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7.8.15

Entrevista: NÉLIO GEMUSSE (Literatura) - Moçambique




(Nélio Gemusse, jovem promessa das letras moçambicanas, aporta aqui para falar da beleza da arte conjugada com a vida. Cita fatos, relembra o mano, comenta sobre sua obra e faz planos para o futuro: degustem-no!)

1) Quem é Nelio Gemusse?
Bom, Nélio Gemusse é um escritor e poeta moçambicano, nascido na cidade de Maputo aos 04 de Fevereiro de 1993.
Vindo de uma família humilde, apaixonou-se pelas letras muito cedo, influenciado por grandes escritores como: Pablo Neruda, Agostinho Neto, Calane da Silva, Paulo Coelho, entre outros, começou a escrever poesias.
Pela dificuldade que enfrentou em termos financeiros, somente em 2015 lançou a sua obra de estreia, intitulada “Valério", que para muitos foi um espanto, já que se trata de um conto, pois as pessoas apenas conheciam o seu lado poético. Para além da sua obra, participa de duas colectâneas, nomeadamente: “Antologia de poesia contemporânea V.6“, com “Poema de Saudade" e da “Antologia de Poesia em Homenagem à Manoel de Oliveira”, com o poema “Manoel de Oliveira".

2) Conte um pouco de sua infância:
A minha infância foi muito simples e boa.
Sendo filho de um funcionário público, vivi em duas cidades (Maputo e Quelimane), devido às transferências do meu pai, e isso fez com que eu conhecesse e fizesse boas e novas amizades e entrasse em contacto com novas culturas.
Isto é que marcou mais a minha infância, não me esquecendo daquelas brincadeiras do bairro, com aqueles brinquedos inventados por nós, pois não tínhamos condições para comprar brinquedos novos ou nas caixas como os outros meninos da cidade.
A perda do meu irmão mais novo, foi uma ferida adquirida na infância que não se cicatriza até hoje, apesar da idade que tinha, aquele acontecimento mexeu muito comigo.

3) Quando foi que você começou a sentir os primeiros sobejos da arte em sua vida?
Tudo começou quando li um livro por completo pela primeira vez (“Sagrada Esperança”, de Agostinho Neto), para além dos textos que vinham nos nossos livros de português do ensino primário.
As telenovelas brasileiras, os filmes, etc, influenciaram de uma certa forma para o meu gosto pela arte, devido aos papeis dos personagens, as estórias, as surpresas, por ai em diante.
Mas de uma forma resumida, o amor, a paixão pelas artes se manifestou ainda cedo em mim. Tanto que hoje em dia, não vivo sem assistir um bom filme, sem ir ao teatro de vez em quando, de ler um bom livro e de escutar uma boa música.

4) E a vontade de escrever mais seriamente?
Naquela de contar histórias, muitas das vezes improvisadas para amigos da zona e colegas da escola, algum tempo depois, eles próprios aconselharam-me a escrever a sério e mostrar para o mundo, pois eu tinha talento para tal (segundo eles).
E dai comecei, em 2012.

5) Conte pra nós um pouco como é sua vida, o que faz, no que trabalha, se estuda, os divertimentos, a cena cultural em Moçambique (lembre-se que estou entrevistando você a partir do Brasil e tenho minhas curiosidades):
Bom, eu levo uma vida muito simples, curso ciências policiais pela ACIPOL (Academia de Ciências Policiais). A residir em Maputo, sempre que posso desloco-me à cidade de Quelimane onde sou patrono de um projecto (Allien Eventos), que promove lanches para os meninos de rua, pelo menos uma ou duas vezes por ano.
Como qualquer jovem da minha idade, também tenho os meus momentos de lazer, que no fundo, também envolvem a cultura, música, filmes, teatro (principalmente).
A cena cultural em Moçambique está no seu mais alto nível, talentos não faltam nessas terras de Machel, mas acredito que estaríamos melhores ainda, se tivéssemos mais apoio por parte do governo.
Mas enquanto não há esse apoio, nós os artistas fazemos a nossa parte (e fazemos bem).

6) Fale sobre Valério:
De uma forma resumida:
“Valério" conta a história de um menino de rua e usuário de drogas, que no desenrolar do conto conhece alguém, que sou eu (conto a história na primeira pessoa), e graças a Deus ganha uma oportunidade de mudar de vida, e por acaso muda. Contudo, passou por altos e baixos, superando vários obstáculos.
E para a surpresa de todos, no final de tudo, quando tudo parecia estar bem, cometeu o maior erro da sua vida, que foi… (Só lendo) hehehe.
Por que Valério?
Porque foi uma forma de homenagear o meu irmão mais novo, que infelizmente já não se encontra no mundo dos vivos, não só, quando procurei a origem do nome descobri que Valério significa "robusto", "cheio de vigor", "cheio de saúde" e e até "valente". Vem da palavra latina “valere”, que significa "ter saúde". E isso se enquadrava perfeitamente no personagem, e dai ficou.

7) E agora, está preparando algo novo para seus leitores?
Sim.
Já agora estou a negociar com algumas editoras, pretendo lançar ainda este ano uma obra poética, intitulada "Poemas Genuínos", que conta com o prefácio do grande escritor Helder Diniz e com a capa do grande artísta plástico Jõao Timane.

8) Como você sente hoje o mundo das criações artísticas em Moçambique? Pode considerar que há uma arte genuína ou a influência de outros países é mais determinante? Por favor, comente sobre isso:
O mundo das criações artísticas em Moçambique está e sempre esteve bem, apesar das dificuldades que os artístas enfrentam cá. 
Quanto às criações artísticas, nós, os artístas contemporâneos é que sofremos um pouco das influências dos outros países, por causa dos intercâmbios, da mídia, etc. Mas sem perder a originalidade e o foco, que é de transmitir a nossa cultura para os outros cantos deste mundo.

9) Tem alguma pergunta que não fiz mas que você gostaria que eu tivesse feito e não fiz? Se tiver, faça você mesmo e a responda, por favor.
Acredito que não, através das tuas perguntas acabei abordando um pouco de tudo,
O essencial ficou.



Texto: Escobar Franelas
Fotos: página de Nélio Gemusse no Facebook

Um comentário:

Diário do Escritor disse...

Gostei muito da entrevista. Bem interessante. Eu já conhecia um pouco sobre Maputob, pois em minha casa hospedei, em 2014, o poeta Mahiriri Ossuka.
Nélio Gemusse, muito sucesso para você.
Tudo de bom.

Parabéns, Escobar Franelas.