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20.9.16

Entrevista - ALBA ATRÓZ (Literatura e Educação) - SP

Allan Régis, autoafirmado Alba Atróz (foto: Facebook)

1) Quem é Alba Atróz?
Alba Atróz é como o Allan Regis se sente: uma metamorfose de um pássaro albatroz quando este se viu fora ou rancado de seu habitat natural, longe de seu arquipélago, dos nevoeiros descritos por Baudelaire, em risco de extinção, obrigado a refugiar-se às margens, na periferia da grande e caótica metrópole, entre outros seres em diáspora, na luta por manter-se vivo. Seu nome fragmentou-se em duas partes formando um híbrido ideológico e um símbolo de resistência contra aqueles que o afugentaram e ainda persistem nos maus intentos. O Alba faz, intencionalmente, alusão e homenagem a uma forma de poesia medieval conhecida exatamente por este nome - em que os notívagos artistas, amantes da poesia lamentavam em seus motes a chegada do dia, que raiava “atroz”, sempre após o anúncio dado pelos gritos amedrontadores de um vigia da torre de uma prisão, como se fosse um profeta apocalíptico, avisando que a noite ou o bom momento prazeroso que tiveram juntos, tais poetas, às escondidas, findara-se pela insensibilidade dos que tramavam e vieram enganá-los e trai-los ao raiar de uma infeliz aurora que até hoje insistem em legitimar como progresso. Foi numa batalha épica que o sobrenome Atroz acabou sendo atingido por uma adaga inimiga bem em cima da vogal "o" de seu fragilizado corpo e ali permaneceu cravada, gravemente acentuada, como um espinho na carne, para torná-lo Atróz.

2) Como iniciou seu percurso literário?
Caro Escobar, eu rascunho desde muito cedo... Tenho na memória minhas garatujas recebendo elogios das professoras e tias...rs... Ficava de castigo na biblioteca da escola quando aprontava - passei a tomar gosto pelos tomos de Lobato, pelas fábulas de Fontaine e contos dos Greens... Aos nove, num diálogo com minha falecida avó materna, tracei as primeiras linhas do que viria a tornar-se - depois de muito apoio de amigos (incluindo você e Cida Santos!) - o romance histórico "Reminiscências-Meu Bairro de Guaianases", lançado em 2012 na Biblioteca Pública Cora Coralina, em comemoração aos 156 anos do bairro. Eu potencializei meu gosto por livros através do apoio de meu irmão Luciano Regis que sempre me levava aos sebos. Foi meu irmão que me apresentou os clássicos da literatura brasileira como, por exemplo, Alencar, Machado, Aluísio, Lispector... Acho que me formei mesmo após ter lido Arthur Conan Doyle e Júlio Verne... Passei a ter a pretensão de ser um grande escritor depois destas leituras... Comecei a levar muito a sério o ato de escrever e a literatura como arte... Lancei-me a principio como Allan Regis (meu nome de registro), mas já carregando comigo um sentimento de pássaro refugiado... Até que eu e minha companheira, Cris Oliri, estudamos muito as características do Albatroz como arquétipo, sobretudo sua resistência às adversidades... Era como realmente me sentia... Aumentei então os sentidos da palavra e lancei o manifesto Alba Atróz para dali em diante ser reconhecido como um pássaro refugiado na periferia da cidade grande, na luta pela preservação de sua espécie e habitat.

3) E como foi construída a oportunidade de publicar o primeiro livro?
Veio durante o curso de letras quando começou a rolar informações a respeito de lançar-se... A internet, sem dúvida, foi o meio principal que abriu muitas portas; editoras e gráficas expandiram seus horizontes, trazendo ofertas, num boom do mercado editorial alternativo, propiciando a minha entrada e de vários outros camaradas que estão aí hoje e que viveram situações semelhantes às que eu vivi... Eu lembro do "entrelinhas", programa literário da tv cultura, anunciando maneiras de se publicar online - eu e a Cris corremos logo em busca da concretização pela internet... Foi assim...

4) Quantos livros você já lançou até o momento?
Ao todo são 7, porém os 4 primeiros que listo abaixo receberam melhor repercussão por terem sido melhor trabalhados e divulgados. Ainda vou revisar os outros e relançar, tenho esta pretensão.
Observe:
1. Reminiscências - Meu Bairro de Guaianases (Romance histórico)
2. Mil horas sem fim (Novela - Romance)
3. Ler-te Integral - Escritos tipo A (Coletânea de Contos)
4. Virtuose (Romance tese e Simpósio textual sobre a lei da redução da maioridade penal)
5. Instinto Desajuizado (Infantil)
6. As teias de Bento Santiago (Ensaio sobre a obra Dom Casmurro)
7. Colcha de retalhos (Coletânea de contos)

5) Como você vê a arte no mundo atual?
Estou presenciando a revisão de conceitos sobre o que e o que é não é arte e vendo o que um dia foi desconsiderado e excluído tomar seu espaço cada vez mais em nossas vidas, quer seja na literatura, na música, artes plásticas ou na pintura. Pra se ter uma ideia, na escola de nossa época, as grandes referências de tais atividades humanas era tudo aquilo que estivesse exposto em grandes museus da Europa. Os caras do Renascimento, do Barroco e do Modernismo eram os bam bam bans e eram quase sempre as grandes referências que tínhamos sobre o horizonte artístico no mundo e os exemplos do que era ser artista.  No Brasil aprendíamos a admirar Brecheret e Anita Malfat e nos víamos de alguma forma na força de vontade ou superação de Aleijadinho. Na literatura os escritores, em sua maioria, eram os clássicos, os da academia, os prêmios nobel, os que iam cair em concursos ou vestibulares. Não existiam muitas alternativas, criávamos as nossas próprias artes, nos nossos guetos e não éramos reconhecidos como arte por quem ensinava o que era arte. Hoje estamos vendo os grafites do Bronx em grandes galerias e museus e a periferia elevarem-se cada vez mais como um lugar de muita cultura, mãe de grandes artistas - antes ás margens - e pensadores formarem opiniões libertadoras. Estamos influenciando mais do que somos influenciados, e o novo está vindo de nós para recontarmos a história antes mal contada.

Foto: arquivo Fb -Alba Atróz


6) Uma marca muito palpável de sua escrita é o contexto urbano atual. A urbe do século XXI o inspira? Ou o faz transpirar?
Mexe profundamente comigo, me abala. Por exemplo, não consigo ficar indiferente ao que anda acontecendo nas esquinas e vielas, nas escolas, nas ruas, no vai e vem alucinante em prol do consumo predatório, em detrimento do humano e como as pessoas criam seus próprios guetos, como são devastadas pelas drogas e toda a ideia de ser feliz pela compra e apego a objetos materiais. Como compramos de forma efêmera, volúvel, pelo impulso dado pelos comerciais mentirosos. Bebemos, fumamos, maltratamos, xingamos, pisamos, matamos, ainda pra ter o "mundo do Marlboro" resistente nos outdoors e links semelhantes em mídias que não querem libertar-nos de suas amarras. O capitalismo sempre ergueu seus luxuosos edifícios sobre as costas do povo. Acho que nunca vou me cansar de declarar esta descoberta. E o estado de vulnerabilidade da juventude atual parece maior, pois os vazios cresceram com a quebra de diversos vínculos afetivos que antigamente eram mais presentes quer seja entre familiares ou professores nas escolas, assim como entre os vizinhos e sociedade em geral. Este cenário é que trago pros meus livros.

7) Está tramando alguma coisa neste momento? Se sim, o que vem por aí?
Puxa! Há muitas tramas, caro Escobar... rs..., mas estou priorizando atualmente uma antologia poética ideológica que vem por aí, cujo o título é "Poemas de autonegação e Manifesto Poético Alba Atróz", e também um novo romance chamado "Um aprendiz de poeta"... Tenho garimpado assuntos diversos e pesquisando muita coisa... Viso mais pra frente lançar um romance biográfico de um falecido amigo roqueiro, conhecido pelo apelido de Satã... Você o conheceu e até me cedeu uma entrevista sobre ele... Penso em escrever sobre o Satã porque, além dele ter sido meu amigo, a trajetória dele muito me intriga e mexe pra caramba comigo...

8) O Brasil passa por um momento ruim, com ameaça de perdas significativas em vários campos. Como um pensador pode contribuir para atenuar esse desmonte do país?
Xiii... A coisa tá braba, hein, caro amigo? A atual conjuntura não está nem tranquila e nem favorável pro nosso lado... Tenho militado por muitas causas, uma delas é pelo ensino público de qualidade, por exemplo... No ano passado mesmo, 2015, enfrentamos uma greve intensa, tive até que repor aulas aos sábados, para não deixar o governador fechar salas de aula... Como professor, vejo de perto o descaso com a educação pública, mas amigos de áreas importantes como a minha partilham dramas semelhantes e receiam, ao meu lado, perder as grandes conquistas que tivemos... Há pouco tempo estávamos comemorando as oportunidades que as camadas mais pobres estavam tendo, com o acesso a universidade e melhoras de condições de vida, leis diversas a favor do trabalhador e do cidadão foram criadas e trouxeram, realmente, um processo de melhora significativa. Porém, estamos vendo as coisas retrocederem e o pobre está sendo puxado pra trás para voltar a ser subalterno. Receamos perder a liberdade de expressão e voltarmos aos tempos em que baixávamos a cabeça pra classe dominante. Temos que estar unidos e fundamentar bem nossos argumentos, pois eles virão com força coerciva pra cima de nós. Eu consigo entendê-los, Escobar. É que antes, a classe dominadora, podia fazer o que queria conosco.  Eles nos coagiam. Éramos subalternos, empregadinhos que aceitavam os maus tratos para poder existir, comer e se vestir. Pagavam-nos pouco e exigiam muito. Batiam em mulheres, suprimiam empregadas domésticas, podiam nos tratar com preconceito, matar-nos cruelmente e tudo ficava bem para eles. É só pegar as letras antigas dos Racionais MC´s – em “Raio X do Brasil”, por exemplo, eles falavam exatamente sobre isso. A verdade é que o governo Lula nos deu direitos, conseguimos ter voz, passamos a questionar, processar, ir à luta. E a elite ficou oprimida pela nossa grandiosa liberdade conquistada. Sofrem da “Metáfora de Faraó”, não querem deixar o povo ir, mesmo com todas as pragas lançadas sobre o maldito império escravagista. Aquele fime, estrelado pela Regina Casé, “A que horas ela volta”, retrata perfeitamente o que estou querendo dizer aqui. Enfim, fiquemos atentos, caro amigo, e vamos lutar juntos pelo Brasil e, sobretudo, por um mundo mais humano e menos cruel. Visemos sempre a igualdade entre todos.

9) Como professor, como você vê a educação no Brasil, a de hoje e a do futuro?
Escobar, caro amigo, acho que a educação precisa urgentemente desfazer-se do tradicionalismo que ainda insiste em imperar em sala de aula, com propostas demagógicas, ainda com uma gramática tradicional e pouco uso da linguística, falta de incentivo cultural e debates conscientes através de projetos que dialoguem de fato com a realidade dos alunos que estão desmotivados, segurando os celulares o tempo todo... Estive conversando com o professor Ronaldo José que é também autor de uma obra intitulada "Escola Pública - Não há milagres nem mágicas", e, na ocasião, discutimos sobre os caminhos que o sistema burocrático não quer que o aluno percorra. Nas escolas estaduais, as bibliotecas viraram verdadeiros almoxarifados, um lugar desinteressante, empoeirado, e, quase sempre, um professor doente, readaptado, que odeia ler, vai parar lá. Aí pronto, né?: um coveiro num cemitério de autores... Acho que os saraus, as rodas de conversas, bate papos, simpósios e palestras podem revitalizar o ambiente escolar... O aluno não pode viver encarcerado entre quatro paredes o tempo todo... Também, a permissividade excessiva, com os alunos tendo mais direitos do que deveres a cumprir, não sofrendo as sansões éticas para que impere o respeito e a boa convivência potencializa os conflitos escolares... Não há segurança e nem paz... Falta muita coletividade... A escola precisa se reinventar... Temos que todos fazermos partes deste ambiente e cuidar pra que ele dê certo... O caso é que o medo e o descaso estão de mãos dadas... O fatalismo e o desprezo tomam conta... Os bairros devem acordar pra causa... A comunidade não pode deixar somente que o governo dite as regras, ela deve ocupar o espaço de forma consciente e criar maneiras de educar diferentes das propostas engessantes da secretaria... Não há uma vontade dos poderes superiores que a periferia ganhe patamares de conhecimento... Não é de hoje que sabemos que existe um sistema desinteressado na educação das pessoas... Huxley e Orwell já nos avisaram sobre isso...

10) Alguma pergunta que não fiz e gostaria de ter sido apontada. Se quiser, faça-a e, a seguir, responda! Obrigado. Abraçaços!
Acho que seria legal falar um pouco sobre o meu livro recentemente lançado: Virtuose... É uma obra que não é somente um romance, mas também um simpósio textual que discute a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 171/93 que visa reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. O romance apresenta um grupo de personagens que vivem sob diversos julgamentos; é uma obra sobre a intolerância, o desprezo, a arrogância, a falta de oportunidades e toda uma gama de fatores que não contribuem para ajudar o ser humano a tornar-se cidadão de fato. Há um sistema despreocupado com o bem estar de cada um. Os personagens tentam buscar suas próprias saídas e nem sempre estas são aquelas que dizem serem as certas. O livro toca em feridas e traz um debate. Convidei vários camaradas pra fazer parte de um simpósio. Cada um trouxe um texto curto. Contei com as presenças marcantes de Germano Gonçalves, Marcio Costa, Walter Limonada (que participou com uma ilustração), rapper e capista Pedro Sobrinho (grupo KMT) – que fez a capa e trouxe frases pra obra; Daniel Lopez (introduziu a obra), Tubarão Santos, Mano Cákis, Daniel GTR, William Cezar, Rafael Arms, professor Ronaldo José, enfim, foi uma maneira de expor um repúdio coletivo aos que querem punir e não educar os sujeitos, desvelando os verdadeiros intentos dos hipócritas que desejam que a lei seja aprovada... É isto... Quero agradecer a oportunidade, caro Escobar. Obrigado por dar-me voz e ajudar-me a partilhar e propagar meus sonhos por aí afora... Valeu mesmo... Abraços!!!

Foto: arquivo Fb - Alba Atróz


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