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20.7.17

Um textículo: "instante"


o paraíso será assim:
você irá chorar
com todos os seus olhos
com todos os seus lábios
enquanto eu
em espanto
desfolharei nossos cabelos

chuvas torrenciais
relâmpagos, raios e trovões
redemoinhos, ventos, furacões
até tudo estar quieto
e descansarmos na sétima hora

em tudo
flores ser

17.7.17

Um textículo: "das dores"


são duas as dores que antecedem a anestesia
e infinitas as que a sucedem
entre esses mares de pesares
há uma ilha, a extasia
o sono profundo da pele, o sétimo dia bíblico
uma apostasia

16.7.17

Um textículo: "prosaesia"


...e só depois da morte é que presumivelmente viveu.
"então ela/ele levantou-se depois de saciada/o, olhou o seu amor ali estendido e entendeu: tudo está consumado."
passaram-se minutos. horas. dias. anos. a eternidade toda. outra eterna idade veio. e passou.
"então ela/ele saciou-se. viu-se estendida/o ali e sentenciou: tudo está consumido."
todo amor é feito de pequenas mortes: consuma-o. por isso a intensidade de vida que há: consuma-a.

3.7.17

9.6.17

Entrevista: Rosinha Morais (Literatura) - Guarulhos, SP

Rosinha Morais clicada por Liz Rabello


Rosinha Morais, formada em Administração e Letras, é uma poeta muito singular. Com olhar rascante sobre o cotidiano e a pele sensível ao toque da poesia das coisas, seres e pessoas, ela se desdobra em vários afazeres e leituras. Participa ativamente de diversas atividades culturais e artísticas, seja atuando no Sarau da Casa Amarela (São Miguel), ou produzindo junto com o pessoal do canal Peixe Barrrigudo (Guarulhos) ou a turma 'audiovisueira' do Lentes Periféricas (Guaianases). Também pode ser encontrada organizando o Slam do Prego, na mesma Guarulhos onde reside. 
Mas falar dessas atividades é ainda assim limitar o muito que essa mulher apronta por aí, pois tem muito mais. O que não lhe falta é disposição (e inspiração) para o trabalho com as coisas que gosta. E nossa impávida certeza de que, onde quer esteja, sua performance sempre será notada, pela capacidade 'midástica' que ela tem de transformar tudo em ouro.
Nesse depoimento, concedido via e-mail, a escritora faz uma profunda leitura interior, recordando imagens da infância até projetar-se ao presente. 
Lê-la é uma dádiva. Faça isso por si.



Rosinah Morais clicada por Idevanir Aracanjo


1) Conte um pouco de sua infância e juventude:

Minha infância foi bem agitada, nasci em casa, pelas mãos de uma parteira, não por moda ou opção, mas por pura necessidade. Sou de Planaltino, uma cidade no interior da Bahia, hoje uma cidade pequena, naquela época, minúscula. Contávamos com uma enfermeira e a parteira, que era a grande mãe da região, já que todos que nasceram com a ajuda dela a chamava de mãe. Sou a sétima e última filha, de uma sequência de mulheres. Por esse motivo, sou afilhada da minha irmã mais velha, atendendo a lenda segundo a qual, o sétimo filho sequencial, do mesmo sexo, deve ser batizado por seu irmão ou irmã mais velha. Tenho ainda um irmão, o primogênito. Três dias depois do meu nascimento, fui morar com a minha irmã mais velha e nossa tia, na mesma rua que meus pais moravam. Nunca questionei o porquê. Era assim e pronto. A casa da minha tia vivia sempre cheia por se tratar da única pensão da cidade. Cresci experimentando todas as brincadeiras, sem distinção de gênero, por isso algumas vezes era chamada de “macho e fêmea” (rs). Quanto mais perigosa a brincadeira, mais interessante era. Perdi meu pai aos seis anos e não sei ou lembro exatamente o que eu senti. Minha família é grande, minhas irmãs começaram a trabalhar muito cedo, mas comigo foi diferente. Ao invés de trabalho eu recebi a escola, era a minha única obrigação e eu adorava, sempre gostei de estudar. Logo descobri os livros e o encanto se completou. 
Na adolescência, comecei a me espelhar em minhas irmãs que moravam fora e fui construindo meus gostos, principalmente o musical. Era uma festa quando elas chegavam em casa trazendo em suas malas os novos LP. Me apaixonei por Chico Buarque e sonhava casar com ele, mas também fui fã do Menudo e queria me casar com o Charlie. Tinha todos os planos, incluindo o desenho da nossa casa e do meu vestido de noiva. A escola continuava sendo o meu paraíso e nos intervalos eu participei de alguns desfiles de miss. As brincadeiras perigosas que tanto me encantavam na infância, mantiveram seu encantamento, mas eu não percebia mais o perigo. Aos dezesseis anos fugi de casa e fui morar com um namorado. Foi um período de extremos, felicidade imensurável e solidão desesperadora. Provei o medo, a tristeza, a insignificância. Ah, foi na adolescência que eu senti, profundamente, a dor da perda do meu pai. Mas eu já era adulta demais.

2) Como foi essa descoberta do mundo de sonhos ofertada pelos livros?

Descobri que o mundo era bem mais amplo do que aquele em que eu vivia ou que imaginava existir, foi extremamente gratificante. Lembro de ter lido muitos romances, acho que todas as “Júlias”, “Sabrinas”, “Biancas” e afins, que eram mais fáceis de encontrar. Mais tarde, chegou em minha cidade a professora Inês, de português. O colégio acabara de ser inaugurado, até então o ensino lá era apenas o fundamental, na época até a 4ª série. Quem quisesse continuar os estudos, fazia nas cidades vizinhas. Fui da primeira turma que fez o ginásio e o colégio na cidade. Bom, a professora Inês chegou na cidade e trouxe a sua biblioteca particular, que apesar de não ser grande, trazia grandes novidades e, sabedora do meu gosto pela leitura, me permitiu livre acesso aos seus livros (meus tesouros). Ali conheci um pouco mais de poesia, contos, romances... conheci o Shogun, do James Clavell e o li em uma semana. A partir daí, a paixão pela literatura e pelo mundo que ela podia me ofertar cresceu ainda mais, multiplicando os sonhos e descortinando esse mundo novo.

3) Você respondeu que a "escola era seu paraíso" naquele período adolescente. Hoje mudou ou é o senso-comum que nos dá a impressão de que a escola não exerce mais o mesmo fascínio?

Não acredito que tenha mudado. Se você pegar um adolescente de uma pequena cidade do interior ou de seus distritos, que são ainda menores, a escola é um paraíso, é sair do lugar comum, é uma realização. Claro que a educação hoje tem "n" problemas. Acredito que a velocidade da informação tornou tudo mais urgente e isso requer uma reestruturação na educação, mas é algo a ser discutido com todos os envolvidos, não uma decisão de alguns políticos que não estão nos ambientes escolares, não conhece a realidade dos alunos e suas necessidades. Hoje, para recuperar esse fascínio, precisamos de uma amplitude maior, de repensar os conceitos educacionais e de abrir as portas para o novo.

4) O que você gosta de ler?

Está aí uma pergunta simples para uma resposta muito complicada. rs
No começo eu lia de tudo, tudo mesmo. Recentemente eu concluí a faculdade de Letras e conheci novos “velhos” escritores, tanto nacionais quanto estrangeiros, além de teóricos que despertaram a minha curiosidade. No momento eu estou realizando esse tipo de leitura clássicos (ainda que tenha uma certa curiosidade do que é realmente um clássico) e teoria e crítica literária, mais a poesia. Em ambos os casos, prosa e poesia, eu venho intercalando com os novos escritores, com os quais me deparo em meu caminhar pelos saraus e feiras literárias, onde encontramos agradáveis surpresas. Aliás, aconselho a todos darem essa chance, não apenas para o autor, mas para si mesmo: não temer, mas sim, desvendar o novo. Além do mais, há sempre aquelas indicações dos amigos.


"A internet nos proporciona resenhas, dicas e pequenos textos que despertam a curiosidade do leitor, além de proporcionar um preço mais competitivo em relação ao mercado livreiro."


5) Como você vê a literatura hoje e os seus desdobramentos, como internet, redes sociais, e-books?

Como leitora, eu ainda sou meio tradicionalista, prefiro ter o livro em mãos, gosto do toque, do cheiro, do contato direto, embora não me furte a algumas leituras onlines, por aplicativos e até tenho um e-reader. 
Como escritora, eu utilizo as redes sociais para divulgar o meu trabalho, sempre posto alguns trechos de contos e poesias.
Acredito que para a literatura, a introdução destas novas plataformas contribuiu e muito, além de disponibilizar inúmeros títulos, que muitas vezes já estão esgotados ou difícil de conseguir. A internet nos proporciona resenhas, dicas e pequenos textos que despertam a curiosidade do leitor, além de proporcionar um preço mais competitivo em relação ao mercado livreiro.


Rosinha Morais clicada por Akira Yamasaki


6) Como você imagina o futuro da literatura a partir do advento das novas tecnologias e novas possibilidades de interação entre quem escreve e o público leitor?

Imagino um futuro promissor, mas também me preocupo quanto à qualidade dessa literatura e o relacionamento leitores/escritores. Voltando o olhar para a formação dos novos leitores e escritores, devemos nos questionar, como educadores, se estamos preparando, ou melhor, capacitando a nova geração para assumir esse painel literário, tão amplamente divulgado e acessível e até onde essa relação pode chegar, pressupondo que o conceito do Bauman, de que tendemos a uma sociedade líquida, se defina como real.

7) Já pensou na possibilidade de ter escritos seus publicados?

Algumas vezes. rs Acho que quem escreve sempre pensa em publicar, quer dizer, acaba em algum momento, pensando na possibilidade. Venho evoluindo como escritora, tanto de verso quanto de prosa e tenho incentivo de alguns amigos e família para publicar, mas ainda não corri atrás. O (Antônio) Miotto (nota: poeta, educador, militante cultural e cicloativista), vive me falando sobre as possibilidades de publicação, ele leva muito a sério essa história e conversamos sobre o assunto. Por outro lado, sou muito autocrítica e como boa libriana, com ascendente em libra (rs), vivo em dúvida sobre a qualidade do que escrevo, classificando em ruim o que antes achava bom e vice-versa. 

8) O que a motiva? Como você se move?

Parece meio clichê, mas a vida me move, tudo à minha volta, a amizade, o amor, o ódio, a angústia, a natureza. Gosto desse movimento, dessa roda gigante que enquanto gira nos move, ora estamos no alto, ora em baixo. Meus motivos são cotidianos, são aqueles motivos que causam raiva, decepção, indignação e outros (rs), que causam alegria, paixão, esperança, paz.


9) Fecha os olhos e imagine como será o mundo em 2042 (25 anos). Como e onde você se vê. E a literatura?

Engraçado essa pergunta, porque sempre tive a impressão de que viveria até os 50, isso vai muito além. O mundo eu acredito que esteja, enfim, desenvolvido. Hoje vemos o empoderamento de etnias, classes e gêneros, quando soubermos lidar com a radicalização, a conscientização será completa e isso é o que precisamos para chegar a uma sociedade ideal (embora o ideal seja muito relativo, talvez, cheguemos a um consenso).
Quanto à minha visão de como e onde estarei, é difícil definir um estado e posição, espero que esteja nesse mundo que idealizo, bem e cercada de amigos, embora ainda sonhe com uma cabana, um riacho e muito verde, com as comodidades e a loucura necessária.
Em relação à literatura, realmente acredito em um avanço, mas é preciso aprender a lidar com ela, respeitá-la, ser paciente. Acho que só a paciência trará a qualidade que desejamos, temos leitores ávidos demais e autores desesperados por se lançar, deixando de lado a visão crítica e autocrítica.

10) Tem alguma questão que você gostaria que eu tivesse abordado. Se sim, por favor faça-a e a seguir responda. Obrigado!

Acho que todas as questões foram abordadas. Tem uma questão que me intriga: quando e porque eu comecei a escrever poesia. É uma questão que eu não sei responder, mas tenho a impressão que sempre escrevi quando precisava desabafar. Converso melhor com o caderno/computador/celular do que comigo mesma, mesmo achando que nossos melhores confidentes estão dentro de nós.
No mais, quero agradecer essa troca, esse aprofundamento no meu eu, essa descoberta que você me proporcionou e dizer que foi delicioso esse bate papo.
Obrigada!

Rosinha Morais clicada por Luka Magalhães



Poemas de Rosinha Morais

As vezes habito em mim
Este estranho habitat
Onde me sinto estrangeira
As vezes parto de mim
Numa viagem estelar
Curiosa passageira
As vezes morro em mim
Em um triste abandonar
Recolhida bandeira

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.
Estou triste,
Numa tristeza 
Só minha,
A alegria
Ronda minha alma,
Mas não se avizinha.
Estou triste
Numa tristeza
Resoluta,
Sentindo o cansaço
De toda essa labuta.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.
Japa, meu compadre
Que cantos entoam
Os teus bentivis 
Quando visitam
A periferia de ti?
Japa, meu irmão 
Que grito ecoa
Da tua garganta
Quando tudo indica
Não haver salvação?
Japa, meu amigo
Quando nos teus pés 
Brotam espinhos
É possível
Mudar os caminhos?

(para Akira Yamasaki)


26.5.17

Um textículo: "uma dica para drica"


uma dica para drica:
quando chegar o momento
e você não souber se é a hora
fique em silêncio
olhe pro céu
conte estrelas, conte às estrelas
lembre-se do colo morno da mãe
e suas cantigas de ninar
do olhar lustroso do pai
das mãos coloridas do ar
do abraço terno da chuva

lembre-se
o mundo é uma solidão enorme
e a gente nunca está só
várias vidas se atracam
abraçam, se gritam, amam
por isso a importância da quietude
é nela que dialogamos
com tudo
com todos

4.5.17

Um textículo: "alzheimer"


No fim da tarde, ainda pescava pérolas para lançar aos porcos. Ao fim da tarde mais veraz, pensava que pescava porcos. E pesava - mais que tudo - pesavapesavapesava. Nas costas dos outros.

1.5.17

Um textículo: "pig-bang"


o facebook é como o jardim do éden
nele todo mundo é belo
- feio é o outro! - 
todos os casais são felizes
os lugares os mais bonitos
os animais, bem tratados

o feicebúqui é um aquário de felicidades
redoma de tanta generosidade compartilhada

e quando estiverem redigindo a bíblia do século 21
relatarão que ali foi cometido o
primeiro pecado virtual
todos estavam nus

25.4.17

Um textículo: "lúcia, a lúcida"


Atravessou a vida como um carro na contramão. Nunca capotou em linha reta nem bateu em farol vermelho. Depois da longa viagem, estacionou na porta de casa.
 

24.4.17

Um textículo: "estudos de figuras de linguagem"



moro
em frente ao lava-rápido
veículos sujos entram
saem limpos
- portas reliuzentes - 
as sujeiras, no porta-luvas
no porta-malas
ao volante

moro

um dia mudo

23.4.17

Um textículo: "a lenta agonia"


Morrendo tão aos poucos, mas tão aos poucos, que quando deu o suspiro final, não sabia mais o que poderia ter sido sua vida.

22.4.17

Um textículo: "legendas sem título"


quando um poema vem me visitar
nunca sei como me comportar
ofereço um café ou chá?
sirvo bolachas?
falo do tempo?
faço sala?
ou deixo ele a sós?

poemas entram sem bater
saem sem pedir licença
não são educados

18.4.17

Um textículo: "guerra e paz"


dentro do carma cabe uma arma
apontada para si: oro e choro: imploro
...
toda lágrima é uma rima que irriga 
um rio imaginário que abriga a alma 
e a veste de calma:
paz,  se fica 

17.4.17

Um textículo : "dispersar"


flor, esta flor: ser 
sente, sinta, sintaxe, síntese
semente à
anunciação da nova vida

vida nova, se há
flor, estas cores, todas soltas
que vem-nos
divagar

14.4.17

Um textículo: "três"


estas ranhuras no rosto
e no resto do corpo:
martelo unhas
foices palavras

você me diz
- é que o marcelo se foi...

e um apontamento de dor
recolho na cor dos seus olhos

em hardrockcoreNroll, 1998

10.4.17

Um textículo: "crônica"


Estudava dia e noite pra ser alguém na vida. Estudava,  não desistia. Era o orgulho da mãe, o exemplo que o irmão caçula seguiria, o namorado exemplar, o genro que toda sogra queria ter. 
Mas... 
sempre que esta conjunção - o "mas" - aparece, o enredo deixa seu caráter descritivo e linear para estabelecer outras bases; aqui, no caso, um pequeno suspense)
Hoje uma mãe chora em silêncio sentada na cama de seu quarto humilde. Um adolescente conta vantagem na esquina da escola falando que é tão inteligente quanto o irmão. "Que irmão?", pergunta um amigo recente, "Você não é filho único?" Ali perto, a menina se arruma para sair sozinha, pela primeira vez, com o novo namorado. 
Não muito longe, um velho maltrapilho bebe mais uma pra esquecer. 

6.4.17

Um textículo: "poema entretecido"


de nada me adianta esgarçar
esse tempo
cerzir memórias com
agulhas longas demais, dá
a falsa sensação de que o
esquecimento é maior. e o 
gato sobre o parapeito
faz filosofia com a pressa
da tartaruga

5.4.17

Um textículo: "como vivem os inocentes"


primeiro a música se aconchega durante uma cena comovente do filme
depois, involuntariamente, enquanto viaja
na terceira, lavando roupa numa manhã de domingo

pronto!

no dia em que ficar a sós, vai se remediar com essa droga
até o fim

29.3.17

Um textículo: "prosa poética"


um caderno antigo de meu filho
um lápis sem ponta
um pedaço de linha vermelha no tapete cinza
a sombra de meu ombro sobre o braço do sofá
a cortina imóvel
um ronco qualquer na rua
dentro do aquário, o peixe vê a vida que seus olhos alcançam

26.3.17

Um textículo: "a iniciação das vidas"


Manobrou desastrado o carro preguiçoso.
Afobação, gestos incontidos, displicência, ainda assim saiu-se "marromeno", com seus cuidados redobrados. 
Dentro da casa ficaram coração e cérebro, ambos desajuizados. Na garagem, a criança por vir.

24.3.17

Entrevista: RAQUEL ORDONES (Literatura) - Uberlãndia, MG



“Conheci o trabalho de Raquel Ordones no portal Recanto das Letras. Empresária do setor calçadista no Triângulo Mineiro, ela relata que “se encontra” na força persuasiva da palavra. E que, convivendo cotidianamente como mundo das letras, ousou criar uma forma poética precisa, o “ordonismo”, sonetos cuja peculiaridade é ter a última palavra do verso rimando com a primeira do verso seguinte. Este processo permite um texto vibrátil, de ritmo intenso (três exemplos no fim da entrevista), como um bebop jazzístico.
Esta “entrevista”, que avançou para diversas outras questões do mundo da literatura, foi feita durante algumas semanas por e-mail. Degustem-na!”

1) Quem é Raquel Ordones?
Raquel Ordones é alguém de bem com a vida, alguém que procura se esforçar em qualquer que seja a atividade, que busca viver a intensidade a qual foi proposta no estar aqui nesse plano terreno, acredita numa força maior, de origem humilde (infância na fazenda), primeiro poema escrito aos 9 anos.
Sem apego a bens, encanta-se com pessoas. É filha e mãe, é esposa e liberdade de alma, aprendiz de poeta e pé no chão. É responsável com algumas irresponsabilidades, uma quase senhora-criança! Humana, enfim!
Raquel gosta de natureza, de caminhar nos fins de tarde, futebol, livros, poemas, de noite estrelada, de pessoas interessantes, fotografia, gargalhadas, música, de salto alto, acessórios, cabelos naturais, perfumes; é uma quase formiguinha em relação a doces. Também é amiga, dessas amigas mesmo, gosta de olhos nos olhos, da sinceridade da criança; não se sente plural por esses títulos ou status. RO já foi doméstica, dama de companhia para idosos, jogo do bicho, catequista, jogadora de futebol, nunca foi nerd, mas estava ali bem juntinha. Cursou Magistério, Administração de Empresas, Marketing, Matemática Financeira. Fez cursos de locução, inglês básico e violão bem mais básico.
Atualmente trabalha com moda, na  Hattan Calçados – indústria de calçados e loja da fábrica – em Uberlândia, MG. 
Escreve diariamente. Prefaciadora, orelhista, antologista, cronista, roteirista, pretende ser uma sonetista de verdade, contadora de histórias (grupo de teatro palavreado). 
Sem publicações, por enquanto.
Com tantos "eus em mim", não sabe se definir... “até porque quem se define se limita".

2) Como foi a história de escrever um poema aos 9 anos? E como outros o sucederam?
Foi na escola: a professora pediu para escrever uma composição sobre a cidade, eu fui lá e enchi de rimas.
I
“Pra fazer composição,
De cidade como a nossa,
É preciso ter estudo,
Não é pra gente da roça.
(...)
VII
Uberlândia eu te amo
Com carinho que de mim emana
Para escrever sobre ti
É preciso uma semana.”

Estudava na escola anexa à Escola Agrotécnica Federal de Uberlândia, e lá tinha um jornalzinho interno... E esse poema foi parar no gabinete do prefeito, na época. Quase sempre ele visitava a escola, em datas comemorativas, e ele não tardou, veio me parabenizar pelo escrito. Eu quase emudeci, menina da roça, já viu! Fiquei bloqueada por algum tempo (foi um susto).
Mas, a poesia ressurgiu naturalmente depois, nos “cadernos de meninas”.

3) Por favor, discorra sobre esses "cadernos de meninas".
Bom, na minha época eu não tinha diário até mesmo pela situação financeira, só se comprava o essencial, o básico do básico.
“Cadernos de meninas” era aquela sobra dos cadernos da escola do ano anterior; eu arrancava todas as folhas limpas de diversas matérias (aqueles cadernos pequenos grampeados no meio) e a mamãe costurava na máquina de costura dela... Ali derramava tudo, coraçõezinhos, florzinhas, letras iniciais de nomes entrelaçadas quase em códigos, pequenas frases; trovas com rimas era o meu forte, e até cartas!

4) Fale agora de sua adolescência e juventude:
Quando vim da fazenda aos 11 anos, já vim encomendada para trabalhar na casa da minha tia, olhando o filho bebê meio período, (essa tia eu fui a dama de honra do casamento dela, risos) porque no outro eu estudava.  Sempre gostei da escola. Minto... Amava mesmo, nunca fui nerd, mas sentava atrás deles.
As minhas notas sempre foram boas, menina aplicada e responsável. Sem nenhuma repetência ou pendência.
A música desde sempre foi a minha fiel companheira.
Aprendi todas as brincadeiras de meninos, por que eu era a 4ª pessoa para jogar futebol com traves de lata de óleo de cozinha. Empinava pipa, roubava bandeirinha, carimbada, bolinha de gude, isso numa inocência até os dezoito anos, aquela meninada na rua nas tardes de domingo.
Frequentei muito o estádio de futebol, ia à igreja católica com meus pais. Éramos quatro irmãos, eu em meio a três meninos.
Adolescência bem cuidada, apesar de não ter muito a vigiar, minha criação foi na “rédea”, pai à moda antiga, e a mãe sempre apaziguava, mas só de olhar a gente já entendia tudo. Os irmãos não deixavam brechas, mas nos divertíamos juntos, me levava ao cinema, às brincadeiras dançantes que havia naquela época, nas casas das pessoas ou em escolas, uma música tocada em k7, embaixo de uma tolda, todos entravam ali e dançavam ainda que não conhecidos. Era bacana a interação.
Muitos “gatinhos” por ali, mas era só nas olhadas mesmo.
Sempre tive muitos amigos (as) e uns admiradorezinhos (rs).
O comportamento daquela época, em nada se parece com o da juventude de hoje.
Quanto a namoro, posso contar em uma só mão e ainda sobram dedos. O namoro era ali, no sofá, entre a família. Antes das dez da noite, encerrava-se a sessão namoro e despedir no portão, nem pensar, mas tinha as escapadelas.
Casei-me com meu terceiro namorado e 30 anos já se passaram.
Isso, entre uma poesia e outra...

5) E então, em algum momento, a poesia saltou das páginas dos “cadernos de menina” e inundou a sua vida? Como foi isso?
Desde que me entendo por gente a poesia é viva em mim, talvez eu tenha até deixado uns rabisquinhos nas paredes uterinas da mamãe (risos). Quando criança li muito Cecília Meireles, não sei se isso me influenciou; o meu pai também escrevia, um tanto sistemático, achava que ser poeta era mimimi demais para homem, tinha poemas de gavetas, lindos e é claro que eu li todos. Talvez ele nem soubesse disso!
Então, num primeiro momento, as poesias saíram pra fora do caderninho em forma de carta, escrevia algumas cartas atendendo pedido de pessoas conhecidas e até não conhecida, transcrevia ali o que me era passado, eu era a portadora dos sentimentos delas.
Escrevia uma coisa aqui, outra ali, nos cadernos dos colegas da escola, não mais que isso...
Mas o segundo momento vive até hoje, foi em 2006, quando entrei no finado Orkut, onde pude mostrar o que escrevia e aprendi muito, uma escola. Na verdade morei por muito tempo lá, por aquelas comunidades de poesias nas quais os poetas deixavam MOTES, adorava ir ali e escrever sobre o assunto deixado. Fui elogiada, mas também criticada... Até hoje, enfim!
Criei um blog mais ou menos nessa época, que alimento até hoje (https://raquelordonesemgotas.blogspot.com.br/), depois criei um perfil no Recanto das Letras, em seguida no Facebook,  onde também tenho uma fanpage; recentemente criei um humilde canal no Youtube com poemas declamados.
São nesses ventos virtuais que espalho meus escritos, além de 14 participações em antologias (enfim, pude sentir o cheiro de alguns poemas meus nos livros). Frequento saraus, bacana essa interação de poetas sem competição...
Sonho meu livro solo... Mas sei esperar!

6) Que considerações você faz do momento atual da literatura? A internet influencia “para o bem ou para o mal” a escritura de textos?
Tenho comigo que a literatura está em seu melhor momento... É tanta gente escrevendo e divulgando coisas ricas, outras nem tanto (risos) nunca se conheceu tantos escritores.
Há um ecletismo, uma união do literato com o popular, poesias intimistas, visuais e marginais até.
Há uma evolução do social, urbano e regionalista, há tantos experimentos, técnicas inovadoras, intertextualidade e metalinguagem.
A internet é um veículo de suma importância, pra ela são migrados livros inteiros e tantas preciosidades de gaveta que tocam, criam asas, ultrapassando as barreiras territoriais...
Para quem se interessar há uma facilidade gigante no acesso.
Assim como tudo têm os dois lados, a internet é ferramenta para uns e arma para outros.

7) O que você gosta de ler? Tem autores ou autoras preferidos (as)?
Leio de tudo, viciada mesmo (até jornal de ontem).
Quando pequena, a gente não tinha acesso a livros, alguns na escola que passavam de mão em mão. Ficava louca com eles, às vezes não saía para o recreio para ficar lendo ali, num canto e sossegada.
Quanto tive o privilégio de comprá-los, eu já era adolescente... Tinha paixão por gibis. Depois descobri os romances Júlia e Sabrina! Eu devorava.
Cheguei a colecioná-los em 136, depois passou aquela fase e fiz uma doação para o sebo. Gibis; ainda os tenho: muitos (Maurício de Souza / Carl Barks).
Amava de paixão ler aqueles livros extraclasse: Dom Casmurro, O Caso da Borboleta Atíria, da série Vagalume: A Ilha Perdida, O Escaravelho do Diabo, Coração de Onça, o Feijão e o Sonho – de autores diversos (me deu saudades... viajei!).
Eu era fascinada por Monteiro Lobato, li “n” vezes As Reinações de Narizinho, As Caçadas de Pedrinho (o Sítio do Pica-Pau Amarelo era o melhor que havia). Adorava os poemas de Cecília Meireles: A Bailarina, Leilão de Jardim, Canção dos Tamanquinhos, O Menino Azul. (decorados até hoje).
No Recanto das Letras leio bastante, escritores ainda anônimos e por toda rede (mas gosto mesmo é do cheiro do livro físico – tenho uma pequena estante).
No mundo da “famosidade” gosto de um misto em vários gêneros: Machado de Assis, Augusto dos Anjos, Vinícius de Morais, Ferreira Gullar, Agatha Christie, Lispector... Ah, ficaria horas fazendo uma lista, são tantos... Enfim, tenho mais afinidade, talvez tenha um pouco de mim, ou o contrário, não sei, tenho um pouco dela: Florbela Espanca é a minha preferida.

8) Sei que você também gosta de desenhar. Comente esta outra forma de expressão.
Parece meio clichê, mas a vida me move, tudo à minha volta, amizade, amor, ódio, a angústia, a natureza. Gosto desse movimento, dessa roda gigante que enquanto gira nos move. ora estamos no alto, ora embaixo. Meus motivos são cotidianos, são aqueles motivos que causam raiva, decepção, indignação e aqueles outros que causam alegria, paixão, esperança, paz (rs).

9) Seus trabalhos postados no Recanto das Letras, especialmente (mas não somente) os sonetos, revelam uma poeta de texto apurado, “burilado”, como queria João Cabral de Melo Neto. Como é seu processo de criação literária?
Bom, até então, eu só escrevia, colocava o USB da caneta à mente e pronto, mas sempre com sentido, conteúdo, mensagem e o mais claro que eu pudesse ser. Depois que conheci o soneto, sempre digo que ele se apaixonou por mim (pretensiosa). É que tudo que vou escrever já me vem dentro dos quatorze versos.
Passei a não somente escrever, mas me atentar às leis do soneto. A poesia é sim livre, mas o soneto requer regras.
Qualquer coisa e assunto é motivo de inspiração, sou bastante eclética; e vem assim do nada, sem ser forçado, flui (uma palavra numa conversa vira poema).
Antes, eu inventei um “soneto infiel” por ter dificuldades com relação à métrica, e fui estupidamente criticada por isso:
“Soneto é soneto, tem regras e se você não as cumpre, não é soneto; “infiel” é apenas uma adjetivação” (escrito em letras maiúsculas).
Guardei essas palavras comigo como uma crítica construtiva, me dediquei um pouco à teoria da poesia e poetas e hoje já arrisco escrever soneto decassílabo heroico (vivaaa!).
Ousei inventar o “Ordonismo”, assino assim os meus sonetos onde a ultima palavra do verso rima com a primeira do verso seguinte.
Gosto imensamente de rimas, talvez eu tenha certa facilidade, não sei! Há coisas que são inexplicáveis (frase clichê, risos).
Gosto de palavras diferentes, mas não de palavras difíceis. Acho pouco poéticas; também não gosto de repetir palavras nos meus sonetos. (coisas de Raquel).
Gosto de ‘exibir’ os meus eus dentro do meu eu-lírico. Sempre acho que caibo como personagem mesmo não sendo.
Não gosto muito de escrever poemas tristes e prefiro as metáforas.
Tenho cuidado sim com meus escritos, são filhos... Mas sei que não são perfeitos (ainda assim os defendo).
Escrevo diariamente e quando não o faço, falta algo; tenho comigo que “escrever é escreviver” (tenho necessidade do neologismo). Respeito ao máximo o meu leitor, sempre que posso gosto de agradecer as leituras e comentários... Creio que nesse ato alcança-se o objetivo poético... Quando a escrita toca quem a lê o ledor passa a ser extensão do escritor, aí ela cria asas, é do mundo do outro, voa fechando assim um círculo “infechável”, infinitamente mágico (acho que falei demais e não responde - risos).

10)  O que a sensibiliza?
Coisas simples... Demonstração pública de carinho sincero, uma florzinha perdida no meio do mato, a vastidão do céu, a lisura da criança, uma frase no meio de uma música, um “eu te amo” incondicional e inesperado, a chuva, o cheiro de um livro, um perfume, um poema de presente, pessoas que se doam, firmeza do olho no olho, o respeito...
Eu me sensibilizo sempre, sempre estou atenta às pequenas coisas que se fazem gigantes em mim, me inspiram e que se tornam “minha poesia”.
Ficaria aqui horas citando...

11) Onde você tem publicado seus textos?
Os meus textos estão por ai na rede, publicados até em outros espaços; estão também em algumas antologias, publico-os nalguns saraus...
Meus espaços poéticos:
Blogger: http://raquelordonesemgotas.blogspot.com.br/
Google+: https://plus.google.com/110426184910970095847
Fan page: https://www.facebook.com/raquelordonesemgotas/
Recanto das Letras: http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=83659
Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCHPoPv2t9H9RcTqMAlniGTw

12) Tem alguma pergunta que não fiz e que você gostaria que eu tivesse feito? Se sim, por favor, faça-a e a responda. Obrigado por sua atenção.
Imagino que já exista aqui uma vista mais que panorâmica de Raquel Ordones e que os pontos principais estão ditos nos questionamentos anteriores. Agradeço imensamente pelo cuidado em formular perguntas direcionadas a mim com tanta pertinência.
Meu carinho e admiração!

Ordonismos de Raquel

“Meu diário”
Hoje o dia despertou emburrado,
Nublado, o sol não quis sair da cama,
E fez drama; o bonito foi ofuscado,
Camuflado, nem tirou o seu pijama.

A lama jazer, pois o calor dorme,
Meu uniforme não secou no varal,
O meu jornal se molhou; sem informe,
E conforme estação não é normal.

Portal encharcou, tem uma neblina,
Na esquina um café, mas está vazio,
Frio corre solto a ferir a retina.

Menina nem respira em arrepio,
No fio, pio e pardal sem adrenalina,
Matina glacial, mas o sol nem viu!


“Sublimação”
A poesia vai além-composição,
Estação de quem chega e de quem parte,
Arte da essência, luz, coloração,
Comoção que na viagem é encarte.

Aparte o status se o poeta ostenta,
 E se inventa ser, foge ao natural,
Plural não vive; só alma sedenta,
Sustenta o encanto de jeito cabal.

Varal onde um alento se balança,
Trança pureza na singular teia,
Enleia-se; caneta, par da veia.

E semeia fascínio, afora lança,
Dança imaginação, afixo onírico,
Empírico do ser, ora em eu lírico.


“Fechando a porta”
Decisão: não quero ser observada,
Fechada, inda que dois olhos destacam,
Emplacam nos meus, à porta cerrada,
Ferrolhada de dentro, os eus empacam.

Achacam as emoções, imo se encolhe,
Que molhe em lágrimas, nada estanca,
Espanca a carne, que tudo desfolhe,
Acolhe-se à solidão de alma manca.

Desbanca-me o sentir, agora escuro,
Um muro eu criei; isolei o lá fora,
Chora a certeza, porque o medo implora.

Mora em mim um cruzamento duro,
Obscuro temor faz a vida morta,
Entorta o meu ser fechando a porta.



Raquel Ordones #ordonismo

Entrevista por Escobar Franelas
Fotos de Greg Ordones