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17.11.17

Uma provocação: "ode ao ódio?"

Na moral? Tentando entender aqui porque certa intelligentsia gasta tempo e neurônio lendo, ouvindo e - pior! - reproduzindo as idiotices que aquele ex-ator pornô excrementa. 
Sério mesmo que tem gente que não se ligou que o cara é um idiota útil perdido e seu grito de sobre(sub)vivência é mostrar os caninos gotejando gosma decomposta?
Ainda que com "boas intenções", vale a pena perpetuar essa ode ao ódio? Não é melhor condená-lo ao limbo?

14.11.17

curtaSUZANO 2017 apresenta filmes vencedores

Amaury (organização), conduzindo a festa de encerramento
46 filmes de diversas partes do mundo (21 de cidades que compõem o cinturão do Alto Tietê), 4 dias de evento, 4 espaços diferentes de exibição (uma escola e três centros culturais), 2 rodas de conversa (sobre produção audiovisual no Alto Tietê e sobre o protagonismo das mulheres no audiovisual), mais de 50 horas de filmes exibidos e o público estimado em torno de 300 pessoas. Eis o resultado da primeira edição do curtaSUZANO - Mostra do Curta-metragem do Alto Tietê. 
O festival, organizado pela produtora Ateliê de Imagens e o coletivo Lentes Periféricas, com apoio da Secretaria de Cultura da prefeitura de Suzano e o patrocínio da Fernet Filmes, British Academy e Planeta Perfume, aconteceu a partir de ideias que alguns dos organizadores tiveram numa "conversa de bar" há 3 anos. Desde então, o grupo vem se reunindo e formatando o projeto, para enfim acontecer entre 9 e 12 de novembro.
O curtaSUZANO teve sua ideia "comprada" por várias parcerias, como o escultor Euflávio Góis (de São Miguel Paulista), que confeccionou as sete estatuetas que premiaram as diversas categorias. A colaboração de profissionais ligados ao audiovisual que aceitaram o convite para participar do corpo de jurados, e de outros que somaram inclusive na transcrição da página oficial do evento para outros idiomas, traduzem o clima de cooperação e ativismo que norteou a construção desta verdadeira festa do audiovisual em Suzano. Festa que se prolongará em 2018, já que a segunda edição já está assegurada.


Uma das estatuetas, confeccionadas pelo escultor Euflávio Góis


RESULTADO FINAL - curtaSUZANO 2017

* Melhor Filme: PARA(L)ELAS de Renata Moraes, Maitê Turetta e Fabíola Andrade (Guarulhos)

* Melhor Filme (Júri Popular): OS OUTROS, de Rômulo Cabreira e Douglas Cordeiro ( Suzano)

* Melhor Direção: ELDER FRAGA, "Ser ou não ser" (Mogi das Cruzes)

* Melhor Atriz: MARINA AZZE, "Agora, se vira meu bem" (Guarulhos)

* Melhor Ator: EDUARDO ROCHA, "Tudo que você ama lhe será arrebatado" de Leonardo Granado e Lucas Neves ( Mogi das Cruzes)

* Melhor Roteiro: RÔMULO CABREIRA, "Os outros" (Suzano)

* Melhor Montagem: ELISA ALEVA, "Agora, se vira meu bem" (Guarulhos)


Menções honrosas
* SILÊNCIO, de Bianca Rêgo (Mogi das Cruzes)

* CLAUSURA, de Mariana França e Gildo Antonio (Mogi das Cruzes)





Exibição de filme durante a mostra curtaSUZANO

Cartaz de filme

curtaSUZANO na escola Justiniano
Bate papo com realizadores de filme

Sessão de filme do curtaSUZANO



4.11.17

curtaSUZANO - Vai começar

Logo da mostra - arte de Lico Cardoso

Magno, Escobar, Amaury, Lico e Raquel - equipe organizadora

Em 9 de novembro próximo o coletivo Lentes Periféricas (do qual faço parte) e a produtora Ateliê de Imagens (de Suzano) darão o pontapé inicial no 1º curtaSUZANO - Mostra do Curta-metragem do Alto Tietê. O festival está dividido em 3 módulos - Panorama Alto Tietê, Panorama Brasil e Panorama América Latina e Mundo - sendo que apenas o primeiro é competitivo.
Foram selecionados 21 filmes dos 29 filmes inscritos. Eles vieram dos diversos municípios que compõem o Alto Tietê. Estas obras concorrerão em sete categorias: melhor ator, atriz, montagem, roteiro, direção, filme e filme - escolha da audiência. As estatuetas foram confeccionadas pelo escultor Euflávio "Madeirart" Góis, de São Miguel Paulista, especialmente para a mostra.
Dos mais de 200 filmes que foram enviados para o Panorama Brasil, 19 foram selecionados para exibição, assim como 6 estrangeiros, de um total de 9 recebidos. Os espaços de exibição serão os centros culturais Francisco Moriconi, Palmeiras e Colorado, assim como a escola Profº Geraldo Justiniano (centro).
Informações sobre a mostra, assim como a programação completa dos filmes que serão exibidos, podem ser obtidas através do site http://curtasuzano.com.br/
A festa de premiação está programada para o dia 12 de novembro (domingo), às 19h no Centro Cultural Francisco Moriconi, centro de Suzano.

Trofeu confeccionado por Euflávio "Madeirart"

1.11.17

Um textículo: "abrigo das cores"


no lugar onde moro 
tem uma tenda amarela
com cortinado de mato
a comida que devoro
é verde vinho vermelha
e tomo banhos de prata

do lugar donde venho
tem gente de todas as cores
azul laranja marrom
pessoas que bebem vento
devoram os vários sabores
dormem sob o manto do som

ainda que seja bem longe
a cidade onde penso viver
parece porto seguro
céu de se ler
paisagem sem muro

30.10.17

Um textículo: "carta para a pessoa amada"

Amor, tudo bem? Embora saiba que não, que tudo está nublado, meu coração, depositado em esperanças, insiste que sim, que tudo esteja bem com você. O céu daí deve estar como aqui, opaco, seco, cinza. Mas a gente vê cor até quando ela inexiste.
Sinto muito por ter permitido que as coisas chegassem nesse ponto. Não queria, não queríamos… mas cochilamos demais, desdenhamos muito de coisas sérias, de gente que parecia apenas idiota útil e que depois se mostrou mais útil que idiota, pelo menos para fazer o serviço sujo deles, os opositores. Mas a gente insistia em acreditar que a história é plana e retilínea. E ela provou que não é uma coisa nem outra. A história, meu Amor, se alimenta de restos. Como os urubus. E sua fome é de ciclos, retornos, períodos fraturados, cismas, de tempos contidos. A história – agora sabemos – não perdoa inocentes, ela os violenta e os traga, como um canibal insaciável. E nós já estamos entredentes.
Perdoe! Não queria que minhas palavras soassem ácidas. Não gostaria mesmo de estar contaminado pela fuligem dos dias ruins, mas tenho que dizer que a vida agora parece não permitir mais as metáforas. Estamos de volta às cruezas, sem direito às figuras da linguagem. É tudo direto, olho no olho, dente no dente, como naquele testamento antigo, antes dos tempos revolucionários do amor. Aliás, meu Amor, observe que seu nome foi tão falado que banalizou. De tão comentado, de tão citado nas páginas, bocas e canções, seu nome agora é uma abstração que ninguém entende ou pratica.
Amor, resista! E se for para morrer, para morremos, que seja mirando dentro dos olhos do inimigo, para que quando partamos, fiquemos grudados em suas retinas e eles não possam dormir um dia sequer sem que se lembrem da gente.
Me despeço agora pois a luta exige que se volte pras ruas.
Fique com meu beijo quente. Te Amor desde sempre, e ternamente. Seu,

28.10.17

Um textículo: "outras galáxias"


Ainda lembro bem, o seu Orlando tinha um carrão. E a gente se torcia de inveja do Jr naquele bancão de couro. Toda a molecada da rua parava as brincadeiras quando pai e filho desfilavam, devagar, o ronco quase surdo. Nosso olhar comprido seguia eles, um rastro de pasmo e poeira na rua. A cabeça, no mundo da lua enquanto o Galaxy ia.

23.10.17

Mesa de debate: A Cultura na Construção da Igualdade (Convite)


Os dias atuais estão sendo preenchidos por discursos que remetem a ideias sucateadas do século 19, ou antes. A gritaria saiu do mundo virtual e aos poucos vai tomando as ruas. Contudo, podemos construir um caminho de resistência e afirmação dos afetos, através do diálogo.
Ousamos contribuir com o debate através de mediação em uma mesa organizada pela Secretaria de Cultura de Suzano (SP), cujo tema é A Cultura na Construção da Igualdade. O projeto faz parte do ciclo Cultura em Debate e contará com a presença da educadora Inês da Silveira e dos educadores Vandei Oliveira Zé (também poeta), Edmilson Souza (ex-secretário da cultura em Guarulhos).
Venha compartilhar seus saberes com a gente. Pode trazer seu ceticismo para confrontar com outros realismos, para juntos reencontrarmos o caminho do otimismo. 
Quarta-feira, dia 25, a partir das 19h, no Centro Francisco Moriconi. R. Benjamim Constant, 682 - centro de Suzano.

Um textículo: "antivolição"


quando o sonho vira de lado
pesa, tê-lo

19.10.17

Um textículo: "azo"


sou daquelas pessoas que
nunca saem com cães
pra passear.
quando viajo
levo ilhas comigo.
à tardinha, tento reservar
um tempo para contemplar
o paraíso: a imaginação.

17.10.17

Um textículo: "prioridade"


Aos 82, ele estava bem. Só os olhos não ajudavam muito. Passou direto no guichê "Prioridade" e foi para a fila enorme. 
Questionado, deu com os ombros e saiu-se com essa: eu lá sou homem de querer ser atendido na pior idade? 

16.10.17

10.10.17

III FLAMA - Festival Literário da Amazônia



O primeiro convite do ensaísta Marcos Aurelio Marques e do poeta Carlos Moreira ao Akira Yamasaki foi feito em 2013. Eles organizavam àquela época a primeira edição do FLAMA - Festival Literário da Amazônia e convidaram Akira (que é poeta e produtor cultural, atuando fortemente na região leste da cidade de São Paulo), para participar do evento. Questões de agenda impediram a viagem naquele ano, e somente agora, na terceria edição do projeto, foi viabilizada.
Akira e Sueli Kimura (educadora e musa do poeta), convidaram a poeta Rosinha  Morais (Guarulhos) e eu, para que participássemos também. E, convidados a discorrer sobre A Casa Amarela - Espaço Cultural, elaboramos uma apresentação interativa, batizada "A experiência cultural de São Miguel Paulista (1978-2017) - MPA e Casa Amarela".  
Foi assim que chegamos a Porto Velho na madrugada do dia 2 de outubro.
A atividade ocorreu na tarde do dia 3 no Espaço Cujuba, criado e mantido pelo poeta e músico Don Lauro. Na oportunidade, fizemos uma vivência física orientada por Sueli Kimura. Logo depois, fizemos uma leitura de poemas produzidos nas décadas de 1970/80, por poetas de São Miguel. Após isso, explanamos sobre o Movimento Popular de Arte (MPA), a atualidade cultural local através dos saraus e slams (batalhas de poesia falada) e as motivações que norteiam a criação e atividades desenvolvidas pel´A Casa Amarela - Espaço Cultural. Também foram lidas poesias das safras mais recentes, contextualizando  o período atual. Poetas locais - inclusive Don Lauro - também interagiram e apresentaram poemas e músicas, complementando o clima de sarau. 
Na noite do mesmo dia 3, Akira lançou seu segundo e mais recente livro, Oliveiras Blues, no Teatro Banzeiros. Ele próprio, Rosinha Morais e eu fizemos leituras de alguns poemas que compõem a obra que, como sugere o título, presta homenagem ao Jardim das Oliveiras, vila onde o poeta reside desde a década de 1960, que fica no bairro Itaim Paulista, ao lado de São Miguel, na periferia de Sampa.
Visitas e passeios, troca de ideias e experiências, e uma profunda interação com artistas das mais diferenes expressões de Porto Velho, permitiram que a experiência de ter participado da 3ª edição do FLAMA indique alguns caminhos possíveis para a poesia e a literatura geral. Todos lucram com isso: Porto Velho, São Miguel Paulista, o Brasil e o mundo. E a vida, novos contornos e cores.

Texto: Escobar Franelas
Fotos: EF, Rosinha Morais, Akira Yamasaki e Sueli Kimura














29.9.17

Um textículo: "mixocospia"


fico contigo por toda essa eterna idade
paisagem que nunca passa
como maçã verde ou vermelha
e costelinha mal passada

mas - confesso meio hesitante
esse lance de ménage à trois
melhor
não


28.9.17

Um textículo: "choro"


aproveita e lava o rosto 
de dentro: não desperdice
água benta de mar interior

da série haicaos - fragmentos poéticos

27.9.17

Um textículo: "veleidade"


a alma, reescrita, suicidou
não quis voltar
à pauta que a pariu

da série haicaos - fragmentos poéticos

25.9.17

Um textículo: "serendipidade"


paixão é punhal agudo
amor, uma adaga comprida
saudade: lâmina
amizade é faca que quase nada corta, 
cega, fere, enferruja

paixão é verso de boêmios desprovidos de álcool
amor - tanta coisa que pode ser nada
saudade: clichê: de nostalgia 
amizadez

22.9.17

Um textículo: "metassemântica"


o silên
cio
do hi ato
parece dizer
muito
muito muito muito
mas muito mais
que as vogais mel
odiosas
dos di e tri
tongos

20.9.17

Um textículo: "a vida em contraste"


todo domingo precisa de manhas para acordar
cócegas de um sol tímido
café fumegando
pedaços de pizza de ontem

isso parece chato

manhãs de domingo têm sabor de mousse de chuchu
café expresso pelando
(ou leite morno desnatado)
com adoçante

verdade inconteste, pública e final
tudo tudo tudo
pode ser piorado

3.9.17

Um textículo: "justa mente"


jura? e é assim... tão longe?
nossa! mas me diga, onde?
por freud, no lounge?

da série haicaos - fraturas poéticas e outros acidentes

31.8.17

Um textículo: "hermetiando"


abra o papel de embrulho
antes, porém, 
acenda o fogo
separe os ingredientes
junte os ingredientes
pegue uma letra p
aqueça o o
unte e
coloque (pouco) sal no s
flambe i
frite a

deixe no fogo
queime-se
apague o fogo
deixe esfriar

experimente

feche o papel de embrulho
jogue no lixo
tudo que deu errado

desligue o computador

reinicie

28.8.17

Um textículo: "os eleitos"


teu problema, índio, foi esse, ter nascido índio.
o teu, negro, é ser preto.
o teu defeito, mulher, é não ter falo nem voz.
e o teu, humana gente, não se reconhecer 
na anatomia que a natureza te vestiu.

o teu problema, pobre, é trabalhar sonhando enriquecer
e o teu, ateu, e só acreditar em si

quando cada um se colocar no seu quadrado
e todos estiverem no círculo (vicioso? que seja!)
então todos estarão felizes
cada qual no seu lugar 

senhor, me salva dos brutos
senhor, salva eu das bruxas
da inquisição
do senhor!

27.8.17

Um textículo: "não à poesia, onã!"


tire suas mãos daí (da poesia)
da caneta, do teclado, da estupenda alegria

toque o sino pequenino sino de blém blém
já se deu o desatino
para tudo e vem!

25.8.17

A fonte do desejo da sabedoria

Desconheço a autoria

Um textículo: "a gaveta aberta"


algumas cenas da infância, quase adolescência:
eu, sentado no barranco, vendo os moleques
que jogavam futebol melhor que eu
a inveja me corroendo como ácido 
por não ser o delei, o baianinho ou o paulinho

ouvindo distraído, george benson, gal costa 
e gilberto gil. que meu irmão ouvia
e também led, belchior e sá e guarabira
que meu outro irmão ouvia
e mais beth carvalho, tim maia, bebeto
e kc and sunshine band
que um terceiro irmão ouvia

ouvindo os programas do zé bétio e gil gomes
que minha mãe curtia no rádio

eu deitado em cima da laje de casa ouvindo
o alto-falante do parquinho ou do circo 
que tocavam sem parar raul seixas, antônio marcos
agepê e roberto carlos

eu deitado em cima de casa pensando na dulcinéia
ou contando vantagem na rodinha de amigos
no portão de casa ou da escola

emocionado depois de defender um pênalti 
na final do campeonato de futsal

a vertigem de ver meu irmão com o joelho aberto
depois de uma queda
a primeira vez que dancei com uma garota
o primeiro beijo
a primeira transa

naqueles tempos, um comercial de tv dizia que 
o primeiro sutiã a gente nunca esquece
até hoje me lembro do conjunto dela,
calcinha preta e amarela, combinando

lembro que não fui à festa de formatura do ensino básico
e ainda agora lembro que fiquei a noite inteira acordado
odiando meus pais porque eram pobres
e não tinham grana para pagar um terno barato 
e o convite pra festa

a primeira vez que vi uma pessoa morta, a dona vilma
descansando num caixão; eu tinha seis anos
e aquele homem moreno, caído numa poça
na esquina da rua da escola, um tiro certeiro
furo seco no peito (a chuva fina que caía
desmanchando o jornal que o cobria)
justamente quando voltava da excursão ao playcenter
e eu só tinha 9, tavez 10 anos

e o meu tio e meus primos, de quem não lembro os rostos
e morreram num acidente 
quando iam passear na caverna do diabo?

e teve aquela professora do segundo ano, 
a primeira pessoa, depois da minha mãe 
e da minha avó, a me chamar de lindinho 
até hoje choro quando lembro que chorei naquele dia

ef, sampalândia, ago/2017

23.8.17

Um textículo: "pois é a"


quando poetas debruçam sobre a palavra
acredito
estão meditando 

pois é a flor
ação da cor
que nos impele a recobrir o organismo vivo

poetas vão ao ringue de lutas
esbofetear letras
à mesa de cirurgia fracionar sílabas
em laboratórios praticar mediunidades

crianças com lego

quando se debruçam sobre a palavra
creio
estão mendigando

pois não é
uma víscera exposta
a magia sem segredos
o conto sem mistérios
e crianças sem imaginação

que decretarão a sobrevida do organismo

a morte é o poema vital
não o amor

22.8.17

Resenha - livro "O rio de todas as nossas dores" (João Caetano do Nascimento)


Foto Urbanista Concreto


Um rio com o sangue frio das indiferenças

Em tantos modelos possíveis de literatura longa, temos hoje três que parecem capilares: as obras em que situações, pessoas e tempos estão concentradas na ambiência externa. Nelas, os elementos são dispostos de modo a sustentar ações, os verbos reverberam. Um bom exemplo é Érico Veríssimo, com sua alusão à amplidão dos pampas gaúchos. Outra literatura é a que elabora a construção interior, cujo maior nome na literatura brasileira é Clarice Lispector. Nessa situação, temos como matriz a interlocução monológica. Já mestre Machado é uma referência ao terceiro grupo, aquele que equilibra a capitulação interior e o tracejamento da paisagem com a mesma luminosidade.
O Rio de Todas as Nossas Dores, primeiro romance de João Caetano do Nascimento, é um livro raro, pois nasceu na intersecção entre a primeira e a terceira condição, com pequena propensão a deter-se mais na última, e conservando elementos diversos da segunda. Robusta, a obra desnuda as camadas sociais menos favorecidas dentro do jogo político-econômico, contextualizando aquilo que conhecemos como romance social. Nas linhas precisas do enredo há um estudo profundo dos estratos que sempre ficaram à margem, seja na literatura, arte ou mídia, num rótulo de indiferença ou exotismo. A pobreza descrita no livro não é plástica ou pontual, mas cruel, orgânica e dolorida, como são de fato todas as pobrezas reais. O romancista, que demorou um longo inverno (quase seis décadas) para florescer no mundo literário, ainda assim revela domínio total sobre a sua matéria-prima – a escrita – aliando a isso a consciência ampliada do indivíduo pensante. João Caetano anda de cabeça erguida no chão pedregoso onde pisa, dá voz a personagens que têm alma, corpo, dores e sonhos. Têm opinião.
O enredo do livro aborda nove dias na vida de um homem que se hospeda numa pensão sórdida de uma favela com um nome peculiar, Vila da Alegria. Seu motivo é simples: vingar o pai, desalojado e morto há 28 anos no mesmo local onde se encontra agora. Para isso, ele deixou para trás seu nome original, Vicente, para tornar-se Luís Silva, uma máquina movida pela vingança. A missão que o move faz com que seja um ator camaleônico, focado apenas no objeto de sua perseguição: o dr. Fulgêncio, dono da fábrica Papeleira, algoz de seu pai e da gente sofrida da vila. Vicente/Luís gravita em torno de pessoas com diversos matizes, expressões e significações. Suas relações vão desde o afetado Rosendo, que o indica para trabalhar na Papeleleira até o irascível ex-militar Randolfo que desconfia estar sendo seguido e ameaçado (o que revelará a exatidão dos penamentos dos loucos e desvairados). Tem também a calada e sensível Celestina, empregada da pensão; e Tiziu, o garoto que está pós-graduando nas ruas, sem pai nem mãe; indo até Alice, mulher que deixou a vida Secretária do proprietário da fábrica e aproximou-se de sindicalistas e do povo do lugar, indo inclusive morar na vila. Tornou-se, assim, inimiga de Fulgêncio. A própria fábrica de papel vira personagem, com o papel que lhe é dado pela história e as circunstâncias, tornando-a protagonista, com seus excrementos poluidores, sejam os lançados no ar ou no rio.
Diante dos imediatismos propostos pela hiperconectividade e a conseqüente superficialidade imposta pelas redes sociais, síntese de que a literatura está constantemente ameaçada pela pós-modernidade, é possível perceber que a sociedade está perdendo a capacidade de imaginar, de sonhar, de interpretar jogos mais complexos. Neste embate, é muito saudável ver que O Rio de Todas as Nossas Dores é um alento. Feito nas condições mais libertárias possíveis – o autor autopublicou a obra – assim como teve o apoio de pessoas próximas para os trabalhos de revisão, diagramação e montagem, traz no próprio título um diagnóstico lírico daquilo que de fato oferece. A sujeira que suas águas transportam, bordeando a Vila da Alegria, numa constância férrea, adquire um simbolismo pungente, quando pensamos que a vingança é um fel que o vingador carrega em seu caminho sinuoso, até expiar o sangue inimigo nas águas plácidas de um rio improvável e incompreensível, maior que todas as nossas dores.


Serviço
Título: O Rio de Todas as Nossas Dores
Autoria: João Caetano do Nascimento
Páginas: 228
1ª edição (do autor): 2017

Foto Luka Magalhães
Foto do arquivo de JCN (Facebook)

Foto Maria Cecília Quintal



15.8.17

Um textículo: "regeneração"


quero alegria
dispenso a dos comediantes pagos
quero música - muita música - 
mas não aquela do toca-discos
sim para os sons de chuva, de nós
de um presente sendo desatado
quero paz
ainda que  descarte o fetichismo
de bandeiras ou pombas brancas

quero alegria
mas nada de comediantes tristes e deprimentes
e música, concerto de gemidos
suspiros apaixonados, sussurros
em noites de amor insone
quero paz - muita paz! -
a paz que declara guerra ao marasmo
à rotina, aos bons costumes  

só a carne me interessa
a carne, com seu humor e textura
cheiro e sabor 
suas sentenças bélicas
sangue represado nas veias
espírito rutilante 
alma evanescente como éter

11.8.17

Um textículo: "sobrentendidos"


Agridoce, mais que adjetivo, é metáfora do amor. Nada, ninguém explica  o que é, mas todos reconhecem o seu gozo.

10.8.17

Um textículo: "vento"


vento
tempo de bagunçar tudo
de levantar cabelos
subir vestido
de ajudar a apertar o abraço
elevar as asas 
até você

vento
tempo em distorção
apressado atrasando
todo esse querer

tempo é brisa
vento que nunca para

9.8.17

Um textículo: "espelho"


Oi,

as metáfora sempre explicam mais, pois sempre vêm desvestidas da casca dura dos significados reais. 
Fique com um forte abraçaço, 
Eu