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29.12.11

Autorretrato de autoria desconhecida

(antes a pesquisa era com câmera de telefone móvel. Agora é com qualquer obturador que tiver às mãos, na hora em que a oportunidade surge. Aqui, Pq. Ibirapuera, SP, dezembro de 2011, com câmera compacta Kodak C183)

28.12.11

Entrevista - Máh Luporini (poeta e editora)

Máh Luporini é uma poeta em ascensão. Digo ascensão remetendo os leitores deste texto às ideias primárias desta palavra: ascensão que se refira ao crescimento (a poeta "em processo" e "em progresso", constantes), e à subida (a poeta inquieta que transita, flana, inquire e provoca vertigens - pelos altos voos). Pois a filha do Dailor Varela, também ele poeta de signos cortantes, não para um minuto sequer. Nascida em São José dos Campos, morando na "aldeia" de Monteiro Lobato - esse jardim edênico incrustado no Vale do Paraíba - Máh, mal estreou nas letras com Ausências (2010), e dá reparos finais no próximo, Memórias de Lugar Nenhum, a sair em breve.
Também editora (com seu pai), do tabloide O Grito, um farol de alta voltagem na acanhada vida cultural do Vale, a poeta concedeu-me esse "dedo de prosa", em sua última passagem por Sampalândia, semanas atrás.

A poeta e o poeta José Geraldo Neres: líquidos diversos e muitas, muitas ideias

Escobar Franelas - Fale do seu percurso...

Máh Luporini - Comecei a me interessar pela carreira literária no final de 2005, quando descobri o maravilhoso vício da poesia. É um negócio que me fez acreditar um pouco na realidade do mundo. Costumo falar que a poesia me lançou num “buraco de Alice”. Daí surgiu meu primeiro livro, Ausências, de 2010. Foi um lançamento meio apressado, confuso, no Festival da Mantiqueira. Também participei da última Bienal do Livro em São Paulo.
Hoje me defino como pessoa inquietante na poesia. Comecei com Fernando Pessoa, depois Leminski, e então Roberto Piva, Ana Cristina César. Com isso fui descobrindo que poesia não é essa coisa certinha, é uma coisa provocativa. Sou fascinada por isso. 
Não consigo me imaginar fazendo outra coisa na vida.
Sou apaixonada por livros, por sebos, vivo disso, dou livros de presente...

EF - Você está chegando com um novo trabalho, quais as experimentações e perspectivas que você traz com isso... Aonde você acha que ele pode ter amadurecido?

Máh Luporini - A diferença entre o Ausências e o segundo livro, Memórias de Lugar Nenhum, é a abordagem sendo mais pessoal, essa a visão que tenho. Mas a diferença mesmo é o amadurecimento, pois o Ausências tinha uma poesia mais reflexiva, enquanto o Memórias eu dividi em três partes, com um olhar mais provocativo, com uma coisa mais ousada, que estou abordando. E estou muito mais autocrítica. 
Lancei o Ausências com muita rapidez, entre fins de 2009 e maio de 2010. Coisa que não fiz com Memória, que foi um trabalho muito mais intenso, com muita pesquisa, leitura. Estou trabalhando nele há mais de um ano.
Desacreditei muito no trabalho de editoras, pois o Ausências não me agradou nesse sentido e agora, com o novo, estou em processo ainda... Estou muito crítica com ele, ainda. É um filho que está demorando pra nascer.

EF - Isso é reflexo de novos autores que você anda lendo?

Máh Luporini - Sim, com certeza. Cada vez que pego um novo autor – atualmente estou relendo As Flores do Mal, do Baudelaire – eu olho e penso, “que porcaria estou fazendo com o Memórias?”

EF - Além de poeta, você é editora do jornal O Grito. Queria que você fizesse um paralelo entre sua arte poética e este trabalho de confeccionar um jornal:

Máh Luporini - Em relação ao O Grito, que surgiu de uma ideia junto com o meu pai para criar um veículo para novos autores e outras expressões, como arte e cultura, dança, teatro, literatura... um lugar onde os poetas pudessem divulgar seus trabalhos, ter um espaço pra eles. A gente está nessa guerrilha faz 5 anos, completados em outubro último. Mantemos O Grito na cara de pau, porque ter um jornal cultural não é fácil. A gente tinha patrocínio mas saíram fora, pois, segundo eles, “cultura não vende”, “cultura não ganha voto”.
O Grito hoje é uma rede amigos, que mantêm o jornal em pé, que são pessoas sonhadoras, que levam a cultura adiante. Essa coisa de encontro literário, de perspectiva, é uma coisa que... Bem, tenho um puta de um poeta em casa, que não é só meu pai, mas é meu amigo, um amante. (risos) E esse encontro acontece na minha própria casa, é uma troca de experiências. O Dailor está finalizando o 16º. livro dele, “P.U.L.SOS”, e damos palpite um no do outro, não existe esse papo de que ele é meu pai, eu sou sua filha. Os encontros são isso, diferente de lá fora.
Sou de São José dos Campos, moro em Monteiro Lobato, e a maioria dos poetas de São José vivem se reunindo em torno deles mesmos, pra fazer declamação um para o outro. Não tem ninguém ousado, que saia do Vale do Paraíba, e fale “vou divulgar meu trabalho em São Paulo, Rio, Paraná, daí por diante”. A maioria dos poetas é medrosa em relação a isso.
Fala muita ousadia nesse meio.
 Máh durante sarau na Casa das Rosas, em set/2011 


Texto e fotos Escobar Franelas 

25.12.11

Então é natal...

Desde pequeno que implico com o natal. Nunca tive muito apreço pela data, pois sempre a achei depressiva, com seu palavrório indulgente, asco que só foi crescendo, quanto mais velho eu ficava. A notícia do nascimento do Cristo na manjedoura simplória, a via sacra do casal virgem, a visita dos três reis, tudo isso sempre me pareceu muito surreal, gerando mais perplexidade que credulidade.
Hoje, contudo, já consigo conviver melhor com isso, talvez porque já tenha incorporado em definitivo o "espírito natalino" tal como ele é, sem máscaras: o clímax do afã capitalista.
Assim, aceito sem muitas elucubrações metafísicas a condição de que o natal é, in loco, o momento do consumo: consumo de mercadoria, consumo de mensagens positivas, consumo de frases feitas para repetir-se à exaustão, consumo de um anima mundi, que é moto-perpétuo irradiado como prazer coletivo. Real e imediato. E celebro da forma mais comezinha que me é possível participar: presenteando, abraçando, comendo e bebendo em excesso. Em janeiro sempre volto à forma antiga, correndo mais e expiando o pecado da gula com mais exercícios.
Admito meu cinismo quando cumprimento meus cordatos familiares e amigos com mensagens efusivas de apreço. Meus desejos de felicidade nesses momentos - juro! - é sincero. Só o signo linguístico que é falso, cheio de dentes falhos nas engrenagens. Mas, fazer o quê? Não serei eu o louco de estragar o "clima" do momento. A verborragia que sacraliza a todos nas mensagens carregadas de confusões edênicas, traduzem um sincero desejo de boas festas, que também repito, desejo, escrevo e retribuo. Faço parte da corrente, sem interromper a beleza dionisíaca da festa. Também me torno cristão nessas horas.
Assim, sendo natal ou carnaval, dia do trabalho ou período junino, férias ou dia da pátria, fico muito à vontade para repetir o bordão: "boas festas".
Boas festas.

18.12.11

Raberuan - Ausência de 30 dias (parece que foi ontem...)

O Legado de Raberuan

A imagem mais marcante que guardo do Raberuan foi a de um show que ele fez na Oficina Cultural Luiz Gonzaga, em São Miguel, lá pelos idos de 1999. O Sacha Arcanjo, coordenador do espaço, sempre convidava algumas escolas da região para assistir às apresentações do projeto Canto do Compositor (do qual Raberuan era o convidado naquela noite), e cujo propósito era, “formação de público para os artistas da região”, que eram chamados a participar.
E naquela noite, Raberuan teve a sorte de encontrar uma platéia de adolescentes inquietos. Esses, lá pela metade do show começaram a interferir ruidosamente no evento, rindo alto, contando piadinhas grosseiras, fazendo scratches com a boca, imitando os rappers da moda. Raberuan, com sua malícia tranquila, convidou então aquele que parecia ser o líder deles para também apresentar-se no pequeno palco. Pronto: estava armada a arena, pois o garoto até que tentou, mas foi vencido pelo convite preciso e o sorriso maroto do mestre de cerimônia. O rapaz foi, tentou brincar com a situação inusitada, encenou um pouco para os amigos e, por fim, voltou nocauteado para seu canto. A partir daí, não mais atrapalhou o show, assim como seus parceiros. Raberuan tinha o domínio do palco. Sempre teve.
Mas, afinal quem é esse Raberuan, que, contrariando a lógica comum, desafiou elegantemente – com o violão sempre em punho – a turba juvenil para uma conversa musical que, ao final, não se concretizou?
Falecido no último dia 18 de novembro, com 58 anos recém completados, o passarinho de cabelos desgrenhados foi embora mas deixou um legado enorme na vida artística e cultural de São Miguel e região. Ainda que sua carreira tenha ganhado contornos mais precisos a partir do advento do Movimento Popular de Arte (1978), Raberuan já estava na estrada desde o começo daquela década, junto com Sacha, formando a dupla Tomé e Simão.
Dono de uma voz intuitiva e cristalina e de personalidade carismática, personificava um crooner autêntico e visceral. O violão era outro quase componente de sua indumentária diária. Participou da coletânea que eternizou aquele momento emblemático do Movimento Popular de Arte (MPA), no long play homônimo de 1985, com a música Pela Estrada de Ferro, de sua autoria (e que seria depois regravada no seu ótimo cd Tião (2004), além de dividir o microfone com Sacha Arcanjo também na encantatória Cavaleiro Peri, composição dos dois.
Atualmente dividia a produção do projeto Memória Musical com Akira Yamasaki. A doença no fígado venceu a luta da carne, mas não impediu a vitória de sua arte. Sua última gravação, feita já com dificuldades mas com extrema delicadeza, foi No Quintal do Sacha, dele mesmo, em que saúda os velhos companheiros de arte e cachaça com quem conviveu todos esses anos1970, 80, 90, 2000...

Raberuan  em São Roque, SP, agosto de  2010

texto e fotos Escobar Franelas

15.12.11

Festival Fora do Eixo, Studio SP, 13/12/11

Festival Fora do Eixo Põe a Música em Rotação

Sampalândia, Brasil, 13 do 12 do 11, terça-feira, 11 da noite. O Studio SP está lotado. Casa cheia, sim, com muita gente bonita, muitas tribos, universitários, colegiais teens, hipsters e neo-hippies, pós-punks, rastafáris, almofadinhas, manos & minas, descolados e retrôs. Todos ali, juntos e misturados, dando forma substantiva à proposta básica do Circuito Fora do Eixo: conectar, interagir e fazer, tudo ao mesmo tempo, aqui, agora.
Este mote foi levado à exaustão pelo Circuito nesse ano de fincar bases na Paulicéia, demarcar território e mostrar a originalidade e seriedade de seus projetos. Feito  isso (com tesão, organicidade, talento e profissionalismo, diga-se), eis que o Congresso Fora do Eixo acontece por esses dias (11 a 18) em vários lugares da cidade. Respira-se plenárias, atos, feiras, observatórios, intervenções, reuniões, conferências e consultorias, entre muitos outros elencos. Um dos quais, o Festival Fora do Eixo, contempla os gêneros musicais. E o Studio SP, parceiro de primeira hora, entrou com a programação do Festival nessa terça.


Cérebro Eletrônico: Tatá em 1o. (Aero)plano

Quem primeiro compareceu ao palco nessa noite foi o Cérebro Eletrônico. Com a eficiência e o talento de sempre, a banda de São Paulo (Tatá Aeroplano na voz; Fernando Maranho na guitarra e vocais; Renato Cortez no baixo e vocais; Gustavo Sousa na bateria e vocais; e mais Fernando TRZ nos teclados), primou pela excelência de seu pop-rock, de texturas coloridas que contagiou o público que lotava a casa.

Pública: rock é isso!

Logo após foi a vez do Pública adentrar o espaço. A banda, composta por Pedro Metz nos vocais, Guri Assis Brasil (guitarras e vocais), Alexandre Papel (bateria e vocais), Guilherme Almeida (baixo) e com o convidadíssimo Thiago Klein (Quarto Negro), no teclado e João Eduardo (ex-Los Porongas) na guitarra, convidava a todos a um percurso dos anos 60 aos 80, com seu rock preciso e contundente. Guitar-band de excelência, o grupo nos fazia pensar nos grandes festivais de rock, extrapolando todas as expectativas de quem temia assistir apenas ar um “simples” show. Ao contrário, ofereceu um concerto de rock provido de toda a carga emotiva que o gênero suscita entre nós.
Ney Hugo: baixo profano

Ynaiã Benthroldo: bateria catártica

Bruno Kayapy: inumano

Orquestra roquenrônica formada por três instrumentos, o Macaco Bong tomou então conta da madrugada. E que madrugada!
Evocando um duplo sentido para as sensações possibilitadas durante numa audição, a música do MB trafega em todos os espaços a nós permitidos, ora pelos sentidos,  ora pelo intelecto. Outro ponto inquestionável: a atitude, a adrenalina, o comportamento dessa música em nossas veias e músculos. Pois não permite que fiquemos parados, somos impelidos a bater freneticamente a cabeça, balançar os quadris e braços, marcar o compasso com a palma dos pés. Qualquer adjetivo serve para qualificar a música excedida, que vaza dos instrumentos em combate e expõem as vísceras do sentimento reprimido que aproveita para extravasar nessas horas.
Isso explica em partes porque o público não arredou os pés nas duas horas de show, enquanto os xamãs ululavam no palco. Ensandecidos, o fleumático Ney fazia do baixo uma parte do seu corpo inquieto, Ynaiã transformava a bateria num coração palpitante e incansável, e Bruno – tal qual um Hendrix endoidecido – arrebentava cada corda de suas guitarras, para usá-las num ritual que era mais que sonoro, era um arrebatamento que nos tirava para fora do eixo. Não foi um show, foi uma orgia sonora o que vimos no palco do Studio SP.
Três da manhã. Saí para respirar a Augusta. A madrugada estava muito mais bonita. Na cabeça, a certeza de que foi uma das noites mais viscerais que já vivi nessas minhas quatro décadas e pouco de vida.

Texto e fotos Escobar Franelas

Shows (Studio SP - 06/12/2011)

Zona Sul Toma Conta de Palco na Augusta

Subo a Augusta devagar, sem pressa, curtindo a noite amena da Sampalândia. Pouco mais de 20 graus são mais que suficiente para agradar gregos e “paulistroianos”, fazendo todo mundo sair da toca, se encontrar, celebrar a vida. Quando chego junto ao do Studio SP (rua Augusta, 519, centro, SP), a fila tá engrossando. Todo mundo ali quer curtir Z´África Brasil, Wesley Nóog e Veja Luz. Todos os três, oriundos “lá da fundão” da Zona Sul, vieram para tomar conta do palco. Trouxeram também um público fiel, que abarrotou a pista, dançou muito e cantou junto.
Fruto de uma parceria da casa com o Circuito Fora do Eixo, o Projeto Cedo e Sentado é uma síntese do novo que está acontecendo na música em tempos em que os velhos modelos de produção, distribuição e consumo de música já não servem mais. Não por acaso, a festa desta última terça, dia 6 de dezembro, apresentava também a outsider Banquinha Fora do Eixo, com sua rica variedade de artesanato, cd, dvd, livros, flyers e zines, para a curtição do galera. Ah, sim, também as sempre presentes projeções de vídeo do pessoal do Clube de Cinema Fora do Eixo, além – é claro – da recepção sonora, caliente e instigante do dj Tano, ajudavam a construir o clima da noite.

Veja Luz em cena

Então, o reggae do Veja Luz invadiu mentes e corpos. Foi o primeiro a demarcar a elaborada mensagem positiva da noite. Com suas letras pacifistas de tributo a Jah, Fernando Novaes (voz), Leandro Kinte (guitarra e vocais), Marcos Rosa (baixo e vocais), Marcelo Caveman (bateria), Roberta – fazendo seu primeiro show com o grupo (percussão), Marcelo Killaman e Edy Ricardo (teclados), e Nando Rangel (guitarra), esbanjaram carisma, cumplicidade e vibração sonoras, criando um “climão” introdutório para a longa noite que estava por vir.

Wesley Nóog em cena

Wésley Nóog herdou do Veja Luz tanto o palco como a sincronia da banda anterior, que nem saiu de cena, apenas aguardou a troca de vocalistas para manter o contágio da festa. Esfuziante e siderado, com seu pé musical fincado na música negra brasileira contemporânea, Nóog é a simpatia em pessoa. Tributário de Tim Maia, Bebeto, Benjor, Ed Mota, Cassiano e outras aves canoras da música popular negra do Brasil, fez um show repleto de referências, transitando com desenvoltura em meio a muito balanço, funk de primeira e soul.

Público em transe diante do Z´África Brasil

Logo após, o Z´África Brasil subiu, trazendo de volta muitos dos músicos que já tinham descido. Gaspar, Pitcho e Funk Buia e o incansável dj Tano (que tocou todos os sets da noite), soltaram suas metralhadoras sonoras, secundados pela ótima formação Marquinhos (baixo), Caverna (bateria), Edy (teclados), além dos convidados pra lá de especiais, Leandro (guitarra) e Denis Man (percussão).
O trio de mestres de cerimônia pregam a cultura pela educação e não abrem mão da proposta cultural que não permite subentendidos. A postura radical, longe de parecer violenta, é, antes, um enfrentamento direto do problema que assola as periferias do mundo todo. Tanto que contaram com a participação especialíssima do mc francês Rockin'Squat (grupo Assassin), que, contagiado, destilou mais adrenalina na platéia ensandecida. Revolucionários, sim, mas totalmente do bem.

Dj Tano em ação

Shows longos, público respondendo à altura, penso cá com meus botões: “que posso querer mais?” Talvez descansar um pouco, e esperar outra boa oportunidade como essa.

Texto e fotos - Escobar Franelas

8.12.11

Antes de Evanescer - A Ideia (Epílogo)

foto de Alexandre D´Lou

Para escrever o texto, isso mais ou menos a partir de junho de 2006, aproveitei muito do tempo que dispunha quando trabalhava em Barueri, SP, e enfrentava duas horas e meia de condução para voltar para casa, no finalzinho da tarde. Passei a usar o trem para esse retorno, pois dentro do ônibus (executivo), era natural que dormisse no trajeto pela Rodovia Castelo Branco e Marginal Tietê, sempre congestionado. Entre as estações Carapicuíba e Palmeira-Barra Funda, porém, o ritmo do trem não permitia o cochilo automático, mas dava para rabiscar algumas ideias. As linhas de Antes de Evanescer foram então tortamente escritas em um caderno durante alguns meses. Nos fins de semana, aproveitava e reescrevia tudo no micro.
Depois de pronto, o texto ficou em banho-maria durante mais de um ano, quando então voltei à carga e o refiz, acrescentando trechos, fazendo correções e aumentando o tamanho para mais de 200 páginas. Novas férias dessa história.
Mais um ano e voltei a ele. Na nova empreitada, percebi que tinha "gordura" demais, reescrevi tudo, mantendo apenas alguns catados do original. Agora era apenas 50 páginas mas dúvidas atrozes me encasquetavam e travavam o processo de levá-lo a cabo. Fiz cópias deste texto para alguns amigos, esperando que a leitura deles poderia dar um norte, mas não houve retorno confiável. Achei que esse barco precisava de novos rumos.

foto de Claudemir Santos

E os "novos rumos" vieram da maneira mais despropositada. A partir de abril desse ano, desempregado - ahá! - entrei de cabeça no projeto "Acabar de Vez com Essa Agonia": li, reli, tresli, quadrili, enxertei, cortei, esfumacei (o cérebro), até que - ulalá! - dei por terminada a tarefa, isso mais ou menos em julho, agora com as medianas (e finais) 100 e poucas páginas. Não era o texto longo do início, tampouco o conto magrelo da penúltima fase. Mas tem a essência das ideias que pululavam no início de tudo, o tal maio de 2006.
Nova distribuição entre amigos leitores e algumas respostas (positivas e negativas - talvez esteja aí o segredo!), deram-me a certeza de que estava numa picadilha com "norte" à vista.
Taí! Publiquei...

foto - divulgação

6.12.11

Antes de Evanescer - A Ideia (Parte I)



Antes de Evanescer nasceu durante o ciclo de violência de maio de 2006. É claro que a violência não nasceu ou acabou ali. Aliás, não acabou nem vai acabar, ponto final.
Mas o ápice de seus fatos e a observância de que o movimento banditício tinha se arrumado politicamente (daí a novidade!), fez surgir em  mim uma série de questionamentos: por quê? como? quando? (a)onde?
E mais ainda: alguns dias antes do período mais violento, pegando a van de lotação em casa indo para o metrô, ouvi uma conversa que a princípio achei descabida. Depois os fatos a explicariam em detalhes e da forma mais verossímil possível. Foi assim:

"Eu (sentado num banco), lendo uma revista, acabei por ouvir esse diálogo:
- E aí, cara, tudo bem?
- Eu, tudo. E você?
- Tô legal também. Nuns "corre" e nuns "planejamento".
- Eu também.
- Aliás, falando nisso, tô meio que numa sinuca de bico. 
- Sério? Diz aí...
- Tem um trampo bom pra fazer, longe daqui, lá no interior. Muito dinheiro na jogada...
- Pô, legal!
- É, mas o "partido" pediu pra cumprir umas tarefas, justo agora. E eu e meu pessoal não ´tamos a fim...
- Meu, se o "partido" mandou cumprir tarefa, é melhor fazer, meu! Os cara são "foda"...
- Pô, e vou perder a chance de ganhar uma grana alta?
- Bicho, vai por mim, é melhor cumprir a tarefa que o "partido" mandou. Os caras não tão pra brincadeira. Se te encomendarem, cê tá frito... Já vi muito neguinho morrer de bobeira, porque lá dentro jura bandeira e aqui fora sai de banda.
- Sério?
- É...

Dias depois começou a fuzilaria em São Paulo. Só depois disso tudo, é que entendi o que tinha ouvido.
Isso, em mentes inquietas, acaba por permitir a criação. Criei então Antes de Evanescer.