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9.6.17

Entrevista: Rosinha Morais (Literatura) - Guarulhos, SP

Rosinha Morais clicada por Liz Rabello


Rosinha Morais, formada em Administração e Letras, é uma poeta muito singular. Com olhar rascante sobre o cotidiano e a pele sensível ao toque da poesia das coisas, seres e pessoas, ela se desdobra em vários afazeres e leituras. Participa ativamente de diversas atividades culturais e artísticas, seja atuando no Sarau da Casa Amarela (São Miguel), ou produzindo junto com o pessoal do canal Peixe Barrrigudo (Guarulhos) ou a turma 'audiovisueira' do Lentes Periféricas (Guaianases). Também pode ser encontrada organizando o Slam do Prego, na mesma Guarulhos onde reside. 
Mas falar dessas atividades é ainda assim limitar o muito que essa mulher apronta por aí, pois tem muito mais. O que não lhe falta é disposição (e inspiração) para o trabalho com as coisas que gosta. E nossa impávida certeza de que, onde quer esteja, sua performance sempre será notada, pela capacidade 'midástica' que ela tem de transformar tudo em ouro.
Nesse depoimento, concedido via e-mail, a escritora faz uma profunda leitura interior, recordando imagens da infância até projetar-se ao presente. 
Lê-la é uma dádiva. Faça isso por si.



Rosinah Morais clicada por Idevanir Aracanjo


1) Conte um pouco de sua infância e juventude:

Minha infância foi bem agitada, nasci em casa, pelas mãos de uma parteira, não por moda ou opção, mas por pura necessidade. Sou de Planaltino, uma cidade no interior da Bahia, hoje uma cidade pequena, naquela época, minúscula. Contávamos com uma enfermeira e a parteira, que era a grande mãe da região, já que todos que nasceram com a ajuda dela a chamava de mãe. Sou a sétima e última filha, de uma sequência de mulheres. Por esse motivo, sou afilhada da minha irmã mais velha, atendendo a lenda segundo a qual, o sétimo filho sequencial, do mesmo sexo, deve ser batizado por seu irmão ou irmã mais velha. Tenho ainda um irmão, o primogênito. Três dias depois do meu nascimento, fui morar com a minha irmã mais velha e nossa tia, na mesma rua que meus pais moravam. Nunca questionei o porquê. Era assim e pronto. A casa da minha tia vivia sempre cheia por se tratar da única pensão da cidade. Cresci experimentando todas as brincadeiras, sem distinção de gênero, por isso algumas vezes era chamada de “macho e fêmea” (rs). Quanto mais perigosa a brincadeira, mais interessante era. Perdi meu pai aos seis anos e não sei ou lembro exatamente o que eu senti. Minha família é grande, minhas irmãs começaram a trabalhar muito cedo, mas comigo foi diferente. Ao invés de trabalho eu recebi a escola, era a minha única obrigação e eu adorava, sempre gostei de estudar. Logo descobri os livros e o encanto se completou. 
Na adolescência, comecei a me espelhar em minhas irmãs que moravam fora e fui construindo meus gostos, principalmente o musical. Era uma festa quando elas chegavam em casa trazendo em suas malas os novos LP. Me apaixonei por Chico Buarque e sonhava casar com ele, mas também fui fã do Menudo e queria me casar com o Charlie. Tinha todos os planos, incluindo o desenho da nossa casa e do meu vestido de noiva. A escola continuava sendo o meu paraíso e nos intervalos eu participei de alguns desfiles de miss. As brincadeiras perigosas que tanto me encantavam na infância, mantiveram seu encantamento, mas eu não percebia mais o perigo. Aos dezesseis anos fugi de casa e fui morar com um namorado. Foi um período de extremos, felicidade imensurável e solidão desesperadora. Provei o medo, a tristeza, a insignificância. Ah, foi na adolescência que eu senti, profundamente, a dor da perda do meu pai. Mas eu já era adulta demais.

2) Como foi essa descoberta do mundo de sonhos ofertada pelos livros?

Descobri que o mundo era bem mais amplo do que aquele em que eu vivia ou que imaginava existir, foi extremamente gratificante. Lembro de ter lido muitos romances, acho que todas as “Júlias”, “Sabrinas”, “Biancas” e afins, que eram mais fáceis de encontrar. Mais tarde, chegou em minha cidade a professora Inês, de português. O colégio acabara de ser inaugurado, até então o ensino lá era apenas o fundamental, na época até a 4ª série. Quem quisesse continuar os estudos, fazia nas cidades vizinhas. Fui da primeira turma que fez o ginásio e o colégio na cidade. Bom, a professora Inês chegou na cidade e trouxe a sua biblioteca particular, que apesar de não ser grande, trazia grandes novidades e, sabedora do meu gosto pela leitura, me permitiu livre acesso aos seus livros (meus tesouros). Ali conheci um pouco mais de poesia, contos, romances... conheci o Shogun, do James Clavell e o li em uma semana. A partir daí, a paixão pela literatura e pelo mundo que ela podia me ofertar cresceu ainda mais, multiplicando os sonhos e descortinando esse mundo novo.

3) Você respondeu que a "escola era seu paraíso" naquele período adolescente. Hoje mudou ou é o senso-comum que nos dá a impressão de que a escola não exerce mais o mesmo fascínio?

Não acredito que tenha mudado. Se você pegar um adolescente de uma pequena cidade do interior ou de seus distritos, que são ainda menores, a escola é um paraíso, é sair do lugar comum, é uma realização. Claro que a educação hoje tem "n" problemas. Acredito que a velocidade da informação tornou tudo mais urgente e isso requer uma reestruturação na educação, mas é algo a ser discutido com todos os envolvidos, não uma decisão de alguns políticos que não estão nos ambientes escolares, não conhece a realidade dos alunos e suas necessidades. Hoje, para recuperar esse fascínio, precisamos de uma amplitude maior, de repensar os conceitos educacionais e de abrir as portas para o novo.

4) O que você gosta de ler?

Está aí uma pergunta simples para uma resposta muito complicada. rs
No começo eu lia de tudo, tudo mesmo. Recentemente eu concluí a faculdade de Letras e conheci novos “velhos” escritores, tanto nacionais quanto estrangeiros, além de teóricos que despertaram a minha curiosidade. No momento eu estou realizando esse tipo de leitura clássicos (ainda que tenha uma certa curiosidade do que é realmente um clássico) e teoria e crítica literária, mais a poesia. Em ambos os casos, prosa e poesia, eu venho intercalando com os novos escritores, com os quais me deparo em meu caminhar pelos saraus e feiras literárias, onde encontramos agradáveis surpresas. Aliás, aconselho a todos darem essa chance, não apenas para o autor, mas para si mesmo: não temer, mas sim, desvendar o novo. Além do mais, há sempre aquelas indicações dos amigos.


"A internet nos proporciona resenhas, dicas e pequenos textos que despertam a curiosidade do leitor, além de proporcionar um preço mais competitivo em relação ao mercado livreiro."


5) Como você vê a literatura hoje e os seus desdobramentos, como internet, redes sociais, e-books?

Como leitora, eu ainda sou meio tradicionalista, prefiro ter o livro em mãos, gosto do toque, do cheiro, do contato direto, embora não me furte a algumas leituras onlines, por aplicativos e até tenho um e-reader. 
Como escritora, eu utilizo as redes sociais para divulgar o meu trabalho, sempre posto alguns trechos de contos e poesias.
Acredito que para a literatura, a introdução destas novas plataformas contribuiu e muito, além de disponibilizar inúmeros títulos, que muitas vezes já estão esgotados ou difícil de conseguir. A internet nos proporciona resenhas, dicas e pequenos textos que despertam a curiosidade do leitor, além de proporcionar um preço mais competitivo em relação ao mercado livreiro.


Rosinha Morais clicada por Akira Yamasaki


6) Como você imagina o futuro da literatura a partir do advento das novas tecnologias e novas possibilidades de interação entre quem escreve e o público leitor?

Imagino um futuro promissor, mas também me preocupo quanto à qualidade dessa literatura e o relacionamento leitores/escritores. Voltando o olhar para a formação dos novos leitores e escritores, devemos nos questionar, como educadores, se estamos preparando, ou melhor, capacitando a nova geração para assumir esse painel literário, tão amplamente divulgado e acessível e até onde essa relação pode chegar, pressupondo que o conceito do Bauman, de que tendemos a uma sociedade líquida, se defina como real.

7) Já pensou na possibilidade de ter escritos seus publicados?

Algumas vezes. rs Acho que quem escreve sempre pensa em publicar, quer dizer, acaba em algum momento, pensando na possibilidade. Venho evoluindo como escritora, tanto de verso quanto de prosa e tenho incentivo de alguns amigos e família para publicar, mas ainda não corri atrás. O (Antônio) Miotto (nota: poeta, educador, militante cultural e cicloativista), vive me falando sobre as possibilidades de publicação, ele leva muito a sério essa história e conversamos sobre o assunto. Por outro lado, sou muito autocrítica e como boa libriana, com ascendente em libra (rs), vivo em dúvida sobre a qualidade do que escrevo, classificando em ruim o que antes achava bom e vice-versa. 

8) O que a motiva? Como você se move?

Parece meio clichê, mas a vida me move, tudo à minha volta, a amizade, o amor, o ódio, a angústia, a natureza. Gosto desse movimento, dessa roda gigante que enquanto gira nos move, ora estamos no alto, ora em baixo. Meus motivos são cotidianos, são aqueles motivos que causam raiva, decepção, indignação e outros (rs), que causam alegria, paixão, esperança, paz.


9) Fecha os olhos e imagine como será o mundo em 2042 (25 anos). Como e onde você se vê. E a literatura?

Engraçado essa pergunta, porque sempre tive a impressão de que viveria até os 50, isso vai muito além. O mundo eu acredito que esteja, enfim, desenvolvido. Hoje vemos o empoderamento de etnias, classes e gêneros, quando soubermos lidar com a radicalização, a conscientização será completa e isso é o que precisamos para chegar a uma sociedade ideal (embora o ideal seja muito relativo, talvez, cheguemos a um consenso).
Quanto à minha visão de como e onde estarei, é difícil definir um estado e posição, espero que esteja nesse mundo que idealizo, bem e cercada de amigos, embora ainda sonhe com uma cabana, um riacho e muito verde, com as comodidades e a loucura necessária.
Em relação à literatura, realmente acredito em um avanço, mas é preciso aprender a lidar com ela, respeitá-la, ser paciente. Acho que só a paciência trará a qualidade que desejamos, temos leitores ávidos demais e autores desesperados por se lançar, deixando de lado a visão crítica e autocrítica.

10) Tem alguma questão que você gostaria que eu tivesse abordado. Se sim, por favor faça-a e a seguir responda. Obrigado!

Acho que todas as questões foram abordadas. Tem uma questão que me intriga: quando e porque eu comecei a escrever poesia. É uma questão que eu não sei responder, mas tenho a impressão que sempre escrevi quando precisava desabafar. Converso melhor com o caderno/computador/celular do que comigo mesma, mesmo achando que nossos melhores confidentes estão dentro de nós.
No mais, quero agradecer essa troca, esse aprofundamento no meu eu, essa descoberta que você me proporcionou e dizer que foi delicioso esse bate papo.
Obrigada!

Rosinha Morais clicada por Luka Magalhães



Poemas de Rosinha Morais

As vezes habito em mim
Este estranho habitat
Onde me sinto estrangeira
As vezes parto de mim
Numa viagem estelar
Curiosa passageira
As vezes morro em mim
Em um triste abandonar
Recolhida bandeira

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.
Estou triste,
Numa tristeza 
Só minha,
A alegria
Ronda minha alma,
Mas não se avizinha.
Estou triste
Numa tristeza
Resoluta,
Sentindo o cansaço
De toda essa labuta.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.
Japa, meu compadre
Que cantos entoam
Os teus bentivis 
Quando visitam
A periferia de ti?
Japa, meu irmão 
Que grito ecoa
Da tua garganta
Quando tudo indica
Não haver salvação?
Japa, meu amigo
Quando nos teus pés 
Brotam espinhos
É possível
Mudar os caminhos?

(para Akira Yamasaki)


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