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26.12.13

Entrevista: Daniel Marques (arte, educação e militância cultural) - Itaim Pta., SP



* Daniel Marques da Silva, educador e artista de múltiplas expressões, tem como principal característica seu cartão de visitas: o riso estampado no rosto. Disposto a entender como vive e o que faz esse humano ser de semblante incorrigivelmente alegre, chamei ele para um dedo de prosa. Mesmo morando geograficamente perto, ainda assim temos muita dificuldade de sincronizar as agendas. Por isso mesmo, o bate-bola foi via “inbox” do Facebook. E a conversa rendeu, como todos poderão observar a seguir. Degustem-no!

1) Quem é Daniel Marques?
Sou um ser exagerado de nascença, emocional, filho único, ator e por ser ator, um cara de pau que transita em outros meios artísticos como as danças brasileiras. Sou um dos organizadores do Sarau “O Que Dizem os Umbigos” que acontece no bairro onde vivo, Itaim Paulista. Amo poesia, música, o samba me faz feliz, gosto de andar a pé, ver pessoas, paisagens, estar com bastante gente. Acredito na vida e no poder de transformação que a coletividade pode ter. Minha alma é de viajante.

2) Como a arte se manifestou em sua vida?
Sempre fui meio hiperativo desde criança, arteiro. Mas a arte propriamente dita veio a partir do momento em que comecei a fazer teatro na escola, quando estava na 8ª série. De lá pra cá eu e a arte mantemos uma relação amorosa e que lutarei para que seja duradoura.

3) Quem ou "o quê" influenciou seus caminhos, nesses anos todos?
Minha mãe, um professor de história por nome Raimundo que me incentivou a iniciar no teatro, oficinas culturais livres, grupos dos quais participei, amigos.

4) O que você curte? Ouve? Assiste? Lê?
Curto o mundo das artes, teatro, danças brasileiras, MPB, músicas regionais. Apaixonado por Jorge Amado, Solano Trindade, costumo viajar pelo Brasil embarcando sempre na literatura brasileira. A poesia me instiga, ainda mais aquela que vem dos saraus das periferias, das margens, me nutre cada vez mais para seguir adiante, ser um forte e um combatente. Não gosto do "lirismo comedido" (parafraseando Manuel Bandeira).

5) Como você vê esse protagonismo da periferia hoje? O que está acontecendo vai numa direção legal?
Hoje em dia a periferia é protagonista. Hoje estamos a escrever nossa própria história através de um cenário independente, seja por meio das artes como: os saraus, o teatro, a dança, a música ou pela organização em movimentos sociais, lutando sempre por participação e representatividade em meios que fomentam o debate político. Estamos a redesenhar novas possibilidades, tornando nossos solos-bairros mais férteis e produtivos. Não precisamos de porta vozes, hoje nossa voz é forte e faz ecoar os nossos sonhos e ideias.
Estamos no caminho de mudanças históricas e significativas e, por que não dizer?,  revolucionárias!

6) Quais as suas considerações sobre as manifestações que acontecem desde junho no Brasil?
Creio que as manifestações são a anunciação de um novo ciclo, quando a crise se instaura é aí que existe a possibilidade de uma mudança real da realidade. Só temo pelo esvaziamento das ideias e das propostas levadas as ruas. De início se lutou pela proposta concreta da diminuição da tarifa do transporte de 3,20 para 3,00, depois quando o "gigante acordou" e milhares de pessoas tomaram as ruas as causas começaram a se tornar difusas, houve um nacionalismo perigosíssimo que muito se assemelhou ao fascismo onde "quem não estivesse de verde e amarelo não amava o seu país", ou "quem está de vermelho não merece estar na luta", correndo assim sérios riscos de integridade física, havendo uma espécie de "caça às bruxas" a quem vestisse ao menos uma simples camisa rubra. É importante irmos pra as ruas e ocupar os espaços públicos desde que haja uma conscientização anterior dos motivos da luta, o porquê se luta e o para que se luta.
Manifestar sempre!

7) As novas tecnologias estão associadas a uma reumanização real que está na sociedade ou são apenas uma nova linguagem?
Creio que as novas tecnologias são uma nova linguagem potente e que podem incitar movimentos e transformações. Vejo como positivo pelo lado da disseminação rápida da informação, fissuras que são possíveis de serem feitas nas mídias hegemônicas a partir do momento em que se veicula nas redes sociais outros tipos de informações, que muitas vezes não passam nas grandes emissoras televisas, por questões de uma ideologia dominante e perversa. Mas ainda é preciso nos reconectarmos das formas mais humanas possíveis, como através de ações diretas nas ruas, encontros pessoais, debates em grupo, sentir a vida de forma presencial.


(Será que entendi a pergunta? É isso mesmo?)

Escobar Franelas: (a resposta está linda para uma pergunta talvez mal formulada. Obrigado)

8) Com o quê você está "metido" no momento?
No momento estou metido com algumas coisas que me realizam e me completam. Sou um dos organizadores do sarau “O Que Dizem os Umbigos", ação que lançará brevemente uma antologia poética. Recentemente fui convidado para participar de uma montagem de uma peça infantil. Estou dando aulas de maracatu para crianças e adolescentes. Participo do Fórum de Cultura da Zona Leste, que vem debatendo desde o inicio de 2013 políticas públicas para as periferias.
Estou lendo, creio que este seja o ano que mais li livros bons e muito interessantes. Estou a exercitar a escrita. Me sinto inquieto, entre a busca pela felicidade e a revolta social. Descansar um pouquinho, parar jamais! Quero as estrelas.

9) Sei que justamente quando Mandela faleceu, você estava lendo a sua biografia. Qual o legado dele para todos nós?
O que fica de mais forte do querido Madiba (Mandela) para mim é a possibilidade de mudar a realidade, nada é inalterável. Ele se intitulava como um combatente da liberdade, isso diz muito, vai além do que as pessoas o atribuem, como se ele tivesse sido um pacifista dócil. O cara acreditava no poder dos estudos, na valorização de suas origens tribais, não se esquecia de sua origem humilde. Lutou bravamente contra o apartheid racista, mostrando que o povo negro africano era sim capaz de derrubar um sistema tão cruel e segregacionista através da organização popular, através da politização e da conscientização da realidade na qual estavam inseridos. Nenhuma prisão ou opressão é capaz de aprisionar uma mente sã. Madiba será eterno, é um símbolo da resistência que será sempre lembrado. Levarei ele em minha mente e em meu coração. Ainda estou lendo sua autobiografia. Quero que suas idéias me auxiliem cada dia mais, para que eu me torne um homem forte, um combatente!

10) Tem alguma questão que gostaria que eu tivesse formulado e não fiz? Se sim, por favor, faça você mesmo e depois a responda. Obrigado!
(Beleza! Pensarei e mandarei o quanto antes)

10. Você sonha?
Sonho com um tempo em que possamos ser mais coletivos, silenciando os egoísmos. Sonho com uma vida mais poética e que a arte tenha a mesma importância (ou mais) que o futebol. Sonho de pés no chão, pois ainda há muito trecho para correr e muitos anseios que precisam voar.

(Obrigado, meu querido, sobretudo pela paciência. Um forte abraço! E que em 2014 podemos nos ver mais!)


Daniel, à esquerda, com outros educadores na Bienal de SP 2012
 texto e fotos: EF

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