.8.17

Um textículo: "solilóquios"


1
a vida desde sempre
é mais que calendário na parede
é muito mais que festa de aniversário
casamento, viagens, trabalho
família, velório, amigos
a vida também é impedimento
cassação de mandato
peça de único ato

2
pessoas passam. e carros
estradas nuvens pedras
tudo passa
o amor, lembranças, a vida toda
dentro de mim, porém
uma eternidade permanece imóvel
enquanto passo

3
todo dia a gente acorda
do sonho
e tudo é passado
e tudo é futuro
enquanto o sono
não chega

7.8.17

Um textículo: "além do ´eu te amo´"


sonho, principalmente acordado
uma cor intensa de várias cores
sonho, principalmente acordado
um calor gélido que evapora 
sonho, principalmente acordado
um frio escaldante que arrepia os poros
tudo acordado
parece sonho

6.8.17

Um textículo: "borboletras"

Original em https://www.pinterest.com/bcykwan/indoor-plants-that-wont-die/ 

risco no céu anil 
retângulo de milhões de pixels
uma centopeia alada
alarga a pupila de se olhar a mais
raro lume que rasga o véu
em tom sobre tom
cor sobre cor
ciano? chumbo? cobre?
derramamento de sons silenciosos
(toda tela é uma orquestra sinfônica
em extática inércia)  
linhas tecem fios no ineditismo renovável
da vida sempre renovada

rios laranjas de águas ocres
verdes ares sufocantes
sobretudo a cor pastel a
lentamente
eternamente
acinzentar

quando há falta de energia
ou de papel
ou de cópula
casula-se
até o próximo mininanomicro big-bang
e a expectativa do novo voo

5.8.17

Um textículo: "inventário"


a mãe de meu pai ensinava rezas
a mão de meu pai me ameaçava
a professora segurava a asa
não deixava sonhar
a polícia cercava
o hospital dava medos comprimidos
nos jornais as letras eram de sangue
suor e sêmem
às vezes nessa ordem. ou não

só o tubo da tv
os desenhos, animados ou não
e os livros
deixavam eu voar

a goiabeira do vizinho dava goiabas
a mãe dava galhos de goiabeira
no lombo do filho único
a rosa dava flor e perfume
rosa me deu o primeiro espinho
que dói até hoje

o mundo é uma bola
dizem
deus chutou na trave
dizem
só o sol é gol
dizem

falam por aí que falo demais
logo eu
falho
demais

28.7.17

Um textículo: "a metade além de mim"


as asas azuis
a pele pelando, amarelha
os ossos cinzas

olhos voam, por onde tu flores

em, a profunda superfície do signo

24.7.17

Um textículo: "ex"

era apenas a folha da velha agenda
rasurada
pior, chamuscada nas bordas
o que foi, o que tinha sido 
era agora pior. muito pior que o pior pesadelo
a vingança, lépida, líquida e fria
vinha lambendo as juras antigas
brevemente iria apresentar a fatura
conta vencida, juros exorbitantes
e uma dívida improvável de um passado 
que se projeta - de novo! - para o futuro

era apenas uma folha velha de agenda
mas tinha tanto sangue

20.7.17

Um textículo: "instante"


o paraíso será assim:
você irá chorar
com todos os seus olhos
com todos os seus lábios
enquanto eu
em espanto
desfolharei nossos cabelos

chuvas torrenciais
relâmpagos, raios e trovões
redemoinhos, ventos, furacões
até tudo estar quieto
e descansarmos na sétima hora

em tudo
flores ser

17.7.17

Um textículo: "das dores"


são duas as dores que antecedem a anestesia
e infinitas as que a sucedem
entre esses mares de pesares
há uma ilha, a extasia
o sono profundo da pele, o sétimo dia bíblico
uma apostasia

16.7.17

Um textículo: "prosaesia"


...e só depois da morte é que presumivelmente viveu.
"então ela/ele levantou-se depois de saciada/o, olhou o seu amor ali estendido e entendeu: tudo está consumado."
passaram-se minutos. horas. dias. anos. a eternidade toda. outra eterna idade veio. e passou.
"então ela/ele saciou-se. viu-se estendida/o ali e sentenciou: tudo está consumido."
todo amor é feito de pequenas mortes: consuma-o. por isso a intensidade de vida que há: consuma-a.

3.7.17

9.6.17

Entrevista: Rosinha Morais (Literatura) - Guarulhos, SP

Rosinha Morais clicada por Liz Rabello


Rosinha Morais, formada em Administração e Letras, é uma poeta muito singular. Com olhar rascante sobre o cotidiano e a pele sensível ao toque da poesia das coisas, seres e pessoas, ela se desdobra em vários afazeres e leituras. Participa ativamente de diversas atividades culturais e artísticas, seja atuando no Sarau da Casa Amarela (São Miguel), ou produzindo junto com o pessoal do canal Peixe Barrrigudo (Guarulhos) ou a turma 'audiovisueira' do Lentes Periféricas (Guaianases). Também pode ser encontrada organizando o Slam do Prego, na mesma Guarulhos onde reside. 
Mas falar dessas atividades é ainda assim limitar o muito que essa mulher apronta por aí, pois tem muito mais. O que não lhe falta é disposição (e inspiração) para o trabalho com as coisas que gosta. E nossa impávida certeza de que, onde quer esteja, sua performance sempre será notada, pela capacidade 'midástica' que ela tem de transformar tudo em ouro.
Nesse depoimento, concedido via e-mail, a escritora faz uma profunda leitura interior, recordando imagens da infância até projetar-se ao presente. 
Lê-la é uma dádiva. Faça isso por si.



Rosinah Morais clicada por Idevanir Aracanjo


1) Conte um pouco de sua infância e juventude:

Minha infância foi bem agitada, nasci em casa, pelas mãos de uma parteira, não por moda ou opção, mas por pura necessidade. Sou de Planaltino, uma cidade no interior da Bahia, hoje uma cidade pequena, naquela época, minúscula. Contávamos com uma enfermeira e a parteira, que era a grande mãe da região, já que todos que nasceram com a ajuda dela a chamava de mãe. Sou a sétima e última filha, de uma sequência de mulheres. Por esse motivo, sou afilhada da minha irmã mais velha, atendendo a lenda segundo a qual, o sétimo filho sequencial, do mesmo sexo, deve ser batizado por seu irmão ou irmã mais velha. Tenho ainda um irmão, o primogênito. Três dias depois do meu nascimento, fui morar com a minha irmã mais velha e nossa tia, na mesma rua que meus pais moravam. Nunca questionei o porquê. Era assim e pronto. A casa da minha tia vivia sempre cheia por se tratar da única pensão da cidade. Cresci experimentando todas as brincadeiras, sem distinção de gênero, por isso algumas vezes era chamada de “macho e fêmea” (rs). Quanto mais perigosa a brincadeira, mais interessante era. Perdi meu pai aos seis anos e não sei ou lembro exatamente o que eu senti. Minha família é grande, minhas irmãs começaram a trabalhar muito cedo, mas comigo foi diferente. Ao invés de trabalho eu recebi a escola, era a minha única obrigação e eu adorava, sempre gostei de estudar. Logo descobri os livros e o encanto se completou. 
Na adolescência, comecei a me espelhar em minhas irmãs que moravam fora e fui construindo meus gostos, principalmente o musical. Era uma festa quando elas chegavam em casa trazendo em suas malas os novos LP. Me apaixonei por Chico Buarque e sonhava casar com ele, mas também fui fã do Menudo e queria me casar com o Charlie. Tinha todos os planos, incluindo o desenho da nossa casa e do meu vestido de noiva. A escola continuava sendo o meu paraíso e nos intervalos eu participei de alguns desfiles de miss. As brincadeiras perigosas que tanto me encantavam na infância, mantiveram seu encantamento, mas eu não percebia mais o perigo. Aos dezesseis anos fugi de casa e fui morar com um namorado. Foi um período de extremos, felicidade imensurável e solidão desesperadora. Provei o medo, a tristeza, a insignificância. Ah, foi na adolescência que eu senti, profundamente, a dor da perda do meu pai. Mas eu já era adulta demais.

2) Como foi essa descoberta do mundo de sonhos ofertada pelos livros?

Descobri que o mundo era bem mais amplo do que aquele em que eu vivia ou que imaginava existir, foi extremamente gratificante. Lembro de ter lido muitos romances, acho que todas as “Júlias”, “Sabrinas”, “Biancas” e afins, que eram mais fáceis de encontrar. Mais tarde, chegou em minha cidade a professora Inês, de português. O colégio acabara de ser inaugurado, até então o ensino lá era apenas o fundamental, na época até a 4ª série. Quem quisesse continuar os estudos, fazia nas cidades vizinhas. Fui da primeira turma que fez o ginásio e o colégio na cidade. Bom, a professora Inês chegou na cidade e trouxe a sua biblioteca particular, que apesar de não ser grande, trazia grandes novidades e, sabedora do meu gosto pela leitura, me permitiu livre acesso aos seus livros (meus tesouros). Ali conheci um pouco mais de poesia, contos, romances... conheci o Shogun, do James Clavell e o li em uma semana. A partir daí, a paixão pela literatura e pelo mundo que ela podia me ofertar cresceu ainda mais, multiplicando os sonhos e descortinando esse mundo novo.

3) Você respondeu que a "escola era seu paraíso" naquele período adolescente. Hoje mudou ou é o senso-comum que nos dá a impressão de que a escola não exerce mais o mesmo fascínio?

Não acredito que tenha mudado. Se você pegar um adolescente de uma pequena cidade do interior ou de seus distritos, que são ainda menores, a escola é um paraíso, é sair do lugar comum, é uma realização. Claro que a educação hoje tem "n" problemas. Acredito que a velocidade da informação tornou tudo mais urgente e isso requer uma reestruturação na educação, mas é algo a ser discutido com todos os envolvidos, não uma decisão de alguns políticos que não estão nos ambientes escolares, não conhece a realidade dos alunos e suas necessidades. Hoje, para recuperar esse fascínio, precisamos de uma amplitude maior, de repensar os conceitos educacionais e de abrir as portas para o novo.

4) O que você gosta de ler?

Está aí uma pergunta simples para uma resposta muito complicada. rs
No começo eu lia de tudo, tudo mesmo. Recentemente eu concluí a faculdade de Letras e conheci novos “velhos” escritores, tanto nacionais quanto estrangeiros, além de teóricos que despertaram a minha curiosidade. No momento eu estou realizando esse tipo de leitura clássicos (ainda que tenha uma certa curiosidade do que é realmente um clássico) e teoria e crítica literária, mais a poesia. Em ambos os casos, prosa e poesia, eu venho intercalando com os novos escritores, com os quais me deparo em meu caminhar pelos saraus e feiras literárias, onde encontramos agradáveis surpresas. Aliás, aconselho a todos darem essa chance, não apenas para o autor, mas para si mesmo: não temer, mas sim, desvendar o novo. Além do mais, há sempre aquelas indicações dos amigos.


"A internet nos proporciona resenhas, dicas e pequenos textos que despertam a curiosidade do leitor, além de proporcionar um preço mais competitivo em relação ao mercado livreiro."


5) Como você vê a literatura hoje e os seus desdobramentos, como internet, redes sociais, e-books?

Como leitora, eu ainda sou meio tradicionalista, prefiro ter o livro em mãos, gosto do toque, do cheiro, do contato direto, embora não me furte a algumas leituras onlines, por aplicativos e até tenho um e-reader. 
Como escritora, eu utilizo as redes sociais para divulgar o meu trabalho, sempre posto alguns trechos de contos e poesias.
Acredito que para a literatura, a introdução destas novas plataformas contribuiu e muito, além de disponibilizar inúmeros títulos, que muitas vezes já estão esgotados ou difícil de conseguir. A internet nos proporciona resenhas, dicas e pequenos textos que despertam a curiosidade do leitor, além de proporcionar um preço mais competitivo em relação ao mercado livreiro.


Rosinha Morais clicada por Akira Yamasaki


6) Como você imagina o futuro da literatura a partir do advento das novas tecnologias e novas possibilidades de interação entre quem escreve e o público leitor?

Imagino um futuro promissor, mas também me preocupo quanto à qualidade dessa literatura e o relacionamento leitores/escritores. Voltando o olhar para a formação dos novos leitores e escritores, devemos nos questionar, como educadores, se estamos preparando, ou melhor, capacitando a nova geração para assumir esse painel literário, tão amplamente divulgado e acessível e até onde essa relação pode chegar, pressupondo que o conceito do Bauman, de que tendemos a uma sociedade líquida, se defina como real.

7) Já pensou na possibilidade de ter escritos seus publicados?

Algumas vezes. rs Acho que quem escreve sempre pensa em publicar, quer dizer, acaba em algum momento, pensando na possibilidade. Venho evoluindo como escritora, tanto de verso quanto de prosa e tenho incentivo de alguns amigos e família para publicar, mas ainda não corri atrás. O (Antônio) Miotto (nota: poeta, educador, militante cultural e cicloativista), vive me falando sobre as possibilidades de publicação, ele leva muito a sério essa história e conversamos sobre o assunto. Por outro lado, sou muito autocrítica e como boa libriana, com ascendente em libra (rs), vivo em dúvida sobre a qualidade do que escrevo, classificando em ruim o que antes achava bom e vice-versa. 

8) O que a motiva? Como você se move?

Parece meio clichê, mas a vida me move, tudo à minha volta, a amizade, o amor, o ódio, a angústia, a natureza. Gosto desse movimento, dessa roda gigante que enquanto gira nos move, ora estamos no alto, ora em baixo. Meus motivos são cotidianos, são aqueles motivos que causam raiva, decepção, indignação e outros (rs), que causam alegria, paixão, esperança, paz.


9) Fecha os olhos e imagine como será o mundo em 2042 (25 anos). Como e onde você se vê. E a literatura?

Engraçado essa pergunta, porque sempre tive a impressão de que viveria até os 50, isso vai muito além. O mundo eu acredito que esteja, enfim, desenvolvido. Hoje vemos o empoderamento de etnias, classes e gêneros, quando soubermos lidar com a radicalização, a conscientização será completa e isso é o que precisamos para chegar a uma sociedade ideal (embora o ideal seja muito relativo, talvez, cheguemos a um consenso).
Quanto à minha visão de como e onde estarei, é difícil definir um estado e posição, espero que esteja nesse mundo que idealizo, bem e cercada de amigos, embora ainda sonhe com uma cabana, um riacho e muito verde, com as comodidades e a loucura necessária.
Em relação à literatura, realmente acredito em um avanço, mas é preciso aprender a lidar com ela, respeitá-la, ser paciente. Acho que só a paciência trará a qualidade que desejamos, temos leitores ávidos demais e autores desesperados por se lançar, deixando de lado a visão crítica e autocrítica.

10) Tem alguma questão que você gostaria que eu tivesse abordado. Se sim, por favor faça-a e a seguir responda. Obrigado!

Acho que todas as questões foram abordadas. Tem uma questão que me intriga: quando e porque eu comecei a escrever poesia. É uma questão que eu não sei responder, mas tenho a impressão que sempre escrevi quando precisava desabafar. Converso melhor com o caderno/computador/celular do que comigo mesma, mesmo achando que nossos melhores confidentes estão dentro de nós.
No mais, quero agradecer essa troca, esse aprofundamento no meu eu, essa descoberta que você me proporcionou e dizer que foi delicioso esse bate papo.
Obrigada!

Rosinha Morais clicada por Luka Magalhães



Poemas de Rosinha Morais

As vezes habito em mim
Este estranho habitat
Onde me sinto estrangeira
As vezes parto de mim
Numa viagem estelar
Curiosa passageira
As vezes morro em mim
Em um triste abandonar
Recolhida bandeira

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.
Estou triste,
Numa tristeza 
Só minha,
A alegria
Ronda minha alma,
Mas não se avizinha.
Estou triste
Numa tristeza
Resoluta,
Sentindo o cansaço
De toda essa labuta.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.
Japa, meu compadre
Que cantos entoam
Os teus bentivis 
Quando visitam
A periferia de ti?
Japa, meu irmão 
Que grito ecoa
Da tua garganta
Quando tudo indica
Não haver salvação?
Japa, meu amigo
Quando nos teus pés 
Brotam espinhos
É possível
Mudar os caminhos?

(para Akira Yamasaki)