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15.8.17

Um textículo: "regeneração"


quero alegria
dispenso a dos comediantes pagos
quero música - muita música - 
mas não aquela do toca-discos
sim para os sons de chuva, de nós
de um presente sendo desatado
quero paz
ainda que  descarte o fetichismo
de bandeiras ou pombas brancas

quero alegria
mas nada de comediantes tristes e deprimentes
e música, concerto de gemidos
suspiros apaixonados, sussurros
em noites de amor insone
quero paz - muita paz! -
a paz que declara guerra ao marasmo
à rotina, aos bons costumes  

só a carne me interessa
a carne, com seu humor e textura
cheiro e sabor 
suas sentenças bélicas
sangue represado nas veias
espírito rutilante 
alma evanescente como éter

11.8.17

Um textículo: "sobrentendidos"


Agridoce, mais que adjetivo, é metáfora do amor. Nada, ninguém explica  o que é, mas todos reconhecem o seu gozo.

10.8.17

Um textículo: "vento"


vento
tempo de bagunçar tudo
de levantar cabelos
subir vestido
de ajudar a apertar o abraço
elevar as asas 
até você

vento
tempo em distorção
apressado atrasando
todo esse querer

tempo é brisa
vento que nunca para

9.8.17

Um textículo: "espelho"


Oi,

as metáfora sempre explicam mais, pois sempre vêm desvestidas da casca dura dos significados reais. 
Fique com um forte abraçaço, 
Eu

8.8.17

Um textículo: "solilóquios"


1
a vida desde sempre
é mais que calendário na parede
é muito mais que festa de aniversário
casamento, viagens, trabalho
família, velório, amigos
a vida também é impedimento
cassação de mandato
peça de único ato

2
pessoas passam. e carros
estradas nuvens pedras
tudo passa
o amor, lembranças, a vida toda
dentro de mim, porém
uma eternidade permanece imóvel
enquanto passo

3
todo dia a gente acorda
do sonho
e tudo é passado
e tudo é futuro
enquanto o sono
não chega

7.8.17

Um textículo: "além do ´eu te amo´"


sonho, principalmente acordado
uma cor intensa de várias cores
sonho, principalmente acordado
um calor gélido que evapora 
sonho, principalmente acordado
um frio escaldante que arrepia os poros
tudo acordado
parece sonho

6.8.17

Um textículo: "borboletras"

Original em https://www.pinterest.com/bcykwan/indoor-plants-that-wont-die/ 

risco no céu anil 
retângulo de milhões de pixels
uma centopeia alada
alarga a pupila de se olhar a mais
raro lume que rasga o véu
em tom sobre tom
cor sobre cor
ciano? chumbo? cobre?
derramamento de sons silenciosos
(toda tela é uma orquestra sinfônica
em extática inércia)  
linhas tecem fios no ineditismo renovável
da vida sempre renovada

rios laranjas de águas ocres
verdes ares sufocantes
sobretudo a cor pastel a
lentamente
eternamente
acinzentar

quando há falta de energia
ou de papel
ou de cópula
casula-se
até o próximo mininanomicro big-bang
e a expectativa do novo voo

5.8.17

Um textículo: "inventário"


a mãe de meu pai ensinava rezas
a mão de meu pai me ameaçava
a professora segurava a asa
não deixava sonhar
a polícia cercava
o hospital dava medos comprimidos
nos jornais as letras eram de sangue
suor e sêmem
às vezes nessa ordem. ou não

só o tubo da tv
os desenhos, animados ou não
e os livros
deixavam eu voar

a goiabeira do vizinho dava goiabas
a mãe dava galhos de goiabeira
no lombo do filho único
a rosa dava flor e perfume
rosa me deu o primeiro espinho
que dói até hoje

o mundo é uma bola
dizem
deus chutou na trave
dizem
só o sol é gol
dizem

falam por aí que falo demais
logo eu
falho
demais