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2.1.26

Um textículo: "renovação"

                                                                                                                                              aproveita

é ano novo e todos estão comemorando

alguma coisa

que não compreendo

me convida para sair contigo

e ir para algum lugar nem tão distante

mas não tão perto assim

e juntos poderemos viver alguns momentos

de uma paz irreal ou uma guerra delicada

aproveita e entrelace meus cinco dedos suados

aos seus

toque esse peito cheio de música

tire um som de minha voz

aproveite

arranque a máscara como quem tenta

me esconder

e dê sua mão à minha, negligente

e nem tente disfarçar a carícia que quer fazer

e eu finjo não perceber

esboce essa monalisa, sua arquitetura perfeita

enfastiada

e pegue o copo, beba mais um gole,

só para preencher o tempo e o gesto bobo que

iniciou e não sabe como acabar

aproveite o ano novo

e renove o que quiser

que até não fazer nada novo

em nossa relação

pode ser uma inovação da gente




1.1.26

Um textículo: "ano-novo"

o que será o novo ano?
é novo?
ou um enigma linguístico?
novo enquanto envelhecemos?
enquanto repetimos as mesmas mentiras
prometidas ao velho ano-novo
este que está terminando?
o que será ano? esse acúmulo de meses, dias
horas, minutos, segundos e outros espaços
que ocupamos no vácuo do tempo?

às vezes fico olhando as pálpebras esgarçadas
desse tempo (aliás, o que é tempo?)
será que o ano de astronautas é igual ao de poetas?
será que o novo para um bebê
é diferente do do vovô caduco?
o  ouro de um ourives tem o mesmo valor do de um ladrão?
cientistas seriam cientistas se errassem menos?
um ano novo é igual a um novo ano?

nesse momento olho o relógio parado na parede
sem ele, o novo virá?
o velho irá?
o relógio, essa engrenagem feita de
vidro opaco, ferro oxidado
plástico mumificado
poeira anestésica
esse relógio me encara e desdenha:
a vida, meu caro, pulsa
com ou sem sua sábia filosofia.
recria, escobar: tudo que não é
pode ser que vire poesia.
e então o espetáculo de fogos artificiais
inaugura o céu




28.12.25

Micrônicas - "Livros lidos em 2025"

Nesses quase 60 anos de vida, um dado que nunca contabilizei foi contar quantos livros li num determinado período ou ano, exercício que me parece hedonista e contraditório, pois o quantitativo sempre rivaliza com o qualitativo. Ao mesmo tempo,  lembro de um ano (2014 ou 15), que li A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e a biografia do Freud, de Peter Gay, duas obras bem parrudas, portanto, demoradas de dar cabo, que me tomaram quase todos os 365 dias daquele período.
Da última vez que me impus à releitura completa da Bíblia (acho que em 2011), atravessei um ano inteiro e mais alguns meses nessa empreitada. Isso, naturalmente, diminuiu outras leituras, a menos que consideremos que a "sagrada escritura" seja interpretada com seus 66 livros independentes um do outro e então poderei dizer que, numericamente, foi a época que li mais livros. Minto: a primeira leitura bíblica completa foi por volta dos 16 anos e bem mais rápida (sei disso pois estava fazendo um curso de teologia por correspondência - que hoje corresponderia a EAD - e toda a leitura e bem menos de um ano, talvez uns 8 meses).  Aqui cabe um complemento, creio: minha base de leitura sempre foi a Bíblia protestante (acabei de pensar que talvez seja bacana colocar como meta fazer uma leitura da católica como comparativa. Quem sabe?).
Por último, nos anos em que estou preparando um livro novo, naturalmente tenho a minha atenção concentrada nessa tarefa, o que implica menos leituras de outros textos.
Bem, sem mais elucubrações, vamos aos fatos. No fim de 2024, porém, depois de ouvir vários amigos comentando sobre essa prática (quase) olímpica, decidi anotar o que estava lendo ou iniciando a leitura. O que não contava, contudo, era que logo em janeiro viria o diagnóstico de câncer, as três internações em sequência e suas cirurgias e as mudanças drásticas de rotina em decorrência do ineditismo da situação. Mesmo assim segui anotando cada livro finalizado até agora e - surpresa! - descobri que li menos livros do que tinha projetado, apesar dos períodos de internação que supostamente me levaram a ler mais. Talvez o motivo disso seja que nos períodos de recuperação em casa tenha me dedicada a assistir mais filmes e maratonar séries nas plataformas, o que implicou menos tempo de leitura. Verdade seja admitida e dita aqui, passei por longos hiatos, principalmente nos primeiros dias pós-cirúrgicos, sem nenhuma vontade de ler. Lembro que nesses dias o pouco de fruição vinha da música, basicamente jazz, Wagner e música brasileira. O restante do tempo era de muitas elucubrações e poemas "escritos" com o pensamento. Nem preciso dizer que tudo isso se perdeu como fumaça, né?
E agora, a lista. Na virada do ano passado estava lendo O Vermelho e o Negro (Sthendal) e Tchevengur (Platonov). Finalizei ambos em janeiro ainda. Depois vieram Poemas (Mao Tse-Tung), Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu), Fim (Fernanda Torres, numa feliz coincidência com o empréstimo  de uma prima minha e o período em que ela já estava concorrendo ao Oscar que, de fato, ganhou), Haicaixambu (Maciel Machado), Meu Sonho É Escrever (Carolina Maria de Jesus), O Enterro do Lobo Branco e A Casa das Aranhas (ambos de Márcia Barbieri), Testamento de João Rims (Alba Atróz), As Portas da Percepção (Aldous Huxley), A Paixão Segundo GH (Clarice Lispector), A Sibila (Agustina Bessa-Luís), O Livro da Literatura (James Canton, org.), Os Pássaros Agora Estão Dormindo (Celso de Alencar),  Oré - Antologia Poética, Dança das Samambaias e O Corpo Sabe Que É Terça, Mas Se Distrai (ambos de Girlene Verly) e Oração Para Desaparecer (Socorro Acioly). Estou iniciando hoje as leituras de Jardim Quitaúna (Rodrigo Carneiro) e Relato da Vida de Frederick Douglass (do mesmo).
Fica este registro e, por ora, apenas a certeza de que é pouco provável que eu faça outra dessa no futuro. Listinhas têm lá o seu apelo, mas... bem, fiquemos nesse "mas" para não parecer mais pedante do que de fato assumidamente sou, ou ao menos pareça, mesmo que lute encarniçadamente contra.

 


 

27.12.25

haiquase 157

 sol destampado no céu
recomendação: vários banhos ao dia
chuveiro praia cachoeira piscina língua

 


 

25.12.25

9.12.25

Um textículo: "edifício escrever"

 fico observando o poeta
na portaria do prédio.
a flor cai sobre a lança.
ele a observa, e súbito
dá um salto na guarita, afasta a cadeira
pega a caneta e rasga-se todo
a rascunhar versos que não vêm.
o poema, lá fora, rasgou-se em dois
na lágrima fria da chuva fina.
repousa no bueiro e no canto do calçamento.
fragmentou-se, não existe mais.
nunca existiu
.

 


 

8.12.25

haiquase 154

 poesia é flor
que brota tudo na gente
o verso, a semente

 

Mosaico em pastilha vidrificada, Tomie Ohtake, IEB_USP, 1994)